O SOFRIMENTO QUE REFINA A FÉ


Buscar a felicidade sem sofrimento, todos querem. Mas será possível? Por outro prisma: é possível ser feliz sem sofrimento? O Evangelho contraria quem pensa assim. Paulo dirá: “Alegramo-nos, também, nos sofrimentos” (Romanos 5,3-5). Jesus Cristo inaugura novo pacto entre Deus e os homens. Seu evangelho é boa nova também diante do sofrimento. É impossível imaginar Jesus sem Seus padecimentos. De fato, “o Evangelho começa onde termina o livro de Jó” (Hans Küng). Mas sua resposta, esta sim, é paradoxal e assombrosa: “A grandeza extrema do cristianismo provém do fato não buscar remédio sobrenatural contra o sofrimento, e sim no uso sobrenatural do sofrimento” (Simone Weil).

É somente pela ótica da fé que cabe contemplar a dor, não como inimiga, mas enquanto a possibilidade terrível, mas sempre útil, de despertar nossa verdadeira condição. E diante de Deus restaurar a plenitude de nossa vocação mais verdadeira. A conseqüência imediata da percepção do sofrimento à luz do evangelho é seu valor pedagógico: “O sofrimento como fonte de saber”, Simone Weil escrevia. Sua perplexidade acontecia face à perseguição e o extermínio pretendido de uma raça inteira, nos antecedentes e durante a Segunda Guerra Mundial: os judeus.

Ou então, dito de forma mais abrangente: “Sem sofrimento, não há sabedoria” (Larrañaga). Como se diz em inglês, do sofrimento se pode sair bitter ou better, “amargurados” ou “melhorados” e aperfeiçoados em nosso ser. Ninguém em sã consciência daria como bom a dor masoquista, mas em meio a uma comunidade pusilânime, que concebe a dor como mal-em-si-mesmo, fugindo dela custe o que custar, não é exagero recordar o fato de que o sofrimento desperta o homem de seu comodismo e o força a pôr em jogo o mais próprio e oculto de si. “Sofro, logo, existo” (Miguel Unamuno). É impossível imaginar o Deus-Homem que não sofre, solidário a todas as dores do homem e da mulher. A ressurreição do Senhor reflete a vitória contra o sofrimento e a dor.

Essa vitória paradoxal se manifesta em múltiplas expressões. Num sentido profundo e difícil de ser comunicado fora da linguagem da fé, o cristão aceita seu sofrimento fazendo seu o testemunho do apóstolo Paulo: “Completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo, por seu corpo, que é a Igreja” (Colossenses 1,24).

A Bíblia insiste, sobre os efeitos terapêuticos do sofrimento, no cristão, por mais que em si mesmo nunca seja recebido com agrado; “refina a fé” (Pedro 1,5-7), “contribui para a maturidade” (Tito 1,2-4), “permite expor as obras de Deus” (João 9,1-3), “(com)forma o homem à imagem de Cristo, que tudo sofreu” (Romanos 8,28-29), “produz firmeza de caráter verdadeira” (Romanos 5,3-5).

Como verdadeira descarga vital, a dor sacode qualquer adormecimento, fulmina a imaturidade e leva o homem e a mulher freqüentemente a níveis muito mais profundos de compreensão de si mesmos e do mundo. De onde a força da declaração cristã: “Qualquer sofrimento integrado em Cristo perde a sua desesperança e até sua própria fealdade” (Emmanuel Mounier). Somente a fé vital, pessoal e dinâmica em Deus tornará possível a fecundidade pedagógica da dor:”Alegramo-nos também nos sofrimentos, conscientes de que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência consolida a fidelidade, a fidelidade consolidada produz a esperança, e a esperança não nos engana…” (Romanos 5,3-5). Até mesmo a maior dor pode ser assumida, se for “provida de sentido”; muito pior que a pior das dores é sofrê-la sem propósito que a dignifique.
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Derval Dasilio

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