Derval Dasilio – Escritos&Artigos

28/02/2008

ENCURRALADOS NO TEMPO FINITO

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No 4o.Domingo da Quaresma, o profeta Samuel é o mediador da escolha divina de Davi, cujo sinal visível nos é familiar: a unção com o óleo derramado sobre a cabeça, unção que consagra a pessoa para um ministério ou vocação especiais. O curioso da leitura é que nos revela algo do olhar de Deus: Ele não se fixa nas aparências, diz o texto, como nós. Deus vê o fundo da alma e até as profundezas do coração. Conhece as intenções mais secretas, os sinais externos de grandeza não o enganam, nem os aspectos físicos, beleza ou feiúra, saúde ou enfermidade, normalidade ou deficiência. Máscaras aparentes e cotidianas com as quais nos apresentamos. Neste caso Deus não escolhe o mais velho dos filhos de Jessé, nem a nenhum outro dos sete irmãos. Deus se fixa no menor, no mais jovem, que nem sequer fora chamado à reunião e estava cuidando das ovelhas. Sendo tão jovem, tão pequeno e frágil, não seria escolhido por Deus, pensavam.  Mas Deus escolhe por puro amor, sem mérito algum de nossa parte, sem que importem aparência ou qualidades de quaisquer tipos. Conhecendo nossas enfermidades, deficiências, fraquezas, limitações, Deus se dignou chamar-nos à sua graça e seu amor.

O salmo, harmonizado com o primeiro texto (Sm 16,1b.6-7.10,13a /Sl 23), nos ajudará a compreender nossas contradições. Somos ao mesmo tempo o velho e o novo Adão. Sempre comparecemos na vida como sapiens e demens, sábios e dementes, orientados e desorientados, inevitavelmente. Confiantes e desesperados, inclusive, tantas vezes. Poucas vezes somos generosos, compassivos, ternos e cuidadosos com o outro e a outra. Na maior parte do nosso tempo, somos seres egoístas que se justificam com direito de disputar seu espaço a qualquer custo, uma questão de direito à sobrevivência.  É assim que estamos diante de Deus, vivendo em altos e baixos.  Abismos e picos agudos, como se hoje chama o lugar onde nasci (Pontões). São a nossa geografia espiritual. Tudo isso está em nós. Por isso devemos enfatizar a importância da oração que brota das essências profundas do nosso ser. Pela oração choramos, lamentamos, expomos os tormentos que nos tomam, gritamos por socorro desde o interior da alma, mas também agradecemos, reverenciamos e nos entregamos por inteiro ao mistério que nos socorre.  Até porque não nos restaria outra coisa a fazer.

Na oração todos os homens e mulheres se encontram, sejam de que religiões forem. Diante de Deus estamos cara a cara com o mistério, algo que ninguém tem capacidade de expressar.  E aí somos iguais, e procuramos um caminho libertador. Porque a oração ilumina nossos dramas, e demarca o sentido que precisamos dar às nossas vidas. Não há maior liberdade, mesmo quando devorados por ansiedades e queimados pelo fogo da reflexão sempre dolorosa sobre a condição humana. Todo o tempo de nossa existência é um trilhar peregrino, o percorrer de um caminho sob pressões, tempestades, obstáculos, riscos, perigos de morte. Dramas existenciais. Há barreiras para serem ultrapassadas, horizontes a serem alcançados, porque, como Leonardo Boff diria, somos “um projeto de infinito encurralados no finito”. O salmo diz, inclusive: “O Senhor sabe que somos feitos do pó” (Sl 103,12-14).

Mas, custa-nos aceitar as extremidades. Por exemplo, a morte, as limitações do tempo e do espaço. Mas a oração é quem facilita o vôo do espírito que permite tornar suportável os limites, os extremos, as contradições, ambigüidades, polaridades, determinismos, que nos submetem e condicionam no mundo finito. A oração nos posiciona num mirante, nas alturas, bem acima dos muros existenciais concretos. Podemos falar com o Autor da vida, orando. Dessa elevação podemos contemplar os abismos, enquanto podemos alcançar os mais distantes pontos nos nossos horizontes. Pela oração, sabemos que tudo é possível ao que crê; que um mundo novo é possível, transcendendo nossas realidades.

11/02/2008

NOSSOS ÍDOLOS AINDA SÃO OS MESMOS…

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Karl Barth, presente permanentemente na teologia, através de seu comentário sobre a Carta aos Romanos, diria que: “é preciso crer, sim. É correto que ninguém conseguirá ouvir ou ver, ou falar teologicamente a não ser como pessoa libertada para a fé”. Suas considerações o levariam a dizer, ainda, que a fé é uma história – uma história nova a cada dia. Não é um estado ou qualidade, em alguém. De maneira nenhuma pode ser considerada ou confundida como “religiosidade”, fé religiosa. Crer não é “credere quod” (crer que…), mas, conforme afirmação inequívoca do Credo dos Apóstolos, “credere in” (crer em…). A saber: em Deus mesmo, no Deus do Evangelho, que é Pai, é Filho e Espírito Santo. Quem crê nesse Deus dificilmente poderá esquivar-se da percepção de que a cada dia é-nos oferecido um evento novo, clamando pela intervenção de quem tem fé! É preciso crer, sim. 
 
O motor da vida é a esperança de um mundo transformado, a utopia, o futuro que desejamos. Tudo depende de nossa visão, do sonho. Se nossa vista capta somente o que é imediato e rasteiro ao nosso redor, ou se não é capaz de penetrar na realidade da promessa divina e descobrir que ali há algo de profundo e elevado, (esperança!), não entendemos nada da Bíblia. Abraão é a figura que melhor expressa a fé, no Primeiro Testamento, como em Hebreus 11, no Segundo. Deixar tudo, romper com tudo e ir em busca da “terra que eu (ainda) te mostrarei”, sem segurança, sem saber o que lhe seria reservado, só confiando na Palavra de Deus, é o que estabelece a relação que podemos retirar da leitura sobre a fé e o novo nascimento, no Evangelho. Como símbolo “de um novo começo”, para tornar a fé mais significativa em nossa vida hoje, o texto nos remete ao “pai dos que têm fé”. No sentido de ver realidades transformadas. As três religiões “abraâmicas”, judaísmo, cristianismo e islamismo nos remetem também ao “pai dos crentes”, Abraão. É preciso mostrar essa relação como religiões irmãs que dialogam, colaboram entre si e se amam, no sentido da transformação do  mundo num projeto de paz (Gn 12,1-4 a). Falta diálogo com as religiões? Não menos que no interior do próprio cristianismo.
 
Vejamos a arte de Belchior (adaptação):
 
Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi (ouvindo os mesmos discos).
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo que aconteceu comigo:
(…) Pois “vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação”,
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração.
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida…
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais.
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos,
E as aparências não enganam não”.
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém.
Você pode até dizer que eu estou por fora, 
Ou então que eu estou inventando.
É você que ama o passado, e que não vê que o novo sempre vem.
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de
Uma nova consciência e juventude, está em casa guardado por “deus”,
Contando vil metal. Minha dor é perceber que
Apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos,
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

 
O diálogo com Nicodemos altera a lógica comum do evangelho joanino: diálogo e testemunho. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão: a fé que procura milagres, que exige sinais. Mas Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o que nos passa o catecismo! Nascer de novo. Começar como um nasciturno, abraçar uma natureza nova (natus, nascido procede de natura). O tema se desloca para “razão” e “fé”.  Nicodemos quer conversar logicamente, no uso da razão, do argumento e da prova, está em pauta a gnosis, o conhecimento humano. A salvação pelo conhecimento. Não é possível, diria Jesus. É preciso desmontar a doutrina vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira.  Para compreender o Deus desafiador, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, enquanto “acha” que pode definir o princípio e o fim da história humana, é preciso rasgar os projetos, chutar as latas de lixo doutrinário, e debruçar-se de novo sobre a prancheta, e ouvir sobre um futuro libertador. O Deus de Jesus está sempre fora do lugar que queremos (u-topos). Ele habita nos sonhos de liberdade e convive com os que imaginam ser possível um mundo novo:“vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação…” (Belchior).

2o.DOMINGO DA QUARESMAa1quaresma-1-jpg.jpg

Um texto exegético:

João 3,1-17 – Estamos discutindo sobre os graus de intensidade e estabilidade da fé. Uma fé incipiente pode ser dominada pela necessidade de sinais, milagres. Nos aspectos externos, pode parecer que estes apresentam segurança. Mas a questão permanece: se faltam sinais e milagres, o que sobrará dessa fé? Superficialmente, a autenticidade irrompe na discussão. Internamente, o eixo se desloca para a insegurança e a deficiência destes, uma vez que falta o essencial, que é a confiança interior plena (pisteuo). “Deus não vê como os homens, que vêem a aparência. O Senhor vê o coração”, isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (Pr 15,11; 1Sam 16,7; Sl 139,1-4).

Nicodemos não parece um hebreu nato, e sim um gentílico afeito às categorias do pensamento dos antigos gregos. João retruca como um bom hebreu: Jesus discorre sobre as questões que se referem à origem da vida, o que há de mais fundamental pertencente ao homem, o ser-humano. Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”. Importa não paramos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente conheceremos nosso fim e quem somos realmente (Pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó – Sl 103,14).

Portanto, é “necessário nascer de novo!”, é preciso tomar uma nova consciência. Paulo dirá de outra maneira, do mundo principial: “O mundo tal qual vocês o vêem está em via de desaparecer… ”. Aqui está, praticamente uma discussão rabínica: “bereshit” e “en arché”, no princípio! Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)? A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, coloca-nos em uma situação peculiar diante da vida. Fraternidade, solidariedade, cuidado, substituem o individualismo, a desconfiança em relação aos outros, a indiferença, o desprezo ou o abandono do outro e da outra. A ignorância do próximo e do distante.

Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Tão comum em tantas culturas: a água. E o seio materno é fonte de vida, água batismal. Porém, água fecundada pelo Espírito, nos escritos bíblicos. A figura do ventre materno, também comum noutras culturas, na tradição bíblica evocará a feminilidade criadora da mulher (no Gênesis, o Espírito é “ruah”, que no hebraico é uma palavra feminina; o ventre criador de Deus tem atributos femininos e maternais…). Também a mulher que gera é como um poço ou manancial (Pr 5,15 e 18; Cantares 4,12 e 15). A função do Espírito (ruah) é essencial, justifica o paralelismo água/espírito/fertilidade. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principial” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora. Quem nasce desse Espírito/vento novo, experimenta o que Edu Lobo ensina na canção: “… o vento vira e, do vendaval, /Surge o vento bravo… / Como um sangue novo, / Como um grito no ar / Correnteza de rio / Que não vai se acalmar…/ Não vai se acalmar!” .

Romanos 4,1-5;13-17 – As igrejas domésticas de Roma eram consideravelmente diferentes entre si, mesmo vivendo sob a mesma cultura imperialista. Do ponto de vista étnico, evidentemente. Roma é uma cidade cosmopolita, mas pluralista culturalmente. E Paulo não ignorava isso. Não fora o fundador dessas comunidades, porém estava bem informado, apesar de não ter estado lá anteriormente. Há um elo: a fé em Jesus Cristo. E, aqui, ele introduz um tema controverso, já existente na discussão da comunidade ainda influenciada pelo judaísmo formativo, berço religioso dos apóstolos. Mas é sobre a história dessa fé transformada que Paulo discorre. Quem se interessaria, entre gentílicos e pagãos, em conhecer as origens dessa nova fé? Paulo considera que todos, de origem judia ou gentílica, deveriam saber desses fundamentos: Abraão configura tipologicamente o homem que tem fé. Deus chamou-o, convidou-o a entregar-se a uma utopia, uma fé no novo, enquanto afirmava, com uma promessa, uma terra, uma descendência, uma nação originária que seria “seu” povo. Sem distinção racial ou nacional, entre os povos: Esperando contra toda esperança, Abraão confiou na promessa e tornou-se pai de muitas nações, conforme foi dito a ele: ‘Assim será a sua descendência’. Ele não fraquejou na fé, embora estivesse vendo o corpo declinar – ele tinha quase cem anos – e o ventre de Sara tivesse fenecido” (Gn 18-19).

06/02/2008

QUARESMA: TEMPO DE TIRAR AS MÁSCARAS

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a1quaresma-1-jpg.jpgQUARESMA: TEMPO DE TIRAR AS MÁSCARAS

O Brasil é um país tropical, como diz Jorge Ben Jor: “abençoado por Deus, e bonito por natureza.  Mas que beleza…!”. Passou o Carnaval. De fato, somos brasileiros, e com tudo que há de diferente entre nós, comemos feijoada, muqueca capixaba,   pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… e “dançamos”, literalmente dançamos o ano inteiro. No resto do ano tem forró, rock, funk, gospel, e somos católicos, protestantes, evangélicos, graças a “deus”. Continuamos dançando. Um paraíso! Mas só para os que acreditam nisso. No entanto, não despregamos o olho das divindades que comandam esse modo de agir culturamente, aquelas que vagam em outros domínios espirituais e dirigem os sistemas de pensar.

Enquanto alugamos nossas mentes para a religiosidade que vê os males do mundo como castigo divino; que vê com naturalidade a legitimação e consolidação do poder dos fortes, das desigualdades, das fraquezas dos empobrecidos, não entenderemos a religião como expressão de sofrimento real; que a religião pode ser protesto contra as dores impostas por sistemas de pensar conformados com as opressões. A religião  poderia ser o suspiro das criaturas oprimidas, inclusive nas manifestações populares. Mas, também, pode refletir um modo de tornar as pessoas submissas aos modos de pensar, como se vê, também, no Carnaval.  Como diz Chico  Buarque, somos um povo de “mascarados… amanhã tudo volta ao normal; deixa o barco correr, pois é Carnaval”.

Se admitirmos a religião como parte do coração de um mundo sem coração, espírito onde não mais se admite espiritualidade e transcendência,  estaremos endossando o pensamento que coloca a religião como uma ilusão (Sigmund Freud), ou como o ópio do povo (Karl Marx). Não é essa a religião dos profetas, na história do povo bíblico, certamente. Todos os argumentos contra isso serão mistérios sob desígnios insondáveis, e toda a miséria, opressão, injustiças, serão o corolário da virtude de uma “paciência evangélica”, na espera da salvação das almas, porque o corpo… ah, o corpo, já era! E os poderosos continuarão a usar as mesmas palavras para oprimir o corpo: … “o sofrimento sempre existiu; a guerra e a rapina, a destruição da natureza, são justificadas…”. Não se sabe o por quê, mas compreende-se porque “salvam” os interesses dos  quais a religião abre mão, se bem que nem tanto, e nem todas as vezes. O vil metal, interesses comuns em todas as línguas e em todas as culturas, comandam as festas dos ricos e dos pobres.  Mas contamina também o novo cenário religioso, onde anjos servem à lógica do mercado.

Além disto, fica claro que os textos propostos na liturgia estão sempre à disposição para uso livre. São como uma poesia ou uma imagem simbólica: cada comunidade é livre de abordá-los a partir do ponto de vista que preferir, e é quase impossível que dois cristãos, dois biblistas, ou professores da escola dominical, encontrem a mesma ressonância diante de um mesmo texto. Cada um terá orientações e sugestões de ação diferentes. Com isso não quero dizer que nossos pregadores e liturgistas se transformem em animadores de auditório, para obterem reverência a si mesmos. “Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1Co 14,15).

Nossa tarefa, enquanto responsáveis pela continuidade da tradição litúrgica da Igreja, se estende aos tempos atuais? Nesse caso, torna-se necessário manter as orientações que nos vêm desde o princípio da Igreja, histórica e teologicamente. Uma idéia importante sobre o Culto Cristão é que o Espírito Santo permanece agindo no tempo litúrgico. É ele que nos faz reconhecer a presença de Deus na comunhão dos fiéis. Qualquer coisa que contrarie a isso, de fato, nos desviará do ensino bíblico sobre o culto. O culto é o testemunho vivo da fé da Igreja de Jesus Cristo, pela presença do Espírito Santo.

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