O CARNAVAL E A FELICIDADE


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Domingo anterior à Quaresma

Um livro que ofertei à minha esposa, escrevi estas palavras, de Jean-Yves Leloup, sobre as bem-aventuranças: “Nunca oramos somente pelo nosso bem-estar, mas pelo bem-estar de todos. Porque cada um de nós é esse pedaço de universo unido ao todo, que somos nós e o resto do mundo. Se existe um pouco de paz (bem-aventurança) em nós, haverá um pouco de paz no mundo, enquanto oramos”. Existe dentro de nós, creio, um desejo de transcendência, de infinito, que só o Infinito pode preencher. Enfim, pedimos que a entrega de Jesus Cristo ao martírio pela Causa de Deus não seja em vão. Que a eficácia dessa ética libertária insufle forças de infinita grandeza que nos permitam essa espiritualidade, uma vida de “união moral” com Cristo.

O Evangelho alerta para as escolhas, as “eleições” que os seguidores de Jesus devem fazer no caminho do Cristo messiânico. O texto é antecedido pelas perícopes vocacionais, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus. As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub-desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar algumas. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitaste na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual de todos nós. Nossa ignorância sobre o essencial. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; dimensões éticas apontadas para a autêntica vida de fé; e principalmente o reconhecimento da dignidade do nome “cristão”. O cristão crente seguro é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo religioso das igrejas de mercado? É um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência ética e social na qual nos encontramos? É um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade da perversidade, da infidelidade dos próprios irmãos?

Na verdade, biblicamente, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Haja o que houver. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: Shalom, (no hebraico quer dizer “inteireza”; viver em paz é estar inteiro, direitos e bem-estar garantidos) aponta para essas plenitudes. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pela paz e pelas bem-aventuranças proféticas (cf.Miquéias, Sofonias, Jesus). Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão, o cuidado e a misericórdia. É preciso trazer a teologia do Antigo Testamento de volta. Sacrificar a ortodoxia, conhecimento doutrinal, em favor da mensagem bíblica: a Graça (que é “hesed”, mas é também “xáris”) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias do bem-estar são saboreadas, vividas em plenitude.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Está na cabeça, passa a ser exterior ao crente; paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas, com um halo luminoso). A Graça, que deveria ser bem-aventurança para o corpo inteiro, torna-se estranha às realidades interiores profundas, do homem e da mulher, da sociedade, exigindo transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” é o ser inteiro. Corpo e alma. Shalom é inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana, na Bíblia. A alma do mundo, da criação, também pertence a Deus. Aí também se reclama por dignidade? Sim, “mas, simplesmente, as rosas não falam…” (Cartola). Que mais se deveria acrescentar?

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“A FELICIDADE DO POBRE PARECE A GRANDE ILUSÃO DO CARNAVAL”
(Vinícius de Morais)
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os que não pedem muito, a não ser a Paz

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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