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NATAL OU NATALIENAÇÃO?
Por Nádio Batista
Embora historicamente falando, pareça ter havido pouco interesse entre as primeiras comunidades cristãs, pela celebração do nascimento de Cristo, tais celebrações, enfatizavam o nascimento de Cristo, portanto a salvação de Deus. Com as mudanças sociais provocadas com os encontros culturais, mudanças foram ocorrendo na essência do natal. Hoje, o que temos é um natal total mete distorcido, longe do seu verdadeiro significado.
O comércio se encarregou de levar homens e mulheres, adultos e crianças a um processo de alienação de Deus e sua salvação, Jesus Cristo. O Natal deixou de ser a celebração do dia do nascimento de Jesus para ser celebração ao consumo.
Não resta dúvida de que se trata de um tema controvertido e polêmico. Muitos podem pensar que pertenço a ala fundamentalista radical; que sou contra o natal e que, o considere uma comemoração pagã. Muito pelo contrário, considero um momento lindo e que deve ser comemorado. Mas não devo desconsiderar o fato de que sua essência evaporou, por conta da base que sustenta e mobiliza a relação social: O consumo. Como afirma Marshall McLuhan, admirado por uns e criticado por outros, como filosofo da comunicação, as propagandas são “Pílulas subliminares” que vão homeopaticamente persuadindo o consumidor por um lado e alienando por outro. Elas vão ao subconsciente, com o fito de exercer um feitiço hipnótico.
Não é à toa que, pesquisas realizadas por especialistas atestam que vivemos em um ambiente subliminar, rodeado pelas vitrines das lojas, bancas de jornais, autdoors e grafiets que acabam bombardeando as pessoas, tornando-as vítimas de um processo quase incontrolável de alienação. Desta forma ficamos expostos a teleguiação, que se verte, consome produtos, serviços crenças e ideologias, e nessa situação não podemos nos considerar pessoas autônomas, livres. Essa vitimologia acaba nos conduzindo a passividade. O resultado final é que o humano se desumaniza.. Portanto, convido os “Olimpianos” do monopólio eptermológico a primeiro sorrir para depois falar, como canta o grupo catedral.
Para o filosofo alemão Karl Marx, alienação é o processo pelo qual os atos de uma pessoa são governados por outros e se transformam em uma força estranha colocada em oposição superior ou contrária a quem a produziu. Nesta perspectiva, o atual sistema capitalista transferiu a essência do natal para produtos de consumo levando as pessoas a se posicionarem contrárias ao criador do natal. Isto é, a celebração da maior expressão do amor e salvação de Deus. Jesus Cristo. O que temos hoje, não é natal. É Natalienação.
O desafio das igrejas cristãs que fazem uma teologia séria, é resgatar o verdadeiro significado do natal. Desta vez, tendo como base uma soteriologia holística, isto é, uma da salvação que tenha superado a antiga idéia de salvação da alma ou mesmo do indivíduo de modo integral. A soteriologia holística contempla a pessoa em todas a suas áreas, bem como o conjunto cósmico. Em outras palavras, não somente a salvação social ou política (resgatada pela teologia da libertação), mas também ecológica. Parafraseando São Francisco de Assis, seria dizer que eu me salvo não somente junto com o meu irmão ou irmã, mas também com o irmão sol, fogo,com a irmã lua, terra….
Esta teologia conseguiu denunciar que os proprietários das madeireiras, mineradoras e das empresas internacionais, que estão depredando e destruindo a Amazônia, não estão somente destruindo a vida da natureza, mas também estão jogando fora a própria salvação de Deus. A salvação pós-moderna contempla não somente a libertação pessoal e social. Ela é holística. É salvação integral de todo universo.
Em conclusão, Feliz celebração da salvação de Deus. Feliz Natal!
(O rev. Nádio Batista é pastor colaborador da Igreja IPU Amazônia)
CLÁUDIO DA CHAGA SOARES escreveu:
BÊNÇÃO RABÍNICA
“Bem-aventurados os limpos de coração pois eles verão a Deus”
O que você entende por limpo de coração? A resposta a esta pergunta é fundamental para a compreensão do texto de Mateus 5:8. Alguns cristãos pensam tratar-se de uma pessoa que não tem maldade ou pecado. Esquecem, porém, que a Escritura Sagrada é clara ao expor que o coração do ser humano é corrupto. O profeta Jeremias declara que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9). E mais, o próprio Deus reconhece a corrupção do coração humano como motivação para enviar o Dilúvio, a saber: ”E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6:5). Então, qual é o significado de “coração limpo” no texto de Mateus? Irmãos e irmãs não podemos esquecer que Jesus e seus discípulos eram judeus e como judeus eles perscrutavam as Sagradas Escrituras a ponto de extrair dela a Palavra de Deus.
Desta forma, na busca de sentido, cada letra era também traduzida e ou interpretada. Por isso, à palavra coração, devemos ampliar o seu sentido. Coração, em hebraico, é bl – lê-se Lēv. A letra “L” chama-se LÂMED e expressa a idéia de aprender e ensinar: é a imagem do discípulo que aos pés do seu mestre se põe para ouvir o ensinamento da Toráh. Já a letra “V”, em hebraico chama-se BEITH e seu significado é casa. Então, só pode aprender e ou ensinar quem estiver disposto a acolher, tal como uma casa, o outro com as suas diferenças sem impôr-lhe condição alguma. Portanto, ser “limpo de coração” consiste em ter uma postura dialogal e acolhedora: sabendo-se sempre discípulo que exercita a escuta. Então, somente quem sabe acolher o outro é que poderá ver a Deus tal como Ele é. Por isso, podemos traduzir a nossa bem-aventurança da forma seguinte: “Caminhem os que acolhem o outro sem preconceito, pois eles verão a Deus tal como Ele é”.
Rev. Cláudio da Chaga Soares.
DEU NO IMPRENSA EVANGÉLICA
Homenageamos Waldo César, que nos deixou há pouco, com uma crônica a ele dedicada,
naquele momento:WALDO CÉSAR – MEMÓRIA
Hora de ancorar o Barco O Eclesiastes fala: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os dias da desgraça, quando dirás: ‘Não tenho mais prazer’… Não me rejeites no tempo da velhice, não me abandones quando o meu vigor se extingue” (Sl 70,9).É agora tempo de perder-nos na extraordinária beleza de Deus. Ele é como o mar azul e profundo, que contemplamos, mas não temos coragem de nele entrar, para experimentar seus mistérios. Sobretudo, ir até onde o sol ilumina e acentua a extraordinária Beleza Azul, no horizonte. Um canal de luz construído com a fé, mesmo a que foi claudicante e hesitante.Também há o tempo de contemplar o entardecer depois do temporal forte, a experiência que derrubou tantas convicções, quando réstias de luz atravessavam as nuvens, e reflexos se apresentavam sobre as ondas. Agora são marolas mansas. Voltam os azuis que não queremos perder, porque foram emanações do Azul Infinito. A beleza está no Azul, e não nos nossos olhos. Não se trata de uma imagem. Não precisamos confiar em nós mesmos e no que vemos, mas confiar no Azul Infinito, por si mesmo. Ele é a grande Beleza. A Glória de Deus. É ali que se passa o essencial, e onde se encontra a profundidade toda que não podemos perceber, a não ser pela contemplação profunda. Em todos os tempos, somos convidados a mergulhar no Azul, na Beleza, na Glória de Deus. Ansiamos por plenitude. Quando chega a hora de ancorar o barco no Azul, e desancorar-nos de nós mesmos, ao entardecer da vida, podemos ver que não somos nós que vivemos, mas é o Azul, com toda a sua beleza, que vive em nós. Parafraseando Paulo: “Não sou mais eu, mas é o Azul que vive em mim”. Infinito e Plenitude se completam. Há ainda muito mar para contemplar, quando se é jovem. A espiritualidade depende do olhar interior, e do pensar sobre exterior. É bom esticar a visão para além do horizonte, mesmo que a beleza presente já nos traga encantamento. Ser feliz com a beleza de Deus, quem não quer? E o que é mais belo que a misericórdia, a bondade, o cuidado, o respeito e o compromisso com os outros e as outras? A beleza de Deus reside na ética, na estética e na espiritualidade do cuidado. A plenitude, porém, está no descanso do Azul Infinito. Vai, Waldo para o grande encontro… o Azul nunca acaba.
A ÁRVORE
“Como a árvore plantada junto às águas
que escorrem da Fonte da vida”.
Salmo 1
Quis homenagear Maria Lúcia, minha mulher, no seu aniversário. Então escrevi esta crônica:
Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar, o eixo em torno do qual nos movemos internamente. Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, no entanto. Como negar que nosso corpo já começa a morrer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade. Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui.
Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho: será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos. Um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada. Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre-humanos, nos salmos e nos escritos sapienciais da Bíblia Hebraica. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento?
Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno sujeito a deslizamentos destrutivos. O poeta construtor deste salmo traz inspiração para nossas vidas de caminhantes pelas ruas, dobrando as esquinas das cidades em que vivemos. Está preocupado com os sentidos das fontes cristalinas que nunca secam, borbulhando sabedoria que corre mansa sem preocupações com o tempo; fontes que dessedentam os viajantes peregrinos em busca do infinito, descontentes com o mundo imediato e suas paisagens devastadas pela destruição, pela violência do ser humano contra si mesmo. As imagens nos servem quando trafegamos em avenidas largas ou estreitas; ou andamos de metrô, ônibus ou automóvel; quando encontramos pessoas rindo ou chorando, cantando ou pedindo alguma coisa, nas praças, nas ruas destinadas aos camelôs ou ao comércio mais nobre das boutiques ou onde estão os shoppings centers. O que se vê é que as pessoas querem ser felizes.
As imagens bíblicas, poéticas, nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolo = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude. As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).
A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos. Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); abertos, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher.
Falando pelo que entendo, há valores importantes a serem considerados, quando somos convidados a observar a vida em busca da Plenitude e da Sabedoria. Isolados no egoísmo e na idolatria consumista, inclusive de religiões e variações eclesiásticas de mercado que se impõem nos nossos tão breves dias, nunca entenderemos o que Deus faz em nós… como faz da árvore bem plantada e ao mesmo tempo voltada para a totalidade da vida. Onde nos encontraremos com Deus? Diria mais: quem quer a verdadeira experiência de Deus não vai procurar templos ou museus, apenas contemplando os símbolos que ali estão, por mais belos que sejam. Quem quer encontrar Deus, em sua plenitude, vai buscá-lo na vida, no cotidiano. Também não custa trazer à mesa da comunhão os que chegam “de todo lugar que se tem pra partir”(Edu Lobo). Ou, de outro modo, percorreremos os caminhos que existem, iremos recebê-Lo nos lugares onde chegam homens e mulheres de todas as partes, de todos os lugares. Nas rodoviárias, nos portos e aeroportos da vida. Hoje é um belo dia para esse encontro.
Que é que você pensa? Estamos de acordo?
Derval Dasilio
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Agradecido pelo comentário do grande amigo e colega rev.Cláudio Soares, da IPU de Brasília – Presbitério Erasmo Braga, faço a postagem para que não se perca no tempo. Obrigado, mais uma vez.
“Querido Derval
Paz e Bem!
Li e reli a sua reflexão “Nossos aniversários são curvas perigosas”. Como você sabe também sou de julho (17) e ao lê-la lembrei-me de uma das perguntas de brincadeira feita pelas crianças quando iniciam seu estudo do Talmud, a saber: Por que a Tanakh inicia-se com a letra beith e não com áleph? Quero, como biblista, buscar alguma resposta. A letra áleph é uma consoante sem som, impronunciável. Segundo a kabaláh, trata-se do silêncio da nossa origem. Segundo Heidegger nos movemos entre dois silêncios: o silêncio da nossa origem e o silêncio da nossa chegada. Deve ser por isso, que Inácio de Antioquia afirma ser o Cristo a Palavra sem Palavras, que se origina do Silêncio e é por isso que nos devemos nos silenciarmos para ouví-lo melhor. Silêncio não emudecedor e sim sinal de abertura para quem quer ouvir melhor. Então, por que a tanakh inicia-se com o Beith? ex-istir é literalmente pôr-se para fora. Quando descubro que não me basto, redescubro-me como um ser de relação: trata-se do Eu e Tu buberiano (M.Buber).
Ainda, brincando com o alfabeto hebraico, quais são as três últimas letras dele? Resh, Shin, Tav. Que quer dizer: início, começo. A primeira palavra da Tanakh. Ou seja, viemos do silêncio (áleph) para sermos um ser relacional (beith) e comprometido com a promoção da vida (ReShiTh). Abraços, pensador. Saudades, irmão. “
Por que o Beith? Se você observar bem o Beith não é fechado. Caso o fosse tornar-se-ia um Mem Sophith: um quadrado. Algo pronto e acabado, que não se deixa surprender. Fechado: hermeticamente isolado. O Beith quer nos lembrar que somos seres com abertura, que existimos para o outro (o próximo, a criação) e o Totalmente Outro (Deus: o impronunciável, nosso Silêncio Original):


O meu corpo sou eu, ou não sou eu, afinal de contas?
Olá
Adorei os textos deDerval.São provocativos.
Também a participação de REv.Cláudio com sua pesquisa no universo rabínico tem muito a nos proporcionar de novas perspectivas….
Comentário por Isaque Góes — 17/11/2007 @ 0:00p11 |