Derval Dasilio – Escritos&Artigos

29/10/2008

DEUS E A RELIGIÃO FUNDAMENTALISTA: NENHUMA COMPATIBILIDADE

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DEUS E A RELIGIÃO FUNDAMENTALISTA

Derval Dasilio

         

A religião fala da experiência humana com o sagrado, o mundo imediato que quer explicar-se diante do inusitado: a experiência de Deus na vida e na sociedade humana. A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, nas eras mais recentes, na Antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião se aproxima da transcendência humana. Narrativas supra-históricas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o mundo sagrado inexplicável, como já me referi recentemente.

 

Esse conceito corre perigo, poderíamos apenas analisá-lo como manifestação cultural, expressão humana, de certo modo prisioneira do que a antropologia poderia dizer sobre uma religião estática e vendável (religião de mercado). Mas poderíamos buscar outro enfoque, como sendo o “suspiro do oprimido” (Rubem Alves), onde os sonhos de libertação se apresentam em utopias (ou, em grego: não; topos: lugar; utopia é lugar nenhum já visto pelo homem). Nesse caso, a experiência religiosa representa o sonho de estarmos ligados à experiência de Deus que dá sentido à vida. A vida faz sentido, com a religião. Então, Deus não é uma ilusão religiosa, como queria Feurbach, e depois Marx, e mais tarde Freud (O Futuro de uma Ilusão). 

 

O ascetismo do passado, o pietismo avivalista, moralista, trouxeram muitos problemas ao entendimento da espiritualidade de Jesus. Envolvidos com a ambigüidade, com ambivalências referentes à vida de fé, o “eu” humano perde-se na mortificação da carne, no mais das vezes. Porque se entendia que corpo e “carne” são a mesma coisa. Fonte de desejos espúrios e sentimentos inimigos do “espírito”. O verdadeiro “eu” exige bastante honestidade para conosco mesmos.

 

A vida humana reflete uma realidade diferente, uma vez que nele estão contidas imagens reveladoras da essência humana, dos prazeres e desprazeres da vida. O amor é uma espécie de amigo invisível e imaginário através do qual o homem vê a si mesmo e o mundo em sua totalidade. A exclusividade ressurge sempre de um modo maravilhoso; e então você pode agir por amor, ajudar, curar, educar, elevar, salvar o seu próximo e a sua próxima.

 

Amor é responsabilidade de um “Eu” para com um “Tu”, nisto consiste a igualdade daqueles que amam. Por se ter podido vencer o egoísmo individualista e ousado algo inacreditável: amar. Assim, ele credita na simples magia no serviço, no universo, e lhe será esclarecido o que significa cada espera, cada olhar da criatura, cada reclame de cuidado, na direção do amor (cf. Martin Buber).  É preciso, portanto, aprender a amar o próximo como Deus ama os homens e as mulheres deste mundo.

 

Somos alertados no sentido de observar a linguagem da religião para distingui-la da linguagem da fé. Tarefa praticamente impossível, a não ser que o Espírito Santo nos ajude, diante do surto neoreligioso que nos acometeu nas últimas três décadas. O racionalismo fundamentalista encontrou a válvula de escape, considerando-se que o liberalismo teológico resolveu-se por si mesmo, quando descobria a religiosidade pietista/individualista/amorosa/emocional/intimista, em Schleiermacher (1768-1834). Este valorizou os “sentimentos piedosos”, dizendo que equivaliam ao senso de consciência absoluta de Deus. Quem se disporia a afirmar que o “fundamentalismo pietista e moralista, cultural e capitalista”, invadiu o Brasil com o protestantismo de missões, e nos  brindou com um racionalismo metafísico religioso, “evangélico”, com instrumentações que transmudaram o pensamento evangélico original? Dá o que pensar, a religião sem amor que se prega, assim. Pietismo fundamentalista sem compaixão. O conversionismo moral e  nada tem a ver com o Pietismo original desde Spener. Quem concorda?

11/10/2008

COMER O PÃO DA FÉ E DA ESPERANÇA DE TRANSFORMAÇÃO

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O código da comida tem seus desdobramentos. Comida exprime tão bem a sociedade como a política, a economia, a religião (Mateus 22,1-14). Lévy-Strauss já falava, chamando a atenção sobre o “crú” e o “cozido”, mas não como dois estados pelos quais passam os alimentos, e sim como modalidades pelas quais dá pra falar de transformações sociais. Aqui, as associações sobre o “salgado” e o “indigesto” também apontam para o estômago, “questões viscerais” (do latim ‘viscus’, pegajoso, grudante; ‘visceral’ é algo profundo, vital, mais instintivo que intelectual). Impossível evitar a alusão à fome e sede de justiça. Há alimento para a vida integral, como envolvimento. De fato, existencialmente, para o homem bíblico, a vida é uma unidade absoluta e indivisível, ao mesmo tempo concreta e espiritual.

       

Não é a toa que movimentos libertários contra o androcentrismo cultural (o não à mulher!), ou em oposição à homofobia (o não aos homossexuais na igreja), acentuam tanto o valor do “corpo” que precisa ser alimentado. O corpo tem uma centralidade inescapável, no sentido da libertação. O que se oprime? O corpo das pessoas, claro. Os castigo aos rebeldes recai sobre o corpo dos torturados, dos civilmente desobedientes (como Gandhi, Tolstoy, Tocqueville, Luther King Jr., Helder Câmara, Jaime Wriht), exilados, despatriados, prisioneiros políticos, famintos de justiça. A descoberta do corpo oprimido está diretamente ligada à consciência da alma livre, da qual Lutero poderia dizer, debatendo com Erasmo: “O homem não poderia receber coisa alguma, se do céu não lhe fosse dado”. Por isso o pão da eucaristia, Jesus Cristo, se associa com os oprimidos deste mundo, e será lembrado como o Pão do Céu que sacia a fome do mundo. O corpo do Cristo de Deus alimenta o mundo.

 

Concepções contrárias (violência, poder, dinheiro, capital), tidas como alimento, avançam e matam o corpo e a “alma” do mundo. Brutalmente alvejado, bombardeado, estilhaçado, ainda em nosso tempo, o Pão do Céu não se esgota. Celebra-se a Ceia do Senhor no Espírito da vinda definitiva do Reino de Deus. Os profetas bíblicos jamais entenderam ‘alma’ e ‘corpo’ separados da vida plena, do ser inteiro. Para eles, alma e corpo são indivisíveis (nephesh).“Disse Jesus: temei em primeiro lugar os que destroem (sufocam e matam) a alma (e o corpo)”. Do mundo? De um povo? De uma cultura, de uma religião?

 

Acrescentaremos, para atualizar a hermenêutica (Mt 10,28), que o Reino dos Céus é o reinado da vida plena e abundante, como oferta de Deus, sem dicotomias espiritualistas que separem a vida de fé em duas bandas, como nos antigos discos long-play: no lado “A” vida espiritual, no “B” vida concreta. Quando se ouve o lado “A” não se pode ouvir o lado “B”. E todos os céus sonhados nas utopias políticas e sociais compõem os “céus” plurais de Mateus. A parábola do banquete apresenta o alimento da fé nas utopias de Jesus, que é o único caminho possível da ação rumo à salvação integral do universo inteiro. A vida está ameaçada até no espaço sideral (camada de ozônio, buracos negros…).

 

Quem aceita o convite para o banquete da vida? Quais são os convidados que vestem roupas brancas de núpcias (símbolo bíblico dos que praticam a justiça), demonstrados no Apocalipse ["Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente". (...)"Aqueles que conseguirem a vitória (da justiça) serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas" – Ap 3:1-6]? São prostitutas, deficientes, portadores de necessidades especiais, coxos, cegos, surdos, doentes. Os pobres excluídos deste mundo (cf.Lc14,16-24 par.).

 

“Um pouco além do presente/ Alegre futuro anuncia/ A nossa espera e ardor/ Transforma-se em plena alegria…” (E.Reinhardt/J.C.Gottinari). Este caminho de esperança também indica a obediência da fé, e ela mesma legitima a esperança da vida plena. Nada melhor que lembrar o teólogo e paleontólogo Teillard Chardin para entrarmos em prontidão, lembrando os desastres cósmicos, eras geológicas que nos antecederam, associadas à história das opressões e escravidões, na direção de uma escatologia verdadeira (‘eschaton’: coisas últimas; conclusão de um tempo, dando lugar ao reinado de Deus). Cristãos ainda acreditam que o mundo vai acabar, mas só para os outros 3/4 da população terrestre. Poderá ser? Será que Deus pretende, mesmo, destruir sua própria Criação?

 

Ariano Suassuna, autor de sucessos como “O Auto da Compadecida”, entre muitos outros, resolveu contar uma história sobre “as comidas que nos faltam”, usando um exemplo simples – uma história de cachorros -  sobre a grandiosidade cultural que nos cerca. “Entre o osso e o fillet, o que um cachorro prefere? Lógico que é o fillet’”. (Osso é para roer, insinuava sobre a comida cultural do fast food global contemporâneo).  Então está faltando oportunidade aos jovens brasileiros de conhecer o fillet da nossa cultura”. Entre as forças ameaçadoras, opressoras, da globalização da bobagem e das besteiras, a alienação do povo protestante-evangélico compõe a exterminação dos sentimentos culturais libertários da vida de fé autênticamente evangélica.  Com  a mistureba fundamentalista temperando tudo com condimentos que resultarão numa indigestão monumental, é preferível permanecer com fome.

 

Em Tempo: Sob os efeitos da notícia: “Dissolveram-se 4 trilhões de dólares ‘virtuais’ (mesmo!, dinheiro inexistente que só aparece nas telas dos computadores…) no mercado das bolsas mundiais até esta sexta-feira”, estejamos atentos, pois. Economias “sólidas”, como o Japão, também anunciam a quebra de instituições financeiras de alcance mundial.  O reinado financeiro do neoliberalismo, em vinte anos apenas, se desmorona rapidamente, no ritmo da internet (!?). Mas não será o fim da loucura pelo dinheiro, por bens não-essenciais, do desprezo em relação à realidade concreta de bilhões de homens, mulheres e crianças, famintos e abandonados à própria sorte. Pobreza e miséria globalizada não é privilégio da ‘globalização cultural’ que nos alcançou. Pegamos a mania de ’ser rico a qualquer custo’, os outros que se danem! A palavra de ordem, “globalizada”, agora, porém, é: “Pânico, salve-se quem puder!”.

04/10/2008

JESUS CRISTO É A RESPOSTA. MAS QUAL É MESMO A PERGUNTA?

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JESUS CRISTO É A RESPOSTA.  QUAL É A PERGUNTA?                   

 

Derval Dasilio

 

Todos vimos a exposição diária, meses a fio, pela televisão, do casal que jogou a filha pela janela, enquanto se omitia a estatística macabra da violência doméstica, contra a criança, no Brasil. Segundo informações de órgãos atuantes em defesa da criança, como forma de catarse da sociedade bem-posta indignada a seu jeito, evidentemente hipócrita, juristas, juízes, autoridades do judiciário, legistas, criminologistas, antropólogos, passam sua sapiência jurídica, ou científica, para “saciar” a fome de vingança social. Não falam o essencial: há 500 mil casos de violência contra a criança, por ano. Estima-se. Não vem a público. A metade chega ao conhecimento das autoridades através de hospitais e ambulatórios. Cinco por cento, 25 mil crianças, são mortas por pais, parentes próximos, no âmbito doméstico, todos os anos.  Neste domingo de eleições, como sempre, brasileiros e brasileiras esquecer-se-ão disso? Saberemos na segunda-feira. A prudência convida ao pessimismo.

 

     Cada vez mais descobrimos que a causa de Jesus, antes que abraçada por cristãos de confissão, vem sendo interessante a quem, tantas vezes, nada tem a ver com compromissos eclesiásticos, ou que leve institucionalmente o nome “cristão” na fachada. Ao contrário, a considerar-se a atuação da sociedade organizada, em defesa dos despoderados, e da natureza, o que se observa mais freqüentemente é a apatia, o distanciamento, a indiferença das igrejas cristãs em relação às grandes lutas em favor das liberdades do homem e dos direitos sociais. Cabe um parêntesis sobre Gandhi. Lia Tolstoi e descobriu a estratégia  da não-violência no Sermão do Monte, como Luther King, que se inspirou nos dois baluartes da fé comprometida. Ah, não podemos esquecer Jaime Wright,e o projeto “Brasil: Nunca Mais”, na parceria imprescindível de dom Paulo Evaristo Arns. De fato, cristãos ecumênicos têm muito a dizer sobre isso.

 

     Predomina entre ortodoxos, evangélicos, neo-evangélicos, o esforço individualista, a vontade de ascensão social a todo custo, passada aos fiéis. Os púlpitos das igrejas ocupam-se da sustentação de doutrinas abstratas do protestantismo racionalista, citando Calvino e Lutero a torto e a direito, infiel e impropriamente. Os reformadores protestantes estiveram envolvidos profundamente em reformas sociais (cf.Richard Shaull/Leonardo Boff). Dizer que Lutero e Calvino não tiveram influência em atividades políticas e econômicas é até uma blasfêmia. Quem não lê a história comete essas heresias. Exaltam-se as qualidades da vida do convertido, dá-se um banho de alienação (alienus: estado de loucura, afastamento da realidade) no maior rigor, enquanto se aguarda o céu metafísico (que permanecerá abstrato, não-concreto, pela eternidade). Ou se apontará o valor material, imediato, da prosperidade e do sucesso (que é disso que o povo gosta!), na conversão. E das “vitórias” individuais do seguidor de um Jesus imagético e indiferente ao sofrimento humano, porém, “manso e suave” (o sofrimento com causa é substituído pelo hedonismo). Jesus é resposta, diz a mensagem. Mas, diria Gedeon Alencar, qual é mesmo a pergunta?

 

Ao relermos os ensinamentos das “dez palavras” (Ex 20,1-7), o Decálogo (DEZ MANDAMENTOS), re-descobrimos as fontes de nossa fé num acontecimento histórico onde recebemos as instruções para construir nosso próprio caminho, à parte e inconformadamente com a idolatria reinante na cultura do nosso tempo.

 

      Observando o cenário político nacional e internacional, reeleições de prefeitos e vereadores corruptos (deu no jornal de minha cidade, com base na justiça eleitoral: vereadores tiveram patrimônio aumentado em mil por cento, desde a última eleição). E Bush arrisca tudo, diante da quebra de bancos sustentadores da economia mundial… Mas a religião da prosperidade individual vai muito bem, obrigado. Terá um número ainda maior de representantes evangélicos, nestas eleições. O Rio de Janeiro, tido como a cidade “mais evangélica” do Brasil, arma o palco da cultura dos novos ídolos. As demais capitais brasileiras acompanham seu “deus”. Em nome de Jesus!

 

 

 

 

2 – HÁ UM SÓ DEUS, CRÊM TAMBÉM OS DEMÔNIOS…

Derval Dasilio

 

Para Jesus o Reino de Deus está aberto a todos os seres humanos “de boa vontade”, ou seja, que tiverem como valor primeiro de sua vida o Amor e a Justiça (Mateus 21, 33-43). O Reino é “Vida, Verdade, Justiça, Paz, Solidariedade, Gratuidade e Amor”. Jesus desafia abertamente quem condiciona sua mensagem a alguma prática religiosa, e por meio dessa comparação com a vinha, mostra que a ortodoxia doutrinária, ainda presa ao séc.XVIII, recalcitrante, também não conduz à salvação, à plenitude de vida. O Reino não é propriedade privada de  ortodoxos ou neo-evangélicos. Ninguém nem de nenhum grupo em particular tem a verdade ou as respostas sobre a pergunta do Cristo de Deus nos evangelhos: “Que dizem os homens que eu sou”?. Ninguém encontra Jesus assegurando o titulo de exclusividade a uma razão religiosa concreta, afirmando “uma religião verdadeira”. Tiago explicaria melhor: “afirmas que há um só Deus, ótimo! Lembra-te, porém, os demônios também crêem… mas eles estremecem” (Tg 2,19). Eis a diferença.

 

     O padre francês, Gabriel Maire, denunciava o crime organizado em Vitória (ES) e cidades da região metropolitana.  Envolvia policiais de alta patente, juízes e desembargadores. E políticos da Assembléia Legislativa. Foi assassinado em 1989. Minimisou-se a questão na imprensa televisiva ou escrita, que recusava-se a publicar os fatos na essência. Graúdos envolvidos, porém, obtinham páginas inteiras para desagravos. Grandes empresas pagavam. O dinheiro do crime organizado financiava muita coisa. A sociedade sentia-se beneficiada. E a polícia encontrava um bode expiatório: um rapaz favelado foi descoberto, apontado como assaltante e preso como assassino. Entrevistada, sua mulher, uma jovem grávida, chorando, proferia estas palavras: “Fomos matar nosso único defensor”. 

 

     Caco Barcelos, conhecido jornalista que se dedica à denúncia ou demonstração do crime organizado, entrevistado, quando perguntado sobre a violência dos dias de hoje, através dos grupos de extermínio, que atinge diretamente e com exclusividade as classes mais pobres da sociedade, na periferia das cidades, ou nos núcleos de miséria no coração das grandes cidades, dizia: “Não tenho dúvidas de que, se a política de extermínio atingisse a classe média alta, acabaria no dia seguinte”. E continua insinuando que a imprensa é elitista, no geral, objetivando as classes bem-postas socialmente; que juízes, desembargadores, e até autoridades do alto escalão judiciário, ignoram os bolsões de miséria social em suas necessidades de políticas públicas e aplicação de direitos fundamentais. Estão prontas a aprovar o extermínio sistemático, milícias e os novos nomes do antigo “esquadrão da morte”, no terreiro do “inimigo”. Lembra também que a repressão policial e jurídica ao crime concentra-se nas sub-sociedades marginais, enquanto desvia-se estrategicamente de objetivos que “maculem” a imagem dos altos extratos (cf. parágrafo inicial). A grande imprensa serve a quem paga.

 

     O banqueiro corrupto preso e algemado desperta indignação nas altas esferas, ministros se manifestam em favor dos “direitos” de alguém em não ser exposto publicamente entrando num camburão, cercado de policiais armados até os dentes. Mas se ri do camelô que é apanhado publicamente na contravenção, sofre violência. “Bem-feito”! O mesmo jornalista completava: “Sinto falta disso, em meu trabalho. “Em reportagens de fôlego, sentia falta de poder para dar espaço aos acusados pela sociedade dominante”. Caco Barcelos amargou dezoito processos por causa de denúncias em defesa da vida, reclamando direitos fundamentais a serem também estendidos aos empobrecidos e despoderados. Enquanto isso as igrejas cristãs se calam… Mas, quando se pronunciam, dizem: Não é conosco. Mas é conosco! Ou estamos aqui para quê?

 

      Toda a vida e ministério de Jesus refletem compromisso com a vida, e não com doutrinas religiosas. Suas ações e palavras convocam todos para partilharem de sua vida nas novas realidades humanas, e da construção do Reino de Deus; da acolhida aos excluídos e no anuncio da utopia de Deus, que abre novos horizontes de esperança no coração dos cansados e oprimidos; do cuidado com os esmagados, despoderados, pobres, enfermos. Estes e outros sinais de solidariedade são manifestações da vontade do Pai que envia Jesus para que seus filhos e filhas, em todo o universo, “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Os vinhateiros modernos, assassinos dos profetas, da ortodoxia doutrinal ou do evangelicalismo góspel, certamente não concordarão. Não restará ao dono da vinha senão arrendar seu parreiral a outros cultivadores do Reino (disse Jesus: Eu sou a videira, vós sois os ramos…). Os estranhos, diferentes, entregarão os frutos no tempo devido, já que os tradicionais e “ortodoxos”, a serviço da sociedade bem-posta, esquecidos de sua missão, desviam-se de seus deveres. Sempre preocupados com a tal “reta doutrina”. Sempre com a caixa de fósforos para acender fogueiras inquisitórias. Assim não dá…

 

3 – CONSELHOS  BÍBLICOS EM TEMPOS DE ELEIÇÕES

Derval Dasilio   

 

As origens da fé bíblica apontam o Deus que convoca para a liberdade e os direitos a serem conquistados passo a passo, diante da camaleônica cultura religiosa (já se fala em bricolagem religiosa), hoje, que quer também ser chamada de “mais cristã” que as outras tradições. Diante do henoteismo moderno (o modo de aceitar uma divindade entre outras divindades!), vigente, que passa pela bibliolatria fundamentalista, chegamos à religião neo-evangelical de mercado. O preço da liberdade da fé passa também pelos conselhos bíblicos, pedagógicos, da “shemah” (ouve, ó Israel…), e pelo Pacto da Aliança, no entanto. Ambos exigem a compreensão da natureza do pecado em sua forma histórica e social, pecado estrutural, e obediência às exigências do Deus da fé cristã.

 

     Aqui, Deus reclama, ciumento em relação à preferência idolátrica: “Sou eu o Senhor que sou teu Deus, porque eu te libertei da servidão no Egito” (Êxodo 20,1-4;7). Trata-se do direito de não ser confundido com outras divindades, quaisquer que sejam. Este é o ciúme de quem exige o reconhecimento e não admite a exclusão, do ponto de vista de quem observa o henoteísmo vigente (cf.Os 13,4). Em resumo: Yahweh  está dando o recado de que os muitos deuses que pululam na fé israelita (e cristã, sem dúvida alguma!) são inúteis, “têm corpos de ouro… mas os pés de barro (Dn 2,33-34); … não andam; …tem ouvidos; …mas não ouvem; tem olhos mas não vêem” (Jr 5,21-22). Não são eles que corrigem os nossos caminhos; não são eles que oferecem, a quem se converte, perdão, reconciliação com as intenções de Deus, amor e compaixão gratuitos.

 

      Na antiguidade, objetos também eram cultuados como divindades. Hoje, nos estádios, na política, nos púlpitos e altares; nos palcos, nas artes, nas ciências e na tecnologia, nunca aconteceu tanta “fé” nos variegados ídolos disponíveis. Comportamentalistas falam da “religião no balcão de negócios e na política partidária”. Perfeito. Quem poderá negar a presença e a predominância dessas divindades nas salas de estar, nas urnas eleitorais e nos altares transmudadas em lugar de adoração consumista, capelas onde se cultua tudo que se oferece para “ter-e-aparecer-e-se-dar-bem-a-qualquer-custo”? Não se pode conter a invasão idolátrica? Roberto DaMatta diz sobre o Brasil de hoje: “Moramos num país tropical e plural. Somos brasileiros… comemos feijoada, pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… Dançamos samba, e ainda rock, forró, funk… somos cristãos. No entanto, não despregamos o olho das divindades que vagueiam em outros domínios…”. Completam-se os pensamentos sobre o que ocorre conosco.

 

 

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