PERU NO FOGÃO DE LENHA


O Natal e o Ano Novo deixaram de ser o que eram, até poucas décadas atrás. Ingressaram no calendário de feriados comuns, abandonando o conceito de feriado-ritual dos quais alguns maduros, e possivelmente todos os velhos, ainda se lembram. Não há muitas notícias sobre esse assunto, no Brasil imperial ou colonial. Nesse caso, o protestantismo, que chega pelos fogão a lenha33meados do século 19, vem trazendo costumes que remontam às tradições anglo-saxônicas. Costumes que vieram com a chegada aos EUA dos puritanos à Nova Inglaterra, por volta da instalação da revolução americana, ou republicana. Missionários americanos, aqui, também traziam suas tradições. Se proibiam protestantes de ter bíblias, construir templos, os cemitérios lhes eram negados nos sepultamentos. Mas não impediam os costumes que traziam (Gedeon Alencar).  

Assim, a contribuição protestante se introduzira com o Natal (Christmas), e o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day). De quebra, vieram os domingos dedicados ao Mothers Day, mais tarde. Seja como for, estas festas evocam a estação das compras, ou as homenagens intermediárias consumistas dos dias das mães e dos pais, paganizando-se em definitivo o calendário de festas. As porteiras dos shoppings e lojas são abertas. Milhões de reais são transformados em presentes, e não menos na substituição de eletrodomésticos e do guarda-roupa pessoal.

Sem destacar as diferenças entre lá e cá, estas datas são celebradas de maneiras bem diferentes. A começar pela introdução do “papai noel”, em suas vestes de inverno. Lá, no frio, moram os povos mais ricos do planeta. A formalidade nas roupas cerimoniosas; os ornamentos da mesa dos comensais, talheres, pratos e toalhas; a oração na distribuição dos alimentos; o ritual com discursos dos chefes de família. As diferenças entre católicos e protestantes, uma tolerância momentânea, faz com que todos pareçam professar a mesma religião. Mas não professam. Do mesmo modo que evangélicos pentecostais, lá, se diferenciam dos protestantes originais.

Não importa se somos católicos, protestantes, evangélicos, pentecostais, espíritas, candobleistas, umbandistas. Santos de terreiro, médiuns, padres, pastores, pais de santo, esquecem-se das diferenças e comemoram estas festas do modo mais arreligioso possível. Aparentemente, a confusão interna não perturba. As idealizações da propaganda governamental, mostrando gaúchos, sertanejos, índios, seringueiros, operários metalúrgicos, vaqueiros, agricultores, juntos como povo; as Cataratas do Iguaçu, o Pão de Açúcar, o Pelourinho, o Cristo Redentor, a Floresta Amazônica, são imagens que não escondem flores e velas deixadas na praia, na passagem do ano. Domínio de Iemanjá, e os participantes, em grande número, sem distinção de credo, comparecem vestidos de branco. Se não são uma mentira, as imagens da propaganda do Brasil pouco revelam da verdadeira paisagem humana brasileira em sua diversidade e sincretismo espetaculares (Gedeon Alencar).

Quanto ao peru, é possível assar no forno comum, mas ele será mais saboroso se for usado o forno de lenha.  Você acende a lenha uma hora antes de colocar o baita.  É essencial fazer uma boa brasa para assar o bicho, antes embebedado com cachaça. Peru bêbado, no abate, é bom para amaciar a carne. Antes de levá-lo ao forno, porém, tempere-o adequadamente. O calor do fogo é mais seco.  As achas de lenha incandescente, a brasa, deixam a carne levemente defumada.  Tome cuidado em não queimar as pontas das coxas.  Sirva o peru com batatas assadas inteiras, farofa na manteiga mineira, molhadinha, e ovos cozidos. Pode botar uns torresminhos, rodelas de cebola, que pega bem.

Aqui, tudo muda, a partir do peru com farofa, a mistura de lombo e carne assada variadas – se bobear pinta um churrasco –, muita cerveja e litros de refrigerantes borbulhando nos copos descartáveis. Quanto menos talheres, pratos, copos para lavar, melhor. E nada de orações, musicas folclóricas de tradições européias ou norte-americanas. Sem aderir, ainda, às tendências musicais do momento, rola samba e batucada o tempo todo. 

Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial do Natal, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem.

A présence africaine, como diria o antropólogo Levy-Strauss, nos símbolos da nação brasileira, segue-se como inevitável. O catolicismo popular, as tradições indígenas, as memórias do povo afro, o ethos brasileiro, além da unidade artificial das paisagens brasileiras, quando mostradas por governantes que pretendem “entender” o Brasil. Tom Jobim dizia que o Brasil não é um país para principiantes.

Nada disso define o verdadeiro Natal brasileiro, mesmo com peru assado no forno a lenha, uma vez que o culto protestante, ou evangélico, do Natal, ignora a marca concreta da miscigenação cultural e racial que transparece, principalmente, nas festas de fim de ano. É servido? Feliz Ano Novo!

Derval Dasilio

Livro recente: Pedagogia da Ganância

 

PEDAGOGIA DA GANÂNCIA (LANÇAMENTO)


Derval Dasilio
05:00
Para: Derval Dasilio, Derval Dasilio

Corrupção, protestos e o espaço público 

Derval. black witheJovens das igrejas protestantes ecumênicas estiveram na organização das marchas que tomaram as metrópoles brasileiras no meio do ano, e levaram mais de um milhão de brasileiros às ruas e avenidas para protestar contra o Estado irresponsável, a corrupção política, o abuso do sistema econômico parasitário e atrelado às políticas governamentais. A sociedade autoritária reprovou-os. Conheço alguns dos jovens que estiveram nas manifestações de junho de 2013. E as vielas, ruas, avenidas da cidade, reclamam os seus direitos, hoje, da mesma maneira. O que é chocante, impactante, nas manifestações pacíficas no meio do ano (2013), por direitos políticos e cidadania crítica, também ocupando assembleias legislativas estaduais e municipais?

O enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes e do país, que políticos escamoteiam, enquanto se perpetuam nos cargos públicos, motivam os manifestantes. A geração que imita as oligarquias tradicionais, autoritárias, mereceu a rejeição da juventude, dos maduros e dos velhos. E ela trouxe às ruas e avenidas o protesto, à revelia do Estado — sem pedir licença à religião -, porque os espaços públicos são privatizados sistematicamente, câmaras vigiam quem busca o direito, a liberdade e a justiça.

São espaços em direção e funções de interesses políticos, comerciais e de consumo, neste momento. Até o lazer é privatizado. Descobriram os jovens, porém, que esse espaço deve ser público, gratuito, coletivo e democrático. Foi nele que ocorreu o “plebiscito espontâneo” da sociedade oprimida por políticas públicas que se entregaram à ganância e ao consumismo irresponsável. Homens e mulheres deram o aviso. Querem gozar do espaço público livremente, viver, divertir-se, amar e sonhar sem ter que pagar aos que tomaram e privatizaram seu lugar natural.

Muitos dos manifestantes apontam superficialmente, de modo abstrato, a culpa dos governantes, sem atinar para as raízes e as causas dos desvios democráticos, como a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte público a custos desproporcionais aos ganhos dos trabalhadores, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar empresas a serviço da ganância, inclusive instituições financeiras e seus lucros exorbitantes, porquanto escorcham a população. Acreditariam os manifestantes na responsabilidade implícita do seu voto nesses governantes?

É nesse espaço, também, que se expõem as raízes e as causas dos desvios do poder público desfocado, e da religião, ignorante de suas funções cidadãs: a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte a custos desproporcionais, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar e controlar empresas privadas que o servem, devorando ou desumanizando o cotidiano das pessoas comuns. Inclusive igrejas evangélicas pentecostais, instituições financeiras, bancos e seus lucros exorbitantes, independentes e livres de controle, porquanto escorcham a população com ajuda governamental.

A sociedade civil é o mundo tomado por males reais, coletivos, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha do grupo autoritário insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodado em seu conforto. Como sociedade — o país ocupa um lugar mundial entre as nações onde a corrupção faz parte do cotidiano cidadão desde o camelô, o guarda de trânsito, ao chefe do legislativo –, o Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo assim no ranking mundial (mais recentemente, subiu para a 73a. posição; nesse ritmo, nos próximos anos, atingiremos índices semelhantes ao da Índia, no topo das nações mais corruptas do planeta).

Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios – estes no 20º lugar, segundo a Transparência Internacional. Deve-se protestar, exigindo dos governantes o combate abstrato da corrupção? “Corruptio optimi pessima est“. A expressão latina consegue sintetizar uma grande verdade: “a corrupção dos melhores é a pior que existe”. Eles existem, mas devem ser cobrados, do contrário irão mais cedo ou mais tarde para a vala tradicional onde transitam com desenvoltura juízes, empresários e políticos inimputáveis (do ponto de vista do senso comum).

Em nosso livro (Pedagogia da Ganância – Jovens Ecstasy Fast Food), está expressa nossa confiança na reação da juventude à “ideologia do consumo”, além do senso comum. Nos aspectos quanto à vida pessoal — ser um ser humano pleno, filosoficamente –, abordamos a vida religiosa de jovens católicos e evangélicos, seguimento expressivo — com apoio em pesquisas recentes, no campo religioso e público –, o sequestro da alma jovem, obrigando-a a submeter-se à sociedade autoritária, ao consumismo irresponsável, e principalmente a destruição das utopias libertárias. Os jovens estão abertos a um mundo novo, diferente do mundo corroído por ideologias que dispersam a mente,  fazendo com que a juventude jogue no lixo sua grande potencialidade para mudar o mundo e o valores corrompidos da sociedade dos nossos dias. Nosso desafio é apontar os fechamentos que se impõem e indicar as chaves para abrir estas fechaduras.

Derval Dasilio
Livro: PEDAGOGIA DA GANÂNCIA – MATANOIA EDITORA – 2013
Jovens – Esctasy – Viagra e Fast Food

Nota
1. A Gazeta, 04/11/2013.

O PAÍS DAS VIÚVAS


O PAÍS DAS VIUVAS

JUIZ-INIQUO-150x150Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se   comemorariam as vitórias contra a corrupção. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc. O Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo, no ranking mundial. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar.  Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

A zona cinzenta onde atua a justiça humana parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade, com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa em nosso país, longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as conseqüências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes seqüestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. [...] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e  os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da  justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz que não temer a Deus nem respeitar os homens. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito.  Dignidade e cidadania!

Derval Dasilio

 Leitura:

 

Lucas 18,1-8 – Incomodem os que podem julgar!

 

ORAÇÃO E AFLIÇÃO


Oração e aflição

 
As imagens que refletem a vida interior funcionam como uma corrente de lava incandescente, fugindo da concepção do mundo do nosso tempo. O fluxo líquido e incandescente terminou por cristalizar-se, engendrando a pedra a ser lapidada, ou seja, a observação do inconsciente, como diria Carl G. Jung. Memórias ancestrais estão engavetadas no inconsciente profundo. A compreensão da oração seria cega, se não levasse em conta as pulsões interiores que nos comandam: indignação, conflitos, revolta, inconformismo, medo do desconhecido, raiva, ódio, impotência , para nos enganar e desorientar.“Toda oração começa com uma aflição” (Karl Barth). E também uma disposição de topar com percepções profundas e empolgantes, retendo-se muitas vezes, com assombro, em descobertas sobre a interioridade profunda. Vivemos à beira de abismos.
 
     A oração ensina sobre a necessidade de estar pronto para ouvir a voz de Deus, e não as vozes interiores de nossa alma. Somente com a oração nos aproximamos da obra de Deus em favor de nossa humanidade desnorteada e combalida. Cada um de nós, se nos aproximamos do empenho de Deus em salvar, percebe que uma primeira coisa é necessária: precisamos que Deus nos salve de nós mesmos.
 
     Porque somos escravos da razão, e isso nos condena a caminhar entre dificuldades aparentemente insuperáveis, ou a continuamente escalar montanhas sucessivas. Quando chegamos ao pico de uma, adiante veremos outra para ser escalada. Quando chegamos ao pico da outra, à frente haverá mais outra. Uma montanha mais alta sempre nos chamará e nos convidará a chegar ao cume. “Pois é assim que vivemos, escalando montanhas e sempre procurando subir aos montes mais elevados” (Larrañaga).
 
      Somos condenados à aflição, transtornos e inquietude permanentes, porque oramos em favor de nós mesmos, e nunca conseguimos satisfazer anseios mais profundos sem Deus.Destinados a caminhar por toda a vida, “porque a cada caminho percorrido surge outro para percorrer” (Agostinho), não podemos parar, nem nos abster, porque um imperativo categórico empurra sempre para a frente, não nos deixando em paz, empurrando-nos para uma odisseia que não vai acabar nunca. Enquanto não há um ato libertador, o Espírito é um vento bravo que não cessa, na direção de uma “terra prometida” que parece nunca chegar. Um ser humano é um arco retesado com a flecha apontando para estrelas inatingíveis.
 
     O desconhecido seduz, por isso o ser humano rompe barreiras e irrompe em regiões ignotas. Gosta de decifrar enigmas, e de preencher espaços vazios, sem saber porque. Sempre atormentado, vive na inquietude, nunca se acalma. Forças incompreensíveis o arrastam para o infinito, enquanto busca o absoluto, completo, acabado em definitivo. Por isso, pensa sobre si mesmo, e sobre as razões de sua existência, sempre procurando respostas para as perguntas de um questionário que nunca chega ao fim. É preciso orar, e descansar na espera de Deus.

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor dos livros “O Dragão que Habita em Nós” (2010) e Jaime Wright – O Pastor dos Torturados. No prelo: Pedagogia da Ganância.

A SAÚDE NA U.T.I.


derval  prto.brancoArrepiante entrevista de Salomão Schvartzman com o renomado médico Miguel Sroug sobre a “Saúde do Brasil na UTI…” Arrepiante? Sim, é de ficar com todos os pelos eriçados, ouvir as verdades desse médico sem papas na língua. Chega a ser comovente, ouvir o depoimento do dr. Miguel Sroug. Confira… Mas, atenção, o entrevistado defende os médicos, e não a população. A imoralidade política é apontada, e serve como escudo ao desinteresse do profissional da medicina pela população, apontando culpados que jamais serão punidos.

Suponhamos que os professores, como classe profissional, só aceitassem trabalhar em escolas devidamente equipadas e estruturadas para a prestação de seus serviços? Estaríamos no mesmo nível de crítica. O mesmo povo que reclama é o que elege políticos egoístas, preocupados com currais eleitorais, rebanhos que se satisfazem com um favorzinho, ou um emprego michuruca. Ou com a esmola de um programa de cestas básicas. Não creio que o Programa “bolsa família” se aproxime ao menos do primeiro degrau na escalada de soluções para a Saúde, no Brasil.

Aliás, como os demais povos nos países onde a corrupção é doença moral nacional, jamais acreditará na responsabilidade implícita do seu voto. Não acreditará que ao votar deve-se exigir uma atuação parlamentar pela erradicação da pobreza extrema, da fome e das epidemias cíclicas; exigir educação completa da alfabetização à universidade; exigir cuidados com o meio ambiente. Poderia ser consciente de que toda a população de Marrocos equivale à população brasileira submersa na miséria; que 600 municípios brasileiros, nos 13 bolsões permanentes de miséria e pobreza extrema, necessitados de água potável, esgotos, escola em mínima qualidade, saúde pública, e que é através do voto que se pode corrigir tudo isso. Será que interessa… Porém, ama criticar as safadezas, a corrupção nos acordos partidários, mas não preza a força e importância do voto.

Sem discordar do entrevistado, no diagnóstico geral, cruzar os braços e impedir a entrada de médicos estrangeiros, quanto ao objeto principal, saúde pública, não precisa de alteração. Sou a favor de que médicos de formação metropolitana sejam deslocados para o interior e exerçam a medicina no local onde endemias são mais frequentemente manifestas. Especialmente em trabalhos preventivos da saúde pública. Por que um médico, em sua formação nos grandes centros hospitalares — dispondo de equipamentos e medicina de ponta –, deve ser poupado de atender aos mais pobres, através de um contrato que dure no mínimo três anos, e depois decida o que fazer de sua vida?

No Brasil, 90 milhões de brasileiros vivem nas periferias das cidades, sejam elas grandes centros urbanos, ou médias e pequenas. Um pouco menos da metade aproximada da população nacional. No Centro, Norte e Nordeste estão localizados persistentemente, dezenas de bolsões de miséria por região. Devemos acrescentar as populações interioranas dessas regiões completamente abandonadas pela saúde pública. Não há hospitais, nem ambulatórios, nem agentes de saúde que atendam a estas populações. O mínimo que se espera é que haja médicos para a linha de frente no combate às endemias permanentes, mortalidade infantil, mulheres com necessidades pré-natais,  antes que a abordagem das doenças comuns nos centros urbanos. Ponto.

Sim, a saúde está na UTI. Mas a intensidade e presença de recursos humanos e materiais para a saúde pública continua a ser exigida. Começa pela presença de médicos, enfermeiros, agentes de saúde em grande número. Não como paliativos justificadores da atuação dos poderes públicos, mas como um meio para iniciar um grande movimento para atender às urgências da saúde pública no Brasil. Até que uma consciência política nacional descubra que são as “falsas prioridades” da política sem escrúpulos e sem responsabilidade social que desenha o layout do cenário da doença terminal da saúde. E que essa política corrompida, imoral, oportunista, seja resolvida pela própria população. Esta deve saber sobre a raiz do problema da saúde pública, e comunicar o que sabe e exige – com seu voto – a seus mandatários nas câmaras e no congresso. A solução começa nas urnas!

Derval Dasilio

Livro em preparo: Pedagogia da Ganância (Editora Metanoia)

Último livro publicado  Jaime Wright – O Pastor dos Torturados (2012)

livro jaime wright