Derval Dasilio – Escritos&Artigos

25/01/2012

COMO PILATOS ENTROU NO CREDO…

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OPINIãO

O Evangelho e o falso moralismo

 “A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Quebrando o Tabu).  Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo político. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Criminalizando, quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta. Não sobrevivem sem a droga, seja  crack, cocaína, ópio ou heroína.  Quem não pensa nas consequências sobre a igreja, família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Não é o mesmo que preparar o Rio de Janeiro para a Copa do Mundo. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia, e não condenação abstrata. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia (ou condenação), onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, saúde assistida, são direitos humanos que devem ser buscados.

 Muitos movimentos e grupos religiosos, igrejas e ongs, mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como “laranjas” de causas eleitoreiras, servindo políticos inescrupulosos, enquanto recebem verbas do governo com propina garantida (10, 20%, depende…). Sujam dinheiro limpo. Diante das leis de repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos, Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas cuidando do usuário com tratamento médico, e não apontando-o como criminoso (52% deixaram a droga). Enquanto isso, reduziu-se o campo de atuação do traficante. Dizendo não aos riscos da clandestinidade, a medicina regular é aberta aos que querem ser tratados. A maioria. 

Para o Evangelho, o “locus teologicus” é o despoderado (heb. anawin; greg. ptochos), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, perseguido, humilhado pela própria vida. Na Bíblia, é o ignorado e desprezado pela própria sociedade (e o Estado). É o perseguido pela polícia e explorado pela polícia corrupta. Mas a sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador, e eximir-se de responsabilidade e culpa pela injustiça. Prefere sustentar o preconceito… A compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais em gabinetes eclesiásticos. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, lar, “oikos”. O “sócio”, συνεργάτης (sunergates), é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (cf. tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior, o todo, a coletividade humana.

 Como dizia alguém, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou “transparência”. O político é contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha. Pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune.  Depois, é premiado por mais um mandato pela comunidade evangélica. Nunca se compromete com leis de responsabilidade social para com o usuário de drogas, porque vive do assistencialismo oportunista. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (W.Siqueira), como se diz da droga.

Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista (Mc 2.7) “…o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei! Declarações condenatórias engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo que ignoram o ser humano e suas necessidades, apontando subjetividades como: “na igreja não somos assim”. Repetem a oração do fariseu (Lc 18.9-14). Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia direitos fundamentais. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante.

 “Hipócritas”, “túmulos brancos por fora, podres por dentro”, “tira primeiro a trave do teu olho, antes de julgares”… são imprecações de Jesus dirigidas aos condutores da sociedade religiosa, ou civil. Precisamente por isso Jesus lutou contra os demônios que dominam a consciência social; contra as ideologias instaladas nas sinagogas (qhal ou edah: igrejas judaicas), no Templo e na sociedade. Jesus não se identificou com propósitos religiosos moralistas no combate às doenças socializadas. Jesus não aprovou oportunistas da miséria, exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).

É lavando as mãos que Pilatos entra no Credo. O caráter normativo (referência) do Evangelho há de nos lembrar: aos perseguidos, discriminados, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7.23). Nesta passagem se expressa o centro vital da mensagem de Jesus. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias (cf. 31.33). “Cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça, das leis de responsabilidade social. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Nenhuma “lei” ou declaração religiosa moralista terá efeito sobre o que é responsabilidade do Estado. O fruto ruim nos obriga a uma nova semeadura para um mundo novo possível.

Derval Dasilio

Livro recente: O  Dragão Que Habita em Nós

Editora Metanoia

 

12/01/2012

Como foram os evangélicos em 2011

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Os evangélicos em 2011


O que vimos na igreja evangélica em 2011? Evangélicos históricos não se apresentaram à sociedade brasileira uma única vez proclamando sua fidelidade ao “princípio protestante”. Timidez ou omissão? Sobre nada protestaram. Evangélicos pentecostais comemoraram os 100 anos do pentecostalismo introduzido pela Assembleia de Deus. Trata-se de um movimento vitorioso, prática da religião mágica, superstição, truques de prestidigitação, misticismo e abuso sobre a consciência, individual e socialmente, envolvendo campanhas e promessas, retrato cultural de crenças populares desde sempre: “Deus dará a vitória”. O Congresso Nacional foi acrescido de um excelente número de pentecostais vitoriosos, em função das eleições de 2010, enquanto o IBGE publica aumento no seguimento evangélico pentecostal nacional.Livrarias evangélicas enchem-se de bugigangas, enfeites, balangandãs sagrados, cosméticos “abençoados”. Indo a São Paulo, dois endereços obrigatórios: a 25 de Março e a Conde de Sarzedas, atrás da Sé. Não sendo necessárias as tradicionais bíblias evangélicas, porque as escolas bíblicas – que têm desaparecido em todo o protestantismo – não se fazem necessárias. Uma vez que na religião popular evangélica pentecostal amuletos e objetos de magia religiosa preenchem a “zona cinzenta entre o sagrado e o profano” (expressão de Roberto DaMatta).

O governo em 2011 correu atrás de ministros corruptos, encontrou dezenas de pastores chafurdados nos setores viários, transportes, que envolvem bilhões de reais em concorrências suspeitas. Muitos deles, originários do PRONA e do Partido Liberal, fundidos no bloco evangélico, dão lições a laranjas com competência inimaginável. Igrejas são ensinadas a roubar do país. Amigos e parentes enriquecem, enquanto se foge da Receita e do Ministério Público. Como explicar essa associação, se o estímulo está nas novas igrejas, as que ensinam a teologia da ganância?

Prevê-se o fim definitivo do protestantismo ético.  De quebra, o evangélico acha-se no dever de ser politicamente corporativo. “A Igreja Evangélica hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença”, afirma Walter McAllister (Cristianismo Hoje, nov./dez.2011). Velhos adversários do protestantismo riem de boca grande, enquanto observam irrelevância e mediocridade nos representantes evangélicos.

A mais admirável personalidade evangélica de 2011 é pentecostal. Canais poderosos de televisão favoreceram o “culto doméstico” em torno da televisão (a TV Globo anuncia sua adesão ao evangelical business em 2012, R$ 2 bilhões anuais em questão – Folha Ilustrada 18/12/2011). Sem a presença corpórea da igreja, a televisão evangélica é “pastora eletrônica” de milhões, inclusive históricos, enquanto ensina o evangelho supersticioso e a ganância.

Mega-igrejas pentecostais ganham aprovação de teólogos importantes, recebem “membros” de dupla confissão, e dupla convivência eclesiástica, aos milhares, devidamente cadastrados; fazem proselitismo por telefone, nas rádios e na TV; declaram o número de seus membros, os quais flutuam lá e cá sem pudores históricos. Não foram jamais tão felizes e aplaudidas pelo fundamentalismo.

Estimulando o egoísmo narcisista (Narciso gosta do espelho, acha-se grande, bonito, perfumado, charmoso, sonoro, sedutor…), exterminando o sentido da comunhão na congregação, onde estão enfermos, deficientes, crianças, mulheres violadas, idosos, carentes de cuidados, ignoram a congregação evangélica real. Sem lugar para socialmente fracassados, excluídos, abandonados pelos poderes públicos. Políticos vão bajular as igrejas nas eleições deste ano, e vice-versa, fortalecendo ao mesmo tempo a prática da compra do voto no culto. Curral eleitoral perfeito, igrejas, além de oferecerem o púlpito, ensinam a votar.

Realizando um inventário dos objetos constantes na residência de um crente evangélico, além dos folhetos contra o homossexualismo protegido por leis civis – e da campanha contra a pedofilia, que deu mais mandatos a políticos com dossiês de corrupção – somos surpreendidos por novidades simbólicas, além das camisetas pretas, entre as muitas encontradas na religiosidade popular. A vida devocional diária doméstica acompanha o uso da religião mágica, orações de poder e símbolos da religiosidade popular: rosas vermelhas, galhos de arruda, sal grosso, manto santo, chave da vitória, lenço da cura; vigília do milagre, unções supersticiosas, carros e residências ungidos, e diversos outros resultados materiais. A reprodução das práticas mágicas e supersticiosas vêm em primeiro lugar, já que exorcismo não cura câncer. Todos sabem que na “hora H” é para o Sírio-Libanês que vão. Se tiverem como.

A pentecostalização eclesiástica inclina-se também à simplificação do culto e procura do melhor espetáculo litúrgico, transformado em show e cantorias do pior gosto musical. Uma droga! Competindo com outras, no individualismo eclesiástico, repetem lições de intolerância. Moradores de rua, prostitutas, minorias sexuais, trabalhadores de baixa renda, imigrantes haitianos, bolivianos, deficientes físicos, idosos, não motivam evangélicos recentes. Luto assistido? Nem pensar. São esquecidos doentes terminais, que poderiam ser alvos de cuidados pastorais e eclesiásticos, conforto ao fim da vida. Não interessam, por serem dependentes de cuidados. Não sendo bons clientes, não são consumidores confiáveis. Espaços importantes são ocupados pela pregação interesseira. O apoio logístico à pentecostalização doméstica é avassalador. Inclusive nas igrejas históricas, as quais esqueceram as diaconias que as firmaram no mundo cristão. Sem novidades foi o ano de 2011.

A inconsistência moral de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que pode a sua reserva de decência e indignação. Nem tampouco pode ser legislada, apesar do anseio pela ética, no país. Perseguir homossexuais, por exemplo, motiva esse grupo. Que mais? Que culpa têm eles dos demais ingredientes indigestos que compõem a nova sociedade brasileira? “Não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões” (Jonathan Schell). Quando acordaremos para nossos verdadeiros problemas, e nos indignaremos com as injustiças que tomam conta da nação?

Leia mais: Paul Freston
Derval Dasilio

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

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