Derval Dasilio – Escritos&Artigos

28/05/2008

UM CAUSO BÍBLICO: NOÉ, A TROMBA D’ÁGUA E A IRRESPONSABILIDADE

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Derval Dasilio

 

Fala-se, hoje em dia, que há um retorno significativo de forças eclipsadas,  desde a ética protestante, evidentemente quando pensamos em Max Weber e sua análise do puritanismo calvinista, no que se refere à ética do trabalho e da produção, visando acima de tudo a acumulação do capital.  Avançam a longos passos o cuidado excessivo com o corpo, por exemplo. A palavra de ordem é ter um corpo “turbinado”, artificial ou através de meios clínicos ou cirúrgicos. Com a palavra as academias de ginástica e as clínicas de modelagem estética. Nesse ritmo, marcado pela superficialidade, salvarão o mundo. Autoridades do alto escalão fazem propaganda do “botox”, o presidente aparece facialmente rejuvenescido, atrizes presentes na mídia televisiva alardeiam a modelagem estética…

 

Enfim, o hedonismo desregrado é explicado, agora, como hedonismo prudente! Trata-se da saúde física com muito afinco, porém externamente, para não fugir à regra. Tecnologias destinadas à forma física, medicina alternativa, alimentos e produtos dietéticos, técnicas orientais de relaxamento, produtos cosméticos em profusão, alimentos “light” e embalagens biodegradáveis, cruzadas anti-tabagismo, esportes leves e progressivos, “of-road”, “on-street”, mostram que uma forma individualista do cuidado suplanta de longe os interesses sobre o cuidado essencial com a sociedade humana, em seu todo. No modo de pensar “pós-moderno”, aspirações ao bem-viver confortavelmente são presas do consumismo contemporâneo do lazer, do tipo “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.

 

Dos 6,5 bilhões de habitantes do planeta Terra, cerca de 2 bilhões vivem em estado de pobreza e de fome. Menos de 1/6 dos habitantes desse planeta gozam vantagens das novas tecnologias medicinais, alimentares, habitacionais. Qualquer diagnóstico, neste e noutros sentidos, mostram o quanto a sociedade mundial contemporânea foge de suas responsabilidades sociais. Desastres sísmicos e metereológicos comparam-se à irresponsabilidade e corrupção humanas, na Bíblia (cf. Gênesis e Apocalipse). Dilúvio (hebr: “mabbul”) é também um modo no qual se arrasa uma geração inteira. Só no século XX, experimentamos esse fenômeno em duas guerras mundiais, enquanto estivemos à beira de uma hecatombe nuclear universal. A corrupção moral da sociedade humana, na totalidade, do ponto de vista bíblico, tão somente, faz com que Deus “se arrependa” momentaneamente de ter criado o homem. Tratamos aqui do pecado da irresponsabilidade social, pecado estrutural, no sentido de que outros dependem das atitudes de indignação e combate à irresponsabilidade coletiva e corrupção no meio humano (R.Feuillet).

 

Noé fez exatamente o que Deus lhe havia prescrito, tem fé na salvação e na justiça; (Hb 11,7: Noé, divinamente avisado do que ainda não se via, e tomado de temor religioso, construiu uma arca para salvar sua família). A arca é como um santuário, mas é também a “casa/abrigo/símbolo” do homem obediente a Deus. O micro-cosmo da salvação está representado ali: a arca tem três andares, como se descrevia o universo na antiguidade. Deus fez com Noé o que faz com a humanidade inteira, por sua própria iniciativa: uma Aliança, um pacto de Salvação unilateral, que não permitirá a destruição de sua própria obra (Gn 6,22). Deus não desanimou, enquanto retoma seu trabalho de reconstrução do mundo.

 

Mesmo a contragosto, o Deus bíblico castiga a humanidade social e estruturalmente culpada com o Dilúvio, enquanto a mesma evoca direitos a uma falsa liberdade, sem respeito e sem cuidado com seus semelhantes (desumanização). O castigo chega onde não existe solidariedade ou cuidado pela Criação. Em síntese, o homem e a mulher desprezam a justiça. Pecam, em razão de sua injustiça. O “caso Noé” difere completamente de outras situações narradas, a partir dos mitos babilônicos e suas divindades, as quais se comportam muito mal, constituindo-se elas próprias um mau exemplo para a humanidade. Não se julgam responsáveis pelo mundo criado.

 

Culpa individual e culpa coletiva se mesclam (Westermann). Acontece que os pecados dos indivíduos refletem os sistemas de pensar embutidos na história humana. É inegável que a  intimidade dos indivíduos humanos é avaliada em relação a uma espiritualidade na qual a experiência de Deus vai determinar a transgressão. Nas proximidades da era cristã, antes dos apóstolos de Jesus, no judaísmo formativo, a partir do século IV a.C., os judeus já refletiam profundamente sobre a má inclinação e a deformação da natureza humana. E o quanto essa deformação (pecado) impregnava uma sociedade inteira, estruturalmente. Noé seria meramente um símbolo de obediência a Deus? Sua fé é religiosa ou simplesmente teológica? Uma vez mais nos enganaremos, se pensamos que alguma obra humana, como a prática religiosa, constitui abrigo moral diante da impiedade dos homens (Gn 6,9-22). Noé, não por seus méritos, é agraciado pela escolha e eleição de Deus. Tem fé e obedece, enquanto sofre toda sorte de deboche e abuso de consciência. A “arca”, construída na obediência, abriga a criação de Deus, enquanto a Bíblia Hebraica anuncia a vitória dos descendentes do primeiro casal sobre as forças do mal. O espírito religioso da narrativa bíblica do Dilúvio é infinitamente adiantado em relação a outras tradições babilônicas, e fenícias, que falam de deuses briguentos que resolvem aniquilar a humanidade por simples capricho. A possibilidade de divinização da natureza também existe, ali.

 

É uma perfeita bobagem julgar as cidades e hecatombes mitológicas como Sodoma e Gomorra, e o Dilúvio, quanto a possíveis licenciosidades sexuais e imoralidades explícitas. O quadro do conjunto se refere à justiça ética, exclusão social, violência sistemática aos direitos fundamentais do homem e da mulher. “A violência contra e entre os meninos e meninas, e a violência contra a mulher têm origem em padrões culturais, em que o poder é exercido pelo homem adulto. Além disso, a sexualidade precoce e os casos de gravidez prematura constituem outros desafios à educação ética enfocados sobre relações afetivas, como respeito, tolerância, empatia e reconciliação”, diziam representantes da Rede Global de Religiões pela Infância (GNRC- sigla inglesa), reunidos recentemente no Japão. Acrescentavam:

 

“Não se pode equiparar as palavras pobreza e violência, no entanto. Embora a pobreza crie grandes possibilidades para que os jovens se tornem pessoas violentas, a maior parte dos pobres sofre a violência de sua pobreza sem responder com violência à sociedade dos bem-postos economicamente”. Sofrem, lutam, e esperam por melhores dias, pois não podem dar-se ao luxo de perder a esperança e este resquício de esperança é um espaço privilegiado para o trabalho das igrejas, das organizações, dos cristãos, que se expressam em diaconias, e em grupos de pressão na direção de políticas sociais adequadas ao momento onde a ruína das instâncias éticas se evidencia. O trabalho na promoção dos direitos fundamentais, uma educação de qualidade, eticamente, representariam alguma coisa semelhante à construção da arca de Noé.

 

OBAMA: REALIZAÇÃO DO SONHO DE MARTIN LUTHER KING

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Leonardo Boff

Obama: a realização do sonho de Luther King

Leonardo Boff

 

 A eleição do afro-americano Barack Hussein Obama para a presidiencia dos EUA realiza o sonho de Luther King Jr:”tenho um sonho de que um dia as pessoas seráo julgadas não pela cor de sua pele, mas pela força de seu caráter”. Tudo parece indicar que se iniciou, na política, um tempo pós-racista, pois tanto os eleitores quanto o cadidato não repararam a cor da pele mas a pessoa e suas idéias.

 

 Esta eleição sinaliza também o fim da era dos fundamentalismos: do mercado, iniciado por  Tatcher e Reagan, responsável pela atual crise econômico-financeira. E do político-religioso que alimentou a concepção imperial e belicosa da política externa dos EUA. Bush e Reagan acreditavam no Armageddon e no destino-manifesto, quer dizer,  na excepcionalidade conferida por Deus aos EUA com a missão de levar a todo o mundo os valores da sociedade americana de cariz capitalista e individualista. Isso era feito por todos os meios, inclusive com conspirações, golpes de estado, articulados pela CIA e guerras “humanitárias”. Essa idéia de missão explica a arrogância dos presidentes, bem expressa numa frase do candidato McCain: “Os EUA são o farol e o líder do mundo. Podemos agir como bem entendemos: afinal somos o único poder da Terra. Os inimigos de ontem e de hoje hão de temer o nosso porrete”.

 

 Bush criou o terrorismo de estado, constituindo-se no maior perigo para a humanidade. Não há de se admirar que tenha levado a uma ampla desmoralização do pais, inclusive  a um anti-americanismo generalizado no mundo.

 

 Essa atitude parece ter sido  superada com Obama. À estratégia da guerra e do intervencionismo, ele opoõe a  do dialogo aberto com todos, até com os talibãs. Enfatizou:”é preciso mais que tudo dialogar; a saída é uma ampla negociação e não apenas ataques aéreos e matança de civis”. Ele está convencido de que os EUA não merecem ganhar a guerra contra o Iraque porque está assentada sobre uma mentira e por isso, é injustificável.

 

 Mas mais que tudo, ele soube captar o que estava latente na sociedade especialmente nos jovens: a necessidade de mudança. “Change”-mudança foi a grande palavra geradora. Suscitou esperança e auto-estima:”sim nós podemos”. Atirou as atenções para o futuro e para as oportunidades novas que se estão desenhando e não para a continuidade do passado e do presente desolador. Com isso falou para a profundade das pessoas e as mobilizou para dar um salto absolutamente inesperado e novo: eleger um negro, representante de uma tragédia humana que envergonha a história americana, de resto com páginas brilhantes de liberdade, de criatividade, de democracia, de ciência, de técnica e de artes que enobrecem  cultura norte-americana. Obama deixou claro que a real força dos EUA não reside nas armas mas nestes valores morais e no potencial de esperança que vige no povo.

 

 A eleição de Obama parece possuir algo de providencial, como se fora um gesto da compaixão divina para com a humanidade. Vivemos tempos dramáticos com grandes crises: a ecológica, a climática, a alimentar, a energética e a econômica. O arsenal conceptual e pratico disponível não oferece condições para forjar uma saída libertadora.  Precisamos de uma mudança, de um novo horizonte utópico, de coragem para inventar novos caminhos. Faz-se necessário uma figura carismática que inspire confiança, segurança e serenidade para enfrentar estes cataclismos e galvanizar as pessoas para um novo ensaio de convivência, um modo diferente de arquitetar a economia e de montar um tipo de globalização pluripolar que respeite as diferenças e possa incluir a todos num mesmo destino juntamente com a Casa Comum, a Terra.

 

 Barack Obama preenche estas exigências de carisma. Se for realmente profunda, a esperança criará seu caminho por entre os escolhos e as ruínas da velha ordem.

 

Para Marina Silva:
”Política sem Teologia é puro Negócio”

A saída de Marina Silva do Ministério  do Meio Ambiente representa uma pesada perda de qualidade política do governo Lula. Por qualidade política entendo a competência do governante de manter a unidade dos contrários, contrários esses, inerentes a todo convívio social e democrático, que confere dinamismo e vida à sociedade. Marina Silva representava um pólo decisivo no governo e fundamental para uma política responsável pelo futuro da vida e da integridade do Planeta: o cuidado com o ambiente inteiro e com as condições ecológicas que garantem a vida em toda sua imensa diversidade. No outro pólo estão outros, em maior número, que perseguem um projeto, que nos remete ao século XIX, de crescimento material acelerado e a todo custo, sem considerar a mutação das consciências ocorrida no Brasil e no mundo face  principalmente às perigosas transformações negativas do estado da Terra, ocasionadas, em grande parte, por aquele projeto.

 

Missão do governante é ser um homem de síntese, capaz de articular os pólos e ter a sabedoria suficiente para decisões estratégicas, mesmo difíceis, que garantam o futuro de nossa existência neste pequeno Planeta. O atual presidente mostrou essa capacidade de síntese. Mas desta vez, parece-nos, se operou desastroso desequilíbrio. Com a ausência de Marina Silva, há o risco do pensamento único e da obsessão furiosa  pelo crescimento fazendo crescer nossa dívida para com a natureza e as gerações futuras.

 

Marina Silva era uma das reservas éticas do governo, uma referência de credibilidade para o Brasil e para o mundo. Mas ética era pouco para ela. Movia-a uma inspiração espiritual, de serviço à vida e de proteção a todo o Criado. Ela me faz lembrar a frase de um dos grandes pensadores da escola de Frankfurt que foi um rigoroso marxista e materialista: Max Horkheimer. No final de sua vida escreveu um instigante livro:”Saudade do totalmente Outro”. Ai, como marxista e não como cristão, diz:”uma política, sem teologia, é puro negocio”. E explicava:”teologia significa aqui, a consciência de que o mundo não é a verdade absoluta, que não é o fim; teologia é a esperança de que tudo não se acabe na injustiça que tanto marca o mundo, que a injustiça não detenha a última palavra”. Estimo que Marina Silva mostrou em sua vida e prática a verdade desta sentença. Por isso todos lhe somos agradecidos e devedores.

 

Leonardo Boff desafia a igreja frente à crise global

Chris Morck


Quito, segunda-feira, 9 de junho de 2008 (ALC) – Em meio a um mundo em crise, “a missão importante e urgente da Igreja é ressuscitar a esperança”, missão que vai muito além dos dogmas ou das doutrinas, disse o teólogo brasileiro Leonardo Boff, ao falar, na sexta-feira, 6, para um templo lotado da Igreja Luterana de Quito, que comemora 50 anos de presença no Equador.

Segundo Boff, a Igreja não representa um fim em si mesma. “As igrejas não existem para si, elas existem para Deus e para a humanidade. Existem para a justiça, a dignidade, a paz e para manter a esperança. Existem para preservar e cuidar de toda a criação. A Igreja é um princípio de esperança”, frisou o teólogo.

O teólogo da libertação assinalou que uma ameaça significativa conta a humanidade é o produto da tecnociência, que favorece o surgimento de dois grupos emergentes: uma minoria que poderia viver “até os 130 anos” e está concentrando para si todos os benefícios e recursos, e outro grupo gigantesco que padece de sofrimento diário e morre de fome.

Nesta realidade, o desafio primordial para os cristãos “é manter a humanidade unida”, destacou Boff. Ao sistema do mercado capitalista globalizado não importa o humano ou o resto da criação. Somente importa o poder, o consumismo e a produção. Nele não funcionam amor, compaixão ou compreensão. Por isso, esse sistema é diretamente oposto ao Evangelho e as igrejas têm que assumir o desafio de pregar “o Evangelho,” comprometendo-se com os pobres e vulneráveis, enfrentando esse sistema.

Jesus, no contexto desse sistema, é um escândalo porque proclama que o primeiro mandamento é amar. “Como seguidores de Jesus temos que pregar e viver o amor e a compaixão como o principal e universal”, alertou.

A pobreza, afirmou, não é natural, não é ordenada nem ungida por Deus, mas é produto de um sistema e da situação atual. “Onde há um pobre, há um explorado, um oprimido,” disse Boff.

Como cristãos, “temos que assumir o escândalo do Evangelho no meio desta situação, e isso significa passar por três etapas principais. Primeiro, temos que encontrar Jesus na pessoa, tocar a realidade. Depois, temos que experimentar a indignação justa em frente à situação e denunciá-la profeticamente. Terceiro, temos que trabalhar para uma mudança na situação, que também implica mudar a si mesmo”, enumerou.

Boff apontou que o oprimido não é somente o ser humano, mas sim toda a criação. O sistema que cria o sofrimento humano também “está crucificando a terra”. Em meio a essa realidade, a Igreja tem o desafio e a responsabilidade bíblica de cuidar da criação. A Igreja tem “uma tarefa pedagógica, uma missão pedagógica” a cumprir, ao educar e ensinar a humanidade sobre a veneração e o respeito para toda a criação.

Ao concluir a exposição, Boff frisou a necessidade de uma leitura positiva da história. O que está ocorrendo com a humanidade e a terra inteira não é uma tragédia, mas uma crise, disse. A crise tem o potencial de purificar a pessoa e mudá-la de maneira positiva.

Esta crise ecológica e social não é dor de morte, mas de parto. “É claro que teremos que pagar um preço pelo que fizemos, mas por meio da crise podemos ser modificados e enriquecidos com capacidades maiores de espiritualidade, de amor e de compaixão, com mais sentido de fraternidade, unidade e solidariedade universal. Somos chamados não para lágrimas e morte, mas sim para a vida plena comunal e bem-estar integral para viver nos altos dos montes”, concluiu.

Quanto custa um pôr de sol?

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo Boff

 

Um grande empresário americano, estando em Roma, quis mostrar ao filho a beleza de um pôr de sol nas colinas de Castelgandolfo. Antes de se postarem num bom ângulo, o filho perguntou ao pai:”pai, onde se paga”? Esta pergunta revela a estrutura da sociedade dominante, assentada sobre a economia e o mercado. Nela para tudo se paga – também  um pôr de sol -  tudo se vende e tudo  se compra. Ela operou, segundo notou ainda em 1944 o economista norte-americano Polanyi, a grande transformação ao conferir valor econômico a tudo. As relações humanas se transformaram em transações comerciais e tudo, tudo mesmo, do sexo à Santísssima Trindade, vira mercadoria e chance de lucro.

 

Se quisermos qualifica-la, diríamos que esta é uma sociedade produtivista, consumista e materialista. É produtivista porque explora todos os recursos e serviços naturais visando o lucro e não a preservação da natureza. É consumista porque se não houver consumo cada vez maior não há também produção nem lucro. É materialista pois sua centralidade é produzir e consumir coisas materiais e não espirituais como a cooperação e o  cuidado. Está mais interessada no crescimento quantitativo – como ganhar mais – do que no desenvolvimento qualitativo – como viver melhor com menos – em harmonia com a natureza, com equidade social e sustentabilidade sócio-ecológica.

 

Cabe insistir no óbvio: não há dinheiro que pague um pôr do sol. Não se compra na bolsa a lua cheia “que sabe de mi largo camiñar”. A felicidade, a amizade, a lealdade e o amor não estão à venda nos shoppings. Quem pode viver sem esses intangíveis? Aqui não  funciona a lógica do interesse, mas da gratuidade, não a utilidade prática mas o valor intrínseco da natureza, da ridente paisagem, do carinho entre dois enamorados. Nisso reside a felicidade humana.

 

O insuspeito Daniel Soros, o grande especulador das bolsas mundiais, confessa em seu livro A crise do capitalismo (1999):”uma sociedade baseada em transações solapa os valores sociais; estes expressam um interesse pelos outros; pressupõem que o indivíduo pertence a uma comunidade, seja uma família, uma tribo, uma nação ou a humanidade, cujos interesses têm preferência em relação aos interesses individuais. Mas uma economia de mercado é tudo menos uma comunidade. Todos devem cuidar dos seus próprios interesses…e maximizar seus lucros, com exclusão de qualquer outra consideração”(p. 120 e 87).

 

Uma sociedade que decide organizar-se sem uma ética mínima, altruísta e respeitosa da natureza, está traçando o caminho de sua própria auto-destruição.

 

Então, não causa admiração o fato de termos chegado aonde chegamos, ao aquecimento global e à aterradora devastação da natureza, com ameaças de extinção de vastas porções da biosfera e, no termo, até da espécie humana.

 

Suspeito que ao não quebrarmos o paradigma produtivista/consumista/materialista em direção do cultivo do capital espiritual e da sustentação de toda a vida, com um  sentido de mútua pertença entre terra e humanidade, podemos encontrar pela frente a escuridão.

 

Devemos tentar ser, pelo menos um pouco,  como a rosa, cantada pelo místico poeta Angelus Silesius (+1677)  : “a rosa é sem porquê: floresce por florescer, não cuida de si mesma nem pede para ser olhada”(aforismo 289). Essa gratuidade  é uma das pilastras do novo paradigma salvador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obama: a realização do sonho de Luther King

Leonardo Boff

 

 A eleição do afro-americano Barack Hussein Obama para a presidiencia dos EUA realiza o sonho de Luther King Jr:”tenho um sonho de que um dia as pessoas seráo julgadas não pela cor de sua pele, mas pela força de seu caráter”. Tudo parece indicar que se iniciou, na política, um tempo pós-racista, pois tanto os eleitores quanto o cadidato não repararam a cor da pele mas a pessoa e suas idéias.

 

 Esta eleição sinaliza também o fim da era dos fundamentalismos: do mercado, iniciado por  Tatcher e Reagan, responsável pela atual crise econômico-financeira. E do político-religioso que alimentou a concepção imperial e belicosa da política externa dos EUA. Bush e Reagan acreditavam no Armageddon e no destino-manifesto, quer dizer,  na excepcionalidade conferida por Deus aos EUA com a missão de levar a todo o mundo os valores da sociedade americana de cariz capitalista e individualista. Isso era feito por todos os meios, inclusive com conspirações, golpes de estado, articulados pela CIA e guerras “humanitárias”. Essa idéia de missão explica a arrogância dos presidentes, bem expressa numa frase do candidato McCain: “Os EUA são o farol e o líder do mundo. Podemos agir como bem entendemos: afinal somos o único poder da Terra. Os inimigos de ontem e de hoje hão de temer o nosso porrete”.

 

 Bush criou o terrorismo de estado, constituindo-se no maior perigo para a humanidade. Não há de se admirar que tenha levado a uma ampla desmoralização do pais, inclusive  a um anti-americanismo generalizado no mundo.

 

 Essa atitude parece ter sido  superada com Obama. À estratégia da guerra e do intervencionismo, ele opoõe a  do dialogo aberto com todos, até com os talibãs. Enfatizou:”é preciso mais que tudo dialogar; a saída é uma ampla negociação e não apenas ataques aéreos e matança de civis”. Ele está convencido de que os EUA não merecem ganhar a guerra contra o Iraque porque está assentada sobre uma mentira e por isso, é injustificável.

 

 Mas mais que tudo, ele soube captar o que estava latente na sociedade especialmente nos jovens: a necessidade de mudança. “Change”-mudança foi a grande palavra geradora. Suscitou esperança e auto-estima:”sim nós podemos”. Atirou as atenções para o futuro e para as oportunidades novas que se estão desenhando e não para a continuidade do passado e do presente desolador. Com isso falou para a profundade das pessoas e as mobilizou para dar um salto absolutamente inesperado e novo: eleger um negro, representante de uma tragédia humana que envergonha a história americana, de resto com páginas brilhantes de liberdade, de criatividade, de democracia, de ciência, de técnica e de artes que enobrecem  cultura norte-americana. Obama deixou claro que a real força dos EUA não reside nas armas mas nestes valores morais e no potencial de esperança que vige no povo.

 

 A eleição de Obama parece possuir algo de providencial, como se fora um gesto da compaixão divina para com a humanidade. Vivemos tempos dramáticos com grandes crises: a ecológica, a climática, a alimentar, a energética e a econômica. O arsenal conceptual e pratico disponível não oferece condições para forjar uma saída libertadora.  Precisamos de uma mudança, de um novo horizonte utópico, de coragem para inventar novos caminhos. Faz-se necessário uma figura carismática que inspire confiança, segurança e serenidade para enfrentar estes cataclismos e galvanizar as pessoas para um novo ensaio de convivência, um modo diferente de arquitetar a economia e de montar um tipo de globalização pluripolar que respeite as diferenças e possa incluir a todos num mesmo destino juntamente com a Casa Comum, a Terra.

 

 Barack Obama preenche estas exigências de carisma. Se for realmente profunda, a esperança criará seu caminho por entre os escolhos e as ruínas da velha ordem.

 

21/05/2008

GRAÇA E GRATUIDADE EM TEMPOS DE GANÂNCIA

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No Antigo Testamento, no tempo do exílio babilônico,  nos escritos de Isaías (Segundo Isaías), nos deparamos com a comunidade exilada desfigurada pelas opressões políticas, sob a grande potência da Babilônia. O povo esmagado clama como se estivesse no fundo do poço. Mas, em meio à realidade de sofrimento e perda de suas referências, valores da tradição profética de Israel, homens e mulheres se dão as mãos, solidariamente. E assim se reavivam as experiências sobre a vida, e os atos libertadores de Deus serão lembrados. Há uma consciência acentuada de que o exílio é resultado da cobiça e da ganância, expressas na ambição dos chefes e dos pastores de Israel, entusiasmados com o modus vivendi babilônico (à semelhança da paixão por costumes importadas nos dias de hoje). Por sua aceitação dos valores egoístas, individualistas, assimilados dos opressores e dos oportunistas, as lideranças religiosas abandonaram a Aliança com Yahweh e levaram junto o seu povo à “babilonização” da vida social e religiosa (“babylonical way of life?”). Quinhentos anos depois, já influenciados pelos impérios persa e selêucida (gregos), e sob os romanos, a história nunca aprendida se repetirá. Jesus fala sob o domínio romano e debaixo do conformismo da religião oficial de seu tempo.

Jesus faz observações sobre a ganância e os excessos sobre a importância do trabalho Mateus (17,1-9) tornando-o compulsivo (workaholismo?). A ansiedade de ter, acima da necessidade de sobrevivência, traz angústia, ou denuncia enfermidades e males sociais, desnivelamentos na capacidade de consumir bens essenciais, bens sociais. Alimenta a explosão consumista do supérfluo. Sendo a maioria pobre, no tempo em que Mateus se dirige à sua comunidade, a realidade expunha, além da miséria acentuada, muitos enfermos, mendigos, desempregados, diaristas à procura de trabalho. Jesus mesmo colocava-se como os sem-terra e sem-casa: O Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça (Mt 8,20: Cf. Paralelos nos evangelhos restantes). Mas, aqui, uma situação especial deve se destacar: muitos desses “sem-nada” haviam deixado suas famílias, preferindo o discipulado do Mestre, nas andanças desde a Galiléia. E nem imaginavam sobre o curto tempo que restava a Jesus, nesse caminho.

 O que Jesus pleiteia perturba tanto aos bem-postos quanto à multidão interesseira, à procura de uma fé quebra-galhos que solucione problemas pessoais: “vocês procuram sinais, milagres (e não justiça…), em mim, porque comeram pão com fartura. Ao contrário, vocês trabalhem não pela comida  que é digerida, mas pelo alimento da vida completa e abundante (justiça), a qual o Filho do Homem dará a vocês, conforme confirmação do Pai” (Jo 6,26-27). Evidentemente, essa resposta desagrada à maioria. A multidão vai abandoná-lo? Ao contrário, manterá o assédio imediatista, exigindo recompensas pela prática religiosa. Perseguindo o Mestre com votos disso e daquilo… Há, portanto,  inapetência ou dificuldade de digestão quanto ao recado de Jesus sobre a justiça social, já que esta não é bem o que se procura, no mais das vezes. Segundo João, Jesus é que fugirá dos interesseiros e oportunistas…

A organização econômica do grupo andarilho exigia considerável atenção, havendo entre eles mulheres e crianças, além dos já citados, como João destaca (6,2ss). No entanto, Jesus está enviando mensageiros dessa gente empobrecida para uma missão: sarar enfermos, curar leprosos, ressuscitar mortos, expulsar demônios, enquanto exercitam a gratuidade, dando sem exigir retribuição, e também recebendo o que lhes era necessário, de graça. Diante da pressão quanto a comida, a bebida, a roupa, Jesus indica a necessidade da despreocupação. E não milagres retributivistas. Há uma anotação importante quanto à saúde espiritual do grupo, algo que deve marcar sua diferença quanto aos estranhos, os gentílicos. O preço do desespero, da frustração, da angústia, da ambição desmedida, a ganância. O afã por enriquecimento, prosperidade, pode ser um preço muito alto a pagar, quanto ao equilíbrio do grupo: Não se pode servir a dois senhores! Um deles será privilegiado, inevitavelmente.

A sapiência bíblica é evocada. Profetas e sábios, na Bíblia, condenam o apoio e a segurança que se buscam nos bens e nas riquezas. O caminho de fé, a vida calcada na  esperança para a sociedade inteira, substitui tanto o conformismo quanto a ganância (cf.Salmo 62,11). O Eclesiástico ensina que nem mesmo o que se recebe em gratuidade deve ser acumulado (29,10-12). Quanto à generosidade e mesquinhez, as sutilezas nos costumes dos hebreus trazem o problema da tradução adequada. Mas a cultura popular refere-se ao famoso “olho gordo” dos invejosos, expressão que ajuda a entender a referência:“olho bom ou olho mau” traduzem generosidade ou mesquinhez (Dt 15,9; Pr 22,9; Mt 20,11). Não é a toa que a literatura rabínica alude ao “olho doente”, de modo moral (ophtalmós ponerós). Um jogo simples, para dois sentidos: o olhar simples é generoso, luminoso, permite boa visão das necessidades de outros. Já o “olho mau” refere-se ao olhar mesquinho, invejoso, ganacioso, essencialmente egoísta.

Enfim, bens terrenos, afã estressante, segurança material, devem ser desprezados, como também as demais “ênfases pagãs estranhas à comunidade dos israelitas obedientes aos ensinamentos escriturísticos”, onde se encontram inspiração de Deus. Quem cobiça, ou quem vive pela ganância, não possui… na verdade é possuído por suas ânsias, e pelos bens que julga ter amealhado por méritos próprios. Os seguidores de Jesus praticamente recordam os ensinamentos de Ben Sirac (O Eclesiástico), que refere-se às preocupações pela sobrevivência “que acabam com a saúde mental e espiritual”. Perturba a “saúde social”, enquanto outros são influenciados, marcando-se a vontade insaciável de poder. O desejo de ter nunca se esgota. Não conhece a saciedade.

Mateus está recomendando a confiança na providência divina (e não milagres), enquanto realça os valores da vida de fé. Evidentemente apela para uma economia razoável, e não para o conformismo com a miséria. Os valores do Reino de Deus e a sua justiça passam a merecer a atenção do seguidor de Jesus. O objeto da preocupação é que está no foco do texto: participantes, construtores coadjuvantes do reinado de Deus. Irão mais longe, ouvindo Jesus: Busquem primeiro o Reino e a sua justiça, e tudo o mais se lhes acrecentará. Justiça para todos, referências à dignidade de habitar seguramente, estão implícitas: saúde física e mental, direitos sociais das pessoas, dignidade em todos os níveis.

O compromisso do seguidor confiante na justiça de Deus deve estar alicerçado, em primeiro lugar, na generosidade e na gratuidade de Deus, contrapondo-se às preocupações  dos pagãos, “adoradores do deus do dinheiro”. Mamon é rival irreconciliável do Deus de Israel (Sl 21,5; 37,4; 136,25, etc.). A justiça e a misericórdia de Deus sobrepõem-se a interesses e ambições pessoais e individuais. O compromisso com a sociedade, notadamente nas causas referentes aos mais fracos, famintos, sedentos, estranhos, diferentes, desvestidos, enfermos, deficientes, prisioneiros por motivo de consciência política ou religiosa,  idosos, aqueles que estão na dependência dos que devem partilhar o que têm, inclusive as capacidades para cuidar dos mais vulneráveis socialmente. (Mt 25,31-46). A harmonia desse texto com a literatura profética e sapiencial do Primeiro Testamento praticamente  introduz o Sermão da Montanha.  Ali está a ética imperativa de Jesus.

 

16/05/2008

TRINDADE: A FACE DE DEUS REFLETIDA EM TRÊS ESPELHOS

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Um colega muito perspicaz, excelente teólogo, desafiava-me a escrever sobre a Trindade Divina numa linguagem compreensível, e não a dos teólogos e filósofos. Lembrei-me de um texto de Rubem Alves, socorro sempre presente nas nossas dificuldades: “Uma velhinha perguntava ao mestre Benjamim: – Mestre, fale-nos sobre Deus… Mestre Benjamim fitou o vazio, vagarosamente, e um sorriso foi-se abrindo: – ‘Quantas pessoas aqui estão pensando no ar’?, perguntou. ‘Por favor, levantem uma das mãos…’ Ninguém levantou a mão… Então, mestre Benjamim falou: ‘Ninguém levantou a mão… Ninguém está pensando no ar. Ninguém sabe direito o que é o ar. E no entanto nós o estamos respirando. O ar é nossa vida e não precisamos pensar nele para respirar. E não precisamos pensar nele para que ele nos dê vida. No entanto, quem está se afogando só pensa no ar.  Deus é assim. Não é preciso pensar nele, ou pronunciar o seu nome,  para que o sintamos’”.

 

Quem pensa demasiadamente em Deus, ou exige explicações de sua existência, pressionando a consciência dos outros para “crer em Deus”, é porque não está respirando Deus. Está se afogando enquanto recorre às doutrinas de todos os tempos. Mais adiante, esse autor dirá mais, traduzindo a Bíblia: “Deus é como o vento, sopra em todas as direções. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas das árvores, e seu assobio ressoa nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível prendê-lo numa garrafa. No entanto, nossas religiões tentam engarrafá-lo e até mesmo comprimi-lo. E dão a esses cilindros compressores o nome de ‘Casa de Deus’. Ora, vento engarrafado não sopra’”. Melhor dizendo: o Deus da Bíblia não pode ser dominado por nós. João, o evangelista do Segundo Testamento, diz: – “o Espírito sopra onde quer”. Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do nenê recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós.

 

Também conhecemos, na linguagem dos salmistas, bíblica, Deus, o Pai, como o Criador do universo estelar, o céu profundo, as imensas constelações cósmicas, que fez de um fragmento desse mundo gigantesco, imensurável, um lugar para o homem e a mulher habitarem. Um lugar confortável, suprido de todo o necessário para sustentar a vida. O homem vem do pó, diz um salmista, enquanto alcança uma dignidade inigualável no universo. Um projeto perfeito, continuamente criador, incompleto, mas em recriação constante. Vemos nas flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso da espécie. A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa  o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é a Divina Trindade.

 

É a isso que Paulo refere-se, freqüentemente, a face de Deus como objeto clarificado. Vemos o Deus trinitário como num espelho. Na face de Jesus Cristo, no entanto, reflete-se o esplendor criador de Deus (2Cor 4,6). E a glória de Deus reflete-se em todos nós quando reconhecemos Deus face a face: (1Cor 13,12: “… então o veremos face a face”). O Espírito Santo é Espírito do Pai e Espírito do Filho. Aqui e agora, ainda necessitamos dos símbolos. Nossos Credos são trinitários. Credos são símbolos (Credo dos Apóstolos, Credo Niceno…). Símbolo significa “sinal” da presença de alguém. Retornando às fontes, em sentido inverso, decolando numa máquina do tempo na direção do passado, garantimos uma compreensão  fiel e contemporânea da Bíblia, e  dos Pais da Igreja Antiga, quando se necessita ver Deus como um rosto refletida em três espelhos (talvez Paulo sugirisse isso…): os rostos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia o presbiteriano Richard Niebuhr. Simplifiquemos a concepção trinitária para que a Igreja seja atendida na compreensão que importa, diante da história de sua fé. É preciso pagar o preço da simplificação, para a inteligibilidade da fé. Algumas vezes. Por outro lado, a tradição e a cultura religiosa contam a história e mantém o dogma como deve ser. Sem isso, somos somente pentecostais: e ignoramos o Pai e o Filho; somos criacionistas: desprezamos o Filho e o Espírito; somos espiritualmente formalistas: afirmamos Cristo apenas como uma sombra na parede, sem carne, à vista dos homens e das mulheres deste mundo.  Isso une a Igreja em torno da Trindade, como aponta a Bíblia: Deus estava em Cristo reconciliando a humanidade com os rostos de Deus. O Filho e o Espírito representam-no no nosso meio.  Jesus Cristo disse: Não os deixarei órfãos, fica com vocês um auxiliar do Pai e do Filho: o Espírito Companheiro.

 

Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando às Igrejas sobre o Espírito Santo, escrevia: “O testemunho de muitos pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com freqüência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus (porque Jesus Cristo ensinou) a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social (vida plena). Porém, continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado.  Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, podem levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”.  Richard Shaull acreditava nesse Deus refletido em três dos mais perfeitos espelhos de cristal. E citava o profeta Habacuc, sobre estes significados: “O justo viverá pela fé”.

 

Paul Tillich, teólogo extraordinário, dizia também que o Espírito da Trindade não pode ser escorraçado da vida, ele é teimoso, persistente, vem na direção dos homens e das mulheres sem esperar que nos voltemos para ele. É assim que Deus está espiritualmente presente na vida do mundo, em tudo e em todos (Paulo disse isso com todas as letras). No homem, na Criação e no universo inteiro. O Espírito do Criador e o  Espírito do Filho, faz presente o Reino de Deus em todas as formas de ações e combates às muitas mortes impostas, em  toda a Criação, neste mundo devastado, poluído e sistematicamente desertificado. E também na natureza e na mente de todos nós. A Trindade Divina visa aos deserdados, despoderados, humilhados, esmagados, triturados pelos sistemas de pensar dominantes. O Espírito da Trindade faz presente o Reino de Deus na restauração da vida enquanto alimento e esperança de um “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21). O Espírito  da Trindade se apresenta, sempre, para dizer sobre a conservação a ferro e fogo das velhas estruturas injustas, e dominações opressivas, contrariando-as: “faço novas todas as coisas”! Gostamos da Trindade que os cristãos imaginam, movidos pela Fé, a Esperança e o Amor (também uma Trindade!)? Por isso nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Reino de Deus está diante de nós! Amém.

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Derval Dasilio

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GLÓRIA À TRINDADE, GRANDEZA DE DEUS EM TODO UNIVERSO                    

Gênesis 1, 1-2; 4a ; Salmo: 8; 2 Coríntios 13, 11 – 13; Mateus 28, 16 – 20

 

Irmãos e irmãs no calendário litúrgico, a partir de 2ª feira  (12/05) que foi a primeira após Pentecostes, iniciam-se o 2º período do Tempo Comum que se prolonga até o Advento. O Domingo da Trindade é o primeiro desse tempo constitui-se de uma “solenidade maior” dentro do Tempo Comum. Trata-se de uma festa que não representa necessariamente, um evento histórico, mas uma doutrina teológica.  “Neste dia, afirmamos o Deus Trino em cujo nome somos batizados, como um só Deus revelado em três pessoas, pelas Escrituras. A celebração da doutrina da Trindade nos proporciona um olhar retrospectivo da história da salvação como um todo, pela atuação do Pai no Filho mediante o Espírito Santo. É um momento pastoral para a renovação e fortalecimento da fé do povo de Deus ”(Manual –Culto IPI).

É uma doutrina difícil para nós que temos uma forma de pensar de maneira tão concreta, fazendo com que as coisas abstratas que muitas vezes nos assuntam tornem-se mistério. Como o mistério da Trindade que não se explica, mas se experiência através da “Graça do Filho que nos reúne, do Amor do Pai que nos fala e da Comunhão do Espírito Santo que nos acompanha”. E é por isso que, mesmo com todas as limitações que temos na nossa forma de pensar e buscar entender tudo, e não achamos resposta, algo novo surge em nós quando lemos a Palavra relatada no livro de Gênesis “No começo Deus criou os céus e a terra… A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água…” (Gn 1,1-2)o Espírito de Deus se movia sobre as águas, Espírito em hebraico é RUAH, substantivo feminino que quer dizer sopro, VENTO, movimento, vida (Ez 37,9).

O teólogo e escritor Rubem Alves, também, nos fala de uma maneira poética sobre esse Espírito que se movia sobre as águas:“Parem um pouco, ponham-se a escutar… o ruído do vento, que sopra onde quer. Ouve-se a sua voz, mas não se sabe donde vem nem para onde vai. Há um mistério… O vento é pura graça, evento, coisa que chega, e só podemos acolher… Sintam os perfumes que o vento traz. Perfume de um novo mundo… muito embora tenhamos nos esquecido do nome daquilo de que temos saudade, há um vento que não o esqueceu e o diz em nosso lugar, com suspiros inefáveis, que não podem ser traduzidos em palavras” (do livro Creio na Ressurreição do Corpo ).   Quando como igreja, povo de Deus reunido, cantamos:“Quando o Espírito de Deus soprou, o mundo inteiro se iluminou. A esperança deste chão brotou e um povo novo deu-se as mãos e caminhou”. Algo começa a mover dentro de nós e começamos sentir a presença deste Deus Trino. O mesmo acontece quando meditamos no que o poeta sacro diz no salmo 8: “Quando olho para o céu, que tu criaste, para a lua e para as estrelas, que puseste nos seus lugares – que é um simples ser humano para que penses nele? Que é um ser mortal para que te preocupes com ele? No entanto, fizeste o ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe deste a glória e a honra de um rei…Ó Senhor, nosso Deus, a tua grandeza é vista no mundo inteiro”(Sl 8,3-5 e 9). 

Podemos afirmar diante disto que o ser humano é muito especial estando sempre no centro do projeto do Deus Trino, basta ver a obra da criação em seus detalhes, tudo foi preparado para que fossemos feliz. “Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do neném  recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós” (Derval Dasilio em Trindade: A face de Deus refletida em três espelhos). A liturgia de hoje nos insere no mistério insondável da Trindade. Torna-nos participantes de sua comunhão e revela-nos Deus como fonte de toda a bênção e graça, presente e atuante na história como Pai, Filho e Espírito Santo. Origem e fim de nossa caminhada. Da Trindade viemos e para ela caminhamos, seguindo o caminho do Reino.

 

Na segunda carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo revela que o mistério da Jesus na comunidade só se entende na relação das três pessoas da Trindade. Assim, o amor do Pai comunica-se na graça de Cristo e age na comunhão do Espírito Santo. O resultado dessa atuação é paz e a alegria. Quanto mais nos empenharmos no aperfeiçoamento pessoal e dos irmãos, quanto mais cultivarmos a fraternidade e vivermos na paz, mais próximos estaremos da comunhão que há entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a presença do Espírito Santo estejam com todos vocês!” (2 Co 13.13). É a saudação proposta por Paulo aos cristãos de Corinto nos revelando que a Trindade confere-nos a plenitude dos dons e dos bens necessários para a nossa vida cristã: a graça, o amor e a comunhão.

O Evangelho de hoje nos remete ao grande comissionamento, dado por Jesus, fazendo-nos uma recomendação: “vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Isto porque pelo batismo, somos mergulhados no mistério da Trindade que vem habitar no coração de cada batizado. Portanto, irmãos e irmãs a vida cristã, que nasce da fonte batismal, é Trinitária, por isso as palavras pronunciadas no sacramento do batismo: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Também, no Credo Apostólico, a comunidade professa sua fé em Deus Pai criador, em Jesus Cristo Filho de Deus, nosso redentor, e no Espírito Santo, o santificador. Nesse mistério somos convidados a viver, na diversidade, uma comunhão de iguais, pois, no Deus – Trino, a diversidade de pessoas não gera violência e conflito, mas, ao contrário, é a fonte maior do amor e da vida.

Celebrar a Trindade não é celebrar um mistério insondável, mas é sentir uma grande alegria, ao saber o quanto Deus nos ama, e se desdobra para nos alcançar e nos manter sempre juntos a si. Assim, como herdeiros e herdeiras da Trindade, vivamos em comunhão, participando da transformação da realidade atual, até que o mundo todo seja sinal do mistério de nosso Deus Trino. A quem, como Igreja, proclamamos e declaramos:“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: como era no princípio, é hoje e para sempre, sempre sem fim. Amém, amém, amém.”

Revª  Izaura Márcia Venerano

                          

 

06/05/2008

DESAFIOS NO PENTECOSTES HIPERMODERNO

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DESAFIOS NO PENTECOSTES HIPERMODERNO

 

Cada vez mais enfrentamos em nossas igrejas este ou aquele grupo que se diz “pentecostal”, ou irmãos que se declaram, agressivamente até, espiritualistas “carismáticos”, porém, ignorando o sentido bíblico do Pentecostes. Perdemos o verdadeiro Espírito da Igreja quando nos entregamos ao comum carismático, ao mundo mercadológico da fé neopentecostal, que parece ignorar que o Reino precede a tudo: aos exorcismos, às curas, à prosperidade, aos propósitos, à vida consagrada aos bens materiais, e outras ênfases. Pior, assumimos o “pentecostalismo religioso” que ignora que o Reino de Deus é tudo que temos, numa igreja “possuída” por muitos símbolos materiais imediatos, pragmáticos, mercadológicos. Não diferem muito os “históricos” tradicionais, combatentes da religião pentecostal, especialmente quanto à incapacidade demonstrada para se entender a pentecostalidade da Igreja, as transformações e os novos indicadores do mundo sagrado e seu universo simbólico em tempos de “hipermodernidade” relativa. Voltamos à igreja urbana, e descobrimos que a vida no Espírito, na cidade do homem, tem muitas faces. Harvey Cox reconsiderou suas posições, e diz agora, sobre a mesma cidade, que “aqui reside o que muitos especialistas definem como a revanche do sagrado”.

 

Quer dizer, o empenho em favor de uma “teologia da secularização” perde força, enquanto a busca do mundo sagrado recrudesce. A teologia europeizada do mundo religioso sofre o necessário abalo. Muitos de nós reconhecemos, com Henrique Dussel, que a modernidade nem chegou no terceiro mundo, e estamos discutindo a pós-modernidade. Mas a questão da religiosidade pentecostal vai mostrar que sobrevivem fatores onde estão presentes sonoridades e vozes carnavalescas, espelhos e máscaras representativas de diferentes e ancestrais tradições  do mundo abaixo da linha do Equador, no Brasil, no Caribe. Tradições ameríndias, africanas, européias colonizadas ou não, e outras, pré-colombianas. Estas vozes representam sentimentos de esperança e ambição de conquista religiosa. São elas legados na busca do “novo céu e da nova terra”, numa questão que reconhece vários deslocamentos “diaspóricos” da fé, fragmentos de raízes ancestrais colidindo no mundo latino-americano, e no espaço caribenho, manifestando-se posteriormente como conseqüências da conquista exterminadora da cultura. Conseqüências da escravidão, da colonização, da recente globalização cultural, e da economia mundial imposta sobre tradições milenares.

 

Religiosidade, comunhão eclesiástica, ministérios ordenados, instituições doutrinais, não podem sufocar o suspiro dos oprimidos (R.Alves), com os quais se identifica o Espírito: “… também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, no aguardo da redenção do nosso ‘corpo’; (…) o mesmo Espírito intercede por nós em gemidos inexprimíveis” (Rm 8,2-3a;26b), para libertar-nos. A massa de oprimidos no pentecostalismo religioso bem poderia buscar uma aproximação com o Pentecostes neotestamentário, pois a preferência ao Reino de Deus está nos pobres e despoderados deste mundo. Eis porque a Igreja deve assumir sua verdadeira pentecostalidade. Hoje, o Espírito do Senhor está anunciando a Salvação. Jesus promete a companhia do Espírito na comunidade de fé, e cumpre. No mundo e nos confins do universo. Não há lugares exclusivos, nem pessoas escolhidas para receber o Espírito (João 14,15-21). Ele se revela a todos, e está em tudo, no mundo criado; Ele conduzirá à verdade completa e graças a Ele não ficaremos órfãos, ou abandonados, como lemos no Evangelho do Pentecostes, e aconselhados na Sem,ana de Oração pela Unidade dos Cristãos: “Orai sem cessar” (1Tess 5,12a).

 

O PENTECOSTES LEVA AO MAIS PROFUNDO CONHECIMENTO DE DEUS

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele consagrou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação dos presos aos sistemas de pensar e, aos que vivem em cegueira, a recuperação da visão clara das coisas; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano jubilar  de remissão por Graça do Senhor” (Lc 4,18 /rf.Is 61,1). Assim, Jesus Cristo inicia seu ministério numa sinagoga da Galiléia. A interrupção brusca, no martírio e na morte, também testemunhados por Lucas, não impedirá a Ressurreição do Cristo de Deus, e com ela as aparições pascais. O próprio Jesus se manifesta como o Cristo vivo, ele e sua causa prosseguem na história dos homens. Atos dos Apóstolos apresenta outra visão sobre a manifestação histórica, aumentando nossa confiança: quando o nome de Jesus Cristo é invocado, ele passa a agir como força mediadora da Graça, da parte de Deus (2,1-13). Ao mesmo tempo, dele emana o Espírito de Deus que se apossa dos discípulos, para que o evangelho da Graça seja pregado.  É o Reino de Deus que se instala, só depois vem a Igreja (Goppelt). Assim é a teologia de Lucas, no evangelho e no livro de Atos.

 

Na referência a Pentecostes, o Espírito Santo quase sempre era “lembrado pela ausência” no palco da vida de fé, substituído por elaborações doutrinárias tradicionais. Um paradoxo. A Trindade incompleta refletia a rejeição ao pentecostalismo que sugeria uma experiência religiosa voltada para o Espírito Santo, com exclusividade. Porém, essa forma esquecia o essencial, omitia a relação com o Deus da Vida e o Deus Salvador e Libertador enquanto se concentrava no Espírito Consolador, tão somente. Duas visões, dois equívocos! O Espírito Santo não é uma força coadjuvante na reserva da fé, dirá a boa exegese. Como podemos explicar este esquecimento do Espírito em nossa experiência cristã, nas Igrejas Históricas? Tertuliano, na Igreja Antiga, ao fim do II século, adere ao pentecostalismo montanista, apocalíptico, acompanhado por duas profetisas: Priscila e Maximila, sustentado pelo próprio Montano (170 d.C.). O grande apologista, pai apostólico, já experimentava as contradições da fé e da vida no Espírito. E, depois, Francisco de Assis, Meister Eckard, e Tereza D’Ávila. Que conseqüências trouxe para a Igreja e para nós, hoje e individualmente?

 

Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando as Igrejas Históricas, escrevia: “O testemunho de muitos pentecostais pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com freqüência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social. Porém, continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado.  Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, pode levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”. R.Shaull finalizava: “A chave para se compreender tudo isso, que esboçamos como a luta angustiante para sustentar a fé e a confiança em Deus, em meio de tremenda violência e destruição, foi apresentada no final do livro do profeta Habacuc: o justo viverá pela fé!”.

 

Como “consolar” os órfãos da utopia do Cristo de Deus quando a Igreja se apresenta como quem tomou posse do Espírito, senão com a garantia da solidariedade de Deus? Como garantir um final feliz no drama da salvação, ideais transformadores, revolucionários, a justiça de Deus, a vida eterna, sem fim, a morada com Deus, a pátria celestial, cidadania dos céus, no sentido bíblico? Como alimentar os que padecem das fomes deste mundo? Como aplacar a sede que temos nos caminhos desérticos onde secaram as fontes da vida? A resposta está no que disse Jesus: “Pedirei ao Pai que vos envie ‘outro parákletos’, companheiro e ajudador, a fim de que esteja ‘sempre’ convosco”; “o Ajudador, o Espírito Santo, (…) esse vos ensinará todas as coisas e ‘vos fará lembrar’  de tudo que eu vos tenho dito” (cf.: Jo 14,16 – No grego, o termo parákletos oferece extensas possibilidade para o tradutor: defensor, advogado, companheiro, protetor e ajudador; Jesus chama-o também de Espírito da Verdade, referindo-se à divina revelação do Espírito de Deus. É indispensável o complemento (14,18-19): “não vos deixo órfãos”,[orfanús: des-validos, des-protegidos, des-amparados]). O Reino se destina aos órfãos, acolhe os despojados, despoderados, sem-casa, sem-teto, sem-cidadania, sem-dignidade, sem-tudo. Em primeiro lugar os que estão sob risco de sobrevivência. Os que padecem de fome e sede; os que estão nus, desprevenidos dos perigos, vulneráveis ao mal permanente; os que estão encarcerados nas prisões dos pensamentos que admitem opressão, justificados os fins, e com ela a exclusão, a exploração e a submissão. O Reino se destina aos despoderados e oprimidos, também, os que vêem libertação para prisioneiros do fatalismo histórico, do Mal permanente que se acredita irreversível, sempre presente na fraqueza da fé sem esperança. Incluem-se os que necessitam  de livramento quanto ao mundo violento, dito como imutável e inevitável. Está com eles o  Parákletos, e eles crêem na libertação dos que se entregam sem resistência ao mal sistêmico, reféns do conformismo e da indiferença, entregues à conivência com os poderes deste mundo. O Espírito é esperança de salvação. 

01/05/2008

PÃO QUENTE DIÁRIO

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