CRISTO LIBERTA PARA O GOZO DA VERDADEIRA LIBERDADE


pensadordesconfiado.jpg“Fiquem firmes e não se submetam de novo à escravidão” – Gálatas 5:1

Quando as referências que me dão não me bastam; quando pergunto quem cuidará de mim; quando as regras e obrigações religiosas não me amparam; quando se oferecem rotinas, rezas, orações, leituras bíblicas, ou quando preciso compartilhar os sonhos e as desilusões que tenho, sentimentos de fracasso, necessidades que tenho de realizar algum empreendimento, entre tantas coisas reprimidas constantes nos valores religiosos, quem me dará cobertura? É certo que necessito viver alguma coisa absolutamente nova e surpreendente, por exemplo. Estarei procurando um sentido fora da autoridade dos valores repressores da comunidade à qual pertenço, muitas vezes. As referências insuficientes, os conceitos, os métodos, os princípios, quando preciso buscar novas soluções para minha vida; quando preciso encetar novos empreendimentos, simplesmente estarei apontando para minha liberdade em Cristo. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso.

Por mim, digo que não sabemos viver sem a autoridade da religião, dos dogmas religiosos, dos fundamentos e da catequese das igrejas que nos ensinaram, a seu jeito, o que é seguir o caminho…. Nisso reside um grande prejuízo para o conceito evangélico do que é ser humano e ser cristão ao mesmo tempo.

Livres em Cristo, enquanto somos também crentes e cristãos num mundo onde a grande questão permanece, como viver a liberdade que o Evangelho ensina? Busco a Lutero, e ele me remete para o que Paulo escreveu aos Gálatas, povo que dá testemunho bíblico da salvação e da libertação no mundo gentílico: Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres… (…) fiquem firmes e não se submetam de novo à escravidão (Gálatas 5,1b). O risco é iminente: as castas espirituais, na comunidade, estão exigindo obediência a preceitos e valores religiosos em atrelamento ao passado recente, antes da experiência de Deus que os convertera à liberdade. Paulo lhes diz, ao jeito rabínico no qual fora treinado, que eles não eram mais filhos da Lei, dos preceitos, dos regulamentos religiosos, mas filhos do paizinho amoroso, carinhoso, cuidadoso (”Abba” quer dizer, como os baianos se expressam muito bem, Paínho). A imagem do Deus invisível, diz Paulo, é Jesus de Nazaré, um ser muito humano até as últimas conseqüências.

SOLIDÃO ÍNTIMA, PRIVACIDADE ESPIRITUAL

Esta solidão é essencial na experiência de Deus. As pessoas necessitam de espaço para viverem a sua humanidade, com calor afetivo, buscando amizades; com maior proximidade umas com as outras, enquanto conquistam espaços sem medo de serem felizes, de eventualmente até mesmo gozarem de solidão íntima, privacidade espiritual. Esta solidão é essencial na experiência de Deus. Nem o pastor, o analista, o companheiro ou a companheira; nem os namorados, ou os orientadores espirituais, podem penetrar nessa intimidade. Só o Espírito de Deus.

A pessoa que perdeu suas referências, que não encontra acolhida para compartilhar seus fracassos; que passa por rupturas de sentimentos, sentido-se como que num deserto sem bússola, depois de colocar seus valores de vida de cabeça para baixo, precisa encontrar um novo sentido para a sua vida em liberdade. A crise das mudanças, na família, no trabalho, no envelhecimento, na vida espiritual, deve ser sentida em profundidade, mas com esperança de ressurreição. É assim que Paulo fala do ser novo, em Cristo Jesus. Nasce uma nova criatura.

Carl Rogers usa termos bem significativos para nossas situações de crise. É preciso reconhecer que a liberdade é uma conquista enquanto se exercita a própria liberdade. Creio que isto está de acordo com o sentido da liberdade em Cristo, na liberdade para sermos humanos. Isso implica no reconhecimento de nossa finitude, de sermos seres que experimentam solidão, tristeza, remorso, revolta, cólera, impotência; somos pessoas que passam por crises existenciais, crises de saúde (lembrando especialmente os doentes terminais, ou os que não conseguem se locomover), inseguranças, sentimentos de falta de sentido nas relações com os outros ou com o mundo; que sofrem abalos sísmicos, terremotos, tempestades, furacões interiores, arrasando sentimentos internos de falsa segurança e derrubando estruturas espirituais frágeis.

Como sois tardos de coração…, disse Jesus (Lucas 24:25a). Cristo é o Libertador das nossas consciências oprimidas, para que estas sirvam a Deus e ao próximo, disse Dietrich Bonhoeffer. A consciência libertada confia no Espírito de Deus, que ensina a orar, quando não sabemos o que fazer diante dos dilemas de nossas vidas (Romanos 8:26). É assim que o crente responsável age, confiando em que a penumbra logo se tornará luz, quando a liberdade é exercida em obediência a Jesus Cristo.

A realidade é como um pontinho negro em busca de uma página branca. Logo se juntam outros pontinhos, e se forma a palavra liberdade. Pessoas infelizes têm medo à liberdade, querem-na, mas estão divididas, ou presas a falsas seguranças. Elas não estão em paz porque não estão inteiras. No hebraico, a palavra “shalom”, que normalmente traduzimos por paz completa, em todos os sentidos, quer dizer “estar inteiro” (Jean-Yves Leloup). Elas não estão em paz, estão divididas, porque têm medo de usar a sua liberdade em Cristo.

O mandamento é aquele revelado em Jesus Cristo, e este mandamento abrange a totalidade da vida, liberta para a totalidade do ser. Libertação para a vida é como se libertar para a responsabilidade da liberdade. Um movimento da ação libertadora do próximo; uma dinâmica de libertação do medo de decidir, de agir, em obediência a Cristo. Em Cristo, a liberdade se concretiza através da certeza, da calma, da ternura, da confiança, da ponderação e da paz. Sujeitos às referências religiosas, rituais, doutrinais e modelos sacralizados de valores cristãos, falsas seguranças, jamais experimentaremos a liberdade da fé. Paulo Freire disse com propriedade: “ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”.

Lutero (Da Liberdade Cristã), por causa desta posição, de que a verdade do evangelho chama à liberdade, encorajou-nos a enfrentar as forças demoníacas da opressão das consciências. Calvino, por sua vez, anos mais tarde, produziu os fundamentos para a resistência aos poderes deste mundo, religiosos ou não, afirmando a soberania de Deus sobre toda e qualquer autoridade, gerada de corporativismos e privilégios. Inclusive os religiosos. Esta posição tem libertado povos e nações… e pessoas. Diremos, também, que nos libertará da opressão da consciência que quer se impor em toda parte e em todo lugar.
 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a CRISTO LIBERTA PARA O GOZO DA VERDADEIRA LIBERDADE

  1. Rodrigo Borges diz:

    Caro Derval,

    Ler esse seu texto muito me ajudou.
    Abraços

  2. Igor Pires do Nascimento diz:

    Rev. Derval,

    Como o senhor consegue discorrer tanto sobre a liberdade cristã sem aprisioná-la a uma ou várias fórmulas?
    Cristo nos libertou para sermos simplesmente humanos?
    Preciso aprender muito sobre o valor da liberdade, e da dignidade que há em ser humano!

    Saudações fraternas.

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