Teólogo católico-romano toma posição diante do documento do Vaticano


Teólogo católico-romano toma posição diante do documento do Vaticano.
Adital – 03-Ago-2007

Jung Mo Sung (www.aprendaki.com.br)

Bruno Rogério Almeida Paixão, estudante de Teologia no Centro de Formação Teológica R.Shaull, da IPU, enviou-me este artigo:

Em artigo publicado pela ADITAL – Agência de Informação Frei Tito para a América Latina, o teólogo leigo católico-romano Jung Mo Sung reage ao Documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, segundo o qual só a Igreja católica Romana é plenamente a Igreja de Cristo, afirmando que “se gastarmos muito tempo e energia discutindo estas questões, estaremos caindo na ‘armadilha’ – armada consciente ou inconscientemente – pelos proponentes do documento. Isto é, estaremos seguindo a pauta colocada pela Sagrada Congregação”.

Jung Mo Sung é professor no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e autor de vários livros. Considerando-se um “teólogo da liber-tação”, o prof. Mo Sung cita o teólogo metodista Julio de Santa Ana, ao dizer que “(…) a Teologia da Libertação tinha começado o seu declínio quando passou a discutir mais sobre a Igreja do que sobre Deus e o seu Reino”

“Se o debate a partir ou em torno do documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé ficar focado na discussão sobre Igreja, estaremos perdendo de vista o que é fundamental para o cristianismo: o anúncio do Reino de Deus e a luta em favor dos pobres e das vítimas de dominações e opressões”, afirma o Teólogo, ressaltando que “é claro que precisamos também debater questões sobre as Igrejas cristãs, mas sempre em função da nossa missão de anunciar o Reino”.

Veja a seguir o texto completo de Jung Mo Sung publicado pela ADITAL:

“A armadilha da discussão sobre a verdadeira Igreja
Qual é a questão fundamental em jogo na afirmação da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, da Igreja Católica Romana, de que só a Igreja Católica é plenamente a Igreja de Cristo? Eu penso que não é a discussão sobre qual é a “verdadeira” Igreja de Cristo ou qual é o verdadeiro sentido do conceito “subsiste” na afirmação do Concílio Vaticano II de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica. Como também não é a dificuldade que este tipo de documento traz para o diálogo ecumênico.
Estas duas questões são importantes, mas, na minha opinião, não são fundamentais e não devem se tornar o ponto central das nossas reflexões e dos diálogos neste momento histórico. Se gastarmos muito tempo e energia discutindo estas questões, estaremos caindo na “armadilha” – armada consciente ou inconscientemente – pelos proponentes do documento. Isto é, estaremos seguindo a pauta colocada pela Sagrada Congregação.

Apesar de serem importantes reflexões sobre o sentido do “subsiste” (e aqui eu quero destacar a reflexão feita por L. Boff, “Quem subverte o concílio: L.Boff ou o cardeal J. Ratzinger?”, que está circulando na Internet), precisamos nos lembrar que a verdade (teológica ou não) não é prisioneira só da ignorância, mas sim da injustiça e do pecado (cf Rom 1,18). Se a ignorância fosse a única causa da não-verdade, uma boa discussão iluminaria a todos no caminho da verdade. Mas, as verdades teológicas, éticas e existenciais são, na maioria das vezes, prisioneiras da injustiça, da vontade de dominação e prepotência. Pessoas e grupos que buscam a dominação sobre o outro ou a sua auto-afirmação através da negação do outro “conhecem” de modo diferente das pessoas e grupos que buscam a cooperação e o diálogo em torno de problemas comuns e com o objetivo de convivência fraterna.

O mais importante neste momento histórico também não é reconstruir a unidade institucional do cristianismo, pois o objetivo principal do diálogo ecumênico não é este. Aliás, eu penso que sociologicamente falando a criação ou reconstituição de uma única igreja cristã no mundo não é factível; e teologicamente isto seria um grande empobrecimento. A multiplicidade e a diversidade das igrejas e comunidades cristãs são expressões da riqueza e complexidade das ações do Espírito no meio de nós. A unidade – espiritual e não institucional – deve se dar em torno do serviço aos pobres, na luta pela construção de novas relações inter-pessoais e sociais que sejam sinais da presença do Reino de Deus entre nós.

Se o debate a partir ou em torno do documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé ficar focado na discussão sobre Igreja, estaremos perdendo de vista o que é fundamental para o cristianismo: o anúncio do Reino de Deus e a luta em favor dos pobres e das vítimas de dominações e opressões. É claro que precisamos também debater questões sobre as Igrejas cristãs, mas sempre em função da nossa missão de anunciar o Reino. Discutir questões eclesiológicas desvinculadas do Reino de Deus e da opção pelos pobres é cair na armadilha daqueles que querem fazer da Igreja o tema central e assim colocar em segundo ou terceiro plano os clamores dos pobres e das vítimas. Concentram-se na discussão sobre a Igreja “em si” as pessoas que perderam do seu horizonte de fé o Reino de Deus e, por isso, não lhes resta outro caminho senão buscar a segurança pessoal na absolutização da instituição religiosa a que pertence.

Eu me lembro de uma lição que aprendi do meu professor Júlio de Santa Ana. Ele me disse uma vez que a Teologia da Libertação tinha começado o seu declínio quando passou a discutir mais sobre a Igreja do que sobre Deus e o seu Reino. Um outro mestre meu, Hugo Assmann, também havia me dito que um dos problemas da TL é que ela tinha se tornada demasiadamente católica, que os problemas internos institucionais da Igreja Católica estavam se tornando um assunto central em muitas reuniões e textos de teólogos/as da libertação, enquanto que as reflexões teológicas ligadas e nascidas dos desafios das lutas pela vida e dignidade dos pobres e vítimas estavam perdendo o espaço.

Para evitar mal-entendidos sobre esta minha posição, eu quero dizer que nasci em uma família católica (os meus pais receberam o sacramento do batismo na Coréia do Sul enquanto a minha mãe estava me esperando), fui formado religiosamente como católico, continuo católico e me considero um teólogo da libertação. Foi lendo e meditando os mestres espirituais do catolicismo que aprendi que o mais importante é seguir a Jesus no amor e compaixão pelas pessoas que sofrem e, por isso, lutar por uma sociedade mais humana e justa. Aprendi também que a salvação eterna não é uma garantia por pertencer à “verdadeira Igreja de Cristo” e nem por ter lutado em favor dos pobres, mas sim uma graça que esperamos de Deus. Aprendi também que só abdicando da certeza sobre a nossa imagem de Deus ou a nossa Igreja ou religião podemos evitar a idolatria e viver a fé”.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a Teólogo católico-romano toma posição diante do documento do Vaticano

  1. Derval Dasilio diz:

    Por favor. Poste aqui sua opinião.
    Este teólogo ecumênico é um dos meus preferidos.
    Seus trabalhos no campo da Ética são muito importantes.

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