EXPERIÊNCIA DE UM DEUS COMPROMETIDO COM O POBRE E O OPRIMIDO


Começamos o tempo do Advento, tempo de preparação para as celebrações natalinas do nascimento e manifestação de Jesus Cristo, da encarnação do Logos, a Palavra de Deus (não devemos nos esquecer que o logos corresponde a ‘davar’, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu que pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica; ali, o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas, é ‘davar’, que significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua: ‘davar’ é a palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; ‘davar’ é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que ‘davar’ é a palavra que torna perceptível a chegada do Reino de Deus, a causa de Deus). Lembremo-nos que uma utopia não evolui do nada. Ela sempre parte da experiência humana, dos anseios humanos por justiça e novas construções do que deve ser verdadeiramente humano, para nós é a “experiência de Deus”: a República de Platão; a Cidade de Deus, de Santo Agostinho; a Utopia, de Thomas Morus; a Cidade da Eterna Paz, de Immanuel Kant; o Estado Absoluto, de Hegel; o Paraíso do Proletariado, de Marx; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras precedidas pela utopia política da fé, conforme as Escrituras Sagradas. Profetas, como foi Isaías, já descreviam o que a literatura apocalíptica colocaria antes do movimento de Jesus, realizadas na pregação do homem de Nazaré sobre a causa na qual se apoiava: o Reino de Deus e Sião, a capital celestial da justiça de Deus. É neste plano que se discute a fé cristã, sem jamais desprezar a esperança da inteligência pensante que mantém sua crítica ao presente grávido de esperanças sobre o novo, conforme induz a teologia da fé.

Carl Sagan via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais no mundo sideral uma manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. Com vontade de viver nos levamos a cogitar formas de sobrevivência para além da Terra. Isso é esperança ou algo que conhecemos de sobra, desde os tempos imemoriais, enquanto examinamos a história humana sobre a face da Terra? O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extra-solar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de 30.000 kms/segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável (L.Boff). Mesmo assim só para chegar à estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade quando ela chegar ao seu destino. Como ficam essas previsões quando a realidade imediata apresenta-nos a destruição da vida no planeta Terra em tempo real bem menor, se permanece o ritmo atual de destruição ambiental?

As advertências de Jesus põem uma nota de gravidade no tempo do Advento que hoje começamos a celebrar: não se trata somente dos enfeites natalinos dos quais já estão cheios os supermercados, as lojas, a mídia de marketing. Não se trata de uma falsa alegria, induzida artificialmente por musiquinhas gospel meladas, nem da falsa aparência de bem-estar ao se esbanjar dinheiro em compras desnecessárias e injustificáveis. Que sinais de esperança e de desesperança a sociedade atual “realista”, “pragmática”, sem utopias, desencantada, desesperançada, anestesiada pela proclamação do “final da história”, apresenta sobre o final desses tempos? Que papel os cristãos teriam nesta hora de congelamento da esperança? Somos testemunhas da esperança ou do desespero, ou da acomodação (Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque amanhã morreremos: 1Cor 15,32)? Que podem significar os sinais apocalípticos que o evangelho sobre a “vinda do Senhor” aponta? Não são sinais de resistência ao tempo presente que nos apresentam um “futuro sem futuro”? Advento quer dizer “vinda”, “chegada”, e isso é o que nós preparamos para celebrar: a primeira vinda do Logos (davar), a Palavra de Deus, revestida da carne dos homens e das mulheres deste mundo. Sua primeira vinda em humildade, também elegendo os humildes, os pobres, os sem-poder, sem-teto, sem-cidadania e sem-direitos, nos impressiona?

Eis o que diz Kar Barth (Poverty, against the stream, New York Philosophical Library, 1954): “Não há nenhuma passagem na Bíblia que sejam proclamados, louvados, exaltados, tributados, os direitos dos ricos; pelo contrário, os pobres é que são enaltecidos, chamados de bem-aventurados, designados como eleitos de Deus; (…) o evangelho foi proclamado aos pobres, enquanto que os ricos são mostrados em proximidade suspeita com os poderosos e malfeitores, que, por suas inclinações, orgulho, falsa segurança, identificam a queda da humanidade”. E prossegue: “Os ricos, por serem ricos, de maneira nenhuma entrarão no reino dos céus (como sabemos, tão dificilmente quanto um camelo passa pelo fundo de uma agulha – passagem de alfândega destinada a pessoas – os ricos entrarão no reino dos céus…), a não ser que tornem seus bens disponíveis e transformem-se em pessoas pobres, despojadas, vendendo, desprezando suas seguranças alicerçadas em bens. (…) Portanto, a Bíblia está do lado dos pobres, dos despojados, dos destituídos (grande maioria no mundo). Aquele a quem a Bíblia chama de Deus toma partido em favor dos pobres…”

Preparando-nos para celebrar a primeira vinda do Senhor não podemos deixar de considerar que esperamos ansiosos sua “segunda vinda em glória”, quando, como Juiz dos vivos e dos mortos (quem são os vivos e quem são os mortos, segundo o Evangelho?), levará à plenitude nossa história humana. São dias de recolhimento e de oração, de uma alegria que nasce da espera de algo que será maravilhoso para a vida dos homens e das mulheres; dias em que censuraremos as extravagâncias do consumismo, os excessos a que somos levados pela propaganda e pela publicidade, daqueles que transformam a festa da Natalidade numa feira de abusos e vaidades? Dias em que viraremos as costas para a fome no mundo e nos locupletaremos de perus, chesters, lombos defumados, vinhos, champanhes, castanhas, frutas secas e frutas finas, enquanto persistem os sinais de morte no lado do mundo doente, sem assistência, esquecido, esperando por transformações?

O profeta Isaías apresenta uma imagem belíssima da utopia evangélica do Advento: o monte do Senhor, a montanha santa que Yahweh escolheu para si na terra de Judá, sobre a qual se ergue até hoje Jerusalém, e se erguia desde milênios atrás do templo israelita. Isaías vaticina um destino glorioso para Sião: ela irá transformar-se no centro do mundo, âmago da história, para onde se voltam e se dirigirão todos os povos da terra; de onde brotará para o mundo a Palavra (davar=palavra do hebraico bíblico que provoca acontecimentos transformadores, fatos libertadores, ação concreta em favor da paz social) e a lei justa e libertadora do Senhor. Anuncia ainda uma era de paz universal expressa em belíssimas imagens das espadas transformadas em arados e das lanças em foices. Todo este quadro maravilhoso aparece iluminado pela luz do próprio Deus. Imagens similares à que acabamos de evocar encontraremos em outras passagens do Antigo e do Novo Testamento. O anúncio de um mundo renovado por Deus, no qual poderemos ser todos felizes, tolerantes, sem preconceitos, quando vier o Messias, o mensageiro definitivo da salvação, realizando o reino a olhos vistos! Todas as formas de bem-estar social, político, religioso. Estarão ao alcance de todos, sem distinção.

O Advento é tempo de esperança, não de simples espera. É objeto da espera aquilo que não depende de mim, aquilo que, mesmo eu não desejando muito, virá, antes ou depois, ou não virá, por causa de fatores que escapam ao meu controle. Frente ao objeto de minha espera, o único que posso fazer é entreter-me, distrair-me, “matar o tempo”, não sofrer muito por causa do desejo – como diriam pensadores conformistas. Uma “sala de espera” (não de esperança) é um lugar para “matar o tempo”, e é tão melhor quanto mais me distrai… Imagina-se que qualquer esforço não adiantará nada – quem sabe é apenas o sofrimento – pelo fato de estar desejando o objeto de minha espera. O Advento é tempo de “espera” com esperança, a outra espera que alimenta a esperança (sper, no grego, é a raiz da esperança): Um pouco além do presente, / alegre futuro anuncia: / Venha o teu Reino Senhor, / a festa da vida recria, / a nossa espera e ardor / transforma em plena alegria! (E.Reinhardt e J.C.Gottinari, O Novo Canto da Terra, Jacy Maraschin, Centro de Estudos Anglicanos).

Sobre Derval Dasilio

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