COMO ENTENDER A PAIXÃO SEM A CRUZ?


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Neste Domingo de Ramos abre-se a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. A morte do Messias de Deus nos lembrará um Jesus paradoxal, ao mesmo tempo em que a Igreja ainda não seduzida e cooptada, quase tende a absolver Pilatos, símbolo dos que “cumprem o dever político” à risca, isentando-se, em seu julgamento, da prática da verdadeira justiça. Assim, Pilatos entra no Credo como quem não toma partido, aparentemente, mas serve à justiça dos homens. O Messias de Israel morre a morte dos mártires da justiça e da paz, enquanto os crentes do povo oscilavam no reconhecimento do “Deus fraco”, que não promove a redenção de seu povo por meio de sinais portentosos, ou milagres libertários individuais, emocionais ou psicológicos.

Jesus não ensinava sobre uma “vida santificada” ou apelava para um “reavivamento” espiritual das pessoas, para salvarem-se a si mesmas do mundo impiedoso. Morre de um jeito não previsto, até ignóbil, enquanto sua vida é trocada pelo livramento de um ladrão de estradas. Assusta a identificação de Barrabás com crentes em busca de livramento, de “avivamento”, hoje, às custas de um Cristo crucificado “pro me”, e na compreensão equivocada de que Jesus substitui-os na cruz, aplacando a ira de Deus por pecados individuais dos homens, e que o sofrimento do Cristo de Deus pelo mundo cessou! Que cruz, que Cristo e que mundo nos motiva? Alguém quer a cruz dos mártires, ou quer livrar-se dela? Deus não sofre mais, por nós, por causa das estruturas injustas e as opressões que nos fazem sofrer?


Jürgen Moltman escreve sobre o caminho messiânico da vida (na verdade um caminho de cruz…): “Teria Jesus ensinado uma nova ética? Existe uma ética cristã específica? Faz parte da fé em Cristo uma nova prática de vida? Pode-se, afinal, reconhecer Cristo sem o seguir? E a questão cristológica permanece sem solução, uma vez que a resposta religiosa agrada à maioria. Pronunciar o nome de Cristo torna-se uma banalidade recorrente, nos sermões e nas cátedras. Mas a teologia do sofrimento pelo martírio não se dá dessa maneira. O abandono de noções superiores para a solução de problemas sociais e políticos; não-envolvimento com questões de direitos humanos e cidadania, como parte da concepção religiosa sempre presente, denuncia o tipo de cristianismo preferível pelas multidões, sob manipulação constante.

Um cristianismo anestesiado, sem dor, sem indignação, sem cruz, pragmático e sob oferta constante de resultados materiais, emocionais, imediatos. Nesse caso, a mensagem de Jesus, sob sofrimento e martírio na cruz, passa a ser indesejável, deve ser esquecida, pois o que se deseja é a satisfação e a felicidade pessoal. A multidão quer um milagreiro, um mágico, um prestidigitador, um médico de almas, um comportamentalista, um acomodador conformista, para a felicidade neste mundo.


Interessante, “… ninguém segue a Cristo a não ser que o siga na vida”, disse Hans Denk.  Por que não está interessando mais aos neo-evangélicos essa proposta pietista original? O Messias, porém, é um personagem público, na Bíblia, volta-se para uma sociedade em sua totalidade, com seus problemas religiosos, políticos e econômicos indissociáveis. Não uma figura religiosa, um símbolo estático, como imagem mental representativa de um deus distante a quem se adoraria por dever de santificação. Negação do Deus de Israel, Deus de Jesus e dos apóstolos, que reclama justiça antes que sacrifícios cultuais, velas, incenso e adoração interesseira. A Torah messiânica no tempo messiânico vale para o povo todo.  E esse povo representa transformação para todos os povos da terra, no aplicar da justiça de Deus. 

 
É bom refletir um pouco… O exemplo clássico diz que Deus “consente” o sofrimento no mundo e não fala sobre sua origem. Os Escritos Sagrados, no entanto, no geral, dizem sobre as escolhas humanas. Somos nós, homens e mulheres, que “inventamos” e produzimos o mal e o sofrimento. Temos responsabilidades no cartório, no mínimo por conivência ou apatia. Pior ainda, se atribuímos a poderes terceiros, diabos, demônios, espíritos, forças do mal, escolhas que na verdade são nossas. Não nos redime. Não explicam nada da nossa realidade. Ao contrário, transferem nossa necessidade de decisão sobre o que nos oprime e faz sofrer. A superstição faz sofrer. 


A presença do sofrimento é uma constante, com o açoite na consciência que intensifica a dor moral: “É o pão que nunca falta à mesa… Onde estiver o homem, ali estará, como uma sombra, o sofrimento” (Larrañaga). Mas, longe de aceitá-lo com naturalidade, entendemos que o sofrimento é inimigo, escândalo atentatório à condição humana, adversário do anseio de liberdade dos homens e das mulheres. Conseqüentemente, o sofrimento força o cristão a uma dupla tarefa: enfrentar sua crueza imediata e, além disso, se convertido em angustiante problema humano, racionalizá-lo em busca de explicação.
 Finalmente, o sofrimento exige decisão. Qualquer que seja o modo possível, é preciso buscar a superação de tudo que o representa.

A inteligência da fé é chamada ao palco da tragédia humana com o crisol do Evangelho da Graça que ajuda a sanar as dores e sofrimentos humanos. Mais uma vez, a responsabilidade é nossa. Jesus Cristo, Deus Solidário, esvaziado de poderes sobrenaturais, identificando-se com a nossa luta, percorre conosco o caminho do sofrimento. Até que venha “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21): o Reino de Deus. A salvação do mundo sem sofrimento, sem cruz, não é uma mensagem evangélica. A fé cristã não é uma propaganda do “mercado da felicidade”, mas a denúncia dos significados dessa propaganda. 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a COMO ENTENDER A PAIXÃO SEM A CRUZ?

  1. Lysias junior diz:

    Derval, meu prezado, graça e paz.
    Muito bela mensagem.
    Estarei copiando-a e reproduzindo-a e distribuindo-a a amigos e aos irmãos e irmãs da 2a. IPU de Vitória, onde agora sou pastor auxiliar. Na outra não tinha a liberdade de distribuir sua literatura, como terei aqui agora. Sinto-me bem assim. A burguesia (…). Fique na paz. O amigo e irmão de sempre, Lysias Jr

  2. Anónimo diz:

    Obrigado. Gostaria de ter-lhe ajudado em
    tempo, sobre o que o cercava. Não foi possível.
    Não posso lhe negar minha amizade e apoio. Sempre
    que puder, fale comigo.
    Derval

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