Derval Dasilio – Escritos&Artigos

25/03/2008

IGREJA: COMUNHÃO E INCLUSÃO DE TODOS OS QUE CRÊEM

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A ressurreição de Cristo significa que o fim das exclusões já começou; que os mortos já começaram a ressuscitar; Deus já ressuscitou primeiro. Contra todos esses vaticinadores do exclusivismo, do absolutivismo moralista, a salvação é esse processo iniciado com Cristo e que continua transformando o mundo em outro mundo como Deus quer. Um mundo onde Deus reine. O mesmo Espírito Santo, a mesma força de Deus que ressuscitou a Jesus, está já em nós para ir formando nosso corpo de glória. Corpo e coração ressucitados. Alma, mente, espiritualidade, a serviço da ressurreição em Cristo Jesus. Inclusão, solidariedade, tolerância, compaixão, deveriam ser as primeiras palavras no vocabulário analítico da Igreja de Jesus Cristo. Não o contrário.

Assim há que se entender a preocupação divina para libertar o povo da “escravidão do Egito”, da opressão, da injustiça. Da mesma forma se deve entender o projeto de vida de Jesus como um serviço ao ser humano. Este estava condenado por estruturas injustas a viver uma vida sem qualidade, uma vida desumanizada. Isto acontecia não somente pela exclusão do desfrute e usufruto dos bens criados, mas também pela distorção da verdadeira imagem de Deus, graças a uma religião que ocultava o verdadeiro rosto paternal e misericordioso de Deus. João nos lembra o Deus que não exclui ninguém da vida plena(Jo 20,19-31). Lucas nos dirá, ao homem e à mulher, e à comunidade: “…não consideres igual aos outros aquilo (aquele?) que Deus purificou” (At 9,15).

Diria Karl Barth, interpretando o que escrevera Calvino em seu Catecismo: “a Igreja é humana e pecadora”. Se muitos pensam que a fé cristã é assunto de tribunais eclesiásticos, ou assunto pessoal, individual, assunto “religioso”, os textos de hoje tratariam de contradizê-los numa espécie de resumo ou de visão panorâmica da vida da igreja, já em seus inícios – dias, meses, anos – depois da ressurreição do Senhor. Outro ponto referir-se-ia aos “santos” e “pecadores”. Na Igreja haveria santos e pecadores? É possível falar de vida “santificada” e de vida “pecaminosa”, biblicamente? A comunhão dos cristãos estaria condicionada a conceitos de pureza, impureza e santificação? Poderíamos acompanhar os estudiosos que chamam estas passagens de “sumários” (Atos  2, 22-47), e nos indicam, além do que lemos hoje, outros, como Atos 4,32-25 e 5,12-16, que apontam na mesma direção.“O que faz a Igreja ser Igreja é a pregação da Palavra de Deus” (Eduardo Galasso citando Calvino). O Evangelho é a Palavra de Deus. E a questão do kérigma, Ensinamento dos Apóstolos sobre a ressurreição, permanece viva na comunidade de fé (R.Bultmann), acima dos costumes, da moralidade, da eleição e predestinação (fica esta questão para outro momento da história doutrinal desta igreja referida acima).

Curva-se a Igreja, hoje, como ocorreu em todos os tempos e ainda hoje, diante do que ela tem de mais humano e pecador, o ódio racial, a (mútua) intolerância, a homofobia, o exclusivismo, o alheamento da realidade sócio-cultural, sem autocrítica e sem vontade de “purificar-se” das influências perniciosas, pagãs ou judaicas, que a acometem, sempre, em todas as épocas? Onde encaixaremos a idéia mestra da eleição de Deus no Evangelho (“…não consideres igual aos outros aquilo que Deus purificou” (At 9,15)?

Devemos também concordar com Karl Barth, quando nos lembra daquilo que a Igreja deve representar, em termos do Batismo compromissado, da Comunhão e Hospitalidade Eucarística; da vida profética face às sempre presentes realidades opressoras, forças cegas que agem sobre o homem e a criação.  A humanidade e o mundo criado esperam por Redenção, pelo resgate divino que o Senhor da Igreja promete e realiza sacrificialmente.  O Senhor da Igreja é o homem Jesus Cristo, que andou pelos caminhos da terra, sempre rejeitado pelos poderes reinantes, desde a Religião, a Economia e a Política do seu tempo. Incluindo os sistemas de pensar de cada cultura. É neste mundo que os pecados de todos os homens e mulheres são perdoados, e todas as contradições ao Criador são superadas. Dentro e fora da Igreja. É nele que se torna possível a reconciliação com Deus e com suas intenções salvíficas. Anunciar esse evento é próprio da realidade eclesiástica, é agir sob a obediência da fé que movimenta a Igreja e a torna viável, visível, diante das realidades opressoras que parecem reavivar constantemente a força do paganismo idolátrico que se esconde, disfarçado, dentro e fora da Igreja.

A fé em Jesus Cristo ressuscitado e o fato de termos recebido o Espírito Santo nos incorporam necessariamente à comunidade sociológica da Igreja? À Igreja, que não se reduz, como tantas vezes pensamos e dizemos, ao que se denomina de “igreja visível”, à chamada “hierarquia”, à “autoridade dos ministérios”; à “autoridade dos conselhos e concílios”, é  constituída por todos os que crêem: homens e mulheres de todas as idades, de todas as procedências, que exercem nela diversos ministérios e experimentam diferentes formas de vida, de dons, em diversidade e pluralidade. Tem a ver com muitas coisas em comum, isto é verdade, e é precisamente isso que hoje nos apontava a leitura do livro dos Atos dos Apóstolos. O que assusta, porém, não é a permanência do legalismo judeu, juntamente com o preceitualismo ortodoxo da igreja cristã. Por que não se define o que são religiosos “ortodoxos” judeus ou cristãos e as mútuas simpatias existentes entre os dois? Na indecisão, o fundamentalismo é abraçado, e as fronteiras para a vida de fé permanecem mapeadas, e são cada vez mais altos os muros divisórios nas igrejas.

Na Bíblia, em primeiro lugar, está a fé comum, “o Ensinamento dos Apóstolos” (kérigma), o Evangelho que reconstroem através dos apóstolos às palavras do próprio Jesus. Em segundo lugar, a comunhão de bens, característica bem chamativa da comunidade primitiva (koinonia), chegando-se até a vender propriedades para se depositar o resultado da venda no fundo comum com o qual se proviam as necessidades de todos e de cada um, de forma que ninguém passasse necessidade, e ninguém fosse excluído por qualquer motivo econômico-social. Em terceiro lugar, “o partir do pão”, partilha da mesa da comunhão (eucaristia). Isto é, a celebração eucarística na partilha igualitária durante uma refeição comunitária na qual se consumiam alimentos diversos e no meio do qual se pronunciava a memória de Jesus, de sua morte e ressurreição, evocando os gestos do Cristo de Deus, bem como as palavras da “sua” Ceia, instituída na última refeição comum com os discípulos. A Ceia é do Senhor, não da Igreja, portanto. Na concepção de Lucas, a exclusão da mesa pode ser um ato reprovável da Igreja… Jesus, no entanto, nunca excluiu qualquer discípulo de “sua” Ceia, nem mesmo o traidor: (cf. Lc 14,12-23: … e, “quando deres um banquete, convida preferencialmente os pobres, aleijados, coxos, os cegos. [...]. Tua recompensa virá na ressurreição dos justos”.

Finalmente as “orações”, momentos especiais de preces comunitárias, possivelmente nas mesmas horas em que os religiosos judeus costumavam fazer as suas: ao amanhecer, ao meio dia e à tarde. A Igreja era, então, como está retratada nesta leitura? A resposta evidente é “não”, pois a leitura nos apresenta acima de tudo um ideal que cada um deveria atingir; cada comunidade cristã, e a Igreja de Cristo, em geral. Duvidar de que a primeiríssima comunidade cristã tenha sido tão perfeita, como se descreve na leitura, é natural. Afirmar, porém, o estilo das comunidades cristãs alicerçadas somente na experiência da moral judaica, é uma temeridade teológica. Tiago, João e Paulo, estariam lidando com comunidades que reclamariam a mesma prática contra a ética cristã.Como se denunciava existir na igreja inicial, praticando agora equivalências e paralelos, membros das igrejas, locais e nacionais, pessoas inabilitadas para o batismo, a comunhão e o arrolamento eclesiástico, como seriam classificadas? Quem as apontaria, se convidados, na instrução do batismo, da comunhão, ou do desarrolamento? Quantos sobrariam, puros e santos, em nossas comunidades?

Evocaremos, celebrantes e comungantes, para todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a Eucaristia e arrolamento na membresia local ou nacional, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos das igrejas gentílicas? Mentirosos, caluniadores, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, travestis, gays, drag queens, transformistas, transexuais, efeminados, sodomitas, são diferentes dos blasfemos, bígamos, pedófilos, incestuosos, sexualmente imorais; de bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos trabalhistas, homens públicos, políticos, empresários corruptos e corruptores, fraudadores de licitações, sonegadores de impostos, ladrões, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas, bêbados do trânsito, injuriosos, quando sentados lado a lado nos bancos dos nossos templos? Por que privilegiamos o segundo grupo, e questionamos o primeiro? Mulheres continuariam inferiorizadas social e eticamente, nas igrejas, eventualmente imputadas isoladamente como adúlteras, prostitutas, “sacerdotisas” do paganismo, enquanto permanecem, sem qualquer estigma e sem punição, nesse sentido, homens que praticam as mesmas coisas nas mesmas comunidades? Por que condenamos mulheres e absolvemos os homens? Imaginamos ser capazes de separar tais irmãos com equanimidade no julgamento sobre a inclusão,  de pertença ou não-pertença à Igreja de Jesus Cristo?

19/03/2008

SEM RESSURREIÇÃO, NÃO DÁ MAIS PRA DISFARÇAR…

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De todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Isso implica também em decisão, por que até aqui ainda se podia adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. Não é mais possível flutuar na ambigüidade, é inevitável o desmoronamento do homem exterior (L.Boff). Mergulhadas no mais recôndito lugar, no interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia. Temores profundos vêm à superfície. Caem todas as máscaras que encobrem nossa autenticidade, a realidade sai da nebulosidade: nós somos o que somos, sem mais recursos; sem maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Somos mortais. Homens e mulheres mortais num mundo onde a morte quer reinar.  

Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na multiplicação da vida (…se o grão não morre, não produz frutos! – Jo 12,30-33 ), na incerteza traiçoeira que produz angústia e terror pela vida mortal, a compreensão judaico-cristã tornou a morte um castigo como conseqüência do pecado. E não erra no sentido. A destruição da vida identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira estabilidade social, que é autenticamente afirmativa de vida plena para todos. Reivindicando o direito à “vida” somente para alguns, na experiência do absurdo e do vazio, os pecados estruturais do todo se destacam, confirmando a definição profética e escriturística para o pecado da humanidade. Como falar de ressurreição, ou de vida para além da morte, em todos os sentidos, desde o indivíduo à sociedade? Certamente, destacando a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, inaugurador da nova humanidade e sua vitória sobre a morte, onde quer que ela se manifeste. Na cultura, na sociedade no indivíduo. 

Aqui falaremos também da intervenção de Deus  na história dos sofredores, vítimas dos pecados, seus e da sociedade opressora, dos crentes e da religião que se solidarizam na alienação, na eqüidistância das massas sofredoras, especialmente  neste mundo histórico e geograficamente situado abaixo da Linha do Equador: povos humilhados, vítimas de pecados estruturais e de tantas violências da parte de outros; etnias exterminadas, culturas apagadas por processos de aculturação (Paulo Freire); doentes, moribundos, acometidos de enfermidades que retornam continuamente, enquanto dizimam populações. Gente sem futuro, derrotada pela realidade econômico-social que esmaga e destrói a esperança, detonando os sonhos de bilhões de seres humanos oprimidos.  

A morte se insinua através de forças, jeitos de pensar que instilam a impotência, o  fatalismo, o destino inevitável, a submissão dos escravizados pelo mal, como se este fora  um decreto divino irrevogável e irreversível sobre o pecado. Para nós, Cristo morreu por nossos pecados. A ressurreição, porém, marca a presença da vida que se sobrepõe à morte e ao sofrimento; a ressurreição suplanta o derrotismo, o quietismo, o conformismo e o fatalismo, ditos como exigências divinas, determinismos religiosos. Karl Barth disse que a ressurreição de Cristo dentre os mortos, enquanto um processo de destruição da morte, também afirma a vida eterna (cf. João: vida eterna é a mesma “vida plena”).

A ressurreição é um fato que transforma tudo em vida nova abundante.  Restauração do ser inicial, salvação do perigo sempre presente de querermos ser imortais, como Deus; de nos impormos como deuses. Nós, diferentemente dos animais, recusamo-nos a aceitar o veredicto dos fatos. E acrescentamos algo a eles, sejam os jardins, as bandeiras, os poemas, as sinfonias, os altares, as utopias… Por que, se nada disso é retrato das coisas que estão aí? Por que, se nada disso é conhecimento? (Rubem Alves). É inútil dizer que os deuses morrem. Se morrerem, outros nascerão de dentro de nós. Nós os geraremos, porque a ambição idolátrica dos deuses humanos denunciam o que Barth já dissera sobre a construção desse mecanismo de projeção humana, criticando o teísmo cristológico, a adoração interesseira, que esta religiosidade é uma prática marcada pelo pecado humano. Num mundo em que a economia, a política e as prisões têm a última palavra. Na verdade, o prisma para se entender a ressurreição do Senhor deve ser outro: a utopia é também realidade objetiva no caminho da vida eterna e abundante. 

A ressurreição, desse modo, é  uma forma de crítica radical a um mundo de ausências que precisa ser transformado, de todas as maneiras. Ausências de reconciliação, de compaixão, de solidariedade, de fraternidade verdadeira. No Ressuscitado, Deus cria um novo mundo: “eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). A fé na ressurreição, por si mesma, é uma “ressurreição” do homem na força da vida (J.Moltmann). Os horizontes humanos se ampliam, a esperança de uma nova criação se instala com a fé na ressurreição. Deus se revela sobre a impotência, no esvaziamento de quaisquer forças sobrenaturais (kenosis), na cruz e no sofrimento solidário, especialmente. Deus assume a condição humana exemplarmente, por inteiro, no sofrimento até a morte. Mas ressuscitou. Em Cristo, homens e mulheres experimentam também a ressurreição. 

Aquele que é “totalmente outro”, Karl Barth disse também, esvazia-se de poder divino para ser “um como os outros”, os homens e as mulheres debaixo do sofrimento neste mundo (Fl 2,5-11).  A própria fé na ressurreição já é uma força que levanta e liberta de possíveis “ressuscitações hospitalares” no tempo provisório de todos nós. A libertação dos homens e das mulheres debaixo das opressões; libertação do sofrimento imposto pela injustiça; libertação dos humilhados nas desigualdades e na distribuição de privilégios, é exemplar na ressurreição do Senhor Jesus Cristo, que comemoraremos neste Domingo da Páscoa e da Ressurreição. 

10/03/2008

COMO ENTENDER A PAIXÃO SEM A CRUZ?

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Neste Domingo de Ramos abre-se a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. A morte do Messias de Deus nos lembrará um Jesus paradoxal, ao mesmo tempo em que a Igreja ainda não seduzida e cooptada, quase tende a absolver Pilatos, símbolo dos que “cumprem o dever político” à risca, isentando-se, em seu julgamento, da prática da verdadeira justiça. Assim, Pilatos entra no Credo como quem não toma partido, aparentemente, mas serve à justiça dos homens. O Messias de Israel morre a morte dos mártires da justiça e da paz, enquanto os crentes do povo oscilavam no reconhecimento do “Deus fraco”, que não promove a redenção de seu povo por meio de sinais portentosos, ou milagres libertários individuais, emocionais ou psicológicos. Jesus não ensinava sobre uma “vida santificada” ou apelava para um “reavivamento” espiritual das pessoas, para salvarem-se a si mesmas do mundo impiedoso. Morre de um jeito não previsto, até ignóbil, enquanto sua vida é trocada pelo livramento de um ladrão de estradas. Assusta a identificação de Barrabás com crentes em busca de livramento, de “avivamento”, hoje, às custas de um Cristo crucificado “pro me”, e na compreensão equivocada de que Jesus substitui-os na cruz, aplacando a ira de Deus por pecados individuais dos homens, e que o sofrimento do Cristo de Deus pelo mundo cessou! Que cruz, que Cristo e que mundo nos motiva? Alguém quer a cruz dos mártires, ou quer livrar-se dela? Deus não sofre mais, por nós, por causa das estruturas injustas e as opressões que nos fazem sofrer?


Jürgen Moltman escreve sobre o caminho messiânico da vida (na verdade um caminho de cruz…): “Teria Jesus ensinado uma nova ética? Existe uma ética cristã específica? Faz parte da fé em Cristo uma nova prática de vida? Pode-se, afinal, reconhecer Cristo sem o seguir? E a questão cristológica permanece sem solução, uma vez que a resposta religiosa agrada à maioria. Pronunciar o nome de Cristo torna-se uma banalidade recorrente, nos sermões e nas cátedras. Mas a teologia do sofrimento pelo martírio não se dá dessa maneira. O abandono de noções superiores para a solução de problemas sociais e políticos; não-envolvimento com questões de direitos humanos e cidadania, como parte da concepção religiosa sempre presente, denuncia o tipo de cristianismo preferível pelas multidões, sob manipulação constante. Um cristianismo anestesiado, sem dor, sem indignação, sem cruz, pragmático e sob oferta constante de resultados materiais, emocionais, imediatos. Nesse caso, a mensagem de Jesus, sob sofrimento e martírio na cruz, passa a ser indesejável, deve ser esquecida, pois o que se deseja é a satisfação e a felicidade pessoal. A multidão quer um milagreiro, um mágico, um prestidigitador, um médico de almas, um comportamentalista, um acomodador conformista, para a felicidade neste mundo. 


Interessante, “… ninguém segue a Cristo a não ser que o siga na vida”, disse Hans Denk.  Por que não está interessando mais aos neo-evangélicos essa proposta pietista original? O Messias, porém, é um personagem público, na Bíblia, volta-se para uma sociedade em sua totalidade, com seus problemas religiosos, políticos e econômicos indissociáveis. Não uma figura religiosa, um símbolo estático, como imagem mental representativa de um deus distante a quem se adoraria por dever de santificação. Negação do Deus de Israel, Deus de Jesus e dos apóstolos, que reclama justiça antes que sacrifícios cultuais, velas, incenso e adoração interesseira. A Torah messiânica no tempo messiânico vale para o povo todo.  E esse povo representa transformação para todos os povos da terra, no aplicar da justiça de Deus. 

 
É bom refletir um pouco… O exemplo clássico diz que Deus “consente” o sofrimento no mundo e não fala sobre sua origem. Os Escritos Sagrados, no entanto, no geral, dizem sobre as escolhas humanas. Somos nós, homens e mulheres, que “inventamos” e produzimos o mal e o sofrimento. Temos responsabilidades no cartório, no mínimo por conivência ou apatia. Pior ainda, se atribuímos a poderes terceiros, diabos, demônios, espíritos, forças do mal, escolhas que na verdade são nossas. Não nos redime. Não explicam nada da nossa realidade. Ao contrário, transferem nossa necessidade de decisão sobre o que nos oprime e faz sofrer. A superstição faz sofrer. 


A presença do sofrimento é uma constante, com o açoite na consciência que intensifica a dor moral: “É o pão que nunca falta à mesa… Onde estiver o homem, ali estará, como uma sombra, o sofrimento” (Larrafiaga). Mas, longe de aceitá-lo com naturalidade, entendemos que o sofrimento é inimigo, escândalo atentatório à condição humana, adversário do anseio de liberdade dos homens e das mulheres. Conseqüentemente, o sofrimento força o cristão a uma dupla tarefa: enfrentar sua crueza imediata e, além disso, se convertido em angustiante problema humano, racionalizá-lo em busca de explicação.
 Finalmente, o sofrimento exige decisão. Qualquer que seja o modo possível, é preciso buscar a superação de tudo que o representa. A inteligência da fé é chamada ao palco da tragédia humana com o crisol do Evangelho da Graça que ajuda a sanar as dores e sofrimentos humanos. Mais uma vez, a responsabilidade é nossa. Jesus Cristo, Deus Solidário, esvaziado de poderes sobrenaturais, identificando-se com a nossa luta, percorre conosco o caminho do sofrimento. Até que venha “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21): o Reino de Deus. A salvação do mundo sem sofrimento, sem cruz, não é uma mensagem evangélica. A fé cristã não é uma propaganda do “mercado da felicidade”, mas a denúncia dos significados dessa propaganda. 

03/03/2008

NEM VIDA ETERNA, NEM RESSURREIÇÃO…

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NEM VIDA ETERNA, NEM RESSURREIÇÃO…
[João 11,25-45 - Disse Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida]

A desumanização do ser-humano tem muitas faces. Entre elas, o ambiente frio e artificial das cidades modernas, as novas formas de apartheid social atormentam o mundo globalizado – sugere G.Brakemeier, luterano, brasileiro, bem conhecido. Entre esses tormentos, novas expressões de morte, (social, cultural, política, religiosa), se apresentam no cenário: a pessoa teleguiada (Tv), aliciada, cooptada, bigbrotherizada. E não se trata de pessoa convencida, persuadida por uma idéia alcançada pelo espírito humano em plena liberdade de pensar e de escolher. A morte da alma e do espírito é algo que podemos encontrar na reflexão do apóstolo Paulo na carta aos cristãos da Galáxia (uma carta dirigida a gente bem humana, e não do espaço interestelar, apesar do nome sugestivo), sobre a liberdade da fé: Foi para gozarmos desta liberdade que Cristo nos libertou; permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão (Gl 5,1).

Observadores estão apontando, inclusive, que os movimentos religiosos recentes, evangélicos, no Brasil, não têm uma mensagem sobre a Ressurreição. Ao mesmo tempo, nem se interessam pela Eternidade. Mais. Não se interessam pela Bíblia! Cultos inteiros são realizados sem que as Escrituras sejam mencionadas. Prestar atenção: somos tratados como malucos necessitados de uma camisa de força, porque “conservamos” o que recebemos para o bem da fé, enquanto nos querem impor uniformes ideológicos-religiosos pós-modernos: prosperidade, cura, vitória física e econômica como sinais da vida consagrada a Deus, sem esses valores teológicos. Por exemplo. Ou noutros termos, vitórias obtidas através de intermediários  e suborno religioso. Modernas indulgências.

Por que os novos evangélicos “não podem falar” da morte?  Porque esta seria a negação de sua teologia da prosperidade material, do corpo e da alma, quando a essência dessa pregação está na cura da enfermidade, porém individualmente, mas não do mal que é pobreza social. Esse tema precisa ser evitado. O tripé cura, exorcismo, prosperidade, cairia se houvesse qualquer cuidado sobre aspectos da doença e da morte de todos nós (Thiago Mello: “Minha morte me pertence…”). O crente evangélico neopentecostal não pode ter um corpo que adoece; um corpo que seja vulnerável às doenças endêmicas, ou às doenças genéticas, ou contraídas por contaminação, ou pela exposição a fatores comuns nos nossos dias, notadamente na vida urbana (drogadismo, alcoolismo, sexaholismo, por exemplo), caso contrário nega a fé materialista evangélica recente. Há grande aceitação, dessa materialidade e desse imediatismo, mesmo nas igrejas protestantes históricas, hoje em dia.

Paulo Ayres, bispo metodista, estuda também a teologia sacrificial do dinheiro no altar. Dinheiro para Deus, sacrifício no altar (?!)… O jeito encontrado para provocar Deus a intervir no tempo e no espaço físico do crente. Algo que adapta o conceito de santificação do pietismo tradicional, que procurava resolver esse tipo de problema através da “vida consagrada”, para confirmar-se a salvação. Tema também inevitável, porque ser “pobre” é ser fracassado. Derrotado. Não-salvo. Além disso, o pobre não contribui, e se não contribui não serve pra nada. Pragmatismo neo-evangélico! Em síntese, esse crente “não pode adoecer ou morrer”, a não ser que alguma coisa esteja faltando, porque não foi exorcizado, ou porque não fez a sua parte no “pacto da prosperidade”. Não foi salvo! Uma falha no sistema, porque o deus desses crentes é o “Deus da vitória!”. Logo, não precisa pensar em ressurreição. Impressiona a ausência de cerimônias fúnebres para os crentes ou seus familiares, nessas igrejas, os quais são sepultados sem a presença de um ministro religioso para conforto dos que ficam, dando-lhes segurança quanto às promessas bíblicas sobre a eternidade da vida, e a ressurreição dos mortos – que, seguramente, são as principais doutrinas cristãs desde os tempos apostólicos (Jo 11,25-26).

É inconcebível a presença dos “demônios” da doença e da morte, nesse meio (Leonildo Campos, palestra no Congresso de Missões, Conic, novembro de 2007).O evangelho da ressurreição de Lázaro que lemos hoje, compromete-se  com a vida ultrajada, com os inocentes martirizados, com os pobres do mundo, desprezados, humilhados, principalmente na velhice, escorraçados, abandonados à miséria, desassistidos até a morte. (Enquanto este autor redigia seu comentário, a televisão anunciava o aposentado que morria durante a madrugada numa fila do INSS). Eles são a imagem não só do pobre Lázaro, mas de Jesus morto na cruz, na espera que o Pai o desperte e o chame para a vida eterna, ou vida abundante, que é a mesma coisa em João!

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