SEM VERGONHA DE SER FELIZ


Sem vergonha de ser feliz
“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13)
“Faz escuro, mas eu canto…” (Lutero)

No coração do evangelho de Lucas podemos concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus (um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido,o pródigo, para homenageá-lo com a Graça, em festa e grande alegria; sugxárete moi =alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito). “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz…”, poetas e cantores proclamam a alegria de viver (Gonzaguinha). Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética da do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, no desejo do bem, na felicidade e no prazer de fazer o bem.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Ética a Nicômaco, e Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinaram que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13).

Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranqüilo e seguro, sem ganância de poder, nem pensava numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “A ira de Yahweh dura um momento, e seu favor pela vida inteira”. Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria (Sl 30,6). O mais alto ideal cristão está aqui: a felicidade, a bem-aventurança eterna. Deus cuida de seus filhos e filhas através de nós. Sejamos felizes por isso.

A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina” que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, como nos lembra um ensinamento budista. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da potência, da sabedoria, buscamos ser felizes (Luiz Carlos Susin). Dificilmente alcançamos esse fim, no entanto. A manhã nunca chega, por esses meios.

O que desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o “ser abstrato em si mesmo”. O que queremos mesmo é sempre ser “felizes”. Concretamente. Dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o humano na sensação positiva da vida em gozo pleno: Um “cristão” pode e deve ser feliz com a música e as artes, a beleza, por exemplo? “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser massacradas e desaparecer”, queixava-se Lutero do iconoclasta Zwínglio, reformador suíço que proibira instrumentos musicais, arte lírica ou cênica, e paramentos litúrgicos no templo. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra… Lutero poderia ter pensado.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, inclusive, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que é, já, um esboço do que vai ser o “homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora”, como dizia William Blake, o poeta inglês. Tantos conteúdos da “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambigüidade de todos nós, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto!

Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa amada. Mas são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Luiz Carlos Susin disse isso. E eu assino em baixo.
Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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3 respostas a SEM VERGONHA DE SER FELIZ

  1. Anderson diz:

    Realmente Derval devemos ter como uma premissa em nossas vidas a frlicidade de sabermos viver e cada dia mais celebrar essa felicidade em nossas vidas!!!

    • Derval Dasilio diz:

      Isso, irmão. Sempre celebrando o
      privilégio da fé e da esperança, num
      mundo sem sonhos, sem compaixão.
      Solidários,
      sempre,
      Derval

  2. salem cury diz:

    Prezado Sr. Derval Dasílio.
    Realmente, não haverá prazer real, não haverá paz verdadeira se nos faltar alegria. É o que buscamos em nossa intensa jornada na terra. Por vezes somos atingidos por situações que testam nossa fé. Então, em algumas delas, literalmente não nos resta mais nada. Nessa hora, se não encontrarmos a felicidade que tanto sonhávamos, seremos derrotados. Seu artigo me faz refletir. Renova minhas esperanças de enontrar, de novo, a alegria de viver. Abraços. Salem.
    RESPOSTA:
    Obrigado, Salem. É parte da nossa vida
    de fé compartilhar o gosto de ser éticos, compassivos, cuidadosos com nossos irmãos e irmãos, sejam próximos, sejam distantes.
    Ser cristão ou cristã é uma felicidade insubstituível.
    Paz e Bem,
    Derval

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