Derval Dasilio – Escritos&Artigos

18/06/2008

ELES MATAM A ALMA…

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Os discípulos de Mateus ouviram que não há paz sem que a justiça de Deus seja reconhecida como o bem maior [Mateus 10,26-33]. A Justiça do Reino é necessariamente anti-violenta. Porque a violência é sempre violência, seja física, verbal, ideológica. Sutil ou descarada. No ambiente religioso se observa o fenômeno acompanhado da contemporização própria das defesas corporativas. O “evangelho” ideológico de uma religião, e até mesmo dentro dela, como observamos entre cristãos católicos, protestantes, evangelicais, representa uma violência ideológica interminável. Violência gera violência, diz-se seguidamente. Podíamos dizer: violência confirma violência…


• Até os violentos se expressam assim, através da ameaça de represália ou retaliação. O mundo do sagrado poderia ser um antídoto, uma solução (A.Barahona Plaza). Não é! O mundo religioso é violento por natureza, como disse R.Girard (O sagrado e a violência). Enquanto “hieros” e “isirah” (grego: sagrado; védico: força vital) apontam a atuação, concomitantemente, de duas forças conjugadas: violência-constitutiva e violência-força. Estamos sempre sujeitos à imitação (mimesis) de comportamentos onde transparece a violência contra os demais. Aqui, justifica-se a violência de todos contra todos. A intolerância religiosa, o legalismo doutrinário, via de regra, se expressa com violência. De muitas maneiras. Justificando uma pregação extremamente contaminada por compreensões de cultura, de vida e de tradições que praticamente impõem-se nas ideologias de cultura religiosa evangélica: o racismo justificado biblicamente; a eficiência do “diabo”, como uma força sedutora mais forte que tudo, voltada para o mal, é mais influente que a força do bem que vem de Deus; o “temor” a Deus é sempre mal traduzido, na linguagem do medo, que permaneceria “condicionando permanentemente à conversão religiosa”.


• Sem o diabo não há conversão possível, informa essa ideologia… Falhas humanas, conceitos de castigo implícito, envolvendo o diabo e o inferno, apresentam-se com desenvoltura permanente, sem os quais a conversão e vida religiosa não fazem sentido. O “deus” repressor fundamentalista e o “diabo” liberal, dualisticamente, encontram-se em tensão permanente. O maniqueísmo histórico se consagra, diminuindo a grandeza e o senhorio de Jesus Cristo (esta, de fato, uma doutrina das mais genuínas do cristianismo…). O diabo e seus demônios são somente representantes da religiosidade supersticiosa da Idade Média? Observe o pietismo fundamentalista e responda.

• O crente é impedido de ver a salvação, desse modo, pela misericórdia incondicional de Deus, por causa da ótica que obriga considerar o inferno e o poder do diabo, em primeiro lugar. A vida do evangélico desconhecerá a Graça, a misericórdia, a compaixão de Deus, o Pai amoroso apresentado por Jesus Cristo no Evangelho, em favor do legalismo religioso, fã absoluto do diabo, a quem evoca freqüentemente, por dependência espiritual. Desse jeito, deficientes físicos seriam vistos como portadores visíveis do pecado dos pais, principalmente os “pecados sexuais”; doenças congênitas não teriam tratamento corretivo, porque “Deus fez sãos e doentes igualmente, naturalmente, como parte de seus desígnios”, contra os quais não se pode lutar; questões raciais estariam fora da preocupação com o semelhante, que permanecerá “diferente”, enquanto permanecem lembradas no âmbito das maldições bíblicas; direitos humanos seriam restritos, na sugestão de que só os crentes alcançam o favor libertador de Deus pela fé abstrata na salvação (abstrata), sem compromisso com os restantes, e pela conversão ao legalismo religioso, antes que à vida de fé comprometida; cristãos não devem cuidar de problemas sociais concretos, pois o dever cristão é, antes de tudo, “estar atento à vida espiritual abstrata” (Rubem Alves: “Mas, o que é abstrato não é nada…”).

Tudo isso para a manutenção da salvação a ser alcançada, ao se aparentar a fé como conduta moral externa, é preciso crer no diabo antes de crer em Deus. Com a palavra o fundamentalismo evangélico.

05/06/2008

UM MÉDICO PARA A RELIGIÃO ENFERMA… (Mateus 9, 9-13)

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Nas comunidades cristãs onde se observam postulados fundamentais da fé cristã sobre Deus, sobre o homem e a sociedade, o Estado, os sistemas ideológicos e políticos, sociais e econômicos, esta é uma questão fechada. Disse Jesus: “Não vim para chamar ao Reino bons religiosos, devotos, mas as vítimas da sociedade excludente”. Bem poderia estar no Evangelho… É atualíssima, essa mensagem. Necessita ser conservada para que os jovens e os cristãos recentes saibam donde originou sua fé, sem os desvios que o chamado mundo neo-evangélico recente insiste em impor às novas gerações.

 

A fé protestante vive por esse motivo, malgrado o doloroso esforço em favor da acomodação ao evangelicalismo religioso, e ao triunfalismo salvacionista, espiritualista, abstrato e falacioso, do fundamentalismo teológico. Conceitos bíblicos libertários colocaram-se acima dos conceitos medievais de uma “teologia da satisfação”, que contempla uma teologia da redenção individual, e que desembocou, desde o século das luzes (Iluminismo, séc. XVIII), no “pietismo” e no “avivalismo” fundamentalista, que também nos deram, desde o período histórico citado, o “protestantismo de missões”.

 

No Brasil, missionários presbiterianos, metodistas, batistas, apresentavam suas alternativas à Reforma Protestante, já que esta não servia aos propósitos salvacionistas que se traziam dos EUA. Eis a idéia que chegou: “A sociedade humana está previamente condenada ao inferno, por juízo divino. Aos restantes resta o juízo final, que determinará o destino de todos, no além e na eternidade. É preciso salvar os indivíduos, eles mudarão a sociedade”. Essa receita não funcionou nem mesmo na origem, no lado de cima do Equador. Daria certo aqui, no lado de baixo?

 

Na obra famosa, O Inferno, deveria estar escrito na entrada desse lugar: “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito”, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope e precisava de lentes corretivas, para ver mais longe…

 

A ganância propositista, eclesiologias importadas enlouquecidas pelos cálculos de crescimento a todo custo, comprando ou vendendo a salvação pragmática e  materialmente, coloca-se sempre acima de tudo isso, do bem e do mal. Esquece a misericórdia. Para os que praticam a misericórdia e não encontram sentido no culto e na religiosidade gananciosa – neste mundo evangelical impiedoso – através da fé cristã percebida na religião responsável, isenta de influências alienantes, a palavra de Jesus sobre a compaixão e a gratuidade é um conforto. É necessário escutar o que o evangelho de Jesus nos diz: “não estais longe do Reino de Deus”, que Mateus chama “dos Céus”. Quantos “céus”? Certamente todos os que se referem ao bem-estar dos homens e das mulheres que hoje sofrem fome e sede de justiça. A grande utopia da fé alcança todos os “céus”. Com a palavra o evangelista.

 

O texto de hoje é uma chamada de atenção para que possamos examinar a nossa religiosidade, e em particular a qualidade da “minha religiosidade pessoal”. O que pensamos da misericórdia ou dos sacrifícios cultuais? A dimensão religiosa de vida, de minha comunidade, local ou nacional, a minha própria, em que está centrada? Está mais nos “sacrifícios” (hoje = vida cultual, ritos devocionais, celebrações, cerimônias religiosas, atos com dimensão explicitamente religiosa, vida consagrada, busca de santificação)? A dimensão espiritual e nossa prática centralizam a “misericórdia”, a compaixão para com os outros, o amor solidário, a justiça, a participação na construção do Reino de Deus neste mundo? Para os profetas e para Jesus está claro: “Misericórdia eu quero, e não sacrifícios cultuais”. E eu? E nós? Por que gostamos tanto da adoração interesseira, do louvor propositista, de invocar a presença divina de um deus-quebra- galho?

 

 

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