COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO?


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Uma festa para a massificação do consumo está em andamento, e ao mesmo tempo se exibe uma falsa privacidade. Sobram migalhas para os excluídos, mesmo quando ostentam celulares com mp3 e vídeos no youtube do Netinho ou outro qualquer. Ninguém pode mais concordar com Hegel, um filósofo muito interessante. É uma pena! Dizia que “a privacidade nos ajuda a viver num mundo sem compaixão”. Hoje, esse conceito não funciona mais, para muitos não há mais um mundo privado para reflexão. De que vale a privacidade num mundo assim? As casas são invadidas com todos os consentimentos possíveis, dos escalões mais altos do controle social aos chefes de família que não sabem mais dizer se chefiam ou são chefiados. A cultura utilitarista predomina, e como objetos comprados, descartáveis, do tipo “use e jogue fora”, os valores de uma ética de partilha e solidariedade são atirados no lixo sem o menor pudor.Um mestre da linguagem simbólica, Witgenstein, filósofo de grande importância na pesquisa da linguagem, falava de testar a fidelidade de um jornal, por exemplo:“Deve-se ler vários jornais de uma só vez, examinando a mesma notícia”. Televisão e Internet são maravilhas do engenho humano, o problema, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos valores tradicionais sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro e a outra. Tudo é substituído por idéias voyeuristas que incluem o ser humano como mercadoria barata, além de afirmar isoladamente a falta de importância dos indivíduos.         

Karl Barth, considerado o maior teólogo da igreja cristã no século XX, calvinista, dizia em sua pregação: A Bíblia numa das mãos, o jornal na outra! Hoje, no século XXI, ele diria: um olho na Bíblia, outro na internet. O Orkut, que oferece uma comunicação extremamente superficial, onde uns poucos se esforçam por assegurar um mínimo de calor fraternal, é um exemplo disso. O grande valor da pesquisa interativa em tempo real, de fato, está em segundo plano, na internet.

As relações humanas como meio de preservar valores essenciais para a sustentação da vida coletiva, no entanto, são substituídas pelo sucesso individual. A voracidade pelo obsceno, a inveja, a ganância, o cinismo do “se dar bem”, com ou sem corrupção, tomam conta do cenário. Vivemos uma cultura sitiada pelo dinheiro, diz Jurandyr Freire, com exatidão. A própria expressão dessa frase irônica é admitida com cinismo, nesse assunto que não se quer discutir: “E daí, deixa de ser chato?” Alguns jovens, por outro caminho, nos perguntam. “E o que é que vocês, representantes do mundo maduro, adulto, têm para oferecer em lugar dessa realidade”? Têm razão, muita razão… um caminhão cheio de razões!

No Uruguai, ironicamente, uma prisão tem o nome de “Liberdade”, conta Eduardo Galeano. No Chile, nos subterrâneos da ditadura Pinochet, câmaras de tortura estiveram instaladas durante muito tempo com o nome “Colônia Dignidade”. Lembranças do tempo, como no Brasil, em que Vladimir Herzog, Paulo Wright, irmão de Jaime Wright, e muitos outros, conheciam os calabouços do autoritarismo, aprovado pela sociedade brasileira, e por religiosos católicos e protestantes, enquanto desapareciam nos porões da ditadura que dominou o país por vinte e um anos. Naquele momento, poucas décadas atrás, fórmulas de esterilização das consciências eram testadas nos porões do autoritarismo fascista. Hoje, “com açúcar e com afeto”, como diria Chico Buarque, máquinas para castrar e esterilizar as novas gerações estão na internet, e nos sites evangélicos, e no Orkut. Consciências artificiais, virtuais, declarando-se “avivadas”, “com propósito de servir a Cristo”, como dizem, comandam o mundo consumista dentro das igrejas. Computadores são máquinas de mentir, substituindo ou complementando a televisão.

Uma geração inteira encontra-se dopada, quando esta se encarrega de veicular os “novos valores”, sem nenhum controle. Molho de tomate (katchup), hamburguer, são alimento e sangue dessa nova cultura. Evangélicos abraçam o gospel como religião emocional. São inaugurados bares e boates gospel, para o compartilhamento cultural do novo jeito de ser evangélico. Jovens de outras tendências, possivelmente não-religiosos, extasiados, adeptos confessos da cultura rock, marcam os costumes das novas gerações com piercings, tatuagens, uso “quase livre” de drogas estimulantes, para vários fins, como os comprimidos de ecxtasy. Vale tudo, enquanto se convidam os jovens para esquecer a História, as lutas pela democracia e pelas liberdades civis, e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.Os rapazes e as meninas de nosso tempo acham que os direitos humanos conquistados com luta e sangue, muitas vezes, nada significam? As realidades ao redor não perturbam, pois ninguém lhes contou a história das escravidões, das consciências oprimidas, das imposições da cultura do capital, do individualismo contra a socialização das conquistas e dos bens econômicos e culturais. Breve, como nos cursos de sobrevivência na selva, os ensinamentos de sobrevivência na cultura urbana terão seu lugar garantido, ao que parece. Daí a máxima: só os mais fortes sobreviverão. Quem viver verá. (Derval Dasilio: Sobre Lobos, Demônios e Anjos).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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4 respostas a COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO?

  1. Isaque Góes diz:

    Olá
    Caríssimo Derval
    Gostei de seu texto por ser provocativo.Quando o li lebreu dos texto de Leonardo Boff sobre a compaixão e a ternura.È importante lembrarmos nosso povo sobre esses temas, relermos o sentido das palavras e dos ensinos cristãos através de uma criticidade que nos permita não cair no abismo do individualismo e da supercialidade….

  2. Derval Dasilio diz:

    Isaque:
    Justamente isso, Leonardo Boff.
    Leio muito sobre a espiritualidade
    cristã, a partir da compaixão e da ternura,
    como o mestre Leonardo tem ensinado. É seguramente,
    com Rubem Alves, uma grande inspiração. Foi através de
    sua leitura que entendi sobre o “Abba” de Jesus, que faz
    lembrar do Paínho, como gostam de dizer os baianos, cheio
    de ternura divina para com os irmãos de Jesus, que somos todos nós.
    As melhores respostas que temos, para os que só conhecem um deus
    irado e vingativo, são as de Jesus: Pai, perdoa as nossas ofensas!
    Muito obrigado por seu comentário. Ajude-nos, sempre. Você será bem-vindo. Abraços,
    Derval

  3. Pingback: COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO « Derval Dasilio - Escritos

  4. bruna diz:

    Ola li e adorei e espero ter aprendido um pouco com a sua explicasoes sobre o nosso pequeno mundinho e muitos nao entende o q deus esta nos propondo

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