NEM VIDA ETERNA, NEM RESSURREIÇÃO…


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NEM VIDA ETERNA, NEM RESSURREIÇÃO…
[João 11,25-45 – Disse Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida]

A desumanização do ser-humano tem muitas faces. Entre elas, o ambiente frio e artificial das cidades modernas, as novas formas de apartheid social atormentam o mundo globalizado – sugere G.Brakemeier, luterano, brasileiro, bem conhecido. Entre esses tormentos, novas expressões de morte, (social, cultural, política, religiosa), se apresentam no cenário: a pessoa teleguiada (Tv), aliciada, cooptada, bigbrotherizada. E não se trata de pessoa convencida, persuadida por uma idéia alcançada pelo espírito humano em plena liberdade de pensar e de escolher. A morte da alma e do espírito é algo que podemos encontrar na reflexão do apóstolo Paulo na carta aos cristãos da Galáxia (uma carta dirigida a gente bem humana, e não do espaço interestelar, apesar do nome sugestivo), sobre a liberdade da fé: Foi para gozarmos desta liberdade que Cristo nos libertou; permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão (Gl 5,1).

Observadores estão apontando, inclusive, que os movimentos religiosos recentes, evangélicos, no Brasil, não têm uma mensagem sobre a Ressurreição. Ao mesmo tempo, nem se interessam pela Eternidade. Mais. Não se interessam pela Bíblia! Cultos inteiros são realizados sem que as Escrituras sejam mencionadas. Prestar atenção: somos tratados como malucos necessitados de uma camisa de força, porque “conservamos” o que recebemos para o bem da fé, enquanto nos querem impor uniformes ideológicos-religiosos pós-modernos: prosperidade, cura, vitória física e econômica como sinais da vida consagrada a Deus, sem esses valores teológicos. Por exemplo. Ou noutros termos, vitórias obtidas através de intermediários  e suborno religioso. Modernas indulgências.

Por que os novos evangélicos “não podem falar” da morte?  Porque esta seria a negação de sua teologia da prosperidade material, do corpo e da alma, quando a essência dessa pregação está na cura da enfermidade, porém individualmente, mas não do mal que é pobreza social. Esse tema precisa ser evitado. O tripé cura, exorcismo, prosperidade, cairia se houvesse qualquer cuidado sobre aspectos da doença e da morte de todos nós (Thiago Mello: “Minha morte me pertence…”). O crente evangélico neopentecostal não pode ter um corpo que adoece; um corpo que seja vulnerável às doenças endêmicas, ou às doenças genéticas, ou contraídas por contaminação, ou pela exposição a fatores comuns nos nossos dias, notadamente na vida urbana (drogadismo, alcoolismo, sexaholismo, por exemplo), caso contrário nega a fé materialista evangélica recente. Há grande aceitação, dessa materialidade e desse imediatismo, mesmo nas igrejas protestantes históricas, hoje em dia.

Paulo Ayres, bispo metodista, estuda também a teologia sacrificial do dinheiro no altar. Dinheiro para Deus, sacrifício no altar (?!)… O jeito encontrado para provocar Deus a intervir no tempo e no espaço físico do crente. Algo que adapta o conceito de santificação do pietismo tradicional, que procurava resolver esse tipo de problema através da “vida consagrada”, para confirmar-se a salvação. Tema também inevitável, porque ser “pobre” é ser fracassado. Derrotado. Não-salvo. Além disso, o pobre não contribui, e se não contribui não serve pra nada. Pragmatismo neo-evangélico! Em síntese, esse crente “não pode adoecer ou morrer”, a não ser que alguma coisa esteja faltando, porque não foi exorcizado, ou porque não fez a sua parte no “pacto da prosperidade”. Não foi salvo! Uma falha no sistema, porque o deus desses crentes é o “Deus da vitória!”. Logo, não precisa pensar em ressurreição. Impressiona a ausência de cerimônias fúnebres para os crentes ou seus familiares, nessas igrejas, os quais são sepultados sem a presença de um ministro religioso para conforto dos que ficam, dando-lhes segurança quanto às promessas bíblicas sobre a eternidade da vida, e a ressurreição dos mortos – que, seguramente, são as principais doutrinas cristãs desde os tempos apostólicos (Jo 11,25-26).

É inconcebível a presença dos “demônios” da doença e da morte, nesse meio (Leonildo Campos, palestra no Congresso de Missões, Conic, novembro de 2007).O evangelho da ressurreição de Lázaro que lemos hoje, compromete-se  com a vida ultrajada, com os inocentes martirizados, com os pobres do mundo, desprezados, humilhados, principalmente na velhice, escorraçados, abandonados à miséria, desassistidos até a morte. (Enquanto este autor redigia seu comentário, a televisão anunciava o aposentado que morria durante a madrugada numa fila do INSS). Eles são a imagem não só do pobre Lázaro, mas de Jesus morto na cruz, na espera que o Pai o desperte e o chame para a vida eterna, ou vida abundante, que é a mesma coisa em João!

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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