ERA UMA VEZ UMA CIGARRA GOSPEL…



Uma fábula fabulosa, como diria Millor Fernandes, pode ser contada aqui, roubando a idéia de La Fontaine: “Era uma vez uma cigarra que aderiu à cultura ‘gospel’, reuniu-se a um grupo de jovens cigarras crentes, muito interessadas em dar um pouco mais de cor, de ritmo, de sonoridade nos cultos que freqüentavam. Onde se exibiam, tiravam tudo do altar para que seus instrumentos ficassem em evidência, inclusive caixas de som de alta sonoridade. E reunidas, descobriram que era muito mais fácil importar um estilo bastante apreciado pelas cigarras do hemisfério norte, mais precisamente no país das maiores fantasias consumistas que já houve sobre o planeta.

Lá se vende de tudo, e até as pessoas, digo: cigarras, são vendidas bem baratinho, em troca de bênçãos das pastoreas e pastores das igrejas daquele lugar. Só aos domingos, claro, porque ninguém é de ferro. Inclusive os crentes. E, então, compraram projetores de luz, máquina de fumaça de gêlo, microfones de todos os tipos, instrumentos de percussão, baterias, guitarras, teclados. Recursos variados… e descobriram que, na igreja onde animavam o louvorsão, o povo andava pensativo, cabeça baixa, nem podia orar tanto era o barulho das cigarras gospel.

Não se lia a Bíblia, porque os louvoristas tinham versículos chaves para todos os momentos do culto. E, além do mais, as cigarras louvoristas faziam tudo, oravam, mandavam o povo baixar a cabeça para acompanhar sua prece ensaiada, e até diziam amém pelas cigarras assistentes.


Enquanto isso, na mesma floresta, uma formiga, também crente, trabalhava, todos os dias da semana, inclusive no domingo. Liderava outras formigas da igreja, enquanto as estimulava a pensar no futuro da congregação: se não estava bom, agora, muito pior poderia acontecer ao povo local. Então, a congregação se empenhava em serviços diaconais, provisionando a comunidade para futuros atendimentos. E trabalhavam… trabalhavam… trabalhavam. As dependências da igreja que freqüentavam foram transformadas em armazens de alimentos, ambulatórios médicos, rouparias, dormitórios.

Enfim, planejavam como um líder bíblico fizera no passado, José do Egito, distante, e o que fez foi uma bênção, tanto para a comunidade a quem servia, quanto para os seus irmãos que vieram lhe pedir socorro. As formigas ouviam as histórias da Bíblia e meditavam. Oravam agradecendo pela bênçãos da saúde, da capacidade de trabalhar e sustentarem-se, de terem uma vida de forte comunhão com as demais, preocupadas com a salvação dos outros insetos e bichos da floresta. Ouviam as pregações, entoavam hinos de louvor, intercediam pelas outras formigas e outros bichos, e saiam do culto para trabalhar. Não se cansavam, porque sabiam das escatologias realizadas em outros tempos… Um dia o céu se cobriu de nuvens negras, e ventos fortes dobravam as árvores da floresta. Veio uma tempestade avassaladora, um dilúvio do tipo que o povo de Noé enfrentou em tempos primordiais.

As formigas, previamente treinadas para enfrentar situações adversas, correram rapidamente, o mais que podiam, para abrigar-se, juntamente com sua comunidade, no lugar que construíram, devidamente provido dos recursos necessários para acolher e prover todos os que necessitassem. As formigas vieram todas para a igreja/abrigo. Logo, outros bichos, que ouviram sobre a comunidade laboriosa, foram pedir abrigo e ajuda. E todos foram atendidos. As cigarras, porém, sem previsão alguma sobre as dificuldades futuras, foram pegas de surpresa, seus instrumentos submergiram juntamente com o palco, com o altar gospel. A enchente tomou tudo, e o templo foi inundado, raios e trovões substituiam a cantoria alta, e a comunidade, coitada, não tinha mais a quem recorrer. Nem lugar para se abrigar, nem comida, nem leitos para reposusar…


Bem, vamos terminando essa história, como se faz em todas as fábulas.
A moral da história, porém, fica com o leitor. Era uma vez …

O CULTO GOSPEL  DESPREZA O JULGAMENTO DE DEUS

Há muito medo, hoje, no mundo. Medo de doença, de sofrimento, de abandono e de solidão. Medo nas madrugadas esperando o filho e a filha que saíram e podem não voltar. Ameaças graves pesam sobre nós. Há seqüestros e assaltos nas ruas e nas casas. Muitos são torturados e depois mortos. Outros são mortos friamente. Há medo de guerras, seja para enfrentar o terrorismo internacional, seja por disputas de poder entre nações que dispõem de armas de destruição em massa. A máquina de morte já construída é tão devastadora que pode colocar em risco o futuro da espécie humana e ferir gravemente a biosfera. Temos, pois, razões objetivas para temer (Leonardo Boff).

Se alguém disser, também, que os números da criminalidade não deveriam assustá-lo; que as drogas são um problema social menor; que a sexualidade dos adolescentes e jovens não é uma questão de tirar o sono – como você reagirá? Você julgará estar diante de um cínico indiferente às questões centrais da sociedade moderna; vai imaginar que quem o diz é um criminoso, drogado, de olho na sua filha, à qual ordena imediatamente que se tranque em seu quarto, ou você acreditará que seu interlocutor desmontou uma farsa determinada a tornar você refém de medos extravagantes, assustado com a própria sombra – e com a do vizinho? Será que esse alguém não quer que você seja incapaz de ver a realidade, enquanto você é curado da cegueira e possa ver a realidade dos abismos sociais que estão além das emoções à flor da pele, dos arrepios e dos olhos mareados e revirados da cantoria milionária, de bolsos cheios, dos novos levitas? E cure os ouvidos para ouvir vocacionados, jovens e as mulheres que procuram um lugar diaconal, de serviço na igreja no mundo?

Talvez por aqui se anuncie um caminho libertador. Não o caminho ensinado pelos pregadores que se imaginam pavões, ternos bem cortados, escondendo os pés sujos e feios em sapatos de cromo alemão, por causa dos lugares onde andam. A tarefa do pregador do Evangelho é anunciar o Senhor em meio a um mundo metido na injustiça social, na idolatria eclesiástica, mentiras, prestidigitações, adoração e louvor interesseiros, propositistas. E alguns falam de “avivamento”, e outros perguntam: “avivar para quê?”. E a paranóia dos falsos medos continua. Enquanto crescem as contas bancárias das igrejas milionárias, propositistas, e dos pastores fanáticos por eclesiologias importadas.

Há infindáveis outros medos, como o de perder o posto de trabalho, de perder o nível de salário, de perder a casa nas inundações ou deslizamentos, de perder a pessoa amada, de perder a benevolência divina e a vida eterna. De que mais não temos medo? O medo revela a condição humana, feita de medos e esperanças, de desamparo e busca de conforto. Nós nos damos conta de que não somos senhores de nós mesmos, de nossa vida com seu rumo e com seu futuro. Estamos à mercê de forças e conjunturas que não controlamos. O medo esvazia a alegria de viver, tolhe a liberdade e obscurece o futuro. Quem nos libertará deste pesadelo?

Cultos avivados, louvor e adoração gospel carregados de emoções, exercícios de relaxamento, inteligência emocional, estratégias de autocontrole, coquetéis poderosos de orações calmantes, sem sinceridade, nos libertarão da espada que aponta sobre as cabeças de todos nós? A fábula da “formiguinha cristã” (que trabalha sempre, antecipando as calamidades futuras) e da “cigarra gospel” (que canta, revira os olhos, arrepia-se, emociona-se com sua própria voz), servirá ao nosso momento? Quem sabe um caminho espiritual nos leve a transcender esse contexto e nos abra a perspectiva da proteção divina, e o amparo incessante do Deus da nossa fé?

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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