Derval Dasilio – Escritos&Artigos

24/05/2009

ASCENSÃO: ERA JESUS UM ASTRONAUTA PERDIDO NO ESPAÇO?

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Por falar em ascensão, há alguns anos um livro do jornalista Erich von Daniken foi sucesso: “Eram os deuses astronautas?”. Recentemente, um astronauta brasileiro foi elevado ao espaço numa viagem que teria custado cerca de 10 milhões de dólares aos cofres da nação, e não importa se foi menos ou mais. Acompanhado de outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do céu”. Quando voltou, coroado herói nacional, ganhou aposentadoria perpétua sem ter completado sequer 40 anos.

Quem desejaria mais? De certo modo muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais, que um dia percorrerão as distâncias em anos luz, os quais nos separariam do “céu”, e chegarão a um lugar onde supostamente diz-se que está Deus. Então, sem alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do mistério da Ascensão do Senhor: “Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.

Como se poderia calcular, como ferrenhos fundamentalistas, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?”. Na opacidade do mundo, faltam instrumentos para medir o tempo da eternidade? Lentes telescópicas que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos para esses anseios? A razão quer explicar a fé, diríamos. Anselmo de Cantuária (1150) estabelecia que a fé requer inteligência, fides quaerens intelectus, enquanto falava deste assunto. Referia-se ao que a carta petrina apontava: “… estejais sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15)?

Karl Barth dissertou sobre Anselmo, no seu doutoramento. Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista. A Billy Grahan Evangelistic Association, Minneapolis, USA, influencia significativamente os caminhos do imperialismo fundamentalista norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1.500 milhas quadradas”. Muçulmanos, cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui na terra, porém, garantiriam tonéis do precioso produto vinícola no céu (gaúchos brasileiros exultariam: Caxias do Sul fará parte da Jerusalém Celestial!). Condenam o adultério aqui, mas prometem belas virgens, ninfetas e mancebos, gays em quantidade, para quem chegar, por merecimento, ao “Paraíso”. Mas cristãos acham que hetero, homo, bi e transsexualidade, serão substituídas por um estado celestial esquisito, como disse o papa João Paulo II: “No céu, homens e mulheres não terão vida sexual”. Cantares de Salomão, no cânon bíblico cristão tornar-se-á apócrifo!

Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe no imaginário religioso das religiões; cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de inferno, se diz por aí. Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de 279º centígrados, embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local (Eduardo Galeano). Estamos, portanto, diante de um grave dilema de salvação. Não desanimemos, no entanto.

Nos evangelhos, Cristo, na Ascensão, foi entronizado na esfera divina, além das estrelas, das galáxias. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades. A fé observa o mundo de Deus livre das corrupções e falibilidades humanas. Um céu exemplar sobre “todos os céus imagináveis”. O céu bíblico é o lugar natural da justiça de Deus, da perfeição, da ubiqüidade, da atemporalidade do cuidado divino, dos espaços infinitos e imensuráveis ocupados pelo amor ensinado por Jesus Cristo. Na misericórdia e compaixão, no cuidado e na solidariedade, ali está a glória de Deus, plenitude. Luz, felicidade, beleza, bem-estar em todos os níveis. Quando proclamamos que Cristo subiu ao céu, singularizamos a pluralidade celestial do reinado pleno de Deus, na expressão de Paulo: “Cristo é tudo em todos. Nada nos separará do amor de Deus”. Logo, Cristo não ficou “lá em cima”: “Ele está no meio de nós”, como proclama a liturgia cristã.

11/05/2009

QUEM AMA NÃO BOTA AREIA NA JUSTIÇA DE DEUS…

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        ONLINE – Publicado em 14/05/2009

Amigos, o texto bíblico é paradoxal (Jo 15,9-17).  Sua síntese poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías, que coloca a ação concreta no campo do amor justo, “ahavah”, amor visceral e misericordioso de Javé; amor como fruto da justiça, exercício dos direitos fundamentais do homem, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). Segundo a perspectiva joanina, porém, esse amor não é humano, é “agape”, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustentam a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e o direito. 

Este amor, verbo dinâmico (agapao), ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa em boa vizinhança social, ou na estabilidade familiar ou conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo da justiça e da misericórdia, cuidado, compaixão, ternura, tal como o amor de Jesus Cristo. O escravo do amor (doulos) serve à justiça (tsedakah ou dikaios), no rumo da paz (shalom ou eirene), em total fidelidade a Deus (emunah). Deus é amor, disse João. O evangelista hebreu nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este.

 Amar o outro por ele mesmo, como ele é, desejar que ele continue a ser o que é, não violentá-lo a pretexto de transformá-lo “por amor”. Desejar sua independência e liberdade, interceder para sua salvação de tudo que oprime e faz sofrer. Mensagem ecumênica: respeitai-vos mutuamente, diz João, reproduzindo o imperativo de Jesus: sejais ternos, nas desgraças, nas angústias, nos tormentos, curai o sofrimento uns dos outros… “para que o mundo creia”.  

A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas imbecis, da Tv; nos romances rasteiros das bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é amor “abstrato”, filosófico, sem realismo humano. O amor sem igual, solidário, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”.

Por quê? O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia há pouco – e nos apóia a história do Brasil imperial: Calabar garroteado, Tiradentes esquartejado; divulgação exaustiva do assassinato de Che Guevara – como demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora a qualquer movimento rebelde ao totalitarismo.  

A questão dos mártires está sob o juízo de Deus (Moltmann). Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, sofreriam o martírio por causa do amor. A ressurreição, como nos lembramos também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar os mortos, que voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do inverno. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. Amor como semente de um mundo transformado. O amor solidário de Deus estava no Cristo morto, crucificado e trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça amorosa de Deus.

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