Derval Dasilio – Escritos&Artigos

O autor e suas reflexões

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Written by Derval Dasilio

26/05/2013 at 0:00p05

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OS EVANGÉLICOS, A POLÍTICA E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL

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derval  prto.brancoA liberdade religiosa deparou-se com inúmeros desafios, desde a monarquia, que oferecia à religião, na Constituição Imperial, parte do “poder moderador”. Hoje, o Estado laico, conforme a Constituição de 1988, vê-se ameaçado pela pretendida “maioria evangélica” (1/5 da população brasileira), buscando exceções constitucionais, privilégios e  inimputabilidade fiscal, que não se estendem à sociedade civil. Igrejas e pastores milionários – e alguns padres, cujas famílias controlam direitos dos mesmos na indústria de objetos religiosos (livros, DVDs, símbolos devocionais, etc.), shows musicais religiosos, informação, de um ou outro expoente midiático, de grande visibilidade na Tv –, arrotam poder e influência política, como vimos nas últimas eleições presidenciais. Há indicações de que movimentam, à parte das obrigações fazendárias, talvez 50 bilhões de reais por ano, somente dentro das igrejas. Sem impostos. Apóiam a quebra da ordem constitucional? Há motivos inconfessáveis, em torno do assunto, implícitos no cotidiano político do Congresso Nacional, constantemente apontado em flagrante corrupção, ou estamos falando do sexo dos anjos (1)

No momento, religiosos na liderança de grandes igrejas evangélicas, eleitos para governar denominações poderosas, declaram a plenos pulmões que pretendem o controle político do País, colocando-se como reservas morais da nação; buscando privilégios e exceções constitucionais para a religião. Ao mesmo tempo, vem a público inúmeros casos policiais e escândalos financeiros, tendo como protagonistas pastores e igrejas, no cenário evangélico. A decretação da prisão de “toda” a cúpula de uma denominação evangélica pelo Ministério Público (Operação Entre Irmãos), pastores acusados de improbidade, formação de quadrilha, enriquecimento ilícito, comparece no noticiário.

“O crime organizado tem uma lista de 100 menores para serem assassinados” (A Tribuna, 13.abr.2013). Enquanto observamos pobreza e injustiça social em níveis que extravasam a compreensão, políticos da camisa preta – antigo símbolo do fascismo integralista –, propõem a redução da maioridade penal. Como se os jovens já não fossem sumariamente punidos por adultos criminosos nas periferias das cidades. Não podendo, ou querendo, agir contra o crime do adulto, que constituem a maioria dos que chegam aos bancos dos réus, imaginam leis e decretos autoritários que alcançariam crianças, punindo precocemente adolescentes industriados pelo criminoso adulto, debelando o surto de violência do momento. Crianças e adolescentes condenados à morte social, sob extermínio sistemático do crime organizado, e sob leis que possam transferir as execuções para o Estado, serão vítimas definitivas, sob aprovação da sociedade autoritária. 

Prevenir danos biográficos psicossociais na infância, adolescência e juventude, com a criminalização da criança e do adolescente, duplamente vítima da sociedade e do crime organizado, não entra na pauta, e não entra na oratória do político pentecostal de camisa preta, em gestos que lembram o nazismo dos anos trinta. Contrariando-o, o jurista renomado diz: “o sistema carcerário não é um sucesso, de modo a que se pensasse ser um mal privar crianças e adolescentes da possibilidade de desfrutar dos benefícios do sistema. Muito pelo contrário, é péssimo. Como se pretende então incorporar um contingente de crianças e adolescentes a um sistema falido?”, informa o juiz, professor conceituado, João Batista Herkenhoff.

Como escrevi anteriormente, vai além da impotência da sociedade lidar com assuntos tão complexos, ancestrais. A pedofilia acompanha as sociedades humanas, como a prostituição infantil, desde tempos remotos, consentida nas práticas escravagistas e nos contratos matrimoniais e de concubinato, ao contrário do incesto, nas civilizações mais recentes, no Oriente ou Ocidente. A criminalidade juvenil – fenômeno urbano contemporâneo –, conforme antropólogos, é consequência dos surtos de violência contínuos que refletem a desorganização e desproteção que o jovem sofre, à margem do desenvolvimento econômico, especialmente nas periferias das cidades brasileiras.

A homossexualidade, mais que um problema moral, é uma constatação cultural, histórico-social dos sexos e dos gêneros, desde a emergência humana, talvez em 2,6 milhões de anos, através de processos biológicos consecutivos, biogênicos e sexogênicos. Políticos não conhecem isso, e levam a experiência do preconceito e da   intolerância às tribunas do Congresso, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável, nas sociedades pós-tecnológicas. Políticos evangélicos sugerem leis autoritárias sobre a homossexualidade, a criminalidade juvenil, a pedofilia, além dos dispositivos regulares da Constituição Federal e do Código Civil, para estancar a violência (2).

Evangélicos parecem querer instituir, como fizeram cidadãos católicos no Império, quatro poderes, numa grande concentração de atos e decisões que passem pelas mãos do “quarto poder moderador” da nação, a religião, reeditando o fundamentalismo religioso como instrumento da vontade evangélica, restaurando ênfases do absolutismo político imperial no Brasil.

Derval Dasilio

Livro recente: Jaime Wright – O Pastor dos Torturados

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Notas:

(1) Desde a luta contra a “etnofobia” nos EUA, com um atraso de algumas décadas, o espírito da “maioria moral religiosa” (Majoral Maiority), chega às plagas tupiniquins. Aqui, o “apartheid“, direito de ser racista, se expressa na homofobia; na negação de direitos civis e sociais igualitários às pessoas homossexuais. Fica claro que se busca também a aprovação da sociedade total, sem distinção religiosa, encurralada pela violência criminal, explorando-se a psicologia subliminar do medo, do repulsivo e do nojento. Uma receita que acompanha o “imbroglio” que pretende violentar a Constituição ganha espaço, e vai além da sociedade evangélica. Porém, a temática “criança abusada”, “adolescente ladrão e assassino”, “pessoa homossexual”, é cristalizada na política do bloco evangélico no Congresso Nacional. Está aberta a temporada no movimento “por uma constituição evangélica no Brasil”.

(2) Cresce a defesa da política “evangélica”, nas bandeiras do combate à pedofilia; nos obstáculos aos direitos igualitários, humanos e civis, para homossexuais, num pacote único. Mais recentemente, a criminalidade juvenil ganha o espaço temático preferencial, especialmente porque as eleições de 2014 estão próximas, e esses temas apresentam visibilidade imediata e impacto político garantido. Não merece a mesma atenção o crime organizado, drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, Aids, mendicância, delinquência, legislação frouxa quanto ao aliciamento e comércio internacional da criança e do adolescente. Ameaças sobre o jovem sob grave risco social não rendem votos, entre evangélicos. Querem menores na prisão, desde 14 ou 16 anos.

 

 

 

 

Written by Derval Dasilio

08/05/2013 at 0:00p05

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POLÍTICOS EVANGÉLICOS NO CONGRESSO NACIONAL

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derval  prto.brancoUm colega duvidava da presença honesta de evangélicos na política. Foi “sempre” assim? Não. Lysâneas Maciel permanece como referência a bons políticos evangélicos na ocasião da reforma constitucional, confundindo-se com grandes nomes nacionais. Até a formação dos “blocos evangélicos”, depois da ditadura militar, não havia essa ideologia corporativa absurda. Por isso defendem Feliciano. Por serem “evangélicos”, e representarem, dizem eles, um seguimento de 32% da população brasileira, que reclama privilégios e exceções constitucionais, além de se acharem no direito de pressionar a “nação permissiva” em nome da “religião moral”. Mas a adoção de leis autoritárias sobre criminalidade juvenil, orientação sexual, pedofilia, homoafetividade, entre outros aspectos, camuflam uma realidade ampla, extensa, que representa o ingresso sem volta da sociedade brasileira na “era do vazio”, como diria G. Lipovetsky. É tempo de “medo”, de violência e insegurança pública.

Nos nossos dias, trocou-se o cenário bucólico das cidades do interior por outro, dos espigões de concreto, estruturas metálicas, ruas e avenidas asfaltadas, câmeras para vigiar desde o cidadão honesto ao que pratica um assalto num banco ou num supermercado. A violência se dissolve na paisagem poluída, enquanto sobem as taxas de agressões físicas, reconhecendo-se que o culto à força cresce em nível exponencial. Até algumas décadas, a violência física era atribuída à embriaguez, e a mídia se alimentava atacando os botequins. Ali ocorriam “cenas de sangue”, dava até samba, como cantou Emílio Santiago, na canção de Paulo Vanzolini que ninguém esquece.

Hoje, o crack, a cocaína, drogas populares, recebem a condenação, como parte da violência e como referência à quebra de normas sociais. Cidades como o Rio de Janeiro, que foi a capital da pátria até o fim da minha adolescência – e este autor experimentava o primeiro emprego em Brasília, sonho de Niemayer –, sucumbem à violência. Tornam-se capitais da corrupção ou do crime organizado. A população tem medo. Dali, evangélicos pentecostais pretendem ditar sua “hegemonia moral” sobre o resto do País, e reavivar moralmente a nação.

A repulsa pelas condutas violentas, por outro lado, além da catarse, encontra culpados ideais no sistema de governo, acompanha a disseminação dos valores da sociedade hedonista que não quer ser incomodada, imersa na intensa propaganda em favor do consumo supérfluo, turismo, música, shows, festivais, futebol, espetáculos que camuflam a realidade assustadora das desigualdades. Então, o que é chocante, impactante, é o enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes. Vai repercutir nas urnas. As vítimas não servem ao autoritarismo ideológico moralista. A manipulação da psicologia subliminar sobre o medo, o repulsivo e nojento, ganha espaço: “criança abusada”; “adolescente ladrão e assassino”, “rejeição ao homoafetivo”. Quem não se interessa por esses “slogans” falso-moralistas? 

Vai além da impotência da sociedade lidar com assuntos tão complexos. A pedofilia acompanha as sociedades humanas, como a prostituição infantil, desde tempos remotos, consentida nas práticas escravagistas e nos contratos matrimoniais e de concubinato, ao contrário do incesto. A criminalidade juvenil – fenômeno urbano, concordam antropólogos e sociólogos –, é consequência dos surtos de violência contínuos que refletem a desorganização e consequente desproteção que o jovem sofre, à margem do desenvolvimento econômico, especialmente nas periferias da cidade. Resultado da ganância darwiniana do todo social, que exclui o mais fraco. Esses políticos conhecem isso, experiência que vem dos púlpitos evangélicos, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável .

No Congresso, um deputado, pastor evangélico, foi presidente da Comissão do Narcotráfico – acusado, e até admitiria posteriormente ter recebido favores do crime organizado; envolvido na “operação sanguessuga” –, saiu para a eleição ao senado com “absoluta” aprovação do eleitorado evangélico. O outro assume a presidência da Comissão de Direitos Humanos, representando a bancada evangélica, com o mesmo propósito. Retornamos ao tempo em que a justiça civil não tomava conhecimento tanto da violência intra-familiar quanto da sevícia, abuso sexual, trabalho forçado, e escravidão do adulto e da criança. Nesse espaço cabe a receita legalista secreta, sob medo subliminar, nojo e repulsa, para condimentar a questão. Têm em comum plataformas como o “combate à pedofilia”, enquanto misturam no prato básico, autoritário, questões da homoafetividade e a criminalidade juvenil.

O exemplo de que a redução da maioridade penal para 14 ou 16 anos – como defendem parlamentares evangélicos – combate o crime precoce, afasta da violência, das drogas, é desmentido pelos próprios fatos: adolescentes e jovens envolvidos com o crime são originários de famílias extremamente violentas, segundo analistas comportamentais. Definitivamente, os parlamentares ignoram os fatores que originam a violência na sociedade. A juventude, além de tudo, é carente de direitos fundamentais quanto à saúde, escola de qualidade, saneamento básico, habitação e trabalho condigno, que o Estatuto (ECA), como lei, não resolve por inteiro. Isso não rende votos. Políticos evangélicos propõem a revogação da Constituição, em sua propaganda eleitoral e nas comissões das quais participam.

O jogo da democracia é duro, áspero como uma lixa aplicada às consciências libertárias… Tem jeito? Tem. E tudo começa no voto. Quem elege esses deputados, aparentemente, faz isso conscientemente. E o que esperam deles? Eis o nó que ninguém desata. É preciso protestar, sim. O aperfeiçoamento da democracia, no entanto, é demorado. Creio que eleições distritais de dois em dois anos, cartões eleitorais digitais, máquinas em lugares públicos ou privados, seria um avanço democrático. Políticos seriam julgados por um eleitorado geral. Prazos mais curtos para os mandatos parlamentares; mandatários sujeitos a confirmação periódica ou rejeição do eleitorado, ajudariam muito no processo eleitoral. O voto religioso teria de ser condenado e abolido. Ele é antidemocrático. A Constituição já faz a sua parte, não admitindo o mesmo. Mas esta sociedade quer isso?   

Derval Dasilio

[Livro recente: JAIME WRIGHT - O PASTOR DOS TORTURADOS]

Publicado – OPINIÃO – ULTIMATO ONLINE (06.Abr.2013)

Os artigos publicados na Ulimato Online são identificados  digitalmente,  em Índice próprio: [VER] z-derval-p-orelha-livro-jaime-w

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Written by Derval Dasilio

04/04/2013 at 0:00p04

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SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE

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SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE

Júlio Zabatiero* reflete sobre a vida dupla do pastor (ou do padre), que não sabe se é “sacerdote” ou “ovelha”. Crenças comuns nas igrejas falseiam o sentido da função, e dão-lhe uma sacralidade que o ministro não tem. Adaptando-se às imposições da crença comum, seus pressupostos sobre o que um pastor deve ser, sufoca-se a teologia que ele aprendeu. Nega-se a ele uma “vida teológica” verdadeira. O tempo e o espaço separam-no da vocação teológica, e ele se entrega. Ou não se entrega… “O trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma ‘nova e derradeira Reforma’ (ou Revolução eclesiástica). O  trabalho da pastora é cuidar dos fiéis? Cuidar é trabalho da pastora, ou do pastor, ou de  ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzi-la a hábitos ‘universais’ de linguagem. E aqui, o mestre da semiótica bíblica, com livros publicados sobre o assunto, deita sua fala experiente, em décadas de formação vocacional teológica.

Ser pastor…

julio zabatiero_nTrinta e cinco anos ensinando teologia. Embora a cada ano as turmas se renovem, algumas perguntas sempre se repetem. Uma delas: como aplicar na igreja tudo o que aprendemos? Por trás desta útil e inocente pergunta há muitas ansiedades. Dentre elas, talvez a mais comum e importante seja: há uma diferença tão grande entre o que se estuda na Faculdade de Teologia e o que se vive na igreja, como conciliar esses dois mundos? No fundo, no fundo, mesmo quando não consegue expressar, a maioria dos estudantes de teologia desconfia da viabilidade prática do estudo teórico. Imaginam que, no final das contas, irão aprender a pastorear apenas na igreja, na prática, prática que irá enfim se provar verdadeira e comprovar a inutilidade das belas teorias estudadas no bacharelado. Permitam-me oferecer uma resposta possível à pergunta.

Em primeiro lugar, e falando francamente: o que se estuda na Faculdade de Teologia não é para ser “aplicado” na igreja. A mera noção de que teoria é algo que pode ser “aplicado” revela um dualismo epistêmico e metafísico insustentável. Dualismo epistêmico? Palavras misteriosas que traduzem o senso comum: “na prática, a teoria é outra”. O senso comum e o senso acadêmico, neste caso, estão ambos errados, até porque são duas versões para a mesma incompreensão. Teoria e prática não são duas realidades opostas, são os dois lados da mesma moeda, são as duas dimensões da ação intencional, são as duas metades do todo. O fato de estarem separadas no tempo e espaço durante o período da formação acadêmica não pode ser elevado a uma condição permanente essencial.

Durante o curso, a teoria estudada não deve ser recebida e apreendida como a verdade que revela a falsidade das crenças e práticas eclesiais. Seria mero trocar seis por meia dúzia, e eu já cansei de ver essa história: ingressante “fundamentalista”; torna-se crítico, progressista na Faculdade; volta ao primeiro amor no pastorado. Moral da história: não aprendeu nada, o tempo de curso teológico foi desperdiçado. Teoria não é “verdade” é desafio de aprendizado, proposta de reflexão, possibilidade de auto-conhecimento, abertura para o discernimento. Prática e tradição eclesiásticas também não são a “verdade”, são hábitos acumulados, teorias esquecidas, práticas reprisadas. A prática não é “laboratório”, é lugar de repetição, mas não de replicação de experimentos. Em outras palavras: não adianta copiar o modelo de igreja bem-sucedido do vizinho. Na prática, a prática é outra. 

Em segundo lugar, e falando candidamente: o trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma nova e derradeira Reforma (ou Revolução). (Você ficou confuso? Cuidar é trabalho  pastoral, do pastor, ou pastora, ou de ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzí-la a hábitos “universais” de linguagem). Todas as atividades formais e informais do pastorado têm como único objetivo, como única natureza, como verdadeira essência (ai de mim! usando tais termos tão metafísicos): cuidar das pessoas. Quem ama, cuida. Nem todos os que cuidam, porém, amam.

Uma pista para rejuntar teoria e prática: estudamos teorias na Faculdade de Teologia para, na hora H, perceber e construir a diferença entre: “cuidar e controlar”, “cuidar e vigiar”, “cuidar e dominar”. “Ah! Agora estou vendo por que o prof. insistiu em ler Foucault com a gente” (diria eu, imagino, um ex-estudante consciente, formado há algum tempo. Hoje em dia, a leitura preferida seria Agamben, “Foucault” italianizado e atualizado). Cá entre nós: a maioria dos pastores controla, vigia e domina ao invés de cuidar. E não estou me referindo apenas aos Malas da vida, estou falando de você mesmo, de pastoras e pastores “normais”, que “dão a vida pelo rebanho”. Se você tivesse estudado comigo, também teria lido Habermas, e a distinção entre “ação comunicativa” e “ação estratégica” cairia no seu colo e dominaria a sua oração de confissão de pecado pastoral. Se você pastorear estrategicamente, jamais será capaz de cuidar, apenas de controlar, vigiar e dominar.

Em terceiro lugar, e falando nua e cruamente: pastorado é tempo-espaço de prática e estudo teórico simultâneos (Nota do editor: aqui está o resumo e a essência desse texto). Na prática, refletindo teoricamente, a teoria se aperfeiçoa, e a prática se renova. Novos hábitos de pensamento e ação são construídos pela comunidade crente. Pela “comunidade”, é isso mesmo, “cara”. Ou a comunidade renova seus hábitos, ou o próximo pastor da igreja irá “consertar” todos os seus erros, e a comunidade continuará trocando de teoria na prática, sucessivamente, toda vez que trocar na prática, a teoria do pastor. Achou confuso? Traduzindo para o velho hábito de linguagem: “tal pastor, qual igreja”. Eis o maior pecado do trabalho pastoral: fazer a igreja à sua imagem e semelhança. 

Por que o maior? Por que é idolatria. Lendo Foucault, Agamben, Habermas (ou nenhum destes, mas vários outros – desde que bem escolhidos), pode-se questionar a prática, por exemplo, do sacerdócio clerical e desenvolver pistas para pensar e praticar o sacerdócio universal não-clerical. Conhecendo boas teorias, toda aquela coisa bonita de “dons espirituais” do Novo Testamento pode ser repensada e reinventada na teoria e na prática do ministério pastoral não-dominador, não vigilante, não-dominador. Conhecendo boas teorias e renovando os hábitos pessoais, pastores e pastoras podem aprender (eu acho que consegui aprender…) a diferençar pessoas de ovelhas. Você ainda não havia “sacado”?

“Pastor” e “ovelha” são apenas metáforas. As pessoas que estão sob seu cuidado pastoral são pessoas em sua totalidade: agem, sofrem, sentem, pensam. Não são “ovelhas” que obedientemente seguem o pastor pelos pastos verdejantes.
E você? Você não é pastor. Você é parceiro das pessoas que compõem a comunidade de quem você cuida. Parceiro! Se você não tiver preguiça, encontrará nessa única e simples palavrazinha uma nova teoria e uma nova prática eclesiais-pastorais.

_______

* O Dr. Júlio Zabatiero é um dos mais destacados teólogos biblistas no Brasil. Vários livros publicados, entre eles Bíblia, Literatura e Linguagem, Paulus, 2011, como co-autor, juntamente com João Leonel. Tem atuado como docente, educador teológico, na Faculdade Teológica Sul-Americana (FTSA), na Escola Superior de Teologia (EST – IECLB), e na Faculdade Unida (FU). Em Londrina-Pr, São Leopoldo-RG e Vitória-ES, respectivamente.

VIDEO – Rubem Alves – Eles falam sobre o educador – Ele fala de si mesmo.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MUl2QU_z3mI

Written by Derval Dasilio

04/04/2013 at 0:00p04

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Vinoth Ramachandra

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Imprescindivel. Recomendo   Derval Dasilio
http://vinothramachandra.wordpress.com/2013/02/06/defiant-witness/
Defiant Witness

vinothramachandra.wordpress.com

Why do men like President Assad of Syria cling on to power while knowing that they will soon only be ruling over rubble? Arrogance in politics is compounded of ignorance, willful blindness, and fan…

Written by Derval Dasilio

09/02/2013 at 0:00p02

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JAIME WRIGHT – O PASTOR DOS TORTURADOS

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livro jaime wright

Saiba como presidentes da República, desde FHC, Luis Inácio da Silva (Lula) e Dilma Rousseff (exilados, perseguidos, torturados) foram alcançados pela atuação mundial do pastor Jaime Wright (brasileiro, paranaense) em favor da libertação política, sob a ditadura militar imposta pelo golpe de 1964 — que durou 21 anos — e do retorno à democracia ao Brasil. Entenda o cenário onde Paulo Freire construiu a “Pedagogia do Oprimido”; a canção de Aldir Blanc “O Bêbado e a Equilibrista”, nos mínimos detalhes, além do encantamento filosófico e poético que ainda hoje nos emociona, por sua força libertária.
Quem não sabe disso poderá tomar conhecimento do que sofreram seus pais e avós, poucas décadas atrás, e como a fé desses herois mudou o Brasil, trazendo de volta a “esperança equilibrista”, por uma nação livre, democrática, respeitadora do direito à vida e direitos humanos, fundamentais. Convidamos vc a ler este livro, que a METANOIA lançou antes do Natal, em maravilhoso tempo de esperança no Advento. (Contatos para venda e distribuição: Lea Carvalho – Facebook)

SINOPSE (LIVRARIA CULTURA)

Jaime Wright, brasileiro, pastor presbiteriano ecumênico, começou a procurar pelo irmão, Paulo Stuart Wright – deputado cassado, sequestrado e morto clandestinamente pela ditadura militar. Aproximando-se de familiares de presos políticos participou do projeto Clamor, clandestino, que defendeu perseguidos políticos no Brasil e países da América Latina, com financiamento ecumênico intermediado diretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas. Ajudou a reunir os documentos que deram origem ao relatório Brasil- Nunca Mais, que revelou a extensão da repressão política no Brasil, cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, identificando e denunciando os torturadores do regime militar, bem como desvelando as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

PRÉ-LANÇAMENTO:

Arquivo Nacional (SalãoNobre), 19 de dezembro/2012                                                                                                                                                                          Consta na instituição acima, para consultas, na seção História Recente do Brasil

Praça da República, 175 – Centro
Rio de Janeiro

Opinião do Leitor

JAIME WRIGHT

O PASTOR DOS TORTURADOS

Formato: Livro

Autor: DASILIO, DERVAL

Editora: METANOIA EDITORA

Assunto: BIOGRAFIAS – POLITICA

Especificações Tecnicas

ISBN: 8563439286

ISBN-13: 9788563439284

Idioma: português

Encadernação: Brochura

Dimensão: 21 x 14 cm

Edição:

Ano de Lançamento: 2012

Número de páginas: 248

Sinopse

Jaime Wright, brasileiro, pastor presbiteriano ecumênico, começou a procurar pelo irmão, Paulo Stuart Wright – deputado cassado, sequestrado e morto clandestinamente pela ditadura militar. Aproximando-se de familiares de presos políticos participou do projeto Clamor, clandestino, que defendeu perseguidos políticos no Brasil e países da América Latina, com financiamento ecumênico intermediado diretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas. Ajudou a reunir os documentos que deram origem ao relatório Brasil- Nunca Mais, que revelou a extensão da repressão política no Brasil, cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, identificando e denunciando os torturadores do regime militar, bem como desvelando as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

Opinião do Leitor

En la turbulenta historia que ha marcado los últimos cincuenta años en América Latina, el Rvdo. Jaime Wright se destaca como pastor y defensor de los derechos humanos.  En toda la región, personas comprometidas con la justicia vieron en Don Jaime un importante ejemplo de justicia y ternura, de corage y compromiso.  Hizo un destacado aporte a la reflexión teológica y la práctica pastoral de comunidades cristianas que buscaban discernir un camino de fidelidad al Evangelio en momentos áltamente conflictivos.

Con el correr de los años, trascendió públicamente el papel jugado por “Don Jaime”* en la documentación de los abusos cometidos por el régimen militar, de la forma trágica en que su propia familia había experimentado estos abusos, y de su compromiso pastoral, acompañando a las víctimas de la tortura.

En este libro, Derval Dasilio nos ha prestado un importante servicio al iluminar más la vida y la práctica de Jaime Wright, el pastor.  Su ejemplo permanece para futuras generaciones.
Dennis.Smith@pcusa.org

*O pastor Jaime Wrigh foi chamado por D.Paulo Evaristo Arns, Arcebisbo de S.Paulo, “meu bispo para assuntos ecumênicos”. Por mais de 10 anos, trabalharam juntos nos projetos Brasil: Nunca Mais e Clamor.

Dennis A. Smith

Buenos Ayres – dec.19. 2012

DERVAL DASILIO – ÍNDICE DOS ÚLTIMOS ARTIGOS

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OPINIãO

O pastor dos torturados

 
A história social do protestantismo brasileiro é contada por especialistas, antropólogos e sociólogos da religião. Porém, dada à abordagem individualista, particular, própria das nossas denominações, no mais das vezes, se conta essa história a partir de um ponto de vista defensivo, ou ufanista, comprometendo a verdade sobre personagens, dentro das igrejas evangélicas, que jamais abdicaram de suas responsabilidades cidadãs. No princípio, contaminado por esse bacilo corporativista, destaquei Jaime Wright como divisor de águas no protestantismo. Muito pouco para um vulto de tal grandeza ecumênica.

OPINIãO

O mal por trás das tragédias


É um escândalo da razão quando o psicólogo entrevistado informa aos telespectadores que deve aceitar a tragédia sem procurar culpados, como parte da terapia do luto individual ou social, na recente tragédia de Santa Maria. Antes, a repórter tinha denominado “fatalidade” a tragédia de fato anunciada da qual fazia cobertura. Problemas com o vocabulário? Menos ainda se aceitaria a “terapeuta do luto” que explica com técnica didática fria, sem sentimentos ou considerações sobre as causas criminosas da tragédia; sem aludir à casa de espetáculos, seus proprietários e exploradores; sem responsabilizar governantes e fiscais venais, depois da morte de quase três centenas de jovens num curral sem saída, sufocados por uma fumaça negra e asfixiante. Discorrendo com habilidade professoral sobre “as quatro etapas da terapia do luto”.
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“Há mansões nesse lindo país”. O hino evangélico é levado ao pé da letra por pastores que compram casas luxuosas na Flórida e no Brasil, por Derval Dasílio
O Evangelho e o falso moralismo

Se o olhar teológico do Evangelho está nos sem poder, dobrados pelas circunstâncias, o falso moralista é o mais inexpugnável dos inimigos da justiça, por Derval Dasílio

Written by Derval Dasilio

04/12/2012 at 0:00p12

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Deus não está mais aqui…

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OPINIãO

Leia também Teologia & Liturgia e Culto Cristão

Deus não está mais aqui…

Do jeito que vão as coisas, em breve veremos placas honestas nas portas das igrejas: “Deus partiu sem previsão para voltar”. E começo a pensar em Nietsche, quando escreveu “Zaratustra”. O cenário da igreja é lúgubre, ambiente de corvos em árvores secas e vermes emergindo da terra, seguindo o costume da Europa Nórdica de construir cemitérios junto às igrejas. Como se estas tivessem as respostas finais sobre angústia da vida e da morte. As roupas litúrgicas negras vestem ministros seguidores da reta doutrina enquanto enterram fieis com orações solenes, liturgias e réquiens infindáveis para poderosos aristocratas. Crítica ácida do filósofo aos representantes das igrejas cristãs, e à religião dominante.
 
Nietsche pronuncia: “Deus (na igreja) está morto!”, (Gott ist tot). Deus permanece morto. E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu de mais sagrado e poderoso até agora sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? Refiro-me ao enterro de Deus nos cemitérios das igrejas cristãs que perderam a força transformadora do mundo e se acomodaram em suas doutrinas petrificadas. Nem Lutero escapou de sua crítica.
O protestantismo histórico vem aceitando passivamente a insignificância do papel estatístico e funcional que lhe cabe para mostrar o que se compreende como “Igreja de Deus”. Os valores que circulam sobre o Deus ético da fé bíblica são fluidos e dispersivos. 
 
A tradição mais antiga da igreja cristã remonta a Abraão. A assembleia do povo ainda nômade já buscava o lugar de Deus no mundo (ba-makon). O acesso a Deus começa com um reconhecimento, por mais assombroso e incompreensível que pareça, de que Deus não está nem no passado, nem no presente e nem no futuro. A tenda do encontro, no entanto, é o mundo (Ex 33,21): “Eis que há um lugar em mim” (hine makon iti). Isto é, a tenda é o lugar genérico. “Deus está no mundo, embora não seja do mundo” (Nilton Bonder). Voltemos ao Gênesis (28,10). Jacó foge de seu irmão. Deslocando-se de Bersheba para Haran, cansado, no fim da tarde, ao por do sol, deita-se para repousar e é capturado pela importância do lugar (va-ifga ba-makon). Esse é o lugar (ba makon há-há). 
 
Pois bem, o sonho da igreja de Deus começa aqui. Jacó sonha e vê uma escada onde sobem e descem anjos. Ele acorda empolgado: “Certamente há Deus neste lugar e eu não o penetrava” (André Chouraqui, diz que o uso do verbo “yaddah” também tem o sentido de “saber”, além do comum “penetrar” sexualmente). Um ambiente extraordinário, sabores e sensações fantásticas, memórias da natureza que não podem ser sentidas pela percepção bruta, emocional ou carismática. 
 
Quando se percebe que para produzir algo relevante para a coletividade precisamos obter autorização de quem não produz nada, que o dinheiro da igreja deve fluir em diaconias e isso não acontece, que atos de compaixão e misericórdia nos tornam apóstatas de uma fé abstrata ou extremamente materialista, que muitos ficam ricos pelo suborno e influência das consciências de fieis, que se abandona a evangelização e discipulado bíblico em favor de espetáculos divertidos para o povo hipnotizado pela ganância, que as leis do país protegem igrejas materialistas já protegidas pelo corporativismo religioso (quando é que teremos uma CPI para evangélicos corruptos?), que o roubo no altar é aprovado e recompensado com o voto político e que a honestidade se converte em sacrifício da ética, então podemos afirmar, sem temor de errar, que esta igreja está condenada a ser abandonada permanente por Deus. Sem data para voltar.
 
Pensando como G. Brakemaier, “quando os interesses eclesiásticos começam a misturar-se com a mesquinhez e o egoísmo narcisista da coletividade, para legitimar privilégios religiosos a um determinado grupo, quando se transmuda a igreja em curral midiático, temos, de novo, o reino das trevas impondo-se ao Reino de Deus”. Exatamente como Lutero e os reformadores protestantes denunciaram.  Isso implica no que falta às comunidades cristãs, que é o aprendizado da fé no evangelho pregado por Jesus. Amor, tradução de compaixão, de ternura para com o sofredor; de misericórdia, na identificação e vivência com o oprimido e suas lutas, de solidariedade na busca e exigência de justiça para todos. E Jesus diz para essa igreja autêntica: “Estou convosco!”.
 
Ultimamente, a igreja gananciosa, soft, divertida, carismática, pretende ocupar o lugar da igreja que se retirou de onde deveria estar (cf. o sonho de Jacó, acima). É símbolo da desordem na linguagem e também do desinteresse quanto à Bíblia e seus conteúdos (Comunhão: Preferências evangélicas, set.2012), símbolo do desespero da própria igreja dos nossos dias, que quer visibilidade imagética enquanto se entrega a projetos egoístas e individualistas, símbolo de privilegiados que desejam subir sozinhos a “escada de Jacó” deixando para trás o povo que procura Deus para curar suas feridas. Enquanto se afastam da vida vivida, se veem enredados em escândalos infindáveis de corrupção e não enxergam nada de trágico em tudo que expressa a igreja dos nossos dias. Mas o pior ainda está por vir…
Derval Dasilio
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

Written by Derval Dasilio

08/11/2012 at 0:00p11

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