Derval Dasilio – Escritos&Artigos

30/01/2008

O CARNAVAL E A FELICIDADE

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Domingo anterior à Quaresma

Um livro que ofertei à minha esposa, escrevi estas palavras, de Jean-Yves Leloup, sobre as bem-aventuranças: “Nunca oramos somente pelo nosso bem-estar, mas pelo bem-estar de todos. Porque cada um de nós é esse pedaço de universo unido ao todo, que somos nós e o resto do mundo. Se existe um pouco de paz (bem-aventurança) em nós, haverá um pouco de paz no mundo, enquanto oramos”. Existe dentro de nós, creio, um desejo de transcendência, de infinito, que só o Infinito pode preencher. Enfim, pedimos que a entrega de Jesus Cristo ao martírio pela Causa de Deus não seja em vão. Que a eficácia dessa ética libertária insufle forças de infinita grandeza que nos permitam essa espiritualidade, uma vida de “união moral” com Cristo.

O Evangelho alerta para as escolhas, as “eleições” que os seguidores de Jesus devem fazer no caminho do Cristo messiânico. O texto é antecedido pelas perícopes vocacionais, chamados ao seguimento. Porque as bem-aventuranças de Jesus se inspiram nas situações desumanas em que vivem muitos filhos de Deus. As bem-aventuranças de Jesus alcançam justamente os “sub-aventurados” deste mundo: sub-humanos, sub-desenvolvidos, sub-nutridos, sub-tanta-coisa que mal dá para enumerar algumas. Somos convidados a observar situações reais que exigem solidariedade, além da compaixão e da misericórdia, que nunca devem ser desprezadas. Deus está vivo na pergunta dos discípulos: – “Quando te vimos?”. A resposta que envolve compaixão e misericórdia, cuidado, nos remeteria à resposta de Jesus: – “quando me destes de comer; quando eu tinha frio e me vestistes; quando me visitaste na prisão” (Mt 25,31-40).

Pede-se o possível, na pobreza espiritual de todos nós. Nossa ignorância sobre o essencial. Bem-aventuranças que se traduzem em segurança, reconhecimento, afirmação de dignidade, direitos sociais e jurídicos, cidadania exercitada e respeitada; dimensões éticas apontadas para a autêntica vida de fé; e principalmente o reconhecimento da dignidade do nome “cristão”. O cristão crente seguro é um ser-humano sem ganância, sem ambições materiais, não se ajoelha diante dos ídolos modernos do consumismo religioso das igrejas de mercado? É um modelo de anjo resgatado do inferno da indigência ética e social na qual nos encontramos? É um atormentado que se sinta abandonado, diante da realidade da perversidade, da infidelidade dos próprios irmãos?

Na verdade, biblicamente, ser bem-aventurado é reconhecer que todos têm o direito de ser felizes. Haja o que houver. Ser feliz é ter Paz, como a Bíblia ensina: Shalom, (no hebraico quer dizer “inteireza”; viver em paz é estar inteiro, direitos e bem-estar garantidos) aponta para essas plenitudes. Não há um lugar no mundo que não possa ser alcançado pela paz e pelas bem-aventuranças proféticas (cf.Miquéias, Sofonias, Jesus). Se há este lugar, ali reina a confiança, a solidariedade, o cuidado, a compaixão, o cuidado e a misericórdia. É preciso trazer a teologia do Antigo Testamento de volta. Sacrificar a ortodoxia, conhecimento doutrinal, em favor da mensagem bíblica: a Graça (que é “hesed”, mas é também “xáris”) está na natureza produtiva, e também em sua beleza; está no corpo, envolve o corpo inteiro, onde as alegrias do bem-estar são saboreadas, vividas em plenitude.

Porém, a tradição cristã posterior à fé bíblica corromperia o sentido da Graça (xáris), em grande parte. As pinturas sacras trariam “santos” com auréolas distintivas rodeando a cabeça. Auréolas de luz para alguns bem-aventurados. A Graça não está mais no corpo, na natureza, mais parece um resultado da “gnosis”, do conhecimento, do exercício da razão. A Graça, aí, não está no interior do ser-humano, nem na criação. Está na cabeça, passa a ser exterior ao crente; paira acima da cabeça (coroando a razão e a espiritualidade abstratas, contemplativas, com um halo luminoso). A Graça, que deveria ser bem-aventurança para o corpo inteiro, torna-se estranha às realidades interiores profundas, do homem e da mulher, da sociedade, exigindo transformações, no mundo, em todos os elementos e lugares onde se encontra o ser-humano, corpo e alma. Conforme o Primeiro Testamento, “nephesh” é o ser inteiro. Corpo e alma. Shalom é inteireza a que o ser inteiro, corpo e alma, tem direito. Aqui está a questão da dignidade humana, na Bíblia. A alma do mundo, da criação, também pertence a Deus. Aí também se reclama por dignidade? Sim, “mas, simplesmente, as rosas não falam…” (Cartola). Que mais se deveria acrescentar?

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“A FELICIDADE DO POBRE PARECE A GRANDE ILUSÃO DO CARNAVAL”
(Vinícius de Morais)
Mateus 5,1-12 – Bem-aventurados os que não pedem muito, a não ser a Paz

02/01/2008

EPIFANIA SEM LOUVAÇÃO INTERESSEIRA

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(Mateus, 9:13; 12:7; Oséias (6:6),
Era motivado, o Culto Cristão, no 1o. século, pela reunião eucarística, a comunhão da Ceia do Senhor. Todos os domingos! E era só isso, ao que tudo indica. A páscoa cristã, como tempo litúrgico, a partir do 2o. século, tem tudo a ver com o calendário judaico, se bem que muitos gostariam de esquecer esse fato, incluindo o abandono do AT histórico-profético (falando-se de liturgia, e não da moralidade farisaica, que dá ibope nas igrejas, e tem voto favorável de muitos cristãos, hoje, apesar da luta de Jesus e dos apóstolos, porque recusaram a “reta doutrina” do judaísmo formativo; para esses, parece que Jesus e os apóstolos não foram “bons cristãos”, desse ponto de vista).

Apesar disso, a festa da Epifania é a grande convocação que Deus faz a fim de que todas as nações e raças encontrem forças para tornar humano e fraterno o nosso mundo. Essa é, enfim, a expectativa de Deus que transparece em toda a Bíblia. Mas é em Jesus que ela toma corpo e forma, aparecendo como proposta oferecida a todos. Contudo, a ganância e o desejo de poder – presentes no herodes do tempo de Jesus e nos herodes de todos os tempos – tentam sufocar essa esperança. Porém, os homens de boa vontade têm uma “estrela”, não cessam de “sonhar” um caminho alternativo, o Evangelho real não espiritualizado e moralista que não passa pelas vias dos religiosos pietistas ou puritanos; não nasce da massa comandada nos mega-templos sob a batuta dos pastores empresários que tomaram a igreja evangélica. Emerge, certamente, do menino-pastor nascido numa estrebaria infecta, que equivale, hoje, à criança que só por milagre não foi jogada na lagoa da Pampulha, nem num rio-esgoto de Sta.Luzia, periferia de Belo Horizonte.

Essa caminhada é cheia de dificuldades, mas é Deus quem a ilumina, gerando forças e vida nova.O complexo calendário litúrgico às vezes nos prega peças. Vamos falar de infidelidades? Duas considerações: Começamos com o Advento (todos sabemos que o Natal, originalmente, era uma festa pagã adaptada ao Cristianismo!), quatro domingos antes do Natal. Mas o tempo litúrgico, lá pelos 4o. e 5o. séculos, na Gália, por exemplo, que não comemorava o Natal, observava o Advento comemorado durante 40 dias, e não 4 semanas, como praticamos agora, sem referências ao dito Natal, instituído 2 ou 3 séculos após a natalidade do Senhor. Historicamente, a primeira “festa” litúrgica instituída foi o domingo pascal, kyriake’emera, Dia do Senhor. O domingo constantiniano, instituído talvez em 324, pode ter sido a “sabatização” do domingo. Agora, o Dia do Descanso, para os cristãos de poucas décadas atrás, deixou de ser, na “era do lazer”, um dia de culto. Neste tempo, torna-se o dia do Louvor. Em muitas igrejas, os “louvoristas” fazem a sua parte, cantam, deixam o culto, e vão cantar noutro lugar. Quem sabe nos bares gospel abertos por evangélicos nos lugares de diversão noturna, a pretexto de levar um “evangelho evangélico” à vida noturna da cidade. Por sinal, o “culto diversão” ganha espaço com rapidez.

A cultura gospel apresenta-se com uma teologia e espiritualidade egocêntrica, individualista (os animadores incansáveis dirigem-se sempre “ao meu Deus”); afirma-se guerra e vitória certa, que descarta a possibilidade do sofrimento com causa; de fracasso, que parte da cruz de cada dia que integra a caminhada cristã (no entanto, louvoristas são liberados para usar piercing, tatuagens, scar, enquanto são impedidos de ostentar a cruz de Cristo… ); uma teologia centrada no sucesso pessoal do crente, em formas abstratas exibidas ostensivamente; troca-se a fé bíblica no Deus que sofre e convida ao sofrimento com causa (cada um tome a sua cruz e siga-me…), aparentemente “derrotado” pelos poderes do Mal. Não há interesse pela ressurreição (notadamente nas propostas para as ressurreições paulinas: acabar com o homem velho e adotar, em Cristo, a vida no Primogênito da nova criação…), trocada pelo “exemplo da prosperidade”, saúde emocional e física, curas espirituais, e principalmente do sucesso financeiro ou profissional; troca-se, também, o ‘kyrie eleison’ (Senhor, tem piedade de nós!…) por expressões como: “eu posso, eu alcanço vitória com o “Deus da vitória”, por “meus” méritos, por “minha” vida consagrada e “meu” esforço de santidade. Idéia contrária às teses da Reforma Protestante, sobre a Graça e Justificação pela fé, no Cristo de Deus tão somente.

Adota-se uma teologia que acentua a arrogância espiritual, que cobra favores do Alto em troca de “vida consagrada” e “santidade interesseira”. Incompreensivelmente, porém, diante do exemplo de humildade do Senhor louvado e adorado em “espírito e em verdade” no culto cristão verdadeiro. O anedotário sobre pastores e louvoristas que “ordenam Deus a fazer e a abençoar”, etc., através do louvor e da adoração desta era evangelical, vai se tornando volumoso. Os jovens dirigem o Louvor imitando-os…É um culto onde há desprezo à comunidade e à coletividade (através de aparelhos de som possantes, microfones nas mãos dos dirigentes que “comandam” o louvor como a um espetáculo televisionado, anjos com câmeras digitais de última geração, o povo orientado no datashow (que faz o papel do teleprompt). E nem precisava, pois a gente humilde das igrejas faz isso há séculos. Com o orgulho quebrado pelos pastores autoritários (“que ordenam bênçãos ao seu deus: – agora vocês baixem a cabeça, e orem!…”), o povo, passivamente, faz o papel da “claque”.

Afirmando-se o individualismo oprimido que adotam os adeptos do culto gospel, ignora-se a gente da comunidade humilhada, normalmente trabalhando com dificuldades de toda ordem;os irmãos empobrecidos, doentes, desempregados, deficientes, idosos desassistidos, murchos, talvez “porque não alcançam vitória pelo louvor…”, porque incapacitada de apresentar os sinais de prosperidade anunciados desde os púlpitos de acrílico copiados da Tv, como ter uma “vida consagrada”, se os crentes pobres não têm como ofertar e comprar as bênçãos? Mesmo quando classificadas como graça barata, que o culto gospel proclama com alarde e volume alto nas caixas sua mensagem de prosperidade. Enquanto isso o povo permanece frustrado… quer cantar e cantam por ele… quer orar, e os louvoristas fazem sua vez. E sobe a temperatura emocional, no templo… não há lugar para a leitura bíblica ou a pregação edificante. Os louvoristas têm a “palavra”, repetida insistentemente, como se fosse a Palavra de Deus, substitutiva, devidamente ensaiada para o momento. E quando termina a louvação os crentes voltam para a dura realidade e as frustrações do dia-a-dia. Mas domingo que vem tem mais. Aleluia!

Em sua teologia egocêntrica, emocional, intimista, falta a ênfase na evangelização cheia, integral, destinada a todos, ação na sociedade, de denúncia, efetividade ética, compromisso cristão na exigência de políticas públicas, de cidadania, dignidade social para todos, enquanto omite-se o Evangelho bíblico da Graça, da misericórdia divina, ‘xáris’ e ‘hesed’, a compaixão de Deus que alcança o homem e a mulher vitimados por desigualdades e opressões espirituais e materiais, pressionados pelos sistemas de pensar alienantes em relação à realidade humana, constantes num mundo impiedoso e sem fé no reinado de Deus. Por desconsiderar as necessidades dos pobres e oprimidos, que se confrontam com poderes injustos, desigualdades sociais; por adotar a ganância ensinada desde a sociedade civil e agora enfatizada nas “igrejas com propósito”. Mas não se pergunta pra que tanto dinheiro e ofertas especiais solicitadas: que propósito, além de arrecadar fundos financeiros, senão para alguém se dar bem? Para quê se precisa tanto, senão para locupletar pastores exibicionistas que moram em condomínios caros, andam em carros de luxo importados, acompanhados por “ministros de segurança” desde os aeroportos com jatinhos particulares, ou fretados? Por quê os executivos do mercado religioso atual têm que ser modelos para os nossos jovens seminaristas ou jovens ministros? Estes executivos religiosos que, quando pegos pelas polícias alfandegárias e presos, passam a “mártires da igreja” milionária. Se é assim, precisaremos ensinar aos mesmos como contrabandear divisas, lesar o fisco, e cortar as páginas de suas Bíblias para transportar dólares contrabandeados.

É egocêntrica, a adoração interesseira que prepara a coleta (arrecadação!), porque trata com indiferença a teologia profética contida no Antigo e no Novo Testamentos (preferem uma interpretação literal da Bíblia, em citações sem contexto, convenientemente ao que pretendem…), esquecida nas aclamações de louvor sem causa, e no conteúdo das mensagens dos animadores e avivados do popularíssimo culto gospel (papel dos chamados novos “levitas”). É uma teologia sem cuidado sobre a vida cristã, por ignorar deliberadamente a essência do ministério de Jesus baseada na misericórdia, no despojamento, na disposição para a vida de cruz, enfrentando o sofrimento com causa ensinado no Evangelho; na gratuidade divina. É uma teologia sobre as possibilidades “salvadoras” da “vida de santidade” intimista, sem compromisso social; “vida consagrada” em “ministrações” de louvor abstrato, distanciado das realidades que a salvação pode e deve atingir. Não há lugar para Deus nesse culto, se Ele for o Deus humilde, despojado, esvaziado de poder, dos evangelhos. A palavra-chave é “Deus da vitória”. Além do mais, o culto cristão verdadeiro é um perigo para esses adoradores: o Espírito poderia aparecer e inspirar os crentes a um verdadeiro encontro com Deus… Então, poderiam ouvir Mateus, nosso evangelista, citando o profeta: “misericórdia quero e não sacrifício” [xáris, no NT; hesed no AT]. (Mateus, 9:13; 12:7; Oséias (6:6), enquanto criticava o culto propositista e interesseiro que ameaçava a espiritualidade da comunidade mateusina.

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