Nos relatos e parábolas em consideração sobre os tesouros do Reino de Deus, convida-se a uma valorização adequada das diversas ofertas que nos são feitas ao longo da vida (cf.:Mt 13,44-52). É inegável que nos dias de hoje a idolatria do dinheiro, o desejo compulsivo de se ter posses, eclesiásticas ou não, e controle de multidões, e bem materiais, se misturam com a compulsão das igrejas-de-resultado, onde os números e as quantidades se sobrepõem à qualidade dos fiéis comungantes, de maneira alarmante. Este fenômeno faz com que as comunidades cristãs deixem de ser espaços de comunhão, de testemunho profético e diaconal, para se converterem em lugares onde se cultivam rivalidades, partidarismo, e altares de adoração do consumo, muitas vezes disfarçados em resultados superficiais.
Tudo isso obscurece a mensagem bíblica de libertação. Em tantos casos, igrejas passam a cultivar a idolatria aos mestres do púlpito; o brilhareco espetaculoso do “gospel pentecostalista”; a transformação dos altares em palcos; espetáculos litúrgicos onde interessam exclusivamente a emoção e a prosperidade nos números, antes que o aprofundamento da vida em comunhão, do espírito solidário, e da capacidade de indignar-se e de inconformar-se com a corrupção dos homens, em todo tempo e em todo lugar; na necessidade de anunciar verdadeiramente o Reino dos Céus aos oprimidos da terra, todos os “céus” para os homens e as mulheres, como Mateus inspira: bem-estar social, direitos fundamentais observados, dignidade; inclusão incondicional, e mais algumas coisas importantes.
Nelas o Reino se compara a um tesouro escondido e a uma pérola de grande valor. A pessoa que compreendeu o seu valor está disposta a renunciar a tudo com o fim de adquirir essa pérola e este tesouro. Vale a pena vender tudo para comprar este sumo bem da própria vida. Igualmente, a existência desta pérola induz o comerciante vender tudo para poder adquiri-la. O consumo passou a ser uma forma de articular o prazer na lógica do mercado. Ou seja, não estamos mais, como antes, utilizando o sexo, por exemplo, para vender mercadorias. O próprio sexo, hoje, é uma mercadoria valiosa.
Traduzido em termos mais simples, isto quer dizer que os prazeres do consumo não são mais algo da vida privada, da intimidade, do segredo pessoal não sujeito ao escrutínio público. Tudo se apresenta no comércio de excitação, enquanto o sucesso se tornou um “emblema”, um “brasão” dos indivíduos considerados “bem-sucedidos” econômica e socialmente (Jurandyr Costa Freire). Trazemos isso pra dentro da igreja, de forma descarada e vergonhosa.
Se observarmos com atenção, tudo que é dito sobre a obtenção do prazer aponta para pessoas ricas, jovens, bonitas, famosas, “inteligentes”… No fundo, o mercado não vende um produto qualquer. O mercado vende pessoas. E neo-evangélicos sabem disso muito bem, quando passam a vender, na inversão bíblica, a fé na prosperidade; a esperança do sucesso, e aparecer a qualquer custo; e o amor ao dinheiro acima de tudo. Especialmente no perfil do bom pregador evangélico ou neopentecostal admirado na mídia, ou adorado, ou imitado nos altares das igrejas históricas, ou evangélicas mais recentes… Uma situação bem erótica, ou auto-erótica, creio eu. Crentes tornam-se “voyeurs”. Eros e tânatos são envolvidos (prazer e morte). Dessa forma, uma renúncia até à dignidade do ministério, inclusive, para alguém transformar-se em possuidor deste bem tão precioso que é a condução pastoral do povo de Deus, entregando-o a um mercado duvidoso de graças e bem-aventuranças, é alarmante. E imoral.
Em comum com as outras parábolas, aqui, a ação empreendida pelo homem e pelo comerciante é radical: trata-se de “vender tudo” que se tem para “obter” (egorasen, no original) o bem desejado: o dom de Deus. Pérola preciosa! Numa sociedade que conhece muito bem a atividade febril do comércio e do consumo, convida-se a descobrir o valor único do Reino dos céus, superior a outras realidades não disponíveis nas vitrines dos hipermercados. Nem nas bancas e bilhetes do “jogo-do-bicho”. O idioma do dinheiro toma a linguagem religiosa, substituindo as preocupações de pouco tempo atrás, conforme se falava nas capelas, ermidas, terreiros, centros espíritas, sinagogas, santuários, oratórios, templos, e cemitérios (Roberto DaMatta).
O universo nebuloso habitado por religiosos evangélicos que crêem em demônios, fantasmas, almas do outro mundo, santos milagreiros, anjos protetores, ganha um símbolo mais claro para a vida presente e imediata: sucesso, dinheiro, prosperidade, acima de tudo. E com muita diversão nos cultos neo-evangélicos.Uma pérola preciosa, a Graça de nosso senhor Jesus Cristo. O Reino de Deus não se avalia através de instrumentos com os quais se analisam os reinos da ganância. Esta insistência deixa bem claro que a resposta esperada por Jesus, ao contar a parábola simples e direta, não admite concessões aos recentes perfis evangélicos adotados: adornados com pérolas falsas, graça barata, comprada em qualquer botequim. Descartáveis, usadas e depois jogadas fora. E as igrejas, passam a assemelhar-se a “essas mulheres que, por uma coisa a toa, só dizem sim”, (parafraseando Chico Buarque, com um pedido de perdão às mulheres da vida). Não se indignam com a injustiça e as desigualdades, não protestam. Ostentando jóias falsas, tiradas do lixão doutrinário onde foram atiradas as idéias bíblicas e apostólicas da fé cristã, segue o movimento neo-evangélico sua marcha para apagar a tradição dos apóstolos e dos reformadores da Igreja de Cristo. Não digamos amém, por favor…
