Derval Dasilio – Escritos&Artigos

25/12/2008

NATAL: UMA EXPERIÊNCIA DE LUZ, GRAÇA E REPOUSO

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          Lucas 2,1-14 (15-20) – O evangelho da Natalidade do Senhor está colocado em um belo momento. Antes de tudo, a autoridade divina do “César” (e de todos os césares deste mundo) é questionada.  O dono do maior império econômico do mundo decreta a mobilização dos oprimidos e escravos do mundo de então, debaixo de sua autoridade e poder, para alistarem-se na relação de pagadores compulsórios dos impostos fazendários opressores. Entre os atingidos pela violência do sistema econômico estão os pais de Jesus, que têm de “pôr-se a caminho”. 

 

Lucas sempre usa a expressão: “pôr-se a caminho…”. Os cristãos, inicialmente, não tinham “igreja”, eram “os do caminho”. O povo bíblico tem o “caminho” associado à própria imagem, ao nome e à semelhança. foram nomeados ou nomearam-se hebreus (ivrim), os que andam pelos caminhos. Passantes. O simbolismo do “caminho”, estrada, ‘hodós em grego, está intimamente ligado à fé de Israel. Sua história é feita de deslocamentos, de êxodo (ex-‘hodós) para a Terra Prometida ou como retorno do exílio. Diz Santa Catarina de Siena: o mundo é uma ponte, sejamos passantes.

 

Mas, o que deve realmente chamar nossa atenção é como o “deus” do mundo político-econômico, (já que Augusto se considerava divino…), quer realizar o sensoriamento econômico (como nos obrigam, hoje, com o CPF, CNPJ, criado por Delfim Neto quando ministro fazendário da ditadura militar); para controlar, submeter, obrigar o contribuinte compulsoriamente, em todo o mundo sob a “pax romana”. Esta definia um mundo altamente hierarquizado em muitas escalas de autoridade, tendo César no alto da pirâmide, recebendo sua fração, enquanto, no trajeto, as elites do poder se saciavam  na corrupção consentida.

 

Lucas pretende mostrar que o acontecimento de Belém é um fato que envolve misericórdia, graça (hesed e xáris , no Primeiro e Segundo Testamentos), e salvação (soter).  A misericórdia de Deus torna presente o Salvador, o próprio Deus que visita os que não têm liberdade, nem direitos fundamentais, nem cidadania, em afronta direta ao decreto imperial que acentua a opressão construída sobre a escravidão econômica e a injustiça social. Um grupo de pastores, num segundo momento, sem autoridade; sem credenciais do governo reinante (Quirino), vai se converter em emissários do projeto de salvação da parte de Deus.

 

A intencionalidade pedagógica de Lucas pode ser percebida: Maria, uma jovem mulher pobre, sem poder algum, é escolhida para gerar em seu ventre aquele que seria o Salvador (soter) de seu povo. Mashiah, Christós, Kyrios (Messias, Cristo, Senhor), títulos que identificam uma grandeza superior, acima de todos os poderes deste mundo. Uma força irrompendo, no entanto, sem explosões, sem abalos sísmicos, sem tempestades, sem furacões ou enchentes, como estas calamidades que destruíram Sta.Catarina e agora arrebentam com Minas Gerais. Ninguém reconheceria um personagem com tais títulos num menino depositado no berço improvisado no cocho das alimarias. E uma noite comum, de céu limpo e iluminado por estrelas, testemunha a Graça que traz consigo o Deus Salvador. Nada demais, nenhum fenômeno, apenas o que se vê no cotidiano de todos os povos e nações do mundo. É a ternura de Deus iluminada nos cuidados da mãe, Maria, que reproduz o sentido maternal do Criador: nasceu Jesus!

 

O símbolo deste poema é a “luz” dentro da longa noite escura dos tempos de opressão. A Luz traz vida, a Luz traz a salvação, por isso a noite que antecede à chegada do menino Salvador é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo:  fiat lux,“haja luz”! Por outro lado, a Luz é o grande sinal de libertação que o profeta Isaías propõe ao povo (Is 9,1-3; 5-6 ), em nome de Deus. “Um dia desses nasceu Jesus /Nasceu pobre miserável, entre os animais/Não esses animais bem tratados/Entre os vira-latas, ratos e baratas” (André Aimberê).

 

Deus se entrega aos que ama como um menininho nordestino, ou um guri do Sul, enquanto sua Luz se derrama sobre as escuridões de opressão, das desigualdades, dos preconceitos, das pressões do determinismo histórico imposto aos fracos (a lei do mais forte…).  Somos iluminados, podemos vislumbrar a dignidade ferida dos pobres, das “viúvas” e “órfãos”,  dos massacrados ansiosos por um naco de carne-seca e um pouco de feijão-de-corda, por causa do dom da Graça e da Misericórdia de Deus. “No mundo dos pobres a solidariedade, se introduz a força da acolhida, solidariedade entre homens e mulheres, que atinge a todas as pessoas feridas, esmagadas, trituradas, prejudicadas física, emocional e psicologicamente, por múltiplas experiências de precariedade, carência, solidão, fracasso, frustração, entre outras situações de desesperança” (pastora Elizabeth Salazar). A experiência da Graça é uma experiência de descanso em Deus, de repouso no Altíssimo: Deus Salvador está conosco, agindo para tornar humana a vida de todos os homens e mulheres. Por isso, a festa da Natalidade do Senhor deveria invadir o cotidiano de todos: Deus tem a palavra final. Deus é “davar”, é “logos”, Palavra que se chama Libertação.  Há Salvação no mundo impiedoso em que vivemos!

 

18/12/2008

MUNDO INFERNAL E SOBRENATURAL NO ADVENTO

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Perguntavam-me: Você crê em demônios? Crê no diabo e seus anjos? Eu respondia: – “Claro que creio. Sua pergunta também pode ser respondida quando se observa a realidade concreta da miséria, do abandono e do esquecimento dos fracos, dos despoderados, dos esmagados pela injustiça predominante, tão perto de todos nós. Nada é mais demoníaco que essa realidade”. Sob uma visão de abismo, um mundo dominado pelo Mal sobrenatural, um universo catastrófico dominado pelo Mal irreversível; “demônios” por toda parte, como entenderemos que Deus, Todo-poderoso, se entregue e abdique de toda  capacidade de se sobrepor e superar o sofrimento sem agir diretamente no terreno das crenças no sobrenatural, nas crendices, nas superstições?

Ao assumir a condição humana, um certo Jesus de Nazaré, um homem como qualquer outro, a ponto de esvaziar-se para ser julgado pelos homens, ingressa na esfera terrena, desce aos infernos humanos emergindo vitorioso sobre a morte, inclusive no inferno da alienação mental de seu tempo (Karl Barth, comentando o Credo Apostólico).  O que norteia o imaginário religioso quando os demônios contemporâneos se apresentam na complexidade dos sistemas de pensar que os denunciam, é deveras interessante à pregação e ao púlpito cristão. Trata-se do reconhecimento pagão de que Deus não tem nada a dizer sobre a irreversibilidade do Mal sobrenatural. Cristãos paganizados condicionam sua fé à superstição que envolve o sobrenatural, dominado através da magia: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”.

No tempo de Jesus dominava um forte temor, até extraordinário, em relação a demônios. O que ocorre com a Palestina islâmica ainda hoje serve de parâmetro para o que ocorria dois mil anos atrás.  Doenças, em muitas manifestações, eram atribuídas a demônios, particularmente as doenças psíquicas, que externamente acusavam vítimas, pessoas enfermas que não mais tinham controle de si mesmas. Nada incomum, como ocorre em templos evangélicos e católicos de hoje, sob influência “carismática”, quando doentes mentais escolhiam sinagogas e diante delas começavam a vociferar. Nossos hospitais deixam pouco espaço para os doentes mentais, para perturbados psiquicamente. Assim entendemos a dimensão do grande medo de demônios.  Não menos quando os corredores dos ambulatórios dos hospitais públicos amontoam pacientes em estado grave aguardando atendimento. Muitos morrem.

É preciso compreender e estabelecer que as questões estão condicionadas às nossas crenças. Tiago, abordando a questão de fé, diz: “Tu acreditas que há um Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E estremecem ao ouvir o seu nome” (Tg 2,19). Nesse ponto, questionaríamos o mundo virtual que se faz como mundo real? Então, caímos noutra questão: é o ser humano que inventa o Mal?  É o ser que  se angustia, como o aprendiz de feiticeiro que não sabe desfazer o feitiço? O ser humano alcança o álibi que o inocenta diante das decisões necessárias, quando poderes humanos demoníacos se impõem em seu lugar?

Pior ainda, atribuindo a poderes terceiros, diabo, demônios, forças do mal, a escolha, que, finalmente, é sua, nega-se o domínio de Deus diante das forças cegas que dominam o universo de muitos. Ao finalizarmos o tempo do Advento, já na proximidade da Natalidade do Senhor, seguimos ouvindo vozes e ecos proféticos, enquanto os acontecimentos da vida humana persistem em reclamar dignidade para a vida, paz, comunhão, solidariedade, especialmente entre os que crêem em Jesus. Ou não, enquanto localizamos demônios  sobrenaturais acima da realidade concreta. Demônios verdadeiros, em carne e osso, são impedimentos ao reinado de Deus. Contra Deus estão aqueles que negam direitos fundamentais à pessoa humana; que negam dignidade através dos direitos sociais; que recusam comunhão e partilha de bens sociais; que se entregam à indiferença ou à ausência, quanto à solidariedade evangélica devida aos deserdados, sem-terra, sem-casa, sem-habitação, sem-educação formativa, sem-saúde e previdência social.

O Advento do Senhor é tempo de salvação (kayrós). O Reino de Justiça e Paz chega aos homens e mulheres que clamam por libertação do espírito egoísta, particularista, exclusivista, discriminador, preconceituoso, desse tempo diabólico inclinado a explicar-se através do Mal sobrenatural, do destino, do fatalismo, do determinismo espiritual de uma época. Como ocorre nos nossos dias, a céu aberto para quem quiser ver. A presença de Jesus Cristo, nesta “parousia”,  “adventum”,  alcança o povo da fé libertária e libertadora. Temos Esperança! O Senhor vem.

13/12/2008

MORTE EM MEIO À INJUSTIÇA E CORRUPÇÃO

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ADVENTO – 3o.DOMINGO – ANO B

 

MORTE EM MEIO À INJUSTIÇA E CORRUPÇÃO

A missão do Messias, tal como percebida pelos profetas, com séculos de antecipação, cristaliza os conceitos de Evangelho e de evangelização (João 1,6-8;19-27).  Denunciando a injustiça, João Batista é o primeiro a morrer. A meditação demorada de Jesus, leitura orante, fazia-o seguro de que cumpria as Escrituras. Apresentou-a na sinagoga como um sinal claro de messianidade, e ante a comissão oficial que veio perguntar-lhe se era o Messias. Aí está: O Messias de Deus vê que o povo é vítima da voracidade e da indiferença da elite corrupta que exclui o pobre e o faminto; o desabrigado; os que não podem nem mesmo comprar os animais para o sacrifício de expiação no templo. Os dirigentes devoram os bens do povo, o erário, o que é arrecadado em impostos (inclusive o religioso), associados aos membros da elite econômica que exploram, perseguem e matam irmãos e irmãs em razão da ganância reinante; os que têm a função de guardar a vida do povo, pastores, sacerdotes, líderes religiosos, estão mancomunados com os ricos que correm atrás de seus interesses particulares (Shigeyuki Nakanose, Como Ler Isaías).

 

Pessoas justas, como João Batista, estão sendo assassinadas porque, em nome da justiça de Deus, denunciam os crimes dos governantes e das elites, ao mesmo tempo em que se recusam a cumprir as leis injustas do Templo e do Governo, enquanto eram escorraçadas pela sociedade e pela religião (cf. Gandhi e Luther King Jr; Mandela; Jaime Wright).

 
No momento em que escrevo, no ES, noticia a imprensa: “Operação prende magistrados no ES e faz devassa no Palácio da Justiça do Espírito Santo. São 7 mandados de prisão. Investigação apura envolvimento de desembargadores. O presidente do Tribunal de Justiça, juntamente com alguns outros desembargadores, foi preso, acusado de participar de uma quadrilha de juízes instalada no órgão máximo de justiça do Estado do Espírito Santo. Uma alto magistrado, por mandato judicial, foi preso em sua residência, enquanto a PF apreendia, no local, tanto dinheiro que foi necessário o uso de uma máquina do Banco do Brasil para contar. Por várias horas”.

 

Enquanto isso, o drama da miséria, na corrupção, da ausência de cidadania e direitos fundamentais; o drama da religiosidade atrofiada, transparece na  messianidade de Jesus. Os servos de Yahweh, serão lembrados pelo Messias de Deus. Os que passam fome e sede gemem de angústia e sofrimento, mas a situação vai mudar. Uma sociedade com fortes contrastes e injustiças, controlada por mecanismos que associam a religião com a política e a economia, convence-se de direitos consuetudinários, e posterga as transformações necessárias. A sociedade recusa-se a ver, ou não demonstra interesse pela realidade ocupando-se com o falso moralismo, antes que da ética, éthos que dá ordem ao caos social. É exatamente o que se vê nos dias atuais, quando as formas e mecanismos transmudam aparentemente, mas não se movem interiormente para as mudanças necessárias. O conflito é inevitável.

 

Hoje, quando há quem pense que estamos em posição bem diferente  daquela sociedade denunciada por João Batista, o que se observa é apenas uma mudança coreográfica: muda-se o cenário, instrumentos cênicos, fumaça de gelo seco, spots, holofotes, para enfocar detalhes. As personagens são as mesmas de sempre e o roteiro permanece inalterado. O drama dos oprimidos continua. João Batista nos recordará, neste domingo, que o menino do presépio em Belém não é apenas uma história piedosa sacro-romântica, sobre heróis da Bíblia, que os autores construíram com carinho e cuidado, visando comover o observador.

03/12/2008

ADVENTO – UM NOVO RUMO PARA A VIDA DE FÉ

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ADVENTO – UM NOVO RUMO PARA A VIDA DE FÉ

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O que importa não é o tempo litúrgico em si, mas o Advento mesmo, a “Chegada” – que é o significado de “noch nicht Sein”, de que fala Ernst Bloch, “não ser ainda, mas tratando de chegar a ser”. Gerard Ebelling também dizia que “o mais real do real, não é a realidade mesma, mas as possibilidades de uma nova realidade”. Bloch construiu seu poderoso edifício filosófico sobre a base da “utopia” e da “esperança”. Apresentou  belas páginas sobre a grandeza heróica de Thomaz Münzer, mártir protestante radical na Reforma, como luta por transformações sociais. Jürgen Moltmann, teólogo extremamente importante que recentemente nos visitou, admira Bloch. Lutero insistia nos dois reinos. Um reino espiritual e um secular, temporal, reino do príncipe e do imperador. O primeiro à direita, o segundo à esquerda de Deus! Um celeste, outro terreal. Münzer, contrariando-o, afirmava o único Reino aceitável pelo cristão. Concretamente. E morreu no massacre dos camponeses “sem-terras” na Alemanha de Lutero.

 

Estamos imersos numa sociedade pragmática, de resultados imediatos, onde nos movimentamos descuidadamente em todos os tipos de relações. Há esperança? Somos açoitados com chicotes de veludo para consumirmos valores de um certo tipo de sucesso, riqueza ou prosperidade, estímulo cultural de prestígio e visibilidade. Guiados pelo individualismo. Pode, isto, desviar o cristão das relações verdadeiras com Deus, no sentido do caminho que é proposto para cada um a partir do Batismo? Talvez estejamos equivocados, talvez não… Porém, quando sentimos que o problema de muitos cristãos se apresenta na falta de sensibilidade para com os compromissos da fé cristã, estamos certos? Quando fizemos profissão de fé, e declaramos adesão à causa do Cristo de Deus, mas tomamos outro rumo? Quando relegamos as implicações profundas das denúncias evangélicas, da indignação com a injustiça, terão sido esquecidas as exigências da conversão? Observemos o Advento. É preciso compreendê-lo.

 

O credo fundante da fé de Israel, no qual se confessa Yahweh como Deus de Israel, evocava uma “Aliança” de Deus com um grupo que nada representava na história da humanidade. Trata-se de uma aliança protetora e salvadora que ignorava as grandes forças, grandes povos, culturas políticas expressivas do mundo de então. O cuidado de Deus, refletindo o interesse de empoderar o fraco para resistir a toda forma de opressão está no estilo profético de Isaías, o Segundo. Faz as coisas retornarem ao seu lugar propondo uma nova utopia (lugar-ainda-não…), uma esperança nova, na qual o passado, na libertação do Egito, evocava o contrato renovado, a Aliança, como forma de amor de Yahweh a seu povo.  Na Bíblia, a Nova Aliança completa-se com Jesus, o Cristo de Deus. Com o retorno do desterro, a voz de Deus se ouve novamente, o futuro está aberto… mais que isso, está disponível para os atos libertadores que Yahweh apresenta diante das dúvidas, dos medos, dos murmúrios opressores espalhados pelos “adaptados”, conformados com a injustiça, as desigualdades e as opressões: “Onde Deus está”?

 

A conversão cristã é ressaltada, aqui. A “terra prometida vem”, o Senhor vem!, seguramente. Mas é preciso caminhar, antes de tudo, clamar, protestar, denunciar as opressões, mesmo que estejamos no deserto, “famintos de justiça” e “sedentos da água da Vida”. A conversão (metanóia, mudança de rumo) é necessária, para que se veja o novo que chega. O renovo da fé bíblica no Deus de Israel. Por isso, chama-se o povo cristão para caminhar na direção de uma nova libertação, um êxodo novo, tão prodigioso como o primeiro.  É preciso começar um novo caminhar no Caminho do Senhor (derek yahweh). Tê-lo como um marco de uma nova libertação, um Advento, é tudo de que precisamos neste momento de perplexidade.

 

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