A Reforma Protestante e Deus


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A REFORMA PROTESTANTE E DEUS
(Lucas 17, 5-10 e 18,1-14)

Durante longos anos, a espiritualidade presbiteriana reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, idéia de João Calvino, dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam a idéia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja. Assim, o Papa estaria no topo da hierarquia da mesma, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local; o Papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como igreja católica universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes (não se deve esquecer que Zwínglio, Bucer, Lutero, Melanchton,entre outros reformadores, eram sacerdotes da Igreja). Ambos reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona”. Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando a Ceia, ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram procuradores com plenos poderes em questões de fé.

Assim, os reformadores, especialmente através de Calvino, refutam essa idéia do aprisionamento de Deus a uma representatividade religiosa. Podemos entender, então, que Deus é Outro, totalmente, inconfundivelmente, diferente do homem. O pensador Voltaire, debochava dos esforços para se provar a existência de Deus: “Se é verdade que o homem é imagem de Deus, também é verdade que Deus é imagem do homem…”. Depois da Reforma, a religiosidade protestante liberal do séc.XIX foi mais adiante. Negava o Deus da fé, além da negação dessa autoridade ministerial. Enquanto se esforçava em provar a existência de Deus, degradou, nivelou Deus a um ser qualquer que a razão, a inteligência, o saber, o conhecimento, podiam manipular facilmente. Aparece o racionalismo e o protestantismo escolástico no cenário metálico da razão.

O pietismo evangélico, por sua vez, tornou Deus um deus pessoal, particular, individual. Faz possível utilizar-se a figura de Deus como um deus-quebra-galho, nas orações (Lc 18,9-14: O fariseu e o publicano), desse modo, o crente pode reclamar reconhecimento de santidade pessoal, ou se pode exigir santidade do crente, enquanto o pietismo reage, como movimento religioso, ao racionalismo teológico de então, este preocupado em provar ou não a existência de Deus. O deus neopentecostal recente acompanha esse conceito pietista evangélico, numa linha mais prática: ali, Deus é desafiado a todo momento em responder às orações, sacrifícios espirituais e materiais, em favor de quem se disponha a comprar bênçãos e graças. A razão religiosa, sabedoria humana, induz a afirmar que Deus é vaidoso, comerciante e, além de tudo, necessita ser bajulado com presentes e agrados, para abençoar e agraciar o fiel com bens materiais, físicos, e agrados espirituais. E finalmente dar a paga pela graça da ascensão e status social. Dentro da igreja ou além dela

DEUS NÃO PODE SER COMPRADO COM LOUVAÇÃO…

E no entanto cristãos protestantes nunca se cansam de afirmar a gratuidade divina, e de proclamar a soberania de Deus, no seu modo de ser e no modo de agir: não é possível manipular Deus, fazê-lo vender graça e misericórdia. No ser de Deus, analisando-o com boa compreensão, encontramos uma distância infinita entre Deus e as criaturas. Deus é tudo que a criatura não é. No agir, Deus tudo cria, independentemente, por prazer de criar, razão pela qual não há nem cooperação nem liberdade de ação na criatura para impor necessidades a Deus. Deus reconcilia homens e mulheres consigo vindo até eles, e não o contrário. É Deus que vem ao encontro deles.

Reagindo àquelas formas de rebaixamento de Deus (visto na religião racionalista e na devoção pietista), escreveu Karl Barth, expressivo pensador cristão, certa vez: “Deus é Deus, sendo totalmente diverso de qualquer realidade humana, inclusive diverso da cultura e da religião do homem”. Expressões religiosas, igrejas, religiões, não confirmam qualquer semelhança humana com Deus, porque Deus não cultua a si mesmo através de nós, das igrejas, das religiões. Nem louvação, nem adoração, nem oração, nos justificam, por si mesmas. Bajulação não nos justifica diante de Deus, embora imaginemos que podemos explorar a vaidade de Deus, enquanto reivindicamos uma graça barata e inconseqüente.

Os reformadores disseram: só Jesus Cristo, por si mesmo, nos justifica. Disse mais, K.Barth, interpretando-os: “Nunca deixes de afirmar: Deus é Deus! Mas não te contentes em pregá-lo, aprende a afirmar que ‘Deus é Deus em si mesmo, por si mesmo, com precisão teológica’. Ou seja, com toda a exultação que acompanha essa proclamação de fé e esperança de salvação”. De fato, o que mais queremos é um deus à nossa imagem e semelhança. Um Deus de quem se possa dizer: “é a nossa cara”! Mas o rosto de Deus é totalmente diferente do nosso rosto.

COM A INJUSTIÇA HUMANA FICA DIFÍCIL PERSEVERAR NA FÉ

Como se vê, em meio ao sofrimento da injustiça, para muitos crentes fica difícil compreender que orar, insistir, perseverar na fé em Deus (sem a presença de um regime comercial do tipo: “é comprando que se recebe”… é adorando, orando, louvando a Deus, dizimando, que Deus retribuirá o esforço humano), ter esperança, é algo muito importante para o Evangelho de Jesus, sobre a gratuidade de Deus.

A parábola da viúva insistente pode ajudar-nos a entender o papel do cristão e das igrejas, enquanto nos indicará como viver em oração desde a noite escura que impera neste mundo, especialmente quando se pode ver a injustiça na sociedade, na política, no cotidiano, tornando muito difícil, muito duro, crer num Deus que é “fraco”, aparentemente, que parece não intervir nas realidades dos homens e das mulheres, fazendo justiça e vingando imediatamente o oprimido. Sentenciando o opressor (Lucas 18,1-8: Incomodem os que podem julgar!). E então nos perguntaremos se nós mesmos, em nome de Deus, já representamos sua vontade nas reivindicações de justiça. Somos denunciados por nossa consciência, quando nos escondemos dos semelhantes, e do próprio Deus? E, finalmente, é ou não um erro absurdo, estúpido, comparar Deus ao juiz irresponsável, que só atende a quem o incomoda com sua insistência?

OS REFORMADORES ENSINARAM QUE SÓ A GRAÇA PODE PERDOAR A GANÂNCIA E TODO ESFORÇO PARA SUBJUGAR O DEUS REVELADO

O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, como dizia Karl Barth, transcendente, imutável, infinito, inominável. Deus que conhece o homem, porque também se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, em seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor…obrigado porque não sou como os pecadores”; não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como os que vivem a vida de fé em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade e do esforço humano, de subir até Deus com seus esforços de santidade e avivamento espiritual.

São tentações que afastam da comunhão com o Pai, enquanto nos ensinam a prática do toma-lá-dá-cá. Com Deus isso não funciona. A gratuidade de Deus é inexplicável, sem exigência de retribuição. É isso que aprendemos de Lutero e Calvino, quanto à gratuidade de Deus: “O justo viverá pela fé”! Tão somente pela fé. Mas que fé? Certamente a fé de que seremos salvos. E salvos de quê?, por quê?, para quê?

As respostas poderiam ser estas: a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às nossas necessidades pessoais, oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, e sempre dispostos a recorrer a um deus-quebra-galho, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé. A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido para que o Senhor nos livre do mal. Inclusive da presunção e arrogância. Antes, porém, devemos orar com fé, para termos a fé que o Senhor nos ensinou: Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Essa profunda convicção animou Lutero a, em 1517, pregar seus poderosos sermões sobre os salmos penitenciais, os quais despertaram interesse de tamanho imensurável, ainda durante a vida do Reformador. A mesma convicção manifesta-se na paráfrase versificada do Salmo 130: “Se considerares nossos pecados e nossas iniqüidades, quem subsistirá na tua presença?… Apelamos tão somente para a tua graça”.

A RECOMPENSA DA SALVAÇÃO É A PAZ INDESCRITÍVEL NA COMUNHÃO COM DEUS

Lutero, então, conclui: – “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. Deparamos sempre com o “diante de ti”, expressão que, sem negar diferenças relativas entre os valores humanos, indica a medida absoluta aplicável nas relações entre os homens e o Mestre soberano.

O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. Na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível (porque não merecemos) de Deus. Ele se reconhece objeto da graça: apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho, não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32). O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser o que é, totalmente Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação de nossa parte, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para torná-lo um deus-quebra-galho a nosso serviço (deus ex machina). Amém.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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5 respostas a A Reforma Protestante e Deus

  1. Derval Dasilio diz:

    Na tragédia grega, teatro precursor na Antiguidade, era comum uma encenação com a utilização de uma caixa no centro do palco, onde os atores representavam suas tragédias: a tragédia existencial humana. A encenação ia expondo as perplexidades diante do Mal, colocado de modo insolucionável… repentinamente saltava da caixa uma figura que apresentaria as soluções esperadas para a existência humana. Era o “deus ex machina”, que ousamos traduzir como o “deus-quebra-galho”.

  2. Pingback: KOINONIA - INFORME SEMANAL « Derval Dasilio - Escritos

  3. Igor Pires do Nascimento diz:

    É incrível como refletir sobre a Graça de Deus quando rememoramos a Reforma Protestante revela-se um assunto fonte de inesgotável consolo e ânimo na caminhada.
    Na sexta-feira que passou (31 de Outubro) pude ouvir da singularidade e da preciosidade da Graça de Deus numa palestra ministrada por Fr Clodovis Boff, em Nova Iguaçú num seminário promovido por teólogos católicos. O tema da palestra de Fr Clodovis foi “A questão de Deus hoje”. No final de sua palestra ele exaltou a beleza da Graça que nos alcança – Deus que vem ao nosso encontro a despeito de nossos pecados, e muito antes que o buscássemos.
    Agora que passou o dia da Reforma, é que me dou conta do quanto ele foi singular pra mim. No período da manhã ouvi um frade destacando a Graça como essência do Cristianismo, e à noite ouvi meu próprio pai (pentecostal assembleiano) testemunhando numa Igreja Presbiteriana sua vivência libertadora desta Graça em sua conversão, e no modo como Deus o tem fortalecido para enfrentar os desafios de uma doença.
    Agradeço a Deus por seu grande e gracioso amor, que é conreto, que encarna em nosso cotidiano, alimenta o espírito e o corpo, enche minha mente e meu coração, é uma fonte de renovada esperança em “novos céus e nova terra”.
    Um grande abraço Derval,
    Igor

  4. Josefa F Morais diz:

    A reforma protestante e Deus com certeza Deus que e Pai ficou e esta esternamente triste semelhantes o episodio da torre de babel, onde o egoismo, exclusivismo e a separaçao dos filhos de Deus entre contendas e distorçoes. Apesar de lerem a Biblia e saberem ate de cor nao conseguem ver nos ensianametos Biblicos que Deus esta chamando como ao filho Prodigo volte eu te amo. Quem ama a Deus ama ao Proximo e testemunha coma vida que Deus esta em nos e em nosso meio. Mais com toda essa divisao pecado que brada aos ceus, fica dificil. Resta refletir na Pesca que colhe peixes bons e ruins e os ruins sao jogado fora como tambem o joio e o trigo no Evangelho de Sao Mateus 13 que Deus Plantou boa semente e Diabo a semente ruim. Quem tiver ouvidos que ouça. Nao e o que agente diz mas o que Deus diz diz.

    • Anónimo diz:

      Josefa:
      Obrigado. Seu comentário é valioso, é preciso ler melhor a Bíblia. E entendê-la nas entrelinhas.
      Abraços,
      Derval

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