A ÁRVORE SEGUNDO O SALMO


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A ÁRVORE
“Como a árvore plantada junto às águas
que escorrem da Fonte da vida”.
Salmo 1

Quis homenagear Maria Lúcia, minha mulher, no seu aniversário. Então escrevi esta crônica: Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar, o eixo em torno do qual nos movemos internamente. Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, no entanto. Como negar que nosso corpo já começa a morrer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade. Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui.

Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho: será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos. Um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada. Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre-humanos, nos salmos e nos escritos sapienciais da Bíblia Hebraica. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento? Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno sujeito a deslizamentos destrutivos. O poeta construtor deste salmo traz inspiração para nossas vidas de caminhantes pelas ruas, dobrando as esquinas das cidades em que vivemos. Está preocupado com os sentidos das fontes cristalinas que nunca secam, borbulhando sabedoria que corre mansa sem preocupações com o tempo; fontes que dessedentam os viajantes peregrinos em busca do infinito, descontentes com o mundo imediato e suas paisagens devastadas pela destruição, pela violência do ser humano contra si mesmo. As imagens nos servem quando trafegamos em avenidas largas ou estreitas; ou andamos de metrô, ônibus ou automóvel; quando encontramos pessoas rindo ou chorando, cantando ou pedindo alguma coisa, nas praças, nas ruas destinadas aos camelôs ou ao comércio mais nobre das boutiques ou onde estão os shoppings centers. O que se vê é que as pessoas querem ser felizes.

As imagens bíblicas, poéticas, nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolo = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude. As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).

A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos. Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); abertos, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher.

Falando pelo que entendo, há valores importantes a serem considerados, quando somos convidados a observar a vida em busca da Plenitude e da Sabedoria. Isolados no egoísmo e na idolatria consumista, inclusive de religiões e variações eclesiásticas de mercado que se impõem nos nossos tão breves dias, nunca entenderemos o que Deus faz em nós… como faz da árvore bem plantada e ao mesmo tempo voltada para a totalidade da vida. Onde nos encontraremos com Deus? Diria mais: quem quer a verdadeira experiência de Deus não vai procurar templos ou museus, apenas contemplando os símbolos que ali estão, por mais belos que sejam. Quem quer encontrar Deus, em sua plenitude, vai buscá-lo na vida, no cotidiano. Também não custa trazer à mesa da comunhão os que chegam “de todo lugar que se tem pra partir”(Edu Lobo). Ou, de outro modo, percorreremos os caminhos que existem, iremos recebê-Lo nos lugares onde chegam homens e mulheres de todas as partes, de todos os lugares. Nas rodoviárias, nos portos e aeroportos da vida. Hoje é um belo dia para esse encontro.
Que é que você pensa? Estamos de acordo?

Derval Dasilio,

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a A ÁRVORE SEGUNDO O SALMO

  1. Diego de Souza diz:

    HEhehehehe…
    Lindo texto!

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