ENCURRALADOS NO TEMPO FINITO


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No 4o.Domingo da Quaresma, o profeta Samuel é o mediador da escolha divina de Davi, cujo sinal visível nos é familiar: a unção com o óleo derramado sobre a cabeça, unção que consagra a pessoa para um ministério ou vocação especiais. O curioso da leitura é que nos revela algo do olhar de Deus: Ele não se fixa nas aparências, diz o texto, como nós. Deus vê o fundo da alma e até as profundezas do coração. Conhece as intenções mais secretas, os sinais externos de grandeza não o enganam, nem os aspectos físicos, beleza ou feiúra, saúde ou enfermidade, normalidade ou deficiência. Máscaras aparentes e cotidianas com as quais nos apresentamos. Neste caso Deus não escolhe o mais velho dos filhos de Jessé, nem a nenhum outro dos sete irmãos. Deus se fixa no menor, no mais jovem, que nem sequer fora chamado à reunião e estava cuidando das ovelhas. Sendo tão jovem, tão pequeno e frágil, não seria escolhido por Deus, pensavam.  Mas Deus escolhe por puro amor, sem mérito algum de nossa parte, sem que importem aparência ou qualidades de quaisquer tipos. Conhecendo nossas enfermidades, deficiências, fraquezas, limitações, Deus se dignou chamar-nos à sua graça e seu amor.

O salmo, harmonizado com o primeiro texto (Sm 16,1b.6-7.10,13a /Sl 23), nos ajudará a compreender nossas contradições. Somos ao mesmo tempo o velho e o novo Adão. Sempre comparecemos na vida como sapiens e demens, sábios e dementes, orientados e desorientados, inevitavelmente. Confiantes e desesperados, inclusive, tantas vezes. Poucas vezes somos generosos, compassivos, ternos e cuidadosos com o outro e a outra. Na maior parte do nosso tempo, somos seres egoístas que se justificam com direito de disputar seu espaço a qualquer custo, uma questão de direito à sobrevivência.  É assim que estamos diante de Deus, vivendo em altos e baixos.  Abismos e picos agudos, como se hoje chama o lugar onde nasci (Pontões). São a nossa geografia espiritual. Tudo isso está em nós. Por isso devemos enfatizar a importância da oração que brota das essências profundas do nosso ser. Pela oração choramos, lamentamos, expomos os tormentos que nos tomam, gritamos por socorro desde o interior da alma, mas também agradecemos, reverenciamos e nos entregamos por inteiro ao mistério que nos socorre.  Até porque não nos restaria outra coisa a fazer.

Na oração todos os homens e mulheres se encontram, sejam de que religiões forem. Diante de Deus estamos cara a cara com o mistério, algo que ninguém tem capacidade de expressar.  E aí somos iguais, e procuramos um caminho libertador. Porque a oração ilumina nossos dramas, e demarca o sentido que precisamos dar às nossas vidas. Não há maior liberdade, mesmo quando devorados por ansiedades e queimados pelo fogo da reflexão sempre dolorosa sobre a condição humana. Todo o tempo de nossa existência é um trilhar peregrino, o percorrer de um caminho sob pressões, tempestades, obstáculos, riscos, perigos de morte. Dramas existenciais. Há barreiras para serem ultrapassadas, horizontes a serem alcançados, porque, como Leonardo Boff diria, somos “um projeto de infinito encurralados no finito”. O salmo diz, inclusive: “O Senhor sabe que somos feitos do pó” (Sl 103,12-14).

Mas, custa-nos aceitar as extremidades. Por exemplo, a morte, as limitações do tempo e do espaço. Mas a oração é quem facilita o vôo do espírito que permite tornar suportável os limites, os extremos, as contradições, ambigüidades, polaridades, determinismos, que nos submetem e condicionam no mundo finito. A oração nos posiciona num mirante, nas alturas, bem acima dos muros existenciais concretos. Podemos falar com o Autor da vida, orando. Dessa elevação podemos contemplar os abismos, enquanto podemos alcançar os mais distantes pontos nos nossos horizontes. Pela oração, sabemos que tudo é possível ao que crê; que um mundo novo é possível, transcendendo nossas realidades.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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