ADVENTO:TEMPO DE ORAÇÃO E INDIGNAÇÃO


orando-maos.jpgFaltam menos de vinte dias para comemorarmos a Natividade do Senhor. No Advento se anuncia que o Senhor vem. Isaías gosta de sonhar com o Advento, utopias maravilhosas são o seu forte; voltar ao Paraíso inicial, como está nos primeiros capítulos do Gênesis (Is 11,1-10), também. O profeta é, sobretudo, um homem com grande capacidade de perscrutar a história, tanto no seu passado como no presente, e com perspectiva de intuir o futuro. Ernest Bloch propunha uma interpretação das utopias.  Breno Shumann apresentava-nos esse pensador, ao fim dos anos 60, sob a ditadura militar. Bloch fala de utopias sobre a natureza não humanizada, fala de utopias da saúde; utopias sociais, utopias da técnica, enfim, dos sonhos dos homens para ganhar a felicidade através da dominação da natureza. Até a arquitetura carece de utopia: uma referência ao habitat humano no caminho da urbanização inevitável, enquanto evoca a construção de monumentos que demarcam a passagem de um tempo para outro, como as pirâmides do Egito, ou como as catedrais góticas da Europa Medieval, em busca de formas ideais do “cristal” e da “árvore da vida!”.  Depois, os navegadores e viajantes de todas as épocas, em busca do Eldorado, das ilhas encantadas, maravilhosas, e dos “continentes e cidades desaparecidas” no meio dos misteriosos oceanos.
 
Outras paisagens são vislumbradas pelo “utópico” Ernest Bloch: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado; a satisfação da fome, apesar das sombrias previsões do pastor presbiteriano Malthus, e sua “utopia invertida” (séc.18); o mundo sadio, em toda parte, doenças endêmicas sob controle, médicos e hospitais para todos; a paz mundial: bem-estar político, nações cooperativas entre si, para uma socialização mundial do atendimento das necessidades humanas, que vão desde a habitação, o trabalho humanizado, acesso ao lazer, à cultura em todos os níveis. Bloch ainda é atual, especialmente quando a sociedade global trocou tudo isso pelo consumismo desenfreado e sem conseqüência, mas não para as elites privilegiadas de todos os tempos. Estas nunca se queixaram de seu poder aquisitivo, em todos os campos: saúde, escola, mão-de-obra barata, lazer qualificado, prêmios que nunca lhes faltam. Na questão da internacionalização da Amazônia, por exemplo, os que querem ser também seus “donos”  concordariam em colocar reservas de petróleo, ouro, diamante, direitos de patentes, know-how científico, industrial, disponíveis, sem reservas ao mercado do Brasil? Concordariam que os brasileiros passem a receber recursos destinados ao bem-estar social dos quais desfrutam, cooperativamente, e que sejam retiradas todas e quaisquer restrições de mercado aos brasileiros?
 Voltemos ao profeta bíblico e sua utopia encantadora. Ele sabe e está consciente de que ao longo desta história as relações entre os povos não estiveram em sintonia com o plano divino, pois na maior parte do tempo tais relações foram guerras, ódio e violência. A história de Israel é repleta de fatos violentos, cidades e povos destruídos, reconstruídos e novamente destruídos, e no meio disto tudo, os pobres são os que mais sofrem. Os pobres, como o marisco, estão entre o mar e rochedo, açoitados pelas ondas… Chineses têm um ditado: “Quando elefantes brigam sobre o gramado quem sofre é a grama…” 

 Uma nova esperança, como outro visionário utópico, João, coloca o sonho no futuro, no livro do Apocalipse. Uma esperança que antecipa a glória de Deus. O primeiro Isaías refere-se ao tronco de Jessé, pai do rei Davi. Dessas raízes brotará um rebento encantador, um Príncipe cheio do Espírito Santo, um rei que de fato cumprirá o que Deus projetou para a humanidade. Esperamos com impaciência o nascimento do Messias de Deus, que trará justiça, exercerá os direitos reclamados para os despojados, humildes e humilhados, à margem da história. “A vil miséria insulta os céus” (João Dias de Araújo). Há, contudo, um sonho ainda maior: o da reconciliação de todos os homens e mulheres; de todos os poderes, sistemas, devolvidos a quem os criou (Yahweh). Plenamente, como nos símbolos dos animais selvagens, ferozes, que convivem, comem, pastam, com os animais domésticos e mansos.  Não há lugar para a violência e a guerra, nem para as lágrimas e a dor. É tanta paz que um menino pequeno será capaz de pastorear até os animais da selva. Um sinal reunirá todos os povos da terra, reconciliados entre si.  Sobre o monte de Deus, onde está Jerusalém, a Sião dos profetas, desce a paz.  Ali será o centro da Paz. 

Neste tempo de Advento, essa tarefa é entregue ao povo de Deus, mais como uma oferta do que uma exigência.  Devemos refletir sobre esse Paraíso. Desde o começo a Bíblia nos remete a este tema. Antes que um lugar, ele é um modelo de vida.  Como? O Paraíso expressa harmonia entre pessoas; harmonia com a natureza; harmonia com o mundo criado.  Das coisas mais belas que guardamos dessa imagem, o encontro entre homens e mulheres em solidariedade total em defesa de uma causa especial: a causa de Deus é o centro de tudo. O que destrói essa harmonia? Conhecemos esse mal pelo nome de “pecado”, não o pecado como ensinado no catecismo, individualista, moralista, doutrinário. Pecado é um termo plural, refere-se ao pecado das consciências entupidas de distorções sobre o que é transcendente ao indivíduo: direitos fundamentais à habitação, saúde, escola, trabalho e lazer. O pecado está nas consciências anestesiadas, dopadas pelo consumismo em vigor, voltadas para o imediato e o provisório, enquanto se  promove o esquecimento da indústria da morte ao redor de tudo. Nas relações entre indivíduos, famílias, sociedades… nas relações internacionais.  Os poderes da morte, paradoxalmente, parecem vitoriosos sobre o poder da vida.  Mais que nunca clamamos pelo Deus da vida, em razão de tudo isso. 

  O pecado estrutural está no poder controlador da sociedade, nos sistemas de pensar, os quais envolvem a religião de mercado, o econômico através da ganância insaciável, pronto a abocanhar mais domínios, e o político entreguista e oportunista, esquecido do coletivo, enquanto exercita sua influência na sociedade para tirar vantagens pessoais. O Paraíso fala do homem e da mulher em intimidade com Deus, como um tema bíblico de alta importância, mas também diz sobre aqueles que voltam as costas para Deus,  enquanto ouvem e acatam a voz do símbolo de todo mal, a “serpente”, sabedoria maligna, que passa a falar por eles nestes tempos, elaborando projetos contra a vida (Harvey Cox, Que a Serpente não Decida por nós, Paz e Terra). 

Neste Advento devemos refletir: a indignação e a intolerância ao mal (pecado estrutural) caminham juntas, quando se luta contra os poderes da morte. Quando há descontrole daqueles que legislam ou governam. Quando inocentes são assassinados, escravizados, vendidos. Quando se destrói, ou quando alguém se apossa do bem comum, na natureza ou na economia. Quando terroristas fundamentalistas, ou cristãos belicosos, em nome do projeto de sua religião, ou de seu partido político, cometem ou justificam seus crimes em matanças de inocentes. Quando as máfias das armas, juntamente com os que pensam como ela; quando traficantes de drogas, de gente, de crianças no trabalho escravo e na prostituição infantil, e também na adulta, se impõem como um poder dentro da sociedade inerte, seremos intolerantes e indignados. Quando homófobos e sexistas impõem sua parcialidade como verdade absoluta e indiscutível, contra irmãos homossexuais e mulheres desprotegidas; quando se mata alguém em nome de certa “justiça”, só pela suspeita, ou por evidências duvidosas, ou por vingança, como na pena de morte oficial ou extra-oficial; quando pessoas são mutiladas, torturadas, em nome da justiça dos homens, seremos intolerantes e indignados. Quem não concorda?   

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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