A LONGA NOITE DA OPRESSÃO




“Em minha angústia te busco, Senhor. Meu espírito indaga”.
Salmo 77.

Um preâmbulo é necessário: A memória nostálgica e aguda fere como uma canção de exílio dentro da alma; um espírito indagador reclama da tragédia presente, talvez do desterro em país distante, como na Babilônia. Poderia ser Castro Alves: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…” Parece ser uma grave situação nacional, um povo vitimado por um poder imperialista, que impõe um modo de pensar sobre povos dominados. Uma noite escura tenebrosa, para os que esperam no Senhor. Parece-nos bem familiar, essa escuridão, nos dias de hoje, sob um fundamentalismo cultural e religioso que se impõe ao mundo inteiro.

E o que falar da liberdade? Suas diretrizes, apossando-se sem piedade do espírito de muitos povos, e de muitas pessoas. Aqui, o poeta reclama do “roubo” da alma nacional dos hebreus no exílio. O povo de Deus é vítima indefesa da opressão, da usurpação de sua vida, de sua religião e fé. Hoje, vivemos uma longa noite de opressão cultural globalizada, e o evangelicalismo salvacionista endossa o cativeiro cultural, seja na religião ou no domínio político, bajulando os dominadores. Também estão roubando a alma do protestantismo autêntico. E procuram matar a esperança, polarizando as forças do caos e a ordem, a civilização e a barbárie. Não há alternativa possível, nessa lógica, ao medo da escuridão da noite de Bush, e seus comparsas evangélicos, fundamentalistas, propositistas, triunfalistas?

É uma oportunidade de expressar um vigor espiritual profundo, se realmente existe, no examinar da intervenção de Deus. Ele, o Senhor de Israel, agiu no passado. A conclusão, portanto, é que o ato libertador é possível no futuro próximo. Isso tudo é uma manifestação de vida interior, de experiência de Deus, no presente e sempre, na vida do fiel, na experiência dos homens e das mulheres! Nossas igrejas deveriam esperar e lutar pelas transformações com mais empenho. Como Isaías recomenda: “Preparando o caminho do Senhor”. Isso é impossível de se fazer e de se esperar sem que se abandone a mercantilização de tudo. Desde o sexo, passando pelas armas de destruição, até o próprio “Espírito Santo”, vendidos a granel. A exacerbação de todos os instintos, a erotização de todos os produtos, inclusive os religiosos, não inspiram mais que a regressão espiritual aos níveis mais primitivos?

Dietrich Bonhoeffer, mártir da história recente da Igreja de Cristo, nos lembra a oração da Igreja Antiga para a noite de repouso, que os Pais ensinavam: “Que Deus permita que enquanto dormem os olhos, o coração esteja desperto para Ele”. Mas há quem durma ingenuamente enquanto o perigo avança. Firma-se na falsa segurança de suas obras. Sempre se soube da afinidade do sono com a morte. Não é mais nada o que o salmista pede, quando, por fim, quando fala o que nenhum outro poeta bíblico falou: “Não ficava um rastro de Tuas pegadas, enquanto guiavas teu povo (através do mar).” Os antigos tinham a consciência, ainda, dos demônios da noite, do desamparo do ser humano durante o sono. Resta-nos reconhecer as “pegadas de Deus” na noite da história. De olhos bem atentos. Jesus andou nos caminhos da aflição, da angústia e do desespero dos oprimidos. Deixou suas marcas no passado, mesmo invisíveis para os que não têm fé? E na noite presente, como veremos as Suas “pegadas”? O clamor do salmista lembra os versos de Pablo Neruda, (“Vem para perto de mim,/ Mesmo que venhais com uma faca / para me ferir ./ A noite é longa, muito longa”). Agora fala o poeta bíblico, por si e por sua gente: “De noite repito minha canção, / medito nela ‘por dentro’ (no íntimo) / meu espírito indaga: / Será que o Senhor nos rejeita e não voltará a favorecer-nos (com a libertação e o êxodo)”?

O Deus do salmista é reconhecido na história dos homens e das mulheres, como no livro de Atos dos Apóstolos: “Ele entrava e saía, no meio de nós…” Os discípulos de Emaús voltavam desconsolados e entristecidos, no caminho de volta. O Mestre morrera como o Mártir da causa do Reino de Deus. Nem perceberam que Ele caminhava a seu lado, ressurreto e disposto a comer com eles a refeição do Êxodo! “Cai a tarde, a noite está chegando, fica conosco, Senhor…” Em casa, em torno da mesa da comunhão, reunidos em ação de graças, Ele partiu o Pão… e os discípulos o reconheceram, enfim: “Ele está no meio de nós!” (Lc 24,28). A comunhão do amor, dos bons, dos que sonham com o Reino de Deus, também se faz dentro da noite!

Antes, já reconhecera o poeta bíblico que não poderia “dormir” (v.5), porque o Senhor não deixava: “Eu te recordo, tu me desvelas com ‘olhos vigilantes’”. Lembro-me, aí, de Lutero, que recomendava: “Enquanto dormem os olhos, que vigiem os corações”. O hebreu tem no coração a sede dos sentimentos e de todas as percepções. O jovem Samuel, de sono perturbado, na longa noite, dizia: “Fala, que teu servo ouve” (1Sm 3,10). Há jovens, ainda, que querem ouvir a voz de Deus chamando-os para profetizar contra a sonolência geral?

Berthold Brecht, dramaturgo alemão, narrava, numa de suas peças que criticavam a ideologia nazi-fascista: “Eles chegaram na calada da noite, invadiram nossos jardins, pisaram nossas flores… não dissemos nada. / Entraram em nossas casas, comeram nossa comida… não dissemos nada! / Dormiram em nossas camas e vestiram as nossas roupas… não dissemos nada! / Por fim, estupraram nossas filhas e violentaram nossas mulheres… e porque não dissemos nada, agora, nada podemos dizer”.
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Derval Dasilio

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