GRAÇA PARA OS DESPROTEGIDOS E EXCLUÍDOS
Aonde chegará a Graça de Jesus Cristo? O sofrimento humano se resolve com a “profissionalização” da graça de baixo preço? No púlpito evangélico conservador, inclusive, na pregação abstrata da salvação, ou no altar facultado às ofertas em dinheiro, dentro da mesma proposta de negação da graça e da misericórdia de Deus (hesed), Deus é dispensável, o dinheiro e o discurso abstrato sobre a graça, não. “Se Deus não abençoa o doador compulsório, perde o emprego, demito-O”, afirmava o pastor pentecostal propositista ao interessado numa “graça”. Neo-evangélicos e protestantes ortodoxos históricos diferem muito pouco, nesse aspecto. Prefere-se a graça barata em todo lugar, para lembrar Dietrich Bonhoeffer. Transformações sociais, algo de custo elevado, não se pleiteará… porque é Graça de alto preço. Quem dispõe de lantejoulas não precisa de brilhantes verdadeiros… Os primeiros aplicam-se a um mercado massificado rendoso, o evangelho da prosperidade enche os templos com o consumo de lantejoulas, e está cumprida a missão de evangelização. Produção em esteiras de montagem… Os segundos preferem a propaganda de teologias doutrinárias abstratas sobre a “dispensação da graça e a dispensação da lei”. Estão proibidos falar de compromisso social dos crentes.
Recentemente o IBGE nos informava que, dos aproximados 190 milhões de habitantes, metade dos brasileiros e brasileiras vive abaixo, ou apenas um pouco acima, da “linha imaginária da pobreza”, inventada por economistas. O evangelho ensinado nesta parábola de Jesus é radical: fala de trabalho e da sociedade política, tremendamente devedora aos pobres e miseráveis, indigentes econômicos; aos mal-postos, desiguais, socialmente diferentes, componentes do déficit histórico que nos acompanha desde as colônias. Precisa-se muito mais que valores transcendentais e doutrinas metafísicas na pregação dos cristãos sobre a Graça, para se alcançar a realidade dos pobres, dos desvalidos, dos esmagados e dos socialmente excluídos.
Jesus, na “parábola dos trabalhadores descontententes” com o pagamento desproporcional recebido deixa claro o modo como Deus age, bem diferente de nossa mentalidade propositista e retributivista, à procura de resultados e recompensas proporcionais por “horas trabalhadas” (Mateus 20, 1-16). Seja em membresia expressiva da igreja, milhares, milhões, seja em contribuições financeiras, dízimos induzidos, coercitivos, sob projeções desnecessárias e mal justificadas (por que ser uma comunidade grande numericamente? Por que é necessário arrecadar dinheiro para expressar crescimento “espiritual”? Para dar salário de deputados aos pastores?). Diante da teologia do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema religioso, a Teologia da Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A graça e a misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus. A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento. A misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades. O perdão dos pecados (nossos atrasos quanto ao serviço do Reino), é libertação e reconciliação sem mérito de nossa parte.
O contexto da parábola resultou da controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua continua relação com pessoas de duvidosa reputação, publicanos e “pecadores” (prostitutas, doentes comuns e doentes mentais, deficientes de toda ordem, leprosos, estrangeiros de outras etnias, crianças, gentílicos e mulheres, sem lugar no templo; homossexuais e mulheres adúlteras eram punidos com a morte; a religião androcêntrica facultava ao macho o adultério sem punição). Aqui, a questão do trabalho e da remuneração digna iguala-se, na injustiça e no preconceito tradicionais para com o pobre socialmente improdutivo.
A parábola narrada por Jesus, parte de um fato real. O proprietário representa os bem-postos da sociedade, com suas manobras impeditivas da aplicação da justiça. Haviam usurpado os trabalhadores do campo, sonegando meios para sua sustentação e de suas famílias. Aqui, os desempregados espoliados eram os que haviam perdido tudo e se vendiam por qualquer preço para sobreviverem. Por certo havia aqueles que constituem a clientela fixa do proprietário via de regra explorador do trabalho sub-remunerado. Isto é, eram sempre contratados. Havia, também, os que apareciam sempre na última hora trazendo consigo suas necessidades familiares. Os filhos precisam comer, vestir, viver. É uma questão de vida e de dignidade no trabalho (dignitatis = atribuição de direito). O trabalho, mais que um simples meio de sustentação, é uma finalidade econômico-social onde ninguém deveria ser privado da participação construtiva da sociedade como um todo. Construção da vida.
A parábola também fala de salvação concreta, não de “salvação metafísica”, não só do “pecador” (a religião a que pertenciam Jesus e os apóstolos informa que pecador é o que não cumpre ou não pode cumprir a Lei). As questões do trabalho e da produção são uma realidade inescapável. Tratamos aqui, sem dúvida, da vontade de Deus, que “desce” até estas situações humanas (J.Jeremias). Há exigências verdadeiras, concretas e firmes, para a vida de fé, dos cristãos, respondendo ao evangelho, na pregação de Jesus. Jesus dá a conhecer o que ele espera de seus discípulos: “Aqueles que ouvem as minhas palavras e as põe em prática é semelhante ao homem prudente”(Mt 7,24). É também correto dizer que Mateus, judeu e cristão, cinqüenta anos depois de Jesus, deixa uma mensagem para “seus” cristãos, crentes de sua comunidade local, na paráfrase: “Jesus está profundamente identificado com seu tempo, quanto à cultura política e religiosa de seus dias. Não há grandes diferenças entre religiosos cristãos e religiosos do judaísmo. Poucos confiam em que a misericórdia de Deus alcança, em primeiro lugar, os pobres e desprotegidos socialmente”. Quem quiser desmentir a Bíblia, tem a palavra.
Derval Dasilio

