Lucas 2,1-14 (15-20) – O evangelho da Natalidade do Senhor está colocado em um belo momento. Antes de tudo, a autoridade divina do “César” (e de todos os césares deste mundo) é questionada. O dono do maior império econômico do mundo decreta a mobilização dos oprimidos e escravos do mundo de então, debaixo de sua autoridade e poder, para alistarem-se na relação de pagadores compulsórios dos impostos fazendários opressores. Entre os atingidos pela violência do sistema econômico estão os pais de Jesus, que têm de “pôr-se a caminho”.
Lucas sempre usa a expressão: “pôr-se a caminho…”. Os cristãos, inicialmente, não tinham “igreja”, eram “os do caminho”. O povo bíblico tem o “caminho” associado à própria imagem, ao nome e à semelhança. foram nomeados ou nomearam-se hebreus (ivrim), os que andam pelos caminhos. Passantes. O simbolismo do “caminho”, estrada, ‘hodós em grego, está intimamente ligado à fé de Israel. Sua história é feita de deslocamentos, de êxodo (ex-‘hodós) para a Terra Prometida ou como retorno do exílio. Diz Santa Catarina de Siena: o mundo é uma ponte, sejamos passantes.
Mas, o que deve realmente chamar nossa atenção é como o “deus” do mundo político-econômico, (já que Augusto se considerava divino…), quer realizar o sensoriamento econômico (como nos obrigam, hoje, com o CPF, CNPJ, criado por Delfim Neto quando ministro fazendário da ditadura militar); para controlar, submeter, obrigar o contribuinte compulsoriamente, em todo o mundo sob a “pax romana”. Esta definia um mundo altamente hierarquizado em muitas escalas de autoridade, tendo César no alto da pirâmide, recebendo sua fração, enquanto, no trajeto, as elites do poder se saciavam na corrupção consentida.
Lucas pretende mostrar que o acontecimento de Belém é um fato que envolve misericórdia, graça (hesed e xáris , no Primeiro e Segundo Testamentos), e salvação (soter). A misericórdia de Deus torna presente o Salvador, o próprio Deus que visita os que não têm liberdade, nem direitos fundamentais, nem cidadania, em afronta direta ao decreto imperial que acentua a opressão construída sobre a escravidão econômica e a injustiça social. Um grupo de pastores, num segundo momento, sem autoridade; sem credenciais do governo reinante (Quirino), vai se converter em emissários do projeto de salvação da parte de Deus.
A intencionalidade pedagógica de Lucas pode ser percebida: Maria, uma jovem mulher pobre, sem poder algum, é escolhida para gerar em seu ventre aquele que seria o Salvador (soter) de seu povo. Mashiah, Christós, Kyrios (Messias, Cristo, Senhor), títulos que identificam uma grandeza superior, acima de todos os poderes deste mundo. Uma força irrompendo, no entanto, sem explosões, sem abalos sísmicos, sem tempestades, sem furacões ou enchentes, como estas calamidades que destruíram Sta.Catarina e agora arrebentam com Minas Gerais. Ninguém reconheceria um personagem com tais títulos num menino depositado no berço improvisado no cocho das alimarias. E uma noite comum, de céu limpo e iluminado por estrelas, testemunha a Graça que traz consigo o Deus Salvador. Nada demais, nenhum fenômeno, apenas o que se vê no cotidiano de todos os povos e nações do mundo. É a ternura de Deus iluminada nos cuidados da mãe, Maria, que reproduz o sentido maternal do Criador: nasceu Jesus!
O símbolo deste poema é a “luz” dentro da longa noite escura dos tempos de opressão. A Luz traz vida, a Luz traz a salvação, por isso a noite que antecede à chegada do menino Salvador é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo: fiat lux,“haja luz”! Por outro lado, a Luz é o grande sinal de libertação que o profeta Isaías propõe ao povo (Is 9,1-3; 5-6 ), em nome de Deus. “Um dia desses nasceu Jesus /Nasceu pobre miserável, entre os animais/Não esses animais bem tratados/Entre os vira-latas, ratos e baratas” (André Aimberê).
Deus se entrega aos que ama como um menininho nordestino, ou um guri do Sul, enquanto sua Luz se derrama sobre as escuridões de opressão, das desigualdades, dos preconceitos, das pressões do determinismo histórico imposto aos fracos (a lei do mais forte…). Somos iluminados, podemos vislumbrar a dignidade ferida dos pobres, das “viúvas” e “órfãos”, dos massacrados ansiosos por um naco de carne-seca e um pouco de feijão-de-corda, por causa do dom da Graça e da Misericórdia de Deus. “No mundo dos pobres a solidariedade, se introduz a força da acolhida, solidariedade entre homens e mulheres, que atinge a todas as pessoas feridas, esmagadas, trituradas, prejudicadas física, emocional e psicologicamente, por múltiplas experiências de precariedade, carência, solidão, fracasso, frustração, entre outras situações de desesperança” (pastora Elizabeth Salazar). A experiência da Graça é uma experiência de descanso em Deus, de repouso no Altíssimo: Deus Salvador está conosco, agindo para tornar humana a vida de todos os homens e mulheres. Por isso, a festa da Natalidade do Senhor deveria invadir o cotidiano de todos: Deus tem a palavra final. Deus é “davar”, é “logos”, Palavra que se chama Libertação. Há Salvação no mundo impiedoso em que vivemos!