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Os evangélicos precisam encontrar quem lhes compre o voto, o corpo, a sensibilidade, o tempo, a criatividade e a energia vital? Como resgatá-los de ideologias constituintes do vilipêndio da pessoa e do corpo, já discriminadas pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela opção sexual, pelo peso e altura, se aí estão igualados na exposição da mídia como objeto de consumo do poder político? Sem falar do abuso do culto neoevangélico à corrupção (como no mito da Hidra de Lerna, monstro que habitava uma caverna e infestava o pântano por inteiro; serpente imortal, com nove cabeças indestrutíveis, hálito fétido capaz de destruir a vida ao redor). Evangélicos oram após receberem propina. Parte da informação sobre o vídeo em que aliados do governador do Distrito Federal, alvos da Operação Caixa de Pandora, são denunciados publicamente. Cena repetida na mídia: “evangélicos agradecendo a prosperidade vinda da corrupção”. O tema do povo infiel dá o tom para a pré-comemoração do Natal profano. Os textos bíblicos para o Advento, ao contrário, são quase apocalípticos: pregam a conversão, “metanoia”, fazem exigências éticas, criticam o culto e práticas religiosas sem justiça ao povo. |
Isso pouco interessa a neoevangélicos, mais uma vez apontados na corrupção política. O testemunho bíblico, pregação cortante contra a corrupção, como aço temperado, é impressionante. Pessoas se comovem, gentes se aproximam para perguntar: “Que devemos fazer?” (Lc 3,7-18), prova da perplexidade, pessoas perceberam que o batismo cristão tem exigências quanto ao comportamento testemunhal. A resposta indica: “convertam-se”! No meio da sociedade brasileira somos iguais, evangélicos honestos e corrompidos? O tripé que caracteriza a vida moderna, dinheiro, poder e individualismo, é a consagração da desigualdade até mesmo no nosso meio. Confundidos com a corrupção, quem diria hoje: “evangélicos, reserva moral da nação”?
Jamais o culto à individualidade foi tão acentuado, na história do mundo. Temos aqui um tempero forte para a religião da prosperidade. Característica principal da (anti)teologia neoevangélica. “Lamento que a religião esteja tão banalizada a tal ponto de as pessoas não a verem como serviço a Deus e ao próximo, mas como servir-se da fé e do próximo; isso é uma inversão total de valores bíblicos”, disse uma autoridade católica.
A perplexidade está na defesa dessa “religião”, e que o povo evangélico se sinta justificado, confundindo ainda mais o que é verdadeiramente prosperidade como retribuição de Deus à fidelidade, fé, confiança (emunah), porque não há paz sem justiça em toda a Bíblia. Como admitir que Deus possa ser homenageado pela corrupção, chantageado ou transformado num caixa eletrônico, porque é fiel ao crente corrupto?
Recuperar a concepção da alma evangélica como totalidade viva (“nephesh”, no hebraico bíblico: corpo&alma, vida ética, pessoal e socialmente) torna-se uma tarefa prioritária de reconstrução do conceito para o cristão bíblico (“Eis que faço novas todas as coisas…” – Ap 21,5b). A integridade evangélica sofre violências incríveis, como a ganância pelo poder. Fome, sede, nudez, doença, prisão, referem-se a este corpo ameaçado pelo mundo contemporâneo. Sistemas econômicos mortíferos tornam-nos mercadorias vivas (como lagostas no tanque de vidro de restaurante japonês).
Necessitamos da Salvação, de nós mesmos, inimigos que somos do projeto de Deus, enquanto apoiadores da religião da prosperidade. As multidões, cuja infidelidade é proverbial nas Escrituras, prostituem-se facilmente, por isso não escapam da exortação: “Raça de víboras, façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram”. As alegações sobre o pertencimento a um povo eleito, álibi para desafiar as necessidades colocadas pelos profetas, são respondidas com veemência: “Eu afirmo que até dessas pedras Deus pode fazer descendentes de Abraão!”. O Novo Testamento explicita a alegria da justiça e da salvação que chega. Sendo insensíveis, podemos ser substituídos até por pedras ou elementos naturais (… “Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras clamarão”).
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Data da impressão: 24 de novembro de 2009
Reprodução permitida. Mencione a fonte. |
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| “Use e jogue fora”: conspiração contra o jovem e o velho | ||||

Você alude à baixa qualidade do que se oferece à juventude, nas igrejas. De outro modo, completa minha denúncia de que os principais assuntos eclesiásticos sobre missão e diaconia, de fato, são solenemente ignorados nas igrejas, assim como o cuidado com a juventude no século 21 (que se expressa no culto gospel, no entretenimento, no show business). “Em verdade vos digo”, não sabemos o que fazer com os desafios desse século, quanto ao discipulado da vocação cristã (Rm 12,2).
Como prevenir o dano biográfico, psicosocial, na infância, adolescência e juventude? Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição juvenil, gravidez de adolescentes, crack, Aids, mendicância, delinquência, antecipação da maioridade penal, são também consideradas ameaças severas para a juventude? Em que sentido pode-se colocar em risco o projeto de Deus de vida plena para esse grupo? Desde esta perspectiva, como poderemos atender demandas para uma permanente responsabilidade dos cristãos e das igrejas em relação às crianças, adolescentes, jovens, inclusive os velhos?
Como interpelar a sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução das relações entre atores ativos da violência intra-familiar, a partir do reconhecimento mútuo como seres humanos iguais em dignidade, liberdade e responsabilidade? A respeito da violência contra a mulher, a criança, da hétero e homofobia, a discriminação por causa da cor da pele, do(s) sexo(s) ou gênero(s); constituímos na igreja um chamado ao serviço libertador de pessoas, famílias, grupos, entre as propostas de serviço ao outro e à outra com as quais Jesus Cristo se identifica? Se existem, me avisem. Mais perto, não tenho visto.
Pessoas da terceira-idade também não têm um lugar legítimo na igreja. Valorizados e plenamente participativas nas famílias cristãs ou não, que dizer sobre os “maracujás murchos” sentados até com mais assiduidade que os jovens nos bancos das igrejas? A presença de idosos em nosso meio se apresenta como um peso tolerado, sublimado, idealizado hipocritamente, como nos tem ensinado a cultura bíblica e religiosa cristã e protestante da qual participamos?
Em que ponto pode a diaconia social cristã ajudar no sentido de integrar o idoso e o jovem na participação dos valores da sociedade contemporânea, referentes à cidadania, direitos e dignidade humana? Levamos em conta que o Pai, na Bíblia, por si mesmo não pode ser avaliado segundo as configurações simbólicas do velho que já fez tudo, não age mais, cumpriu seu papel? Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha!”. Agimos como que afirmando que nada mais se precisa fazer, além de contemplar um passado ancestral? Consideramos que a velhice é a proximidade da plenitude, no entardecer da vida, ou que a velhice é o tempo em que a vida se recolhe e não pode mais brilhar e dar frutos visíveis e maduros? Problema para a igreja cristã de hoje.
A longevidade aumentada constitui um prêmio da vida moderna. Ponto. Mas não por esforço das igrejas cristãs, que olham pra gente velha, como eu, como pés-na-cova improdutivos (e nós não somos pavios queimados). Na Bíblia, via de regra, a velhice não é tempo em que a vida se recolhe, como uma lâmpada se apagando por falta de óleo. Vinho bom é vinho velho. Maracujá enrugado é o que tem mais suco e sementes. Vida longa é um presente de Deus, a velhice reclama sua participação no desenvolvimento social e espiritual da sociedade. Se reclamamos do desprezo pela vida, de valores essenciais dissolvidos na liquidez moderna (solidariedade, cuidado, amparo ao enfraquecido), no egocentrismo consumista em ofertas de vida com qualidade somente para os mais novos – porque jovens serão consumidores por mais tempo – somos saudositas?
“Use e jogue fora!”. Há uma certa conspiração, uma ilusão compartilhada, para se ocultar um segredo íntimo pensado por muitos: “nada há a fazer com os velhos”, o bem-estar depende da rapidez como são removidas as coisas velhas e usadas da vida comum. Mas esta é uma igreja que cultiva o efêmero — como na sociedade civil — e se ela soubesse disso, ostentaria lápides nas tumbas invisíveis em que enterram conteúdos e valores que assinalariam sua ignorância dos reais perigos e das misérias que a acompanham, apesar da roupagem e dos aparatos modernosos de seus altares recentes.
Kyrie eleison.
Derval Dasilio
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Ainda há protestantes?
Derval Dasilio
Necessitamos do protestantismo bem identificado. Nem todos evangélicos são “protestantes” no rigor do termo histórico (especialmente hoje, na oposição aberta da maioria evangélica), embora dediquem doses maiores de “ódio religioso” ao catolicismo romano. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências bem variadas. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão dispersas quanto a forma de organizar a igreja local (é possível tanto pragmatismo?).
Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Como um vaso quebrado em mil cacos, divergências aprofundaram-se na luta pela supremacia doutrinal. Teses da Reforma (“sola gratia”, “sola fide”, “sola scriptura”) não passam de lembranças hoje. Vende-se a graça despudoradamente; crença religiosa é fé. A hermenêutica fundamentalista diz que a escritura formal (Bíblia impressa) é mais importante que Jesus. Protestantes “não protestam mais”; corrompe-se o princípio.
O corporativismo evangélico funciona como mordaça, nem de longe lembra a unidade na Reforma (século 16). Mas, se todo mundo é evangélico, ninguém é “evangélico” (Longuini Neto). Enquanto isso, evangélicos requentam heresias: pelagianismo (salvação com obras, santidade com propósito, bajulação de Deus para alcançar “graça”); gnosticismo (devemos pensar que o “mundo real” é totalmente transcendente a este mundo); e o docetismo (o corpo está perdido, a aparência do mal é pior do que o próprio mal).
Nenhum reformador fundou sua denominação. Na igreja do Ocidente, “catholikos” é total, abrangente, universal. Grupos confessionais se acreditavam reformando a Igreja Romana e não a Ortodoxa, jamais separados da mesma. Essa era a igreja que lhes restara do cisma de 1054. O princípio “igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos. Não foi inventado por Lutero ou Calvino. Reformava-se a Igreja dentro da igreja institucional. Nenhum deles falou da criação de outras igrejas (contradizendo o equívoco, os reformadores não se afastam da igreja apostólica, igreja dos pais, igreja de Deus). Pouco mais de um século depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo e se declarou “separada” da igreja histórica. Sem pudor algum, “reformava-se” a Reforma, dividindo a igreja mais uma vez. Rejeitando os pais apostólicos, rejeita-se também os termos do primeiro Credo cristão (200 d.C.)?
Algumas das ideias mestras da Reforma não são mais observadas, como o “sacerdócio geral de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade de todos os discípulos, reclamada por Jesus (Jo 17): “Pai, oro para que sejam um, assim como eu e tu somos um”. É possível reunir evangélicos conservadores, progressistas, culturalistas, pentecostalistas e ecumênicos sob o mesmo teto? Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger e outros dirigiam a Reforma na Europa Continental e na Bretanha no sentido de uma popularização da fé original da igreja apostólica. Eram unânimes: a “ecumene” é intocável.
Resta dizer que a comunidade protestante se compreendia dentro da Igreja (“catholikos”), universal, no protestantismo emergente e desassociava-se do catolicismo no século seguinte. Mas a democracia do “laós” (povo) de Deus, ao que parece, ainda está por vir. Se existe, em muitas comunidades reformadas, está em retrocesso. O povo só diz amém. Quando o Novo Testamento (1Pe 2.9-10; Ap 5.9-10; 20.6) refere-se à substituição da elite sacerdotal, para a diaconia integral (eclesiástica e social) e a intercessão, autoriza-se todo cristão e toda cristã a colocarem-se como sacerdotes e sacerdotisas do reino de Deus dentro da igreja em favor do mundo. Prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade de Deus na terra. Homens e mulheres cristãos são o povo sacerdotal do reinado de Deus. Com a Bíblia, Lutero afirma que todo o povo da igreja é sacerdotal. Calvino diz o que é interpretado teologicamente (Ef 4.9-16): toda a Igreja é ministerial. E Karl Barth: mas “…a igreja é humana e pecadora”. Como ficamos, no atual “protestantismo”?
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com
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Derval Dasilio
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Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, não são esquecidos como influência literária.
Poderíamos visualizar, na Igreja, um lugar para “comer junto”, comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma “mesa”, comunhão de diferentes nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade por força do ensinamento apostólico.
O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma, fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, não é um produto de mercado, nem um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. Mesmo que seja um “cristo” como esparadrapo e analgésico. A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.
A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, são elementos que permeiam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, hoje?
A fé da igreja apostólica, “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade (Joaquim Beato).
Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.
A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.13), Spener (séc.17) e mais tarde John Wesley (séc.18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto. A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. O “Reino de Deus e sua justiça” deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se temos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te…
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Data da impressão: 29 de setembro de 2009
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| Neoevangélicos: raízes podres e indigestas | ||||
Os surtos neoevangélicos recentes são contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderna, certamente. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas in essentia, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.
A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão-se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.
Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas… Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento… Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros, mas denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada, ocorrerá gradativamente.
A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento que se assenta vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neo-evangélico, dita novas regras?
A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.
Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina” da teatrologia da Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia. A Graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.
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Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil
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| OPINIÃO ONLINE |
| 10 de setembro de 2009 | Visualizações: 150 | | seja o primeiro a comentar |
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“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias.” (Sl 34.13)
“Faz escuro, mas eu canto.” (Lutero)
No coração do evangelho vemos a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus. Um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido para homenageá-lo com a graça, em festa e grande alegria; alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (Gonzaguinha). Poetas e cantores proclamam a alegria de viver. Saint-Exupéry dizia: “O maior prazer é o prazer de conviver com os outros”. A ética do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, na felicidade e no prazer de participar do bem-estar de todos, na denúncia de privilégios de poucos e exclusão de muitos.
O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinou que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dia” (Sl 34.13).
Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranquilo e seguro, sem ganância de poder, sem pensar numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria”. O mais alto ideal cristão está aqui: felicidade, bem-aventurança eterna. E Deus cuida de seus filhos e filhas por meio de nós. Sejamos felizes por isso.
A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um passarinho que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-lo, como nos lembra um ensinamento oriental. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, por meio desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da sabedoria corrompida, da potência, buscamos ser felizes (L.C.Susin). No entanto, dificilmente alcançamos esse fim. A manhã nunca chega por esses meios. Permanece a noite tenebrosa que assustava Lutero. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra: “Faz escuro, mas eu canto”.
Concretamente, dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida em gozo pleno.
A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que já é um esboço do que vai ser: “Homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora” (William Blake). Tantos conteúdos para a “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambiguidade, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto! É um prazer não compartilhar com a corrupção reinante e não aceitar que um governante nos chame de “imbecis” e que seus aliados políticos sejam inatacáveis quando distribuem esmolas para o povo (Lula e Sarney).
Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela gente amada. Porém são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Jesus ensinou, e nós devíamos assinar em baixo.
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.
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