Derval Dasilio – Escritos&Artigos

18/02/2009

CARNAVAL: SANTA CEIA COM JESUS NA AVENIDA…

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    Publicado na Revista Utimato online – 02 DE MARÇO 2009

Comprei “A Tribuna” – (Vitória-ES 16/02/06) –  e achei interessante o artigo “Santa Ceia com Jesus na avenida”; parece-me estranha essa mistura do religioso com o profano (Carnaval). Os símbolos da fé misturados… Como nós, cristãos protestantes, deveremos ver isso?

Abraços, Zezinho.

 

Zezinho:

Como protestantes? Protestando!

Os símbolos da fé cristã, ou como João Calvino e Lutero diriam: “meios da Graça”, como entendemos na celebração da Eucaristia, não deveriam ser tratados assim, com a leviandade das festas populares, ou na exibição de algo próprio da intimidade requerida para a comunhão com o Corpo de Cristo, alimento para a salvação do mundo. (Corpo de Cristo=carne do Senhor=identidade vital onde se expressam sentimentos e sensações solidárias). Refiro-me à intimidade comunitária dos pecadores confessos que se alimentam da fé no Crucificado, e esperam a comunhão do mundo inteiro na grande festa da libertação (o Banquete do Reino de Deus). No país do futebol e do carnaval se come feijoada, “muqueca” (particularmente, eu dobro os joelhos diante dessa iguaria, se for a muqueca capixaba), pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… se dança samba, forró, rock, reggae, funk, gospel, e tal, mas “comunhão” da boa, nada… queremos ver é a comunhão para transformar a injustiça, acabar com a exclusão e promover a solidariedade, como a Ceia do Senhor indica (pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval…  simulam a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo ou Vasco, Coríntians ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo?). Nem sei se Jorge Amado contou esta história (No País do Carnaval)…

 

Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos e protestantes? A eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)? Por que não se admitiriam os pecados estruturais na sociedade inteira, injusta, irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão; por que se esconde o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos e heresias gritantes, carregada de magia religosa, superstições, crendices?

 

Jesus disse, introduzindo-se paulinamente a Santa Ceia na Carta 1Coríntios (aviso aos torcedores da Fiel corintiana, novos evangélicos que desconhecem a Bíblia: não é do Coríntians Futebol Club): “O pão que eu darei é a minha carne para a vida no mundo”; (…) ”aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (João 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús também o reconheceram “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”!

 

Mário de Andrade deixou-nos uma parábola maravilhosa no livro Macunaíma. No entanto, quem viu Grande Otelo, no filme de Joaquim Pedro de Andrade, vai lembrar-se desse desgraçado símbolo cultural da alma brasileira: Macunaíma alimenta-se da própria carne! Autofagia cultural… quem sabe essa Santa Ceia no Carnaval não apontará os que comem a própria carne no meio da rua? Nas câmaras de deputados e de vereadores, no Congresso Nacional, têm “bloco evangélico”… agora teremos o “bloco dos evangélicos” desfilando na avenida, celebrando uma comunhão não se sabe com o quê? Os demônios embutidos nas ideologias religiosas estão soltos dentro de nós e no meio cultural no qual vivemos. Quem diria, evangélicos, além de bibliolatras literalistas, cultuam também os ídolos da cultura popular brasileira… É hora do “descarrego” em praça pública? Será que evangélicos também necessitariam de conversão à fé no Deus Libertador do distanciamento,  da religião alienada, reconciliação com a fé no Ressuscitado que a Eucaristia e o Partir do Pão expressam? Se assim for… Amém.

“Elevemos os nossos corações”!

(Rito da Liturgia da Ceia do Senhor Presbiteriana-Reformada)

Kyrie Eleisson (Senhor, tem piedade de nós…) 

Pastor Derval Dasilio

10/02/2009

DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO…

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DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO

Salmo 30 – Que proveito terá meu corpo entregue à morte?

1Coríntios 9,24-27; 10,31-11 – Submeto meu corpo… para a glória de Deus

O centro da fé cristã é a ressurreição do corpo, não da alma, ou do espírito. O NT faria implodir a crença posterior da supremacia do espírito (nous), se assim fosse lembrado. Ressurreição é libertação da morte do corpo. Esta centralidade proporciona uma descoberta de renovo, de vida nova, de transformações das coisas submissas ao domínio da morte. O corpo exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas. Corpos que são castigados pela tortura, pela prisão, pelo exílio, fome, morte pelo descuido nas políticas públicas (dengue, hepatite, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, impunidade…). Sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis atuam nas realidades humanas. Na memória de Zulu, Tiradentes, Calabar, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf). Para sufocar a liberdade é preciso torturar, esquartejar, carbonizar os corpos sob inquisição. Sem o corpo, também, não se pode explorar o homem! É o corpo da pessoa que é explorado como mercadoria, seja no Big Brother, na prostituição adulta ou infantil, tanto na produção como na mercantilização do trabalho ou do esporte de massas (na transação fracassada entre o Milan e o Manchester United, Cacá revelou-se um escravo branco e não sabe…).

O corpo está sempre na linha de montagem de máquinas exploradoras. O corpo é matéria, e João acentuará: “A Palavra se fez carne” (logos, davar), e habitou no mundo como corpo, e não como “templo”, porque o Templo estava a serviço da opressão política desde o modo tributário de Salomão (cf.Jo 1,2ss; 2Cr 8,1-8). Mas é impossível dissociar o corpo de outras opressões, desde a sexualidade reprimida, homofobia, o sexismo, androcentrismo, ao direito de ir e vir que a União Europeia quer controlar, e como o “muro de seis metros” californiano pretendido por Bush e Shwarzenegger para impedir a entrada de “xicanos” e “ilegais” nos EUA. Podemos interpretar assim o pensamento religioso que prevalece ainda nos dias hoje, equivocadamente, até nas pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”.

A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! Para encerrar a discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, é alma, é espírito, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no Primeiro já haviam descoberto, os exegetas do século XIX, que a palavra “Espírito” (pneuma, na Septuaginta, AT) refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma, e da alma que é corpo inseparável da alma”. Corpo e alma são indissociáveis (R.Martin-Achard).

A discussão refere-se à integridade espiritual do crente. Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego da palavra “espiritualidade”. O que tem ela a ver com o corpo, ou a corporalidade das pessoas. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como filósofos gregos, que imaginavam possível um estado de perfeição do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual, fora do corpo e das realidades humanas. Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela mortificação do corpo. Os monges gregos ainda no começo da Idade Média já diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (espírito é nous, soma é corpo, no grego). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e ele foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu na igreja não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século VII a.C. chamada “Religião Órfica da Trácia”, capaz de admitir uma dicotomia, e até tricotomia, do ser religioso.

Desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo, e mesmo o judaísmo de Jesus e dos apóstolos desconhecia tal entendimento (Renold Blank). Paulo prossegue nesta linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com a espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos, “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um corpo. Um corpo é parte de outros corpos, na igreja, na comunidade, na sociedade. Ludwig Feuerbach disse, escandalosamente: “O homem é o que come…” Desse modo, parece que os cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato proveniente da revelação divina. Mário de Andrade e Macunaíma com a palavra, diante da antropofagia reinante entre os próprios cristãos.

Kyrie Eleison

Derval Dasilio

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