Derval Dasilio – Escritos&Artigos

29/04/2008

O CÉU É ONDE SE RECONHECE A PRESENÇA DE DEUS

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A Ascensão do Senhor foi um fato histórico, físico, espiritual, teológico? Qual é a mensagem fundamental do mistério da Ascensão? “A terra é o único caminho que temos para chegar ao céu…”, concordamos com esta frase? Superar o ranço de espiritualismo introvertido, a superstição e toda falta de fé; combinar adequadamente na vida “o céu e a terra”, o idealismo e o realismo, a utopia e o compromisso, os acontecimentos finais de uma era (escatologia) e a história, é um desafio para os cristãos que observam  a Ascensão do Senhor enquanto olham para o chão: “Estando eles olhando para o céu, enquanto Jesus subia…[...]perguntaram: porque olham para as alturas? ” (Atos 1,10-11). Deixar de olhar para cima e observar a sede de infinito que está em nós, com os pés no chão, é uma advertência evangélica a ser considerada. O céu é sinônimo de Deus. Mateus usa abundantemente esse significado quando sugere que o Reino do Céu é o lugar onde Deus reina. As mais importantes utopias humanas encontram lugar na Ressurreição de Jesus: a perfeição do “mundo ressurreto”, transformado, próximo da mais completa perfeição, ocorre neste chão terreno. Num mundo que exalte a defesa da vida, valores morais e éticos, para que a dignidade humana se sobreponha aos interesses de dominação tão mais freqüentes entre nós. Num mundo reconciliado no qual não se admita a exclusão étnica, de gênero, de sexo e de minorias; um mundo onde a convivência cotidiana seja marcada pelo desejo de paz, shalom (paz para um mundo íntegro, inteiro, tolerante do diferente, sem divisões, preconceitos), é o lugar da plenitude que todos desejamos. 

 

A linguagem bíblica para o céu desejado é, em primeiro lugar, utópica: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos. (…) A criança de peito brincará junto à cova da víbora, e o menino pequeno meterá a mão na toca do escorpião (Is 11,6-9). O Apocalipse promete “um novo céu e uma nova terra, onde não haverá morte nem luto, nem grito, nem dor, porque todas estas coisas acabaram”(Ap 21,4). Resposta para os que são constantemente confrontados e ameaçados pela morte, os que gritam de indignação, os torturados e os que sofrem opressão e injustiça. Quando Jesus nos mostra o céu está apresentando uma fórmula da qual gastamos quase tudo, roendo até o osso, depois de sugar o tutano: quando falamos do céu estamos falando de Deus! O céu é “aquilo que jamais penetrou no coração do homem…” (1Cor 2,9); o céu é a esperança humana de um mundo transformado, um mundo possível. O anseio de “ascensão aos céus” é a realização e chegada à vida plena. O céu é uma realidade que transcende a compreensão material do mundo. É o lugar onde Deus está, como está o ar na atmosfera. Um mundo que respira violência precisa aspirar também o sentido da justiça de Deus. Eis o céu cristão.

 

As imagens religiosas do céu, contudo, não conferem com as imagens do céu bíblico. Islâmicos imaginam um céu no gozo do Jardim das Delícias, segundo o Corão, com belas virgens e gentis rapazes, disponíveis a sobrar. Claro, para os mortos virtuosos. Aqui na terra, porém, têm regras rígidas para o relacionamento sexual, o adultério é passível de apedrejamento. Da mulher, porém. Não do homem. E a exploração homossexual de meninos, por homens, é consentida. “O Caçador de Pipas”, do livro de Kaled Housseine,  é um filme que conta a história da vida entrelaçada de dois garotos, Amir e Hassan. A vida dos dois sofre as conseqüências da mudança de comando político em Kabul, capital do Afeganistão. Sob o regime do Taliban. Dignidade humana, ética, e a luta pela liberdade ocupam o cenário, tecido principal do cenário do filme. A homossexualidade infanto-juvenil, forçada pela violência social, e a necessidade de sobrevivência humilhada, não passa despercebida, juntamente com a violência contra a mulher. O céu, daqui e do além, não é possível, em larga proporção, às mulheres. Elas sofrem de séria depressão e isolamento, e muitas têm escolhido o suicídio a aceitar as extremas circunstâncias e violências a que são submetidas.

 

Cristãos, porém, dão de ombro: não é conosco. Não somos seguidores de Alá. Mas espiritualizamos o céu, e quando o materializamos logo elegemos uma dieta de leite e mel no além. E se diz que o céu estará ao nosso dispor, segundo a tradição católica ou protestante, também amiga de benesses “aqui na terra como céu”, enquanto submete a mulher a posições secundárias e direitos limitados na sociedade. Mulheres sabem quão patriarcal e masculinista é o discurso dito normal e oficial na socialização infantil e nos discursos oficiais da cultura masculinista e até nas reflexões mais elaboradas da teologia erudita. É evidente a proximidade com o que o islamismo conservou. Nas antigas restrições, depois do cristianismo oriental (após o VI século). Representa apenas a elaboração que os homens fazem do mundo celestial, a partir de sua experiência de homens (androcentrismo), bem diversa daquela projetada pelas mulheres (ginecocentrismo). Quando confirmamos idéias cristãs vigentes: “no Paraíso os homens e as mulheres serão como irmãos” (João Paulo II), admitimos implicitamente que o céu, o além, já discrimina a mulher, no aquém (cf. Gálatas 3,26-28). Nenhuma novidade… já esquecemos o Novo Testamento.

24/04/2008

CULTO, MAGIA E ALIENAÇÃO

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Que perigos se escondem debaixo deste nosso temor sobre o comportamento “carismático” presente no culto cristão? Por quê recusamos tais expressões cúlticas? Quando alguém começa a “ministrar”, tomar a frente e profetizar sem autorização, falar línguas estranhas, interromper ou interferir nas orações dos outros com aclamações, atirar-se no chão, chorar convulsivamente durante o culto, o que faremos? Há perigo para a verdadeira adoração na anarquia gospel neopentecostalista? O culto, sem que os espaços sejam preenchidos racionalmente, pode perder-se e esvaziar-se de sentido?

    Aqui, no culto gospel, se vende de tudo, discos, relíquias, e até as pessoas, em troca de bênçãos das pastoras e pastores das igrejas daquele lugar. Não só aos domingos, claro. E, então, sob projetores de luz, máquina de fumaça de gêlo, microfones de todos os tipos, instrumentos de percussão, baterias, guitarras, teclados, data show, recursos eletrônicos variados, e descobre-se que o louvorzão deixa o povo pensativo, cabeça baixa, não podendo orar, tanto é o barulho… as emoções vão substituindo os sentimentos verdadeiros e os louvoristas falam pela comunidade, microfone aberto no último volume. Antes da pregação propositista, motivadora, antes do recolhimento das ofertas. Será que o seu deus é surdo? Não se lê a Bíblia, porque os ministrantes têm frases-chaves para todos os momentos do culto, substituindo as Escrituras Sagradas. E, fazem tudo no culto, oram em voz alta, mandam o povo baixar a cabeça e humilhar-se para acompanhar sua prece ensaiada, e até dizem amém pelos fiéis assistentes Parecem acompanhar a sociedade no outro extremo, como na mídia que a auxilia numa indignação hipócrita, ignorando sua responsabilidade nos crimes hediondos simbólicos da sociedade inteira: a criança atirada pela janela, o bebê jogado na lagoa ou no esgoto, a jovem que mata os pais a pauladas, auxiliada pelo namorado, para herdar seus bens, resultado do que a mesma sociedade constrói.

    A cultura neopentecostal gospel apresenta-se, em primeiro lugar, com uma teologia ou espiritualidade egocêntrica sem distinção denominacional, individualista (dirige-se, o orante, “ao meu Deus”…). Nela afirma-se guerra e vitória certa, do sofrimento com causa. Nega-se a possibilidade de “fracasso”, que parte da cruz de cada dia que integra a caminhada cristã; de teologia centrada no sucesso pessoal do crente, na forma gospel exibida ostensivamente, prosperidade trocada pela fé bíblica no Deus que serve, que sofre, que chora, “derrotado” pelos poderes do Mal, antes da ressurreição (e de todas as ressurreições…). Para que serviria um Deus humilde, despojado, esvaziado de poder? Esse Deus não interessa ao culto gospel, (entre os bordões repetidos à exaustão, as expressões comuns no culto neoevangélico, a arrogância espiritual cobra veementemente favores pela “vida consagrada”, é incompreensível diante do exemplo de humildade do Senhor do culto). Predomina o desprezo à comunidade e à coletividade, afirmando-se o individualismo dos dirigentes; dirige-se à “massa”, o povo anônimo, ignorando a comunidade local humilhada. Esta, normalmente trabalhando com dificuldades de toda ordem, irmãos empobrecidos, doentes, desempregados, deficientes, idosos, “que não alcançaram vitória pelo louvor…”. Igrejas pobres, humildes, são apontadas como “fracassadas”, incapacitadas de apresentar “sinais de vitória” que o culto gospel proclama, são ainda mais humilhados em seu “fracasso” aparente.

    As músicas que se cantam, no culto gospel, expressariam as alegrias de ser crente, ou refletem o “louvor formatado para o consumo” de CDs e DVDs, e relíquias simbólicas, ou é separado do chamado para testemunhar a Salvação do mundo através de Jesus Cristo? A esperança do mundo é o fortalecimento do culto gospel e sua teologia intimista ou individualista? O que cantam é adoração, louvor, arrependimento pelos pecados diários contra Deus, inclusive a participação e responsabilidades no pecado contra o próximo, contra Deus e contra nós mesmos? É lamentação contra as injustiças sociais, compromisso de denúncia, ação contra as forças do mal estrural na sociedade da qual somos parte? São tristezas sobre nossos maus testemunhos, coniventes, cooperadores com o Mal existente? O que cantam destaca as lutas, os sonhos para um mundo novo, transformado por Deus?

    Expressam  o desejo de que Deus promova a restauração da criação humilhada e destruída enquanto se anuncia a reconciliação dos homens e das mulheres, através de Jesus Cristo, à luz do que a Bíblia ensina sobre a força do Reino de Deus? São anseios por salvação e libertação da parte do Senhor Jesus Cristo, objeto do louvor e glorificação no culto? É lembrado o estado profundamente deplorável da sociedade brasileira, situações de exploração, servidão, fome, desmandos nos meios que cuidam da justiça civil; crime organizado, submissão e escravidão no nosso país, direitos dos mais fracos violados a todo instante? São declarações de fé que apontam a Graça espontânea de Deus para todos os oprimidos e esmagados deste mundo? Será que essa forma de culto expressa o sacerdócio universal de todos os crentes, e sua responsabilidade de intercessão pelo mundo? Ou será que acentua somente compromissos para melhorar materialmente a vida do crente; que estimula o esforço de “vida consagrada”, que traria o prêmio da loteria espiritual, um tipo de salvação concreta: o carro novo, a casa própria, o marido ou esposa ricos, o emprego bem remunerado?

EM BUSCA DE RESPOSTAS

Precisamos de respostas. Porém no campo da prática religiosa, no culto cristão autêntico. Ou então nos conformaremos com o modelo recente, presente em muitas de nossas igrejas. Por outro lado, indignados, nos garantiremos com o Espírito, força que nos capacita para cumprir a tarefa que Deus confia às pessoas e às comunidades, na igreja. Sem o Espírito a religião e culto se transformam em magia, em espetáculo metateatral. Com o Espírito o culto se transforma em vida, alegria, comunhão de iguais. Como nossas comunidades celebram o culto cristão e os sacramentos? Com ritos mágicos? Com celebrações folclóricas, ou com “show gospel”? Há cultos gratulatórios, confortando a comunidade pela vida rica dos que são sepultados e nos deixam a rica herança da fé? Há atenção, no culto, para com deficientes, enfermos crônicos e terminais, e idosos? Temos medo do fracasso, das crises, ou preferimos celebrar a vitória da materialidade?

    Paulo apela para o culto “racional”, organizado e atento ao sofrimento do mundo e dos crentes. Cada coisa no seu lugar, para que se possa proporcionar a interação espiritual da comunidade reunida em torno da esperança, “até que o Senhor venha”. Com ordem, para que todos possam se expressar, oportunamente, quanto às lutas da vida. Denunciar com firmeza os pecados estruturais da sociedade, a sedução consumista e a ausência de solidariedade entre nós mesmos, e reacendê-la. E que todos possam ouvir. E arrepender-se de sua falta de fé (e rogar, como no Evangelho: “aumenta a nossa fé”). O povo precisa orar por si e pelo mundo. Isso diferencia o culto cristão do culto pagão, desordenado, egoísta, emocional, anárquico, inadmissível no Novo Testamento.

    Enquanto isso, o culto exige ações ordenadas (ordo litúrgico), inteligentes, para a oração, a edificação e a intercessão de todos os crentes congregados. É assim que o Salmista instrui, acompanhado pelo apóstolo Paulo: “Pois Deus é o Rei de toda a terra, cantai louvores com inteligência” (Sl 47.7). Sobre a prática dos dons: “… vou indicar-vos um caminho infinitamente superior”(…) “Mesmo que eu fale línguas… mesmo que eu tenha o dom da profecia… mesmo que eu tenha a fé mais totalizante… mesmo que eu distribua todos os meus bens… mesmo que eu me entregue à purificação do fogo… se me falta amor nada recebo por isso”; “… cantarei inspirado pelo Espírito, mas cantarei de modo que todos entendam” (cf. 1Coríntios 14.12-20; enquanto se examinam os cps. 14 e 15 por inteiro). “Carismáticos”, neoevangélicos, como que se “embriagam do Espírito”, enquanto os restantes passam sede e fome de edificação. Silêncio orante, meditação e expressão solidária nas intercessões, para muitos, não são parte importante do culto cristão. Mas deve ser para fiéis cristãos, embora humilhados, enfraquecidos, abatidos pela arrogância do novo culto, ou pelas pressões de nossos dias. Precisamos manter-nos conscientes de que, quando envolvidos pelo Espírito de Deus – sem o qual não há culto algum – é sempre possível louvar a Deus sem imitar as modas e as eclesiologias alienantes do momento. Mesmo as mais coloridas, dançantes, fulgurantes, diabolicamente atraentes…

 

 

 

17/04/2008

CREIO EM DEUS

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Creio em Deus
Por Derval Dasilio

Creio no Deus que não se deixa aprisionar pela religião, ou alguma igreja, mesmo quando ela afirma que Deus é seu símbolo maior; quando ela batiza, celebra a eucaristia, faz casamentos, promove profissões de fé, ensina sistematicamente “doutrinas inconfundíveis” em relação às outras formas de crer. Creio no Deus que pousa como um pássaro livre no coração de todos os homens e mulheres, e que, principalmente, encanta as crianças, como os meninos e as meninas nordestinas que o chamam de “Paínho”, enquanto pensam na ternura da “maínha”. Deus que se oferece gratuitamente a bons e maus, dos que se acreditam “salvos para sempre”, e dos que, sem saber de quê são salvos, porque são salvos, para quê são salvos, que não perguntam sobre a fé eclesiástica e doutrinária, recebem o Salvador.

Creio em Deus como Karl Barth, que disse: “é preciso crer, sim. É correto que ninguém conseguirá ouvir ou ver, ou falar de Deus a não ser como pessoa libertada para a fé”; que a “fé é uma história – uma história nova a cada dia”; que “a fé liberta homens e mulheres, juntos, pois ninguém se liberta sozinho”, como expressou Paulo Freire.

Creio no Deus dos miseráveis pecadores que se acreditam perdidos e impotentes diante dos pecados do mundo, de todos, dos bem-postos, dos explorados, dos dominados pelos pensamentos entregues à fatalidade e à irreversibilidade do mal. Deus dos indiferentes, dos que não se decidem, que protelam, que adiam o que fazer da vida; dos que se mantém em luz-e-sombra, no meio-termo, quanto aos abismos misteriosos onde se esconde a morte, nas sombras da alienação.

Creio no Deus mergulhado no mais recôndito lugar, no interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente nas verdadeiras dimensões do que somos, e nos expõe como um grão de poeira à clareza do sol do meio-dia.

Creio no Deus que traz meus temores profundos à superfície, e faz cair as máscaras que encobrem minha autenticidade; que me faz sair da nebulosidade, com outros mascarados; que faz ver que nós somos o que somos, sem mais recursos, sem maquiagens que possam esconder nossos verdadeiros rostos. Que somos mortais, homens e mulheres mortais, num mundo que sufoca a vida e onde a morte parece querer reinar, com a violência, o preconceito, a intolerância, a injustiça, a opressão e a exclusão. Que, para nossas ressurreições de cada dia, necessitamos do Ressuscitado.

Creio no Deus que vem aos homens e às mulheres, que nos atrai, nos abraça, nos une nas causas da liberdade e dos direitos de todos os viventes. Creio que qualquer pessoa que leia um jornal, por menos sensibilidade que tenha, sentirá angústia diante do panorama desenhado com os horrores que estão sobre nós; com os temores que nos tomam quando temos conhecimento de guerra nas favelas, terrorismo, violência doméstica, abandono da criança, crime organizado, fome no mundo, narcotráfico; enquanto observamos pobreza e injustiça em níveis que extravasam a compreensão; enquanto nos tornamos pedra dura, no pior dos pessimismos, impermeáveis e céticos sobre o amor. Creio que precisamos de Deus.

Creio que todo amor é Deus. E, como diz muito bem diz Rumi, quanto à nossa sede de amor, que “não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra”, Deus é o amor que brota em todo lugar e nos procura insistentemente.

Creio no que disse João, e que, como Carlos Brandão afirma, “que o que não é amor é doença, ou uma luz adoecida”; que só a ausência do Amor identificaria o ódio, a intolerância, a ganância, o temor, o impulso de competir nem se sabe com o quê; que o amor humano não é uma vocação individualista que renega a gratuidade, a partilha, a cooperação, a confiança, “em nós” e “entre nós mesmos”.

Creio, como Frei Betto, “em theofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro”, totalmente, que não sou eu, nem se parece comigo. Que disse, ainda: “Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto conseguir fitar ou agarrar o Astro que me aquece”. Creio como o apóstolo (Paulo), que Deus está em tudo e em todos.

Creio no Deus que se aninha no ventre da mendiga grávida, morta a tiros numa madrugada, resultado dos desmandos do mundo. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de juízos sobre assassinatos acidentais, e ri das pretensões humanas de conhecer e manipular a verdade e a justiça; Deus que vomita com os maus odores de nossos sermões moralistas, ou salvacionistas, que tornam a salvação uma abstração desprezível, mas que se diverte com os vôos rasantes dos urubus em busca de carne podre, enquanto escondemos os nossos pecados eclesiásticos.

Creio no Deus dos profetas enlouquecidos, em razão da esquizofrenia alucinada de nossos dias. Deus da beleza ética que desnuda o realismo pragmático, o oportunismo, o propositismo, e faz a beleza do amor brotar em densidade nos melhores valores que sustentam nossa espiritualidade ética e estética. Que Deus está em tudo que é belo. Que Deus que nos torna equilibristas, como num circo, capazes de saltos-mortais nas alturas, na corda-bamba, ou caminhando sobre o cordão invisível da vida real, sem duvidar das coisas que vêm depois do salto.

Creio no Deus que é um vento que vira vendaval, vento bravo que se anuncia como um grito de vida na terra dos mortos; vento que não vai se acalmar, enquanto insistirmos em destruir a vida na terra; no Deus que é como correnteza de águas que brotam dos mananciais subterrâneos, Água da Vida. Água que simboliza a presença amorosa, no cuidado com a terra e com a água, que é manifestação da fonte divina do grande Amor pela criatura e o mundo criado; água como Jesus ensina, na relação intima com a vida, abrindo o caminho humano para a busca do divino, e nos põe em comunhão com todas as coisas e com todos os seres do universo. Água que é relacionada com o que há de mais sagrado: a vida, o universo, no profundo mundo interior de cada um de nós.

Creio no Deus que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, na reforma no ser humano. Deus que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, uma esperança, um devaneio libertário. Creio no Deus que nos diz, como Jesus disse a Nicodemos: “é preciso desmontar a doutrina vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira, nascer de novo”; que, para compreender o Deus desafiador, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, doutrinário, enquanto “acha” que pode definir o princípio e o fim da história; que, para entender esse Deus é preciso desaprender o que nos ensinam sobre ele, rasgar os projetos humanos de dominação, em seu nome, chutar as latas do lixo doutrinário, que querem engaiola-lo, e debruçar-nos de novo sobre seus projetos libertários, de transformação do homem e da mulher, como ensinou Jesus. Que é preciso ouvir o que disse Jesus sobre um futuro possível, e dizer a plenos pulmões: CREIO NO REINADO DE DEUS!

15/04/2008

A MULHER DOMINADA E OPRIMIDA NA IGREJA

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É preciso dizer que o Novo Testamento incorporou a ideologia patriarcal herdada do judaísmo e da cultura greco-romana nos chamados códigos de conduta doméstica (Col 3,18-19; Ef 5,22-24; 1Pd 2,13). Na Primeira Carta aos Coríntios (14,34-35) há o intento de calar as mulheres reduzindo-as ao direito de apenas profetizar. As proibições para as mulheres, relativas a ensinar, batizar, dirigir a Ceia do Senhor, continuaram em documentos posteriores. No período pós-apostólico, ou na segunda geração da igreja inicial, as mulheres, no oficialato, tinham funções consideravelmente diminuídas em importância (Elza Tamez). O bispo eliminava até a autorização de profetizar. A igreja se institucionaliza.  Deve-se isso à forte pressão da cultura patriarcal greco-romana. A comunidade local, casa-igreja, é comparável a um aparelho subversivo na igreja patriarcal posterior. Porém, onde estariam as mulheres judias do movimento de Jesus?  Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”. 

O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se com justiça por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”.  Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais. Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia, também são ignoradas. Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher e suas responsabilidade. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou sendo solidária com o explorador e dominador. Mulheres vestindo a pele do predador. Conseqüência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade.

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe concedam o alcance gota-a-gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade do masculino contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusividade de gênero. A presença visível, perceptível, theofania, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade.

Perigos de guerra, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres. Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários. Quando Paulo fala do sofrimento como synodínei, “dores de parto” (Rm 8,18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto” (Helen Shüngel-Straumann). Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação.

Hoje, o desafio é trazer à teologia ierusalemita dos ministérios – uma vez que os 15 primeiros capítulos de Atos se apegam aos acontecimentos iniciais da comunidade espiritual de Jerusalém – o que foi incorporado pela teologia paulina das liberdades e dos direitos na comunidade dos fiéis à concepção de inclusão de gênero:“…não há homem ou mulher… pois todos vós sois um em Cristo Jesus”(Gl 3,26-29). Isso sem esquecer que o “sacerdócio real de todos os crentes” não exclui a mulher dos ministérios e da vida de serviço da Igreja de Cristo. Pela Graça de Deus.

NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS… (João 14,1-14 )

Jesus diz a seus discípulos que vai partir e isto não deve perturbá-los porque vai para poder depois levá-los e tê-los sempre consigo, para preparar-lhes um lugar na casa do Pai, uma “grande casa” onde cabem todos, homens, mulheres, crianças. Sobretudo os mais pobres, que “nunca tiveram uma casa própria”, sem-teto; filhos e filhas pródigos e pródigas. Os que desejam regressar ao acolhimento do Pai. Fiéis que souberam carregar o peso do trabalho e as cargas da vida, encontram repouso. Escorraçados, despoderados, abandonados pelos poderes humanos e pela religião, têm “uma casa para abrigá-los, protegê-los e dar-lhes segurança”. Para chegarem à casa paterna precisam, homens e mulheres, de um caminho, de uma lâmpada quando chegar a noite.

A meta desta viagem que se fará com Jesus, no discipulado de cada dia, não é somente de chegar à casa, mas de obter, também, o abraço do Pai que espera, que mostra seu rosto amoroso, benigno, confiável. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2; Sl 23). Todas as virtudes da hospitalidade do Pai estão no acolhimento afirmado por Jesus. Aos homens e às mulheres, igualitariamente. Não há nenhuma possibilidade de associarmos o Deus fundamentalista – Deus “andromórfico”, macho rancoroso, tenebroso, irado, vingativo – com o Deus de Jesus: Deus acolhedor que hospeda os desprotegidos de tudo, com ternura, em “sua casa”: “Abre a mão ao aflito, e ainda a estende ao necessitado” (Pr 31,20); que diz: “Vinde, os que estais cansados e oprimidos…” (Mt 11,28).  Deus que se reflete no cuidado que a mulher tem com os desprotegidos, oprimidos, atropelados e esmagados pelos demais.

O Deus da gratuidade é exemplar. Nele identificamos também o desejo de perdão, ao invés da vingança, ou da represália, quanto aos pecados cometidos na estrada da vida. Assim, homens e mulheres mostramo-nos deslumbrados por esse Deus das muitas moradas,  quedamo-nos perplexos pela grandeza do céu estrelado, o Reino de Deus. No seu acolhimento existe interioridade e fascinação indescritíveis. O Salmo 36 (8-10) expressa com segurança essa certeza: “Ó Deus, quão preciosa é a tua graça. Os filhos e filhas dos homens e das mulheres se refugiam à sombra das tuas asas. Saciam-se da abundância da tua casa”.   

08/04/2008

RETORNEMOS AO PASTOR QUE APASCENTA A VIDA

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“Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum” (Salmo 23). Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, que vão declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério, embora seja entendida como a auto-organização da matéria. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff, recentemente: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”. Mas isso não explica a vida. Apenas descreve o processo de seu surgimento. Ela continua misteriosa, como os próprios biólogos e cosmólogos continuamente afirmam. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, a biotecnologia colocada em lugar de Deus, definiria o futuro da vida, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal, O Oitavo Dia, União Cristã, 2004).

De todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Você se lembrará que escrevi sobre isso, no domingo da Páscoa. Isso implica também em decisão, porque até aqui ainda se podia adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. O “ethos” adoecido das nossas culturas é envolvido, inclusive, pela morte dos valores essenciais à sustentação da vida em seus direitos plenos. Mergulhadas no mais recôndito lugar, no interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia. Temores profundos vêm à superfície. Caem todas as máscaras que encobrem nossa autenticidade, a realidade sai da nebulosidade: nós somos o que somos, sem mais recursos; sem maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Somos mortais. Homens e mulheres mortais num mundo onde a morte quer reinar.

Somos humanos, também, a ressurreição não nos tornará deuses imortais, mas homens e mulheres ressurretos, resgatados em nossa dignidade, num mundo ímpio, em que a ciência, a tecnologia, governados pela irracionalidade dos recursos medicinais restritos desenha um mundo destinado aos bem-postos. Um mundo sem solidariedade, sem ética, sem saúde, que nega o direito à vida ao resto da criação. A morte constitui sempre um drama e uma negação, de todos nós. A morte é sempre envolta em angústia. Tudo no ser clama por vida sem fim. Paulo gritava: “Quem me libertará deste corpo de morte?” E respondia: “Graças a Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nem por isso pôde deter os mecanismos da morte que se aproximavam irrefragavelmente. Estêvão, Pedro, Tiago, pregadores das nossas ressurreições, morreram como todos os homens e mulheres. Porém martirizados! Porque afirmaram a vida plena e abundante anunciada no Evangelho.

No gênesis, Deus descansou no sábado. A Bíblia não fala que a obra, o trabalho criador do Eterno recomeça no primeiro dia da semana seguinte. Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha”… Também nós, criaturas que lutamos pelos direitos da criação, precisamos de um sábado. Uma pausa. A criatura de Deus quer plenitude, vida completa, com todos os direitos, dignidade; vida eterna, com a presença constante de Deus, o amigo terno, cuidadoso, que chama à convivência sem fim, a seu lado. A vida biológica é tão simples! A morte também. O “ethos” de cada cultura, porém, é extremamente complexo. Mil vezes mais. Jesus ensinou a gregos e israelitas, tradições bem diferentes, sobre a simplicidade da existência humana. No entanto, insistimos em tornar complexo o que primitivamente, milhões de anos atrás, já se sabia, sem perguntar sobre qualquer mistério; sobre os fenômenos que aconteciam naturalmente. Inclusive sobre a vida e a morte, um temor sem fim. As pessoas não precisavam saber que a terra girava em torno do sol, enquanto gira em torno dela mesma; que as estrelas cintilavam em razão de uma combustão natural, e que as luzes que vemos lá no espaço sideral, numa noite estrelada, são corpos celestes que morreram há milhões de anos.

Não precisavam dessas elaborações para concluírem que todos os seres vivos brotam de sementes, que nascem, crescem, produzem frutos, e voltam para o ventre acolhedor da terra, enquanto suas sementes, dos frutos deixados sobre a terra, continuarão a expressar a vida criada. É preciso prestar atenção, também, às palavras, no Evangelho: Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muito fruto (Jo 12:24). S.Francisco de Assis entendeu tão bem: “É morrendo que se vive para a vida eterna”.

As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”. William Blake, o poeta inglês, entendia o homem e a vida desse modo: “um mundo num grão de areia”! Rubem Alves expressaria isso de outra maneira: “a vida dos homens e das mulheres é como uma gota de orvalho repousando numa pétala de flor”. Nada expressaria mais fortemente a fragilidade da vida, exposta aos perigos mortais em formas de exterminação da criação. A revolução da informática, incubadeira de idéias, de projetos que devam germinar negócios e consumo, aprovaria o conhecimento universal de ontem, a conservação da ética da vida, os bancos de dados nas experiências dos povos e das culturas de todos os tempos? Ou favoreceriam os sistemas de pensar que impedem a ressurreição e realização da vida humana na direção da dignidade e da plenitude? (Euler Westphal).

“Para os que vão morrer”, Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos.

04/04/2008

PÃO DA COMUNHÃO JOGADO NO LIXO

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Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos e protestantes? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, porque a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?

Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta, irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão; por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as intruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?

“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem. Desde os anos 70, se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir  dos séculos iniciais. Falava, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo. A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido – enquanto a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil.

A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo.

A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.

Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial entre si e com o Senhor. Reunidos à mesa, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127.2), mas “com alegria” (Eclesiastes 9.7). Em Eclesiastes 8.15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2.25).

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