Derval Dasilio – Escritos&Artigos

17/09/2008

LANTEJOULAS QUE SUBSTITUEM DIAMANTES LEGÍTIMOS

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GRAÇA PARA OS DESPROTEGIDOS E EXCLUÍDOS

 

Aonde chegará a Graça de Jesus Cristo? O sofrimento humano se resolve com a “profissionalização” da graça de baixo preço? No púlpito evangélico conservador, inclusive, na pregação abstrata da salvação, ou no altar facultado às ofertas em dinheiro, dentro da mesma proposta de negação da graça e da misericórdia de Deus (hesed), Deus é dispensável, o dinheiro e o discurso abstrato sobre a graça, não. “Se Deus não abençoa o doador compulsório, perde o emprego, demito-O”, afirmava o pastor pentecostal propositista ao interessado numa “graça”. Neo-evangélicos e protestantes ortodoxos históricos diferem muito pouco, nesse aspecto. Prefere-se a graça barata em todo lugar, para lembrar Dietrich Bonhoeffer. Transformações sociais, algo de custo elevado, não se pleiteará… porque é Graça de alto preço. Quem dispõe de lantejoulas não precisa de brilhantes verdadeiros… Os primeiros aplicam-se a um mercado massificado rendoso, o evangelho da prosperidade enche os templos com o consumo de lantejoulas, e está cumprida a missão de evangelização. Produção em esteiras de montagem… Os segundos preferem a propaganda de teologias doutrinárias abstratas sobre a “dispensação da graça e a dispensação da lei”. Estão proibidos falar de compromisso social dos crentes.

 

Recentemente o IBGE nos informava que, dos aproximados 190 milhões de habitantes, metade dos brasileiros e brasileiras vive abaixo, ou apenas um pouco acima, da “linha imaginária da pobreza”, inventada por economistas. O evangelho ensinado nesta parábola de Jesus é radical: fala de trabalho e da sociedade política, tremendamente devedora aos pobres e miseráveis, indigentes econômicos; aos mal-postos, desiguais, socialmente diferentes, componentes do déficit histórico que nos acompanha desde as colônias. Precisa-se muito mais que valores transcendentais e doutrinas metafísicas na pregação dos cristãos sobre a Graça, para se alcançar a realidade dos pobres, dos desvalidos, dos esmagados e dos socialmente excluídos.

 

Jesus, na “parábola dos trabalhadores descontententes” com o pagamento desproporcional recebido deixa claro o modo como Deus age, bem diferente de nossa mentalidade propositista e retributivista, à procura de resultados e recompensas proporcionais por “horas trabalhadas” (Mateus 20, 1-16). Seja em membresia expressiva da igreja, milhares, milhões, seja em contribuições financeiras, dízimos induzidos, coercitivos, sob projeções desnecessárias e mal justificadas (por que ser uma comunidade grande numericamente? Por que é necessário arrecadar dinheiro para expressar crescimento “espiritual”? Para dar salário de deputados aos pastores?). Diante da teologia do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema religioso, a Teologia da Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A graça e a  misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus. A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento. A misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades. O perdão dos pecados (nossos atrasos quanto ao serviço do Reino), é libertação e reconciliação sem mérito de nossa parte. 

       

O contexto da parábola resultou da controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua continua relação com pessoas de duvidosa reputação, publicanos e “pecadores” (prostitutas, doentes comuns e doentes mentais, deficientes de toda ordem, leprosos, estrangeiros de outras etnias, crianças, gentílicos e mulheres, sem lugar no templo; homossexuais e mulheres adúlteras eram punidos com a morte; a religião androcêntrica facultava ao macho o adultério sem punição). Aqui, a questão do trabalho e da remuneração digna iguala-se, na injustiça e no preconceito tradicionais para com o pobre socialmente improdutivo.

 

A parábola narrada por Jesus, parte de um fato real. O proprietário representa os bem-postos da sociedade, com suas manobras impeditivas da aplicação da justiça. Haviam usurpado os trabalhadores do campo, sonegando meios para sua sustentação e de suas famílias. Aqui, os desempregados espoliados eram os que haviam perdido tudo e se vendiam por qualquer preço para sobreviverem. Por certo havia aqueles que constituem a clientela fixa do proprietário via de regra explorador do trabalho sub-remunerado. Isto é, eram sempre contratados. Havia, também, os que apareciam sempre na última hora trazendo consigo suas necessidades familiares. Os filhos precisam comer, vestir, viver. É uma questão de vida e de dignidade no trabalho (dignitatis = atribuição de direito).  O trabalho, mais que um simples meio de sustentação, é uma finalidade econômico-social onde ninguém deveria ser privado da participação construtiva da sociedade como um todo. Construção da vida.

 

A parábola também fala de salvação concreta, não de “salvação metafísica”, não só do “pecador” (a religião a que pertenciam Jesus e os apóstolos informa que pecador é o que não cumpre ou não pode cumprir a Lei). As questões do trabalho e da produção são uma realidade inescapável. Tratamos aqui, sem dúvida, da vontade de Deus, que “desce” até estas situações humanas (J.Jeremias). Há exigências verdadeiras, concretas e firmes, para a vida de fé, dos cristãos, respondendo ao evangelho, na pregação de Jesus. Jesus dá a conhecer o que ele espera de seus discípulos: “Aqueles que ouvem as minhas palavras e as põe em prática é semelhante ao homem prudente”(Mt 7,24). É também correto dizer que Mateus, judeu e cristão, cinqüenta anos depois de Jesus, deixa uma mensagem para “seus” cristãos, crentes de sua comunidade local, na paráfrase: “Jesus está profundamente identificado com seu tempo, quanto à cultura política e religiosa de seus dias. Não há grandes diferenças entre religiosos cristãos e religiosos do judaísmo. Poucos confiam em que a misericórdia de Deus alcança, em primeiro lugar, os pobres e  desprotegidos socialmente”.  Quem quiser desmentir a Bíblia, tem a palavra.

Derval Dasilio

 

05/09/2008

A RELIGIÃO QUE ESQUECE AS ESCRAVIDÕES

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A fé de Israel, que mais tarde se tornará a fé cristã, é eminentemente uma religião do povo oprimido, pobre, que busca a sua libertação. Parece que os cristãos recentes esqueceram-se disso. Muitas vezes e de muitos modos na história se tentou domar essa fé (e se conseguiu, tantas outras…). O Deus libertador foi emudecido na religião interesseira, na adoração intimista, particular, individual, que cala as aspirações mais profundas do pobre e do oprimido: liberdade e direitos fundamentais. As igrejas cristãs contemporâneas, parecem ter horror do pobre, do “anawin”, objeto principal do cuidado do Deus de Israel. Oferecem, no lugar da salvação real, uma redenção espiritual, abstrata. Do mesmo modo com que o judaísmo formativo esmagava a religião profética, séculos mais tarde, tratava-se de esconder a religião libertária em favor da religião da lei e dos preceitos.

 

Escravos condenados à servidão, pobres, oprimidos, claramente o grupo libertado dominante no êxodo, não interessaria mais à religião que visava fortalecer o Templo, sede da dependência e da dominação religiosa. Os cristãos, herdeiros do êxodo mais remoto, aprenderam a lição de seu profeta fundante, Jesus Cristo, na luta contra a religião formatada, conformada, propositista, retributivista? Jesus é compreendido como re-inaugurador da Aliança de Deus com o seu povo, como afirmaram os testemunhos apostólicos no Evangelho? Julgue você. Conseguiu-se manter na igreja cristã pós-apostólica um tipo de poder desligado de anseios libertários, graças à anulação da fé em Deus e o acontecimento histórico da libertação, do êxodo, inspirado e provocado por essa fé. Espiritualizou-se uma realidade concreta. A fé abstrata substituiu os anseios por libertação real, inteira, completa. A religião tomou o lugar de Deus. A Aliança, contrato bilateral entre Deus e seu povo, foi atirada num canto qualquer dos altares religiosos. Quem ousa afirmar que entre os cristãos, sem exceção, predomina a consciência da fé no “êxodo” bíblico?

 

O sistema egípcio, que fez brotar o desejo pelo êxodo libertário, toda a política do rei se baseava num “precedente religioso”: o faraó era considerado filho da divindade e, portanto, herdeiro da nação e outras regiões dominadas. Por direito divino, havia supremacia total do governante em termos políticos e econômicos. Dessa forma, o governo do faraó podia dispor tanto da terra como do povo, incluindo a força de trabalho e a produção. Com isso, o sistema tributário tornava-se arbitrário, abrindo as portas para a exploração e a dominação. Com esse precedente político-religioso tal sistema tornava agricultores e pecuaristas cada vez mais empobrecidos. Os hebreus, ainda denominados de “apiru”, progrediam nas terras férteis às margens do Nilo. Além do garrote econômico nos impostos, eram também explorados na sua força de trabalho. Nas cheias, quando a agricultura ficava impraticável, a mão de obra era requisitada pelo governo para grandes construções ou serviços públicos. Gratuitamente, claro! Com o tempo, porém, essa requisição era feita não só no período das cheias, na época de plantio e colheita o povo era obrigado a várias jornadas extras de trabalho. Isso empobreceu enormemente as populações assim situadas.

 

“Nós éramos escravos do faraó no Egito, mas Javé nos tirou do Egito com mão forte” (Dt 6,21). É assim que o povo de Deus não faz distinção entre a fé e a vida, na origem. As duas se interpenetram, a ponto do mesmo acontecimento ser o fundamento tanto de sua religião como de sua existência de fé, enquanto povo. Vemos, portanto, que o ato libertário de Deus sobre Israel torna-o povo. Um povo! Daí a importância do Êxodo em toda a Bíblia. Para a fé de Israel e para a fé do novo Israel de Deus. A liberdade é fundamental para um grupo humano realmente se tornar povo. Povo é um conjunto capaz de auto determinar seu comportamento político, econômico e cultural. Sem liberdade, um povo não é capaz de organizar suas relações econômicas para a distribuição dos bens sociais. O Êxodo não é apenas o relato de um fato passado. Nele encontramos o modelo inspirador, as virtudes do Deus bíblico, e como uma gente lutou para encontrar seu espaço e se tornar povo. Ele continua aberto para todos os tempos e lugares onde exista o mesmo anseio libertário, na exortação apostólica: (“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo conquistado – da escravidão – para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” – 1Pd 2,9). 

 

 

JESUS CAMINHA SOBRE MARES PERIGOSOS…

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As ondas bravias, o mar encapelado, a noite escura da vida (Mt 14,22-33), se apresentam a cada passo como obstáculos que podem induzir à insegurança, ao desalento e ao medo do fracasso. Pior ainda: podem induzir-nos a acreditar num Deus silencioso, mas satisfeito na adoração interesseira, o culto na religiosidade dominante nos nossos dias. A visão que a Bíblia nos oferece, hoje, convoca-nos a fazer uma revisão da vida de fé… ou será que preferiremos manter nossa visão religiosa do mundo, preocupados com afirmações sobre a irreversibilidade do mal, ou sobre a luta de “Deus e o diabo”, como no cinema que retrata o universo da superstição religiosa no Nordeste brasileiro, impedimento às transformações sociais?

No  Evangelho pode-se perguntar sobre o silêncio de Deus a respeito dos esmagamentos do mundo faminto de justiça, triturado nas exclusões e opressões. Deus realmente silencia diante das desigualdades e das injustiças? Os tripulantes do barco em perigo gritam por socorro. Precisam da manifestação de Deus. A tempestade, a noite escura, coisas que místicos e não-místicos experimentam, são perigos e silêncios insuportáveis. Sempre! Jesus, presença de Deus entre os homens, compartilha nossos temores, medos, inseguranças, enquanto instila fé e segurança na ação de Deus. Jesus caminha sobre o mar, desprezando os riscos religiosos, mitológicos, da superstição determinista que cerca o homem e a mulher, o ser criado entregue ao fatalismo e à irreversibilidade do mal.

 

Derval Dasilio

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