Derval Dasilio – Escritos&Artigos

29/03/2009

PÁSCOA GOSPEL: CRENTES VENDIDOS COMO GADO…

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                                                                                                                PUBLICADO EM  ULTIMATO ONLINEMARÇO/2009

 

À véspera da Páscoa aconteceu que Jesus encontra no templo (hieros) a religião transformada em comércio, diz o Evangelho. Chegamos ao ponto nevrálgico da revolta de Jesus. O templo é secretaria fazendária, comitê político-partidário servindo ao poder dominador, banco e loja religiosa, emporion de clientela cativa, a religião é compulsiva ou indutiva. É quando bem-aventurança passa a ser vendida no altar, e lideranças se esforçam na pregação do deus subornável, deus ex machina, capaz de resolver qualquer problema financeiro, emocional, existencial.

 

Hoje, tempo pascal, o público evangélico é “freguês” das lideranças evangélicas carismáticas. A religião de mercado se impõe. Pragmáticos e gananciosos, ideólogos da “prosperidade comprada no altar”, imaginam que são cabos eleitorais,  empresários e mercadores, orientam o povo para a ganância, com muita diversão: o evangelho até dá samba! E o pessoal se diverte muito. O verão é comemorado, a festa atravanca o trânsito de sexta a domingo: Viva Verão! O deus Sol é exaltado novamente, na praia. Bandas gospel, divas e “divos” da música carismática cantam um Jesus coberto de melado, fazendo propaganda eleitoral. A fina flor evangélica comparece, estacionando seus carros bacanas nas ruas próximas, gozo de flanelinhas. Candidatos à reconversão vêm da periferia, também, aos borbotões. De ônibus, claro. Porque as comunidades pobres, sem brilho moderno, desqualificadas pelo conversionismo de luxo, também não conseguem fixá-los na vida de fé. Os pastores da igreja milionária encarregam-se da bricolagem evangélica.

 

Três dias de “conversões” e “vidas transformadas”. Claro, não se pode exigir que hinos clássicos comovam jovens sentados na areia, agarradinhos. Hinos como o do protestante Johann Sebastian Bach não são viáveis para a cultura gospel (Jesus, alegria dos homens): harmonia complexas, contrapontos marcados, litania envolvente, profunda, proclamando a fé, enquanto o povo congregado responde in toto o que ouviu. É Jesus minha alegria, meu prazer, consolo e paz!. “Muito clássico! Meu  prazer é a Aline Barros e a Oficina G-3”, fala a jovem carismática e lacrimosa.

 

Pastores e psicanalistas, em barracas montadas nas proximidades, atendem a garotada em estado de êxtase, aos prantos, pele arrepiada e tremida: jovens acabaram de conhecer Jesus pelas visceras! Recebem conselhos, e são cadastrados. Que não ousem aparecer os totens da MPB, como Milton Nascimento. Seriam vaiados, como representantes de música profana, do mesmo modo que chiques e famosos vaiaram João Gilberto no Credicard Hall. Não cabem no marketing das diversões evangélicas. Rappers, sim.

 

Caricaturas protestantes, praias famosas, centros de convenções, são alugados ou cedidos ao público especial. Comparece a elite evangélica, o prefeito, o deputado, o senador, e até o governador nem morno nem quente, não importa se comprometidos, expondo-se no cenário do crime organizado. O advogado acusado de roubar 300 milhões do erário preso com a Bíblia em punho; o juiz processado por assassinato do colega que o investigava por venda de sentenças em conluio com desembargadores, presos e soltos pela “justiça”, pastores e lideranças evangélicas peso-pesado, marcam presença. Perderam o trem da história, dedicando-se à luta inglória pela “doutrina protestante”, e à propagação do fundamentalismo do protestantismo de missões, instrumentalizado no serviço das eclesiologias recentes. Banqueiros, supermercadistas, agiotas, financistas, comerciantes, corruptos, bem-vindos! São bem divertidas as festas gospel. O proselitismo, agora, é prático. Entre os próprios evangélicos. O novo rosto evangélico marketeiro e político elege  políticos evangélicos, vende discos e relíquias em CD. Ninguém é bobo. Protestantes históricos permanecem perplexos, mas apóiam a modernidade gospel.  É pra rir ou pra chorar?

 

Derval Dasilio

 

 

 

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