NOSSOS ANIVERSÁRIOS SÃO CURVAS PERIGOSAS


Amigos. Um aniversário é apenas mais um aniversário. Mas é um aniversário. Reflitam comigo. Leonardo Boff ajuda-me a compreender: “O ser humano concreto é a coexistência de duas curvas, unidade tensa e dialética, jamais adequadamente equilibrada. Por um lado, centra-se sobre si mesmo, no intento de conservar sua carga energética (vida biológica), vivendo o mais longamente possível. Por outro, descentra-se de si mesmo indo ao encontro dos outros, podendo assumir a perspectiva deles (os outros) até em contradição com seus interesses pessoais (vida ética). Somos uma unidade tensa e difícil, irredutível, como em duas curvas. O ser humano não tem um corpo, ele é um corpo, uma realidade indefinível. Uma parte do meu ser, meu eu, percebe que nem eu mesmo sei quem sou, na totalidade. Mas eu sou meu corpo, estou no mundo, sou parte do mundo. Sei disso porque uso a inteligência, penso sobre mim mesmo. Sei também porque tenho vontade, necessito atender a necessidades interiores e exteriores. Mas, pelo coração sou capaz de habitar nas estrelas e buscar os confins do universo e o que está para além dele”. Quem sabe nosso grande companheiro nas reflexões sobre o ser ainda nos ajude mais?

Agora reflito eu. A vida está em si, mas também, e permanentemente, fora de si, nos outros, no mundo, nas estrelas, desde o coração de Deus. E esse crescimento na compreensão das coisas, na vontade de entrar em comunhão com elas, na busca da perfeição, do belo e do virtuoso, não tem limites nem fim. Podemos crescer indefinidamente? As realidades humanas não padecem barreiras? Essas duas curvas nos instigam… e atormentam. Uma delas com princípio e fim, tendo o paralelo ao horizonte físico e humano.

Certo. Mas a outra é infinita, possui um raio vertical apontando sempre para cima, enquanto se reinicia outra elipse, como uma sucessão de um “s”superposto seguidamente. Cada vez que uma curva termina outra se inicia. Elas, tendencialmente, podem crescer mais e mais. O céu é o limite do ser. Céu é plenitude. A segunda curva, porém, é transcendental, vai nascendo até acabar de nascer … e nasce de novo cada vez que termina. Um reinício constante na direção da plenitude. Uma dialética incrível, contudo, é a nossa vida, porque a referência inevitável é o horizonte da nossa humanidade. Curvas que podem ser perigosas, não é verdade? Parafraseio Vinícius: “São demais os perigos dessa vida…”

A curva biológica quer elevar-nos como um corpo que compartilha no espaço a presença de outros corpos, enquanto dialoga com eles. Porém, chegamos ao ápice das energias que acumulamos, no universo físico e seus determinismos, e vamos decrescendo até acabar de morrer. Voltamos à linha do horizonte. De fato, não sei onde estou. Fernando Pessoa pode me ajudar? “Entre o que vejo de um campo e que vejo de outro campo, passa um momento uma figura de homens. Os seus passos vão com ele na mesma realidade, mas eu reparo: O “homem” vai andando com suas idéias, falso estrangeiro. (…) Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo, a sua verdadeira realidade …” E corto aqui para não estragar. Até outra hora.

Obrigado por suas lembranças. Lembrar-me-ei de vocês, se puder, quando na última curva completar a caminhada comum na direção dos nossos céus. Quero compartilhar meus anos com vocês, certo de que a fraternidade que nos une, juntada aos mesmos sonhos de plenitude, nos levará cada vez mais à proximidade das estrelas e do que está além delas. Com a Graça de Deus.
Derval

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a NOSSOS ANIVERSÁRIOS SÃO CURVAS PERIGOSAS

  1. Derval Dasilio diz:

    Agradecido pelo comentário do grande amigo e colega rev.Cláudio Soares, da IPU de Brasília – Presbitério Erasmo Braga, faço a postagem para que não se perca no tempo. Obrigado, mais uma vez.

    “Querido Derval
    Paz e Bem!
    Li e reli a sua reflexão “Nossos aniversários são curvas perigosas”. Como você sabe também sou de julho (17) e ao lê-la lembrei-me de uma das perguntas de brincadeira feita pelas crianças quando iniciam seu estudo do Talmud, a saber: Por que a Tanakh inicia-se com a letra beith e não com áleph? Quero, como biblista, buscar alguma resposta. A letra áleph é uma consoante sem som, impronunciável. Segundo a kabaláh, trata-se do silêncio da nossa origem. Segundo Heidegger nos movemos entre dois silêncios: o silêncio da nossa origem e o silêncio da nossa chegada. Deve ser por isso, que Inácio de Antioquia afirma ser o Cristo a Palavra sem Palavras, que se origina do Silêncio e é por isso que nos devemos nos silenciarmos para ouví-lo melhor. Silêncio não emudecedor e sim sinal de abertura para quem quer ouvir melhor. Então, por que a tanakh inicia-se com o Beith?

    Por que o Beith? Se você observar bem o Beith não é fechado. Caso o fosse tornar-se-ia um Mem Sophith: um quadrado. Algo pronto e acabado, que não se deixa surprender. Fechado: hermeticamente isolado. O Beith quer nos lembrar que somos seres com abertura, que existimos para o outro (o próximo, a criação) e o Totalmente Outro (Deus: o impronunciável, nosso Silêncio Original): ex-istir é literalmente pôr-se para fora. Quando descubro que não me basto, redescubro-me como um ser de relação: trata-se do Eu e Tu buberiano (M.Buber).
    Ainda, brincando com o alfabeto hebraico, quais são as três últimas letras dele? Resh, Shin, Tav. Que quer dizer: início, começo. A primeira palavra da Tanakh. Ou seja, viemos do silêncio (áleph) para sermos um ser relacional (beith) e comprometido com a promoção da vida (ReShiTh). Abraços, pensador. Saudades, irmão. “

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