PEDAGOGIA DA GANÂNCIA (LANÇAMENTO)


Derval Dasilio
05:00
Para: Derval Dasilio, Derval Dasilio

Corrupção, protestos e o espaço público 

Derval. black witheJovens das igrejas protestantes ecumênicas estiveram na organização das marchas que tomaram as metrópoles brasileiras no meio do ano, e levaram mais de um milhão de brasileiros às ruas e avenidas para protestar contra o Estado irresponsável, a corrupção política, o abuso do sistema econômico parasitário e atrelado às políticas governamentais. A sociedade autoritária reprovou-os. Conheço alguns dos jovens que estiveram nas manifestações de junho de 2013. E as vielas, ruas, avenidas da cidade, reclamam os seus direitos, hoje, da mesma maneira. O que é chocante, impactante, nas manifestações pacíficas no meio do ano (2013), por direitos políticos e cidadania crítica, também ocupando assembleias legislativas estaduais e municipais?

O enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes e do país, que políticos escamoteiam, enquanto se perpetuam nos cargos públicos, motivam os manifestantes. A geração que imita as oligarquias tradicionais, autoritárias, mereceu a rejeição da juventude, dos maduros e dos velhos. E ela trouxe às ruas e avenidas o protesto, à revelia do Estado — sem pedir licença à religião -, porque os espaços públicos são privatizados sistematicamente, câmaras vigiam quem busca o direito, a liberdade e a justiça.

São espaços em direção e funções de interesses políticos, comerciais e de consumo, neste momento. Até o lazer é privatizado. Descobriram os jovens, porém, que esse espaço deve ser público, gratuito, coletivo e democrático. Foi nele que ocorreu o “plebiscito espontâneo” da sociedade oprimida por políticas públicas que se entregaram à ganância e ao consumismo irresponsável. Homens e mulheres deram o aviso. Querem gozar do espaço público livremente, viver, divertir-se, amar e sonhar sem ter que pagar aos que tomaram e privatizaram seu lugar natural.

Muitos dos manifestantes apontam superficialmente, de modo abstrato, a culpa dos governantes, sem atinar para as raízes e as causas dos desvios democráticos, como a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte público a custos desproporcionais aos ganhos dos trabalhadores, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar empresas a serviço da ganância, inclusive instituições financeiras e seus lucros exorbitantes, porquanto escorcham a população. Acreditariam os manifestantes na responsabilidade implícita do seu voto nesses governantes?

É nesse espaço, também, que se expõem as raízes e as causas dos desvios do poder público desfocado, e da religião, ignorante de suas funções cidadãs: a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte a custos desproporcionais, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar e controlar empresas privadas que o servem, devorando ou desumanizando o cotidiano das pessoas comuns. Inclusive igrejas evangélicas pentecostais, instituições financeiras, bancos e seus lucros exorbitantes, independentes e livres de controle, porquanto escorcham a população com ajuda governamental.

A sociedade civil é o mundo tomado por males reais, coletivos, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha do grupo autoritário insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodado em seu conforto. Como sociedade — o país ocupa um lugar mundial entre as nações onde a corrupção faz parte do cotidiano cidadão desde o camelô, o guarda de trânsito, ao chefe do legislativo –, o Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo assim no ranking mundial (mais recentemente, subiu para a 73a. posição; nesse ritmo, nos próximos anos, atingiremos índices semelhantes ao da Índia, no topo das nações mais corruptas do planeta).

Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios – estes no 20º lugar, segundo a Transparência Internacional. Deve-se protestar, exigindo dos governantes o combate abstrato da corrupção? “Corruptio optimi pessima est“. A expressão latina consegue sintetizar uma grande verdade: “a corrupção dos melhores é a pior que existe”. Eles existem, mas devem ser cobrados, do contrário irão mais cedo ou mais tarde para a vala tradicional onde transitam com desenvoltura juízes, empresários e políticos inimputáveis (do ponto de vista do senso comum).

Em nosso livro (Pedagogia da Ganância – Jovens Ecstasy Fast Food), está expressa nossa confiança na reação da juventude à “ideologia do consumo”, além do senso comum. Nos aspectos quanto à vida pessoal — ser um ser humano pleno, filosoficamente –, abordamos a vida religiosa de jovens católicos e evangélicos, seguimento expressivo — com apoio em pesquisas recentes, no campo religioso e público –, o sequestro da alma jovem, obrigando-a a submeter-se à sociedade autoritária, ao consumismo irresponsável, e principalmente a destruição das utopias libertárias. Os jovens estão abertos a um mundo novo, diferente do mundo corroído por ideologias que dispersam a mente,  fazendo com que a juventude jogue no lixo sua grande potencialidade para mudar o mundo e o valores corrompidos da sociedade dos nossos dias. Nosso desafio é apontar os fechamentos que se impõem e indicar as chaves para abrir estas fechaduras.

Derval Dasilio
Livro: PEDAGOGIA DA GANÂNCIA – MATANOIA EDITORA – 2013
Jovens – Esctasy – Viagra e Fast Food

Nota
1. A Gazeta, 04/11/2013.
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O PAÍS DAS VIÚVAS


O PAÍS DAS VIUVAS

JUIZ-INIQUO-150x150Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se   comemorariam as vitórias contra a corrupção. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc. O Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo, no ranking mundial. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar.  Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

A zona cinzenta onde atua a justiça humana parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade, com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa em nosso país, longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as conseqüências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes seqüestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. [...] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e  os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da  justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz que não temer a Deus nem respeitar os homens. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito.  Dignidade e cidadania!

Derval Dasilio

 Leitura:

 

Lucas 18,1-8 – Incomodem os que podem julgar!

 

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ORAÇÃO E AFLIÇÃO


Oração e aflição

 
As imagens que refletem a vida interior funcionam como uma corrente de lava incandescente, fugindo da concepção do mundo do nosso tempo. O fluxo líquido e incandescente terminou por cristalizar-se, engendrando a pedra a ser lapidada, ou seja, a observação do inconsciente, como diria Carl G. Jung. Memórias ancestrais estão engavetadas no inconsciente profundo. A compreensão da oração seria cega, se não levasse em conta as pulsões interiores que nos comandam: indignação, conflitos, revolta, inconformismo, medo do desconhecido, raiva, ódio, impotência , para nos enganar e desorientar.“Toda oração começa com uma aflição” (Karl Barth). E também uma disposição de topar com percepções profundas e empolgantes, retendo-se muitas vezes, com assombro, em descobertas sobre a interioridade profunda. Vivemos à beira de abismos.
 
     A oração ensina sobre a necessidade de estar pronto para ouvir a voz de Deus, e não as vozes interiores de nossa alma. Somente com a oração nos aproximamos da obra de Deus em favor de nossa humanidade desnorteada e combalida. Cada um de nós, se nos aproximamos do empenho de Deus em salvar, percebe que uma primeira coisa é necessária: precisamos que Deus nos salve de nós mesmos.
 
     Porque somos escravos da razão, e isso nos condena a caminhar entre dificuldades aparentemente insuperáveis, ou a continuamente escalar montanhas sucessivas. Quando chegamos ao pico de uma, adiante veremos outra para ser escalada. Quando chegamos ao pico da outra, à frente haverá mais outra. Uma montanha mais alta sempre nos chamará e nos convidará a chegar ao cume. “Pois é assim que vivemos, escalando montanhas e sempre procurando subir aos montes mais elevados” (Larrañaga).
 
      Somos condenados à aflição, transtornos e inquietude permanentes, porque oramos em favor de nós mesmos, e nunca conseguimos satisfazer anseios mais profundos sem Deus.Destinados a caminhar por toda a vida, “porque a cada caminho percorrido surge outro para percorrer” (Agostinho), não podemos parar, nem nos abster, porque um imperativo categórico empurra sempre para a frente, não nos deixando em paz, empurrando-nos para uma odisseia que não vai acabar nunca. Enquanto não há um ato libertador, o Espírito é um vento bravo que não cessa, na direção de uma “terra prometida” que parece nunca chegar. Um ser humano é um arco retesado com a flecha apontando para estrelas inatingíveis.
 
     O desconhecido seduz, por isso o ser humano rompe barreiras e irrompe em regiões ignotas. Gosta de decifrar enigmas, e de preencher espaços vazios, sem saber porque. Sempre atormentado, vive na inquietude, nunca se acalma. Forças incompreensíveis o arrastam para o infinito, enquanto busca o absoluto, completo, acabado em definitivo. Por isso, pensa sobre si mesmo, e sobre as razões de sua existência, sempre procurando respostas para as perguntas de um questionário que nunca chega ao fim. É preciso orar, e descansar na espera de Deus.

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor dos livros “O Dragão que Habita em Nós” (2010) e Jaime Wright – O Pastor dos Torturados. No prelo: Pedagogia da Ganância.

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A SAÚDE NA U.T.I.


derval  prto.brancoArrepiante entrevista de Salomão Schvartzman com o renomado médico Miguel Sroug sobre a “Saúde do Brasil na UTI…” Arrepiante? Sim, é de ficar com todos os pelos eriçados, ouvir as verdades desse médico sem papas na língua. Chega a ser comovente, ouvir o depoimento do dr. Miguel Sroug. Confira… Mas, atenção, o entrevistado defende os médicos, e não a população. A imoralidade política é apontada, e serve como escudo ao desinteresse do profissional da medicina pela população, apontando culpados que jamais serão punidos.

Suponhamos que os professores, como classe profissional, só aceitassem trabalhar em escolas devidamente equipadas e estruturadas para a prestação de seus serviços? Estaríamos no mesmo nível de crítica. O mesmo povo que reclama é o que elege políticos egoístas, preocupados com currais eleitorais, rebanhos que se satisfazem com um favorzinho, ou um emprego michuruca. Ou com a esmola de um programa de cestas básicas. Não creio que o Programa “bolsa família” se aproxime ao menos do primeiro degrau na escalada de soluções para a Saúde, no Brasil.

Aliás, como os demais povos nos países onde a corrupção é doença moral nacional, jamais acreditará na responsabilidade implícita do seu voto. Não acreditará que ao votar deve-se exigir uma atuação parlamentar pela erradicação da pobreza extrema, da fome e das epidemias cíclicas; exigir educação completa da alfabetização à universidade; exigir cuidados com o meio ambiente. Poderia ser consciente de que toda a população de Marrocos equivale à população brasileira submersa na miséria; que 600 municípios brasileiros, nos 13 bolsões permanentes de miséria e pobreza extrema, necessitados de água potável, esgotos, escola em mínima qualidade, saúde pública, e que é através do voto que se pode corrigir tudo isso. Será que interessa… Porém, ama criticar as safadezas, a corrupção nos acordos partidários, mas não preza a força e importância do voto.

Sem discordar do entrevistado, no diagnóstico geral, cruzar os braços e impedir a entrada de médicos estrangeiros, quanto ao objeto principal, saúde pública, não precisa de alteração. Sou a favor de que médicos de formação metropolitana sejam deslocados para o interior e exerçam a medicina no local onde endemias são mais frequentemente manifestas. Especialmente em trabalhos preventivos da saúde pública. Por que um médico, em sua formação nos grandes centros hospitalares — dispondo de equipamentos e medicina de ponta –, deve ser poupado de atender aos mais pobres, através de um contrato que dure no mínimo três anos, e depois decida o que fazer de sua vida?

No Brasil, 90 milhões de brasileiros vivem nas periferias das cidades, sejam elas grandes centros urbanos, ou médias e pequenas. Um pouco menos da metade aproximada da população nacional. No Centro, Norte e Nordeste estão localizados persistentemente, dezenas de bolsões de miséria por região. Devemos acrescentar as populações interioranas dessas regiões completamente abandonadas pela saúde pública. Não há hospitais, nem ambulatórios, nem agentes de saúde que atendam a estas populações. O mínimo que se espera é que haja médicos para a linha de frente no combate às endemias permanentes, mortalidade infantil, mulheres com necessidades pré-natais,  antes que a abordagem das doenças comuns nos centros urbanos. Ponto.

Sim, a saúde está na UTI. Mas a intensidade e presença de recursos humanos e materiais para a saúde pública continua a ser exigida. Começa pela presença de médicos, enfermeiros, agentes de saúde em grande número. Não como paliativos justificadores da atuação dos poderes públicos, mas como um meio para iniciar um grande movimento para atender às urgências da saúde pública no Brasil. Até que uma consciência política nacional descubra que são as “falsas prioridades” da política sem escrúpulos e sem responsabilidade social que desenha o layout do cenário da doença terminal da saúde. E que essa política corrompida, imoral, oportunista, seja resolvida pela própria população. Esta deve saber sobre a raiz do problema da saúde pública, e comunicar o que sabe e exige – com seu voto – a seus mandatários nas câmaras e no congresso. A solução começa nas urnas!

Derval Dasilio

Livro em preparo: Pedagogia da Ganância (Editora Metanoia)

Último livro publicado  Jaime Wright – O Pastor dos Torturados (2012)

livro jaime wright

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DE SOBREAVISO CONTRA A GANÂNCIA



ganancia principalEntão Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável para com os demais? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”?

Calcada na ideia acertada de Nietsche sobre o poder, que poderia lembrar-nos os motivos anteriores, dos que preparam “o cerco das multidões”: trata-se do inato impulso em direção à posse, à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações. Estamos sitiados pelo dinheiro. Previu o mal-estar maior que a modernidade conheceria seria a exacerbação, o elogio da “ganância” por trás das tragédias, como a situação política da nação, nestes dias em que as ruas estão incendiadas, em manifestação e crítica direta aos governantes do país inteiro.

A construção do painel vertiginoso da vida moderna, tomada pela ganância de poder, de ter, de dominar a vida e a morte, encontra na obra de Goethe “Fausto”, um parâmetro estarrecedor. E verdadeiro. Essa obra foi construída à luz de grandes turbulências políticas, como a revolução francesa, e a revolução industrial gerada na Gran Bretanha. A moderna democracia, assim como a industrialização capitalista, predatória, excludente, determina a vida das pessoas, especialmente no mundo ocidental. Temos no Fausto a síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo. 

Fausto vendia ao diabo (Mefistófeles) sua alma, pela fortuna e pelo poder.   Mefistófeles trava com Fausto um debate sobre como sobreviver, onde a acumulação do capital, dos bens, explora fundamentalmente a mente gananciosa: “Entendamo-nos bem, não ponho a mira na posse do que o mundo apelida de gozos; o que eu quero é atordoar-me; quero a embriaguês de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubo das mais altas aflições. Estou curado da sede de saber (…). As sensações todas da espécie humana em peso, quero-as dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde minha mente e vontade são aplacadas. Assim me torno eu próprio a humanidade e, se por fim a perder, me perderei com ela” (Marshal Bermann). 

A característica fundamental do que se apresenta para os jovens de nosso tempo refere-se à ganância, agora ensinada como virtude na sociedade hipermoderna. A vida e a alma estão situadas nas coisas; a alma do mundo é o dinheiro e os bens acumulados. Mal que nos acompanha desde as sociedades arcaicas, ou primitivas. Sucesso é “ouro”, ser dono de tesouros e bens; ser portador de “credicard”, passaporte para a felicidade do consumo. Portanto, a desumanização da vida está em alta, e em baixa o espírito, valores que sustentam o corpo, a partir do cultivo da misericórdia; da compaixão e da solidariedade. O dinheiro é o coração do novo complexo de acumulação; capacidade de gerar falso bem-estar (juros) e energia, enquanto o corpo vai recebendo os influxos da civilização moderna em torno do capital (Norman O. Brown).

Quantos deixaram passar por suas vidas a grande oportunidade de ouvir a mensagem do Reino de Deus, de justiça para todos, e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos? “Onde está teu dinheiro, aí está o teu coração”, sugere o Evangelho… A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração…”.

Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, suas perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. A vida é um tesouro real e duradouro. Sonhamos com paraísos, igualdade entre homens e mulheres; construímos utopias sobre o bem-estar coletivo, habitação digna, saúde pública moralmente aceitável, escolas verdadeiras e humanizadas, pão em todas as mesas. Como os sons e as tonalidades do universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da criança recém-nascida. Que mundo e que humanidade a esperam. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.  

“Sim, e quantas vezes precisará um homem olhar para cima,/ Antes que ele possa ver o céu?/ Sim, e quantas orelhas precisará ter um homem,/ Antes que ele possa ouvir o lamento das pessoas?/ Sim, e quantas mortes ele causará, até saber/ Que tantas pessoas morreram?/ A resposta, meu amigo, está soprada no vento” (Blowin’ in the Wind, Bob Dylan).

Derval Dasilio

Último livro: Pedagogia da Ganância

Lançamento em setembro

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O SILÊNCIO DOS TORTURADOS


ULTIMATOONLINE – OPINIãO

O silêncio dos torturados

A tortura veio com a invasão islâmica ao Ocidente, e persistiu nas Cruzadas – como vingança dos cristãos, que misturavam ódio aos judeus e árabes sem distingui-los. Persas, gregos e romanos, antes deles, eram mestres da tortura. A Inquisição espanhola, estendendo-se pela Europa, foi mais “branda”, atingindo um número menor de pessoas, por exigir processo e julgamento? Lembremos Giordano Bruno, Torquemada, Galileu Galilei, e tantos outros. O certo é que tinha comum o caráter de repressão e intimidação ideológica. 

A Comissão Nacional da Verdade pretende ser uma inquisição às avessas? Ainda esboçando ações para desenvolver seu trabalho, já encaminhando para setores eclesiásticos, por exemplo, as subcomissões estaduais, fechando as questões num ambiente comprometido politicamente. Logo será enquadrada, tornando-se alvo fácil do direitismo e do fascismo latentes; dos esquecidos de que de suas hostes brotaram os mais bárbaros atos de tortura. Entram em cena personagens como Felinto Muller, Dan Mitrioni, Sérgio Fleury, Brilhante Ustra, representantes de ditaduras, e da sociedade autoritária. Julgar os indivíduos sem julgar o regime e seus expoentes é o mesmo que trocar seis por meia-dúzia.

Não vejo, também, como desvincular o problema da discussão eclesiástica. O anglicano Desmond Tutu, Nobel da Paz, se lembrado, evocaria a exceção, quanto ao apoio e ajuda de evangélicos ao “apartheid” sul-africano. Gandhi, vivendo na África do Sul, teve uma experiência de conversão interrompida, ao se deparar com uma placa na porta de um templo evangélico: “Proibida a entrada de cães e negros”. Sem reflexão autocrítica, também esses fatos passarão ao largo do julgamento público. Especialmente porque “a nova direita evangélica” já assume postos no Congresso Nacional, e engrossa a bancada racista e homofóbica, anti-direitos humanos, claramente interessada em revisões autoritárias, exceções constitucionais, atacando tanto o código penal quanto a Constituição Federal.

Não pertence a este grupo o pastor Jaime Wright, guardião dos documentos recolhidos do projeto “Brasil: Nunca Mais”, microfilmados, e por outros meios, levados clandestinamente para o exterior, é um religioso ecumênico, brasileiro – com retaguarda garantida de outro pastor brasileiro em Genebra, Charles Roy Harper –, mundial e profundamente engajado nas questões dos direitos humanos e liberdades civis. Estas questões jamais interessaram às direitas históricas, dentro da igreja ou da sociedade civil.

Minorias testemunhais, resistentes às ditaduras e aos autoritarismos políticos acariciados pela sociedade civil e religiosa, cristãos de diversas procedências, foram Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, católicos; Phillip Potter, metodista (Secretário Geral do CMI no período do projeto BNM); Charles Roy Harper, presbiteriano (mediador do CMI no Brasil, Chile, Nicarágua, Paraguai, Uruguai, Argentina, e nações da América Central) –, compõem o núcleo “diamante” do grupo do pastor Jaime Wright, porém no ambiente religioso ecumênico. Evangélicos estatísticos pensam noutra direção. Políticos e personagens libertários, como Júlio Prestes, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Oscar Niemeyer, cujas biografias exemplares, sem dúvida, compõem essa história de resistência ao Golpe de 1964, e seus antecessores, representam o outro lado da sociedade civil.

Concentrando-se em Vladimir Herzog, por exemplo, levar-se-á aos tribunais –”in memorian” –, os generais Figueiredo, Geisel, Garrastazu Médice, Costa e Silva e Castelo Branco? Estes chegarão ao julgamento público, como fizeram outras nações onde os direitos humanos e liberdades civis foram violados sistematicamente, sob governos de igual tendência política? Será que há coragem bastante para tanto, ou será que torturadores emblemáticos, trazidos ao conhecimento público, apaziguarão ou contemplarão quem deseja apenas a catarse na mídia pelo que sofreram pessoalmente? E não foram poucos os que sofreram. Perdemos nosso tempo com a História e a verdade? O objeto da Comissão da Verdade é tratar dos crimes de tortura, dos assassinatos e dos desaparecimentos. E, sua tarefa principal, creio, é revelar nos bastidores do poder os mandantes. As direitas desejam o silêncio sobre os torturados. Não sei por que cargas d’água.

Mas, não pode reduzir-se a estes fatos. “Há o risco de os juízos serem pontuais e os casos derivarem numa casuística indesejada”, como disse Leonardo Boff. Há um contexto maior, que permite entender a lógica da violência estatal, especialmente quando apoiada pela religião e demais instituições, justiça, política e economia. Além da própria sociedade. E quem a julgará? É preciso explicar e deixar claro a sistemática produção de vítimas ideológicas. Do contrário a CNV amargará pela incompreensão de seus métodos, e pela suspeita de estar promovendo uma vendeta de grande impacto, alimentando sentimentos de vingança ideológica sobre os vencidos. A ditadura foi vencida, inquestionavelmente, mas não a sociedade autoritária, e os resíduos permanentes do fascismo que permanecem nas mentes de jovens de vinte anos, com os quais convivemos, enquanto cospem frases “geniais” de ditadores nas redes sociais.

Cabe, a meu ver, proceder a um trabalho complementar. Depois de ter levantado os dados da violência do Estado fascista e de suas vítimas, cumpre fazer um juízo ético-político sobre todo o período ditatorial que se prolongou por 21 anos (1964-1985). Por que tal tarefa é imprescindível e relevante? Porque vítimas da truculência dos agentes do Estado não são apenas os que sentiram a tortura em seus corpos. Vítimas foram os cidadãos inadaptáveis, inconformados, perseguidos pela ditadura e a própria sociedade que lhes negava o direito de vida normal, fazendo-os viver como párias e banidos, dentro ou fora do próprio país. Depois do Golpe de 31 de Março, toda a nação sofreu a opressão torturante do poder absoluto que se implantou sob os aplausos da sociedade autoritária.

Em tempo
Derval Dasilio escreveu o livro Jaime Wright – O Pastor dos Torturados que conta a história do pastor presbiteriano que denunciou as injustiças na época da ditadura militar no Brasil.

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