DECRETO HERODIANO: MORTE AO MENINO E ÀS ESPERANÇAS DAS FAMÍLIAS!


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(Mateus 2,13-15.19-23): Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito.
No meio do tempo de Natal o Evangelho fixa nossa atenção numa realidade muito humana da vida de Jesus. Como todo ser humano, ele contou com uma família que o criou… Teve um pai e uma mãe humanos, um ambiente vital no qual foi se desenvolvendo até chegar a ser adulto, que o modelou e preparou para realizar sua missão. No livro dêuterocanonico de Ben Sirac (“Sirácida”), que pertence ao grupo dos livros sapienciais do Antigo Testamento, encontramos ensinamentos para se saber viver na presença de Deus e na comunidade humana. Muitos desses ensinamentos têm a ver com a família. Certamente Jesus amou, respeitou e obedeceu seus pais como nos ensina a leitura. A maior parte de sua vida ele a passou na companhia de sua família, mesmo que conheçamos quase nada das circunstâncias desse período de sua vida que chamamos “vida oculta”.Jesus nasce também debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobilizar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, sem-dignidade e cidadania, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião dominante e pela política de seu país, cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial (Mt 2,7): Augusto, imperador, era considerado “divino”, um deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); que, no seu entender de governante mundial, lhe devem e têm que pagar, irrevogavelmente.

Tagore disse: “A história da humanidade espera com paciência o triunfo dos humilhados”. Jesus nasceu. A fome e a miséria eram o cenário onde nasciam os menininhos pobres e carentes como ele, sem nenhum perigo para a sociedade que os excluía imediatamente. Logo depois, para eliminá-lo, essa mesma sociedade promovia ou apoiava um genocídio, o mais clamoroso das histórias do Evangelho. Os meninos do tempo de Jesus nasceram condenados à morte desde o nascimento. Hoje, conhecemos seus irmãozinhos, em todo o mundo, que nascem também com essa condenação, juntamente com o menino nascido na estrebaria e embalado num berço improvisado num cocho.

O povo se sente desprotegido e desfigurado pela dor. Tentando ver um pouco além do quadro idílico da casa (família) de Nazaré, podemos fazer esta reflexão: a família não foi para Jesus um obstáculo na hora de empreender a tarefa salvadora. Nessa realidade, a partir da convivência fraterna, desponta o rosto de Deus como oleiro. O oleiro modela a cerâmica com imenso carinho e ternura. Da mesma forma, Deus modela o seu povo e lhe infunde a vida. Ele é como o pai que gera um novo ser: “Olha do céu e observa da tua morada santa e gloriosa; onde estão o teu ciúme e poder, o teu coração comovido e a tua compaixão. Não fiques insensível, porque tu és o nosso pai, pois Abraão não nos reconhece mais e Israel não se lembra de nós”… (Is 63-15-11).

Os israelitas (depois judeus) da época do Terceiro Isaías, e na época de Jesus, e muitos dos povos primitivos, não poderiam prever as atuais dificuldades e crises que atravessa a instituição familiar em nosso tempo, em suas semelhanças. Sacerdotes, ministros ordenados, escribas e governantes gananciosos, os “pastores de Israel” (cf.Ez 34,2: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?”), estão oprimindo a vida do povo empobrecido. Aqueles que devem apoiar, ensinar e proteger o povo, estão fazendo exatamente o contrário do que deveriam fazer. Nessa situação de opressão e sofrimento, a comunidade de Isaías (3o.) se une e redescobre em sua luta diária o rosto de Yahweh, descrito na imagem do oleiro e do pai: Mas agora, Yahweh, tu és o nosso pai; nós somos o barro, e tu és o nosso oleiro; todos nós somos obra de tuas mãos (64,7).

Yahweh, tu és o nosso pai. Teu nome é, desde sempre, Redentor, Go´el (Is 63,15-16). O pai protege, acompanha, acaricia e ensina. Não pode ficar insensível ao fruto de suas entranhas. Por isso, a comunidade do Terceiro Isaías, de maneira forte e comovente, apela para seu pai, enquanto exorta os seus: Não peques, ó insensíveis! Reacende-se a esperança no poder e na compaixão de Deus, pois ele é o pai que sempre está ao lado de suas filhas e de seus filhos. A situação de desamparo também faz o povo ver em Yahweh o seu redentor.

A Natalidade de Jesus de Nazaré é um convite para mergulharmos na realidade que se apresentava ao menino que irrompe do ventre de sua mãe numa estrebaria, um sem-terra, sem-teto, sem-nada, à semelhança das crianças que nascem no terceiro mundo, e no Brasil do IBGE, entre 53 milhões de brasileiros e brasileiras constantes na escala social dos que se encontram, no mundo da economia, e do consumo de bens essenciais (alimentos, habitação, trabalho, transporte, lazer), abaixo do limite da pobreza. Se Jesus nascesse aqui, entre os que estão mais perto, em nosso país, sob a opressão dos sistemas econômicos seria um dos bebês que vêm ao mundo devedor de milhares de dólares ao FMI, BID, G-8, (cf. dados do IPEA). Mas que não se esqueça que, ao mesmo tempo, seria credor de dívidas sociais desta sociedade (dita cristã) que lhe deve tudo e não quer pagar. Não há Procon que resolva…

A Natalidade do Senhor é tempo de esperança porque Deus resgata o povo pobre e sem valor e o chama para o centro da história da salvação. A leitura em Mateus nos apresentará a concepção de Jesus por obra do poder divino. Mas é também por esse poder que a família do menino nascido de mulher sobreviverá aos poderes políticos, econômicos e religiosos atrelados para o extermínio da esperança: o genocídio social, também herodiano, que parece não cessar nunca.

Sobre Derval Dasilio

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