GOSTAMOS MESMO É DE TIRAR VANTAGEM EM TUDO…


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Escrevi um livro destinado aos jovens cristãos (Sobre Lobos, Demônios e Anjos, em preparo), dele extraí os comentários cabíveis ao evangelho de hoje. Não se exige talento ou capacidade crítica das condições sociais da maioria dos jovens, nem visão dos problemas da exclusão, miséria, raízes que alimentam a violência, corrupção, crime organizado ou delitos aleatórios. O que lhes é apresentado, na maioria das vezes, é uma miragem: enriquecimento fácil e sucesso, fama meteórica com resultados financeiros garantidos, na maioria das vezes. Sobre o futuro, não há o que pensar? Bárbara Soares, analista interessada no problema, afirmava no Jornal do Brasil, há pouco tempo, que tudo que procura atrair o jovem envolve essa questão. Não há um futuro, há um presente oferecido na base do perder ou largar. Os que sobram ficam à mercê de outros apelos, como o abismo das drogas, das contravenções e do crime consentido. Um articulista de prestígio, Hélio Gurovitz, elogiava a famosa lei de Gérson num artigo na revista Superinteressante (n.197,fev.2004), dizendo: “Gostamos de levar vantagem. Alguém aí teria orgulho em viver numa nação de otários”? Reavivando essa tal “lei”, que foi muito discutida há duas décadas atrás, ela é inspirada na publicidade de uma marca de cigarro que o jogador, depois comentarista de futebol, Gérson, um dos líderes da conquista do Tri-Campeonato Mundial da FIFA, juntamente com Pelé, Tostão, Rivelino, fazia, com uma frase emitida entre baforadas do tal cigarro: “Gosto de levar vantagem em tudo”. Essa frase levou comportamentalistas, sociólogos, psicanalistas, teólogos, educadores, a escreverem centenas de páginas sobre o despudoramento ético sugerido na mídia.O mesmo Gurovitz, recentemente, reafirmava: “Somos mesmo uma nação de indivíduos que só pensam em si mesmos e só querem levar vantagem”. Para ele, o miolo da “lei de Gérson” é a essência do caráter dos brasileiros (Gérson fumava, no anúncio da televisão, uma determinada marca de cigarro, enquanto dizia: ..“o que eu gosto mesmo é de tirar vantagem…”, sugerindo que, fumando aquele cigarro, qualquer um se daria bem na vida). “Nossa gente”, prossegue Gurowitz, “vive uma tensão entre duas forças. Por fora a imagem, com toda a sua pujança, mais vale a aparência”. Comportamento moral impecável, retidão irrepreensível. Por dentro, porém, predomina a força da lei de Gérson, afiança o articulista. Na hora do vâmo vê ninguém escapa, tem que tirar vantagem, senão é otário. E conclui: “Há algum mal nisso, qual o problema, se podemos ser espertos e felizes”? Quedamo-nos pasmos porque somos parvos, diante da ética de Gurowitz.

Daí conclui-se que o oportunismo, mesmo quando inocente e sem prejuízo para terceiros, é aconselhável para alguém que pretende subir na vida. Que é que você acha? No discipulado de um seguidor de Cristo cabe tal prática de vida (e não estamos mais falando de fumar a marca propagada pelo craque da seleção)? Por mim, fico perplexo, boquiaberto, caio de quatro, acho que a definição de hipocrisia (duas caras, falso rosto, máscara que esconde o sujeito verdadeiro, como sugere o termo original da literatura dos gregos da antiguidade) cabe mais ao que aconselha ao oportunismo, e à esperteza, que à defesa de valores relacionais ainda presos ao compromisso com os outros e as outras. Num mundo onde se ensina o individualismo como virtude, dá licença divergir de quem aplaude a hipocrisia?

Então, vamos contar uma fábula, dessas que o Millor Fernandes escreve com tanta habilidade. Na capa de seu livro “100 Fábulas Fabulosas”, obra de fino humor e grande inteligência, se lê: “Muito tempo antes do homem se organizar em Estados (homo politicus), já existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso”.No momento em que escrevia essas linhas, três anos atrás, um político dos altos escalões do Congresso Nacional, batista, um dos pastores da “bancada evangélica”, hoje bastante desmoralizada, o mais votado no estado em que moro, cuja campanha foi desenvolvida com a frase religiosa: “Ele é um homem de Deus”, confessa publicamente que recebeu um valor que se aproxima de um terço do total declarado à justiça eleitoral, do crime organizado e bingos. Acusados pelo Ministério Público de “lavagem de dinheiro”, inclusive em sua companhia, deputados eram indiciados pelo uso de dinheiro em suas campanhas políticas. Certo de que não fez nada de mais, o tal político ainda reunia assinaturas no Congresso Nacional para abrir uma CPI para apurar a “corrupção política”; para “investigar” justamente as fontes pagadoras de grande parte de sua campanha. Por que seria? Denunciado mais uma vez, dois anos depois – como também participante e beneficiário na famosa “operação sanguessuga” –, teve todos os processos arquivados no Senado Federal…

Lucas 16,1-13 – Curiosamente, o evangelho narra a parábola como a do “administrador injusto”, em muitas versões (Lc 16,1-8). Mas a leitura atenta aponta a “natural corrupção” no mundo dos negócios. Vale para a política (mensalão, operação sanguessuga, por exemplo…). Uma espécie de justiça paradoxal: perdoar dívidas, corrigir desonestamente dívidas grandes ou pequenas, negociar favores, absolver acusados de atos desonestos… e o principal interessado, o patrão “prejudicado”, corrigida a situação, elogia o administrador “versátil”. O paradoxo vem a seguir, na narrativa: “… quem é desonesto no pouco é desonesto no muito!”(v.10b). “Se com dinheiro sujo não fostes confiáveis, quem vos confiará o legítimo”(v.11)? Uma interpretação do elogio ao pé da letra favoreceria magistrados que decretam habeas corpus para grandes e espertos criminosos, como Salvatore Cacciola, fugitivo da justiça, novamente preso em Mônaco? Favoreceriam senadores que acusam ou defendem seus pares, de acordo com as circunstâncias, acusados de corrupção, em nome do corporativismo nos partidos da situação ou da oposição? Vejamos:

Uma vez terminada a revelação sobre a misericórdia de Deus (Lc 15,1-32), Jesus tem agora uma instrução para seus discípulos sobre o ‘dinheiro’ (16,1-31). Segue a seguinte estrutura narrativa: “Era um homem rico…”. Trata-se de um homem bem-posto, claro, que tem um administrador corrupto. Este também é de família rica, pois não sabe trabalhar manualmente e lhe causa vergonha pedir. Quando fica sabendo que vai ser demitido, começa fazer acertos com os devedores de seu senhor. A segunda parte do versículo é uma reflexão do relator ou de Lucas. Chamo a atenção do leitor, porque muitas vezes este trecho da Bíblia é usado para “justificar” no Evangelho a corrupção sobre o uso do dinheiro e práticas oportunistas. E seus argumentos, seguidamente, acentuam um interesse exacerbado para o enriquecimento: ter dinheiro e usá-lo para “se dar bem”: “O Senhor é rico e nós podemos ficar ricos, também”! O que é legal, admitido socialmente, politicamente, permanece mascarando o que é justo, na verdade. Um político famoso, consagrando o dito popular …“rouba mas faz”!, deu origem ao termo “malufismo”. Julgue você que me lê.

Ao que devia 100 medidas de azeite cobra apenas 50. Ao que devia 100 cargas de trigo, cobra apenas 80. Como interpretar essa atitude? É um ato de corrupção como havia sido tudo o que fez anteriormente ou se trata agora de algo legal? Possivelmente fez algo correto, pois o que o devedor devia ao seu senhor eram possivelmente 50 medidas de azeite; as outras 50 seriam provavelmente a parte que lhe cabia na cobrança. O mesmo pode-se falar das cargas de trigo. Com esta atitude, o administrador conquista para si os favores dos devedores. Uma questão fácil que não cai no vestibular que você já fez ou pretende fazer. Seguramente. Super e sub-faturamento, lavagem de dinheiro, parece não ser questão que se estuda na universidade.

A conclusão nos deixa perplexos: “O senhor louvou a atitude do administrador injusto porque havia trabalhado astutamente”. O ‘senhor’ que aparece aqui não é Jesus, gente!, mas, sim, “o homem rico” (sujeito da parábola contada…), que é chamado assim por três vezes durante o relato. No versículo seguinte (9), sim, é Jesus que fala (!), e por isso começa com um “eu” enfático. O método aplica-se ao material narrativo de Lucas, aqui, como W.G.Kümmel escrevia (Introdução ao NT, Paulus,1982), no qual podem ser reconhecidas, com clareza, três formas diversas de narrações, nos evangelhos: relatos como o da cura do cego (Mc 8,22-26), nos quais o milagre e sua realização ocupam o centro da atenção e neles Jesus interessa apenas como taumaturgo (Dibelius chama-os “novelas”).

PARA A PREGAÇÃO

Nota exegética: Há, por outro lado, ainda argumentando com Kümmel, narrações, como a da cura do homem com a mão ancilosada, em dia de sábado (Mc 3,1-5), nas quais a pessoa de Jesus e sua posição em relação a Deus, à Lei, etc., desempenham papel decisivo (Dibelius chama-os “paradigmas”, isto é, exemplos de pregação; Taylor chama-os, com mais precisão, “pronouncement stories”), ainda analisando com Kümmel. Estreitamente afins aos paradigmas são os “diálogos polêmicos”, situações parodoxais, ambigüidades aparentes, cujo impulso inicial não é uma ação, e sim um argumento (Auseinandersetzung). Aqui também o mais importante é a opinião expressa por Jesus (por exemplo, a controvérsia sobre o divórcio, Mc 10,2-9). Por fim, encontra-se uma série de narrações que foram descritas como “mitos” ou “lendas”, tais como o batismo e a transfiguração de Jesus (Mc 1,9-11;9,2-9). Visto que essas designações nada têm a ver com a forma, a descrição neutra de Taylor é mais adequada: “pronouncement stories”, na presente narrativa. A classificação da tradição dos ditos levou a resultados menos ambíguos, pois com certa segurança podem ser distinguidos: parábolas e pronunciamentos de Jesus (por exemplo, Mc 4,3-8; ditos sapienciais, regra áurea: Lc 6,31; ditos proféticos: Lc 12,32; Mc 9,1; interpretações legais: Mc 7,15; ditos cristológicos: Mt 10 34).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a GOSTAMOS MESMO É DE TIRAR VANTAGEM EM TUDO…

  1. Derval Dasilio diz:

    LECIONÁRIO LITÚRGICO
    http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=24590823
    NOTAS NO SERVIÇO BÍBLICO LATINO-AMERICANO
    Domingo – 23 de setembro
    Evangelho: Lucas 16,1-13
    Vocês não podem servir a Deus e o dinheiro.

    Os fazendeiros, no tempo de Jesus, dificilmente podiam visitar suas próprias terras. Corriam o risco de ser sequestrados ou assassinados por seus escravos. Para evitar esses riscos, punham à frente de suas fazendas, administradores de toda a confiança. Várias parábolas de Jesus se refere a esses administradores e seu relacionamento tanto com seus senhores como com os empregados. De acordo com as circunstâncias, os administradores podiam juntar-se com os empregados contra o dono, ou ao contrário. Aqui nos encontramos com um administrador acusado de esbanjador. Desconhecemos quem o acusou. Parece não interessar para a finalidade do relato.

    O que chama a atenção aqui é a astúcia do administrador para enfrentar a situação; a aliança que faz com os devedores, embora para isso recorra a métodos nada santos. Mas o senhor se admira de seu procedimento: Os filhos deste mundo são mais prudentes com seus semelhantes do que os filhos da luz. Os filhos da luz são aconselhados a agir com a astúcia dos filhos do mundo, mas não para “as coisas” dos filhos do mundo, mas para as do reino de Deus.

    Assim como o administrador conseguiu amigos com as riquezas de seu senhor, assim também a comunidade cristã ganhará “as moradas eternas” administrando fielmente a riqueza que possui: o reino de Deus.

    Jesus toma como modelo de vida cristã um administrador corrupto. Aqueles que administram o reino de Deus podem aprender com aqueles que administram as fazendas. Sua capacidade negociadora é digna de admiração. Assim também os que administram o reino de Deus terão que fortalecer e desenvolver suas múltiplas capacidades. O que não pode se admitir, no procedimento cristão, é administrar o reino de Deus com a astúcia dos filhos do mundo para as “coisas” dos filhos do mundo. Não podemos pôr o reino de Deus a serviço da injustiça, da corrupção ou do enriquecimento.
    Tampouco podemos admitir que os filhos do mundo acorram ao reino de Deus para fazer dele suas próprias “coisas”. Não se pode servir a dois senhores. Ou se serve a Deus, ou ao dinheiro.

    Pelo mesmo motivo, o profeta Amós denuncia veementemente aqueles que, pisoteando os pobres e arruinando os humildes da terra, desejam festas religiosas para fazer negócio com elas, fraudando e explorando os fracos. São muito religiosos mas é para enriquecer com a religião. Este procedimento Deus não esquece; detesta-o (Amós 8,4-7).

  2. Pingback: ARQUIVOS E REVISÕES TEOLÓGICAS

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