NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS…


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Karl Barth, presente permanentemente na teologia, através de seu comentário sobre a Carta aos Romanos, diria que: “é preciso crer, sim. É correto que ninguém conseguirá ouvir ou ver, ou falar teologicamente a não ser como pessoa libertada para a fé”. Suas considerações o levariam a dizer, ainda, que a fé é uma história – uma história nova a cada dia. Não é um estado ou qualidade, em alguém. De maneira nenhuma pode ser considerada ou confundida como “religiosidade”, fé religiosa. Crer não é “credere quod” (crer que…), mas, conforme afirmação inequívoca do Credo dos Apóstolos, “credere in” (crer em…). A saber: em Deus mesmo, no Deus do Evangelho, que é Pai, é Filho e Espírito Santo. Quem crê nesse Deus dificilmente poderá esquivar-se da percepção de que a cada dia é-nos oferecido um evento novo, clamando pela intervenção de quem tem fé! É preciso crer, sim. 
 
O motor da vida é a esperança de um mundo transformado, a utopia, o futuro que desejamos. Tudo depende de nossa visão, do sonho. Se nossa vista capta somente o que é imediato e rasteiro ao nosso redor, ou se não é capaz de penetrar na realidade da promessa divina e descobrir que ali há algo de profundo e elevado, (esperança!), não entendemos nada da Bíblia. Abraão é a figura que melhor expressa a fé, no Primeiro Testamento, como em Hebreus 11, no Segundo. Deixar tudo, romper com tudo e ir em busca da “terra que eu (ainda) te mostrarei”, sem segurança, sem saber o que lhe seria reservado, só confiando na Palavra de Deus, é o que estabelece a relação que podemos retirar da leitura sobre a fé e o novo nascimento, no Evangelho. Como símbolo “de um novo começo”, para tornar a fé mais significativa em nossa vida hoje, o texto nos remete ao “pai dos que têm fé”. No sentido de ver realidades transformadas. As três religiões “abraâmicas”, judaísmo, cristianismo e islamismo nos remetem também ao “pai dos crentes”, Abraão. É preciso mostrar essa relação como religiões irmãs que dialogam, colaboram entre si e se amam, no sentido da transformação do  mundo num projeto de paz (Gn 12,1-4 a). Falta diálogo com as religiões? Não menos que no interior do próprio cristianismo.
 
Vejamos a arte de Belchior (adaptação):
 
Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi (ouvindo os mesmos discos).
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo que aconteceu comigo:
(…) Pois “vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação”,
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração.
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida…
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais.
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos,
E as aparências não enganam não”.
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém.
Você pode até dizer que eu estou por fora, 
Ou então que eu estou inventando.
É você que ama o passado, e que não vê que o novo sempre vem.
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de
Uma nova consciência e juventude, está em casa guardado por “deus”,
Contando vil metal. Minha dor é perceber que
Apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

 
O diálogo com Nicodemos altera a lógica comum do evangelho joanino: diálogo e testemunho. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão: a fé que procura milagres, que exige sinais. Mas Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o que nos passa o catecismo! Nascer de novo. Começar como um nasciturno, abraçar uma natureza nova (natus, nascido procede de natura). O tema se desloca para “razão” e “fé”.  Nicodemos quer conversar logicamente, no uso da razão, do argumento e da prova, está em pauta a gnosis, o conhecimento humano. A salvação pelo conhecimento. Não é possível, diria Jesus. É preciso desmontar a doutrina vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira.  Para compreender o Deus desafiador, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, enquanto “acha” que pode definir o princípio e o fim da história humana, é preciso rasgar os projetos, chutar as latas de lixo doutrinário, e debruçar-se de novo sobre a prancheta, e ouvir sobre um futuro libertador. O Deus de Jesus está sempre fora do lugar que queremos (u-topos). Ele habita nos sonhos de liberdade e convive com os que imaginam ser possível um mundo novo:“vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação…” (Belchior).

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Um texto exegético:

João 3,1-17 – Estamos discutindo sobre os graus de intensidade e estabilidade da fé. Uma fé incipiente pode ser dominada pela necessidade de sinais, milagres. Nos aspectos externos, pode parecer que estes apresentam segurança. Mas a questão permanece: se faltam sinais e milagres, o que sobrará dessa fé? Superficialmente, a autenticidade irrompe na discussão. Internamente, o eixo se desloca para a insegurança e a deficiência destes, uma vez que falta o essencial, que é a confiança interior plena (pisteuo). “Deus não vê como os homens, que vêem a aparência. O Senhor vê o coração”, isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (Pr 15,11; 1Sam 16,7; Sl 139,1-4).

Nicodemos não parece um hebreu nato, e sim um gentílico afeito às categorias do pensamento dos antigos gregos. João retruca como um bom hebreu: Jesus discorre sobre as questões que se referem à origem da vida, o que há de mais fundamental pertencente ao homem, o ser-humano. Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”. Importa não paramos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente conheceremos nosso fim e quem somos realmente (Pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó – Sl 103,14).

Portanto, é “necessário nascer de novo!”, é preciso tomar uma nova consciência. Paulo dirá de outra maneira, do mundo principial: “O mundo tal qual vocês o vêem está em via de desaparecer… ”. Aqui está, praticamente uma discussão rabínica: “bereshit” e “en arché”, no princípio! Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)? A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, coloca-nos em uma situação peculiar diante da vida. Fraternidade, solidariedade, cuidado, substituem o individualismo, a desconfiança em relação aos outros, a indiferença, o desprezo ou o abandono do outro e da outra. A ignorância do próximo e do distante.

Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Tão comum em tantas culturas: a água. E o seio materno é fonte de vida, água batismal. Porém, água fecundada pelo Espírito, nos escritos bíblicos. A figura do ventre materno, também comum noutras culturas, na tradição bíblica evocará a feminilidade criadora da mulher (no Gênesis, o Espírito é “ruah”, que no hebraico é uma palavra feminina; o ventre criador de Deus tem atributos femininos e maternais…). Também a mulher que gera é como um poço ou manancial (Pr 5,15 e 18; Cantares 4,12 e 15). A função do Espírito (ruah) é essencial, justifica o paralelismo água/espírito/fertilidade. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principial” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora. Quem nasce desse Espírito/vento novo, experimenta o que Edu Lobo ensina na canção: “… o vento vira e, do vendaval, /Surge o vento bravo… / Como um sangue novo, / Como um grito no ar / Correnteza de rio / Que não vai se acalmar…/ Não vai se acalmar!” .

Romanos 4,1-5;13-17 – As igrejas domésticas de Roma eram consideravelmente diferentes entre si, mesmo vivendo sob a mesma cultura imperialista. Do ponto de vista étnico, evidentemente. Roma é uma cidade cosmopolita, mas pluralista culturalmente. E Paulo não ignorava isso. Não fora o fundador dessas comunidades, porém estava bem informado, apesar de não ter estado lá anteriormente. Há um elo: a fé em Jesus Cristo. E, aqui, ele introduz um tema controverso, já existente na discussão da comunidade ainda influenciada pelo judaísmo formativo, berço religioso dos apóstolos. Mas é sobre a história dessa fé transformada que Paulo discorre. Quem se interessaria, entre gentílicos e pagãos, em conhecer as origens dessa nova fé? Paulo considera que todos, de origem judia ou gentílica, deveriam saber desses fundamentos: Abraão configura tipologicamente o homem que tem fé. Deus chamou-o, convidou-o a entregar-se a uma utopia, uma fé no novo, enquanto afirmava, com uma promessa, uma terra, uma descendência, uma nação originária que seria “seu” povo. Sem distinção racial ou nacional, entre os povos: Esperando contra toda esperança, Abraão confiou na promessa e tornou-se pai de muitas nações, conforme foi dito a ele: ‘Assim será a sua descendência’. Ele não fraquejou na fé, embora estivesse vendo o corpo declinar – ele tinha quase cem anos – e o ventre de Sara tivesse fenecido” (Gn 18-19).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS…

  1. Oioi meu nome é jaqueliene eu tenho 12 anos eu tenho uma banda chamada
    PoP girls eu sou vocalisata,dansarina,compositora e,a Fernanda é dansarina compositora,bemkemvocal e,a Luciana é vocalista,dancarina,e compositora
    a Fernanda tem 11 anos e a Luciana tem 14 anos e todos nós somos estudantes
    e moramos em São Paulo,vila natal,5972-9511 ou 5924-8022..
    Espero que conseguimos realizar esse nosso grande sonho….tchalll

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