SÁBADO: MEMÓRIA DO LEGALISMO E DO PRECONCEIT0 CONTRA MAIORIAS E MINORIAS


mao-e-cruz-animation.JPGÉ sábado, a vida continua, os que estão saciados não percebem, mas os que têm fome continuam famintos (Marcos 2,23- 28;3,1-16). O sábado era uma das observâncias mais importantes no judaísmo, uma certa nitidez que se exigia para distinguir o judeu do pagão. A autenticidade aparente, sem dúvida, era mais exigida que a convicção religiosa interna. Aí, viver como o pagão não significaria algo tão importante. Por exemplo: no uso do dinheiro; nas relações de trabalho explorando compatriotas; no oportunismo político dos dirigentes no tráfico de influência; na crucificação de judeus rebeldes ao regime imperial; na eqüidistância quanto aos compromissos e responsabilidades sociais para com o povo, coletivamente. Ao contrário, a violação do sabbah era motivo até para a pena de morte (“Saíram pensando em matar Jesus…”, cf. 3.6). Os regulamentos exigiam que certas atividades não poderiam ser exercidas durante o sábado, mais exatamente: trinta e nove artigos regiam “o que não deveria ser feito durante o sábado”, inclusive preparar alimentos para comer, no judaísmo contemporâneo do evangelista Marcos.

Esfregar espigas para comer, mesmo que depois do “horário regulamentar”, era considerado uma infração. O sábado adquiriu seu real significado na época tardia intertestamentária. No judaísmo pós-bíblico tornou-se preceito indispensável. A história do “sabbah”, no entanto, começa com a importância que o escrito sacerdotal (P) lhe dá desde o Gênesis, na Bíblia. Muitos dos preceitos sobre o “sabbah” são heranças cananitas, e outros tantos do mundo babilônico. O sábado foi “sabattu”, tabu referente a algum dia, no passado remoto, como era tabu acender fogo. Um dia de tabu é sempre contrário a um dia festivo, que é repleto de alegria, mas também comemorado em locais sagrados. Experimentar a presença cultual de Deus sob formas repressivas é influência pagã na religião de Israel. O mundo babilônico também conhecia o “sab/pattu”, o dia de lua cheia, relacionado ao tabu do “sabattu” (Gunneweg, Teologia Bíblica do Antigo Testamento e Imschoot, Théologie de L´Ancien Testament). Confirma-se a influência estranha do paganismo vizinho. É religiosa , essencialmente.Hoje, poderíamos falar do legalismo religioso enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo: “Saíram pensando em matar Jesus…”, quando constataram a desobediência profética do Homem de Nazaré.

Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas evangélicas. Já contei antes, porque ouvi de outro: Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo europeu, britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu a observação numa placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã, parece, embora impressionado pelo Evangelho. Não há notícias, da época, sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à causa de Gandhi, exceto um pastor anglicano que o acompanhou por muitos anos, desde a África do Sul.

O legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo, entre cristãos. A palavra “eqüidistância”, no entanto, é bem freqüente entre evangélicos, quando está em questão alguma luta libertária, em qualquer parte do mundo. Exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o evangelicalismo fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, em clara manifestação racista fundamentada supostamente em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”, como diziam os cristãos que reagiam contra a cessão de direitos iguais para todos os cidadãos e cidadãs negros, a favor do apartheid que ainda existe na sociedade norte-americana (cf. Crash, roteiro e direção de Paul Haggis). Nelson Mandela passou anos na prisão, em razão da defesa de causa semelhante, na África do Sul.

Onde está a Igreja ou o cristianismo oficial sob o legalismo evangélico ou protestante, nestas situações de opressão, discriminação e exclusão? Logo se declara eqüidistante, no mais das vezes. Quando não se omite inteiramente. Quantas vezes as igrejas estiveram ao lado das ditaduras, especialmente na América Latina, quando igrejas e organizações “cristãs” se diziam eqüidistantes, tratando de sufocar lideranças na resistência ao autoritarismo militar, denunciando irmãos ao aparelho repressor do Estado, como ocorreu com o pastor Jaime Wright e seu irmão, presbítero Paulo Wright (este, preso, torturado e morto pela polícia política da ditadura militar que subjugou o Brasil por vinte um anos; Jaime Wright, pastor presbiteriano líder na luta pelos Direitos Humanos durante a ditadura militar, morreu deprimido e desgostoso, alijado pela igreja a quem servira por vários anos)? Os nomes são apenas alguns entre inúmeros exemplos na Igreja sob a ditadura militar, como os do presbítero Waldo César e do pastor Zwínglio M. Dias. Não nos impressiona a posição sistemática, histórica, do protestantismo brasileiro em favor da repressão política e religiosa.

Hoje, a luta das minorias sexuais, a integração indígena com indenizações cabíveis ao holocausto imposto, que dizimou, talvez, 3.500 milhões de nativos, fazem parte do inconsciente preconceituoso que nos toma a todos.
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Derval Dasilio

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2 respostas a SÁBADO: MEMÓRIA DO LEGALISMO E DO PRECONCEIT0 CONTRA MAIORIAS E MINORIAS

  1. Aw, this was an extremely nice post. Finding the
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      Derval Dasilio

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