Derval Dasilio – Escritos&Artigos

26/07/2008

VENDEM-SE PÉROLAS FALSAS E LATAS DE LIXO DOUTRINÁRIO COMO TESOUROS

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p07

Nos relatos e parábolas em consideração sobre os tesouros do Reino de Deus, convida-se a uma valorização adequada das diversas ofertas que nos são feitas ao longo da vida (cf.:Mt 13,44-52). É inegável que nos dias de hoje a idolatria do dinheiro, o desejo compulsivo de se ter posses, eclesiásticas ou não, e controle de multidões, e bem materiais, se misturam com a compulsão das igrejas-de-resultado, onde os números e as quantidades se sobrepõem à qualidade dos fiéis comungantes, de maneira alarmante. Este fenômeno faz com que as comunidades cristãs deixem de ser espaços de comunhão, de testemunho profético e diaconal, para se converterem em lugares onde se cultivam rivalidades, partidarismo, e altares de adoração do consumo, muitas vezes disfarçados em resultados superficiais.

 

Tudo isso obscurece a mensagem bíblica de libertação. Em tantos casos, igrejas passam a cultivar a idolatria aos mestres do púlpito; o brilhareco espetaculoso do “gospel pentecostalista”; a transformação dos     altares em palcos; espetáculos litúrgicos onde interessam exclusivamente a emoção e a prosperidade nos números, antes que o aprofundamento da vida em comunhão, do espírito solidário, e da capacidade de indignar-se e de inconformar-se com a corrupção dos homens, em todo tempo e em todo lugar; na necessidade de anunciar verdadeiramente o Reino dos Céus aos oprimidos da terra, todos os “céus” para os homens e as mulheres, como Mateus inspira: bem-estar social, direitos fundamentais observados, dignidade; inclusão incondicional, e mais algumas coisas importantes.

Nelas o Reino se compara a um tesouro escondido e a uma pérola de grande valor. A pessoa que compreendeu o seu valor está disposta a renunciar a tudo com o fim de adquirir essa pérola e este tesouro. Vale a pena vender tudo para comprar este sumo bem da própria vida. Igualmente, a existência desta pérola induz o comerciante vender tudo para poder adquiri-la. O consumo passou a ser uma forma de articular o prazer na lógica do mercado. Ou seja, não estamos mais, como antes, utilizando o sexo, por exemplo, para vender mercadorias. O próprio sexo, hoje, é uma mercadoria valiosa.

Traduzido em termos mais simples, isto quer dizer que os prazeres do consumo não são mais algo da vida privada, da intimidade, do segredo pessoal não sujeito ao escrutínio público. Tudo se apresenta no comércio de excitação, enquanto o sucesso se tornou um “emblema”, um “brasão” dos indivíduos considerados “bem-sucedidos” econômica e socialmente (Jurandyr Costa Freire). Trazemos isso pra dentro da igreja, de forma descarada e vergonhosa.   

 

Se observarmos com atenção, tudo que é dito sobre a obtenção do prazer aponta para pessoas ricas, jovens, bonitas, famosas, “inteligentes”… No fundo, o mercado não vende um produto qualquer. O mercado vende pessoas. E neo-evangélicos sabem disso muito bem, quando passam a vender, na inversão bíblica, a fé na prosperidade; a esperança do sucesso, e aparecer a qualquer custo; e o amor ao dinheiro acima de tudo. Especialmente no perfil do bom pregador evangélico ou neopentecostal admirado na mídia, ou adorado, ou imitado nos altares das igrejas históricas, ou evangélicas mais recentes… Uma situação bem erótica, ou auto-erótica, creio eu. Crentes tornam-se “voyeurs”. Eros e tânatos são envolvidos (prazer e morte). Dessa forma, uma renúncia até à dignidade do ministério, inclusive, para alguém transformar-se em possuidor deste bem tão precioso que é a condução pastoral do povo de Deus, entregando-o a um mercado duvidoso de graças e bem-aventuranças, é alarmante. E imoral.

 

Em comum com as outras parábolas, aqui, a ação empreendida pelo homem e pelo comerciante é radical: trata-se de “vender tudo” que se tem para “obter” (egorasen, no original) o bem desejado: o dom de Deus. Pérola preciosa! Numa sociedade que conhece muito bem a atividade febril do comércio e do consumo, convida-se a descobrir o valor único do Reino dos céus, superior a outras realidades não disponíveis nas vitrines dos hipermercados. Nem nas bancas e bilhetes do “jogo-do-bicho”. O idioma do dinheiro toma a linguagem religiosa, substituindo as preocupações de pouco tempo atrás, conforme se falava nas capelas, ermidas, terreiros, centros espíritas, sinagogas, santuários, oratórios, templos, e cemitérios (Roberto DaMatta).

 O universo nebuloso habitado por religiosos evangélicos que crêem em demônios, fantasmas, almas do outro mundo, santos milagreiros, anjos protetores, ganha um símbolo mais claro para a vida presente e imediata: sucesso, dinheiro, prosperidade, acima de tudo. E com muita diversão nos cultos neo-evangélicos.Uma pérola preciosa, a Graça de nosso senhor Jesus Cristo. O Reino de Deus não se avalia através de instrumentos  com os quais se analisam os reinos da ganância. Esta insistência deixa bem claro que a resposta esperada por Jesus, ao contar a parábola simples e direta, não admite concessões aos recentes perfis evangélicos adotados: adornados com pérolas falsas, graça barata, comprada em qualquer botequim. Descartáveis, usadas e depois jogadas fora. E as igrejas, passam a assemelhar-se a “essas mulheres que, por uma coisa a toa, só dizem sim”, (parafraseando Chico Buarque, com um pedido de perdão às mulheres da vida). Não se indignam com a injustiça e as desigualdades, não protestam. Ostentando jóias falsas, tiradas do lixão doutrinário onde foram atiradas as idéias bíblicas e apostólicas da fé cristã, segue o movimento neo-evangélico sua marcha para apagar a tradição dos apóstolos e dos reformadores da Igreja de Cristo. Não digamos amém, por favor…

03/07/2008

ESCORRAÇADOS DO CÍRCULO PRIVILEGIADO…

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p07

Derval Dasilio

 

“Disse Jesus: – Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, eu lhes darei alívio”  – Mateus 11,28

 

Temos um convite para desfrutar a alegria da vida com Deus, viver. Vida bem-aventurada, no chamado de Jesus. Evidente é que o gozo, a alegria, se apóia na beleza e na simplicidade, no observar dos mais humildes, ingênuos, pacíficos, não-violentos, enfim, os que são amados por Deus. Tudo isso porque Cristo, antes de tudo revelação de Deus, é aquele que se apresenta com um coração terno, manso, pacificador dos homens e das mulheres, e não como alguém em busca de vitória, de sucesso a qualquer custo, impondo-se sobre os outros, com força intelectual ou política. Ou pelo poder econômico. Um exemplo para a paz na igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, oprimidos. Até mesmo pelo fato de estarem vivos, incomodando com sua pobreza e miséria  o mundo hostil. Um mundo eivado de sinais de morte, de anti-milagres, de derrotas, de fracassos, de pobreza, de miséria, de doença, de violência. Matamos moradores de rua nas noites quentes de nossas metrópoles, espancamos prostitutas indefesas até à morte. Estas são pessoas chamadas de “improdutivas”.  Gente que não oferece resultados sociais e econômicos.

 

Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: O trabalho liberta! Por outro lado, numa igreja freqüentada pelo populacho, no centro da Cidade do México, estava o cartaz: Amados paroquianos, cuidado com seus pertences… Gandhi, enquanto residia na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite inteira lendo os Evangelhos, e leu na porta: Proibida a entrada de cães e negros… Tanta indignidade imposta, esmagamento das pessoas, aviltamento da condição humana, requer uma atenção para com o convite de Cristo: “Venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, eu lhes darei alívio”.

 

Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo de uma maneira peculiar, buscando entender onde  Deus se revela no Evangelho. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus como neste texto de louvor e ação de graças. Poucos se atreveram a colocar na boca de Jesus palavras como essas, audazes e dominantes: Venham a mim!  Sempre se articula com retoques pertinentes a experiência de Deus de uma maneira onde há distanciamento, no sentido de emoções externadas mais diretamente. Não é a toa que a palavra pater, pai na língua grega – e daí a expressão “pátrio poder” – se sobreponha ao aramaico, no uso cristão diário. Abbá tem um sentido doce, “paínho”, no jeito baiano de expressar o carinho filial. Aqui também ocorre o contrário do que a autoridade do nome sugere, a experiência humana de Jesus se harmoniza com o que homens e mulheres mais procuram: cuidado, ternura, solidariedade amorosa. Exatamente porque isso lhes é negado. Jesus Cristo, o homem, ama seus semelhantes como Deus, Pai de Misericórdia, que ama a todos os seus filhos, sem eleições preferenciais.

 

Quem fala de misericórdia é o Espírito Santo. Jesus compartilhou da mesa e da alegria de gente de reputação duvidosa, vítimas da homofobia, socialmente marginalizadas, religiosa e civilmente infratores das leis vigentes, usuárias irregulares do comércio, prostitutas, aleijados, prisioneiros de ideologias sociais e religiosas. Conviveu com estas pessoas e com elas foi confundido. Concretamente, os inimigos do evangelho de Jesus têm que admitir que seu comportamento não iguala o conceito que se atribui a “um homem de bem”, ou a uma pessoa religiosa segundo os padrões daquele e do nosso tempo.  A doçura de Jesus, como no comovente hino evangélico tradicional (Buscou-me com ternura/ Jesus o Salvador), incomoda.  Se quisermos ser verdadeiramente fiéis a Jesus, o Evangelho sugere que devemos ter a mesma atitude que ele teve para com os escorraçados deste mundo impiedoso e sem compaixão.

 

O que um budista indiano chama ahimsa um israelita bíblico, como Jesus, chama de rahamim. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra rahamim (“ter entranhas”, ter coração; o coração é sede de sentimentos), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus é como a mãe que vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão. O Deus da Bíblia ama menos que a mãe humana? Não. E não fica magoado por nossas fugas, nossas desobediências; não castiga nem pede obras reparadoras para doar sua graça, carinho que lhe é próprio. Ao contrário de nós, Deus não guarda rancor pelos improdutivos, e os que não consomem bens de qualquer ordem. Porque são excluídos do bem-estar geral, inclusive porque não podem pagar pelas bem-aventuranças do mundo do consumo. Como Deus poderia fazê-lo, se seus filhos passam fome, não têm o que os outros têm? Se são identificados como sem-teto, sem-terra, sem-nada? Místicos do século XIII, como Matilde de Magdenburgo, se exprimiam: Quando o sangue do meu coração escorreu para a terra, o céu se abriu vergado pela dor. É compaixão pelos cansados e oprimidos, certamente. Matilde entendeu como o coração de Deus tem compaixão pelo que sofre, o marginalizado, o excluído do mundo dos bem-postos, do qual somos parte.

 

No meio das desigualdades cultivadas com esmero, aspectos risíveis do nosso tempo estão à mostra. Propomos a imitação dos computadores e das máquinas eletrônicas ultra-compactas, porque são “inteligentes” e econômicos. Nada mais prático que um computador…, dirá alguém. Não tem sentimentos. No entanto, o computador pode oferecer um número infindo de informações, diversões, pornografia, jogos, ou mensagens doces e estimulantes de auto-ajuda. Ao mesmo tempo. Mas não pode oferecer o ombro, pra você chorar suas mágoas; não pode lhe dar indignação por tanta injustiça, ou calor humano, quando chega a derrota; a frustração, o fracasso, o sofrimento de uma enfermidade terminal. Nem pode dar conforto quando uma pessoa querida nos abandona para viver com outra, ou quando o ente querido deixa esta vida. O apanágio, a propriedade característica da vida simples, desarmada, sem segundas intenções, está no alívio das consciências solidárias no empenho e no cuidado, e não nos desafios para se superar os outros, pisoteando e enterrando-os até que saiam das vistas do mercado consumista, da religião ou outra coisa qualquer.

 

Sim, temos aqui a oportunidade de domesticação dos demônios que habitam em nós, fazendo-nos negar o cuidado e a ternura de Deus que devem ser imitados. Nosso narcisimo social canaliza energias poderosas (dynamis). É preciso invertê-las, convertê-las (metanóia) para que nos cresça  r sustentara   parte.  sociedade de consumo.  para passar o-ajuda.os: a compreensão do amor solidário. A interiorização recomendada pelo Evangelho trata de absolutos éticos que escapam, fogem, distanciam-se, da inteligência prática. Induz à sensibilidade para com a realidade dos esmagados e triturados pelos sistemas de pensar desse mundo. Este é o mundo que ensina a ganância: ter-sem-ser e aparecer-a-qualquer-custo; que se ocupem espaços ambicionados no universo da superficialidade, valendo pisotear valores da solidariedade e da misericórdia; relegar ou secundarizar o serviço ao outro e à outra. Na verdade, as “revelações” de Deus aos pequenos e mansos são um desafio à oração dos bem-postos, dos sábios e detentores do conhecimento sobre as melhores estratégias para “se dar bem na vida”. A práxis de Jesus nos remete ao mundo prosaico dos simples, mansos, humildes deste mundo, a quem faltam recursos para a sobrevivência, o mínimo, enquanto expostos à ganância do mundo que privilegia quem já é privilegiado.

 

 

 

Blog em WordPress.com.