Derval Dasilio – Escritos&Artigos

O autor e suas reflexões

Salmo 146, 5-10 – Deus faz justiça aos oprimidos

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Este salmo é uma das leituras introdutórias do Advento. Prepara a vinda do Senhor. Os contatos deste salmo com a vida de Jesus são inúmeros. Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as conseqüências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra (mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças), que comerão até fartar-se; “prisioneiros” libertados (há guerras e prisioneiros políticos em todos os quadrantes, por motivo de consciência ou de religião reprimida); inocentes seqüestrados; cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder. Os encurvados a estas realidades curados. Evoca o carinho pelos estrangeiros, exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da nossa caminhada e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lucas 6,20ss; Mateus 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles, e nos religiosos que os imitavam em hipocrisia; mesmo quando proferia palavrões dirigidos a estes, intraduzíveis, em aramaico. O rosto do Deus de Israel (Yahweh) é a cara de Jesus. Faz lembrar Mateus 25 (Quando te vimos?, perguntavam; e Jesus respondia: quando tive fome… quando estava nu e com frio… quando estava preso por motivo de consciência da injustiça… ). Em tudo e sempre, neste salmo, Deus é aliado dos justos, está contra os injustos, é fiel. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Yahweh, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às suas imposições.

Parece ter sido escrito hoje! O autor do salmo poderia ser um dos que perseguem os sinais de esperança andando por nossas, ruas, subindo os morros, convivendo com traficantes, no meio do tiroteio e das balas perdidas, caminhando com os habitantes dos lugares de toda pobreza e miséria: A porta do barraco era sem trinco,/ mas a lua furando o nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão… (Chão de Estrelas, Orestes Barbosa e Sílvio Caldas). Não tem mais zinco, mas os telhados são furados por balas perdidas… A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem (Pablo Neruda). Lembra poetas modernos como Garcia Lorca: “Não sou inimigo de ninguém”, enquanto afirmava seu amor à verdade.

Difícil é imaginar o poeta bíblico dentro de um shopping center, veloz para gastar as economias reunidas o ano inteiro, cheio de urgências consumistas, respondendo ao marketing insistente da mídia. Mais adequado imaginar o salmista nos caminhos e nas vielas arriscando-se aos tiros trocados com a polícia, nos lugares de toda miséria. Quem está encantado pelas guirlandas, as lâmpadas piscantes, árvores de natal em verdes artificiais, é convidado a deter-se por um momento e olhar o entorno. Pensar sobre a asfixia das festas inúteis, dos compromissos obrigatórios, das trocas de presentes, e parar para ouvir uma canção bíblica (Salmo 146); escutar o tum-tum-tum rítmico, envolvente, fascinante, dos que deviam chorar, mas dançam e cantam incompreensivelmente, talvez, a esperança. Mas é o que este salmo desperta em nós, ouvindo sua música, enquanto nos deixamos arrebatar. Jacy Maraschin, irmão anglicano da nova liturgia, escrevia: Como vamos cantar / este canto imprevisto, / tão distantes do lar, /tão num mundo sem Cristo (…) Como vamos cantar se o irmão é explorado, / se lhe fazem calar, / se ele é sempre anulado?/ A canção do Senhor tem de ser verdadeira,/para ser o louvor na terra brasileira. J.

O projeto dos perversos, civis ou religiosos, aliados aos poderosos e injustos, examinando o salmo pelo avesso das ações de Yahweh: oprimidos, famintos e prisioneiros (7), “cegos” e “encurvados” pela opressão estrangeira; pela exploração de órfãos e viúvas (9a), fazem parte dos temas recorrentes sobre os despossuídos, na Bíblia, roubados em seus direitos, violentados e desprezados pelas classes sociais privilegiadas. Neste salmo, há citações sobre grupos humanos excluídos da vida econômica produtiva, enquanto explorados por poderosos injustos, e seus apoiadores: aqueles que não têm privilégios e cujos direitos fundamentais são sistematicamente negados… e os que não têm liberdade de consciência e expressão. Os mais desprotegidos são os exilados, refugiados, imigrantes, os órfãos e as viúvas (9a), em busca de trabalho e participação social no mercado. A opressão e a exploração os despojam dos bens da vida (famintos), alienando-os a ponto de aceitarem passivamente essa situação (são “cegos”). Enquanto isso as forças e os poderes da morte, concentrados nas mãos dos poderosos e dos injustos, têm a última palavra. É inútil esconder a responsabilidade da religião, enquanto a pregação profética do salmo, cantado onde era possível, vai se impondo como uma oração entre as mais belas orações da humanidade esperançosa de transformações. Enquanto a religião vai-se empedrando em torno dos códigos, dos preceitos, das obrigações cultuais autojustificadoras, o salmo fala à alma dos homens e das mulheres em busca da liberdade, de saciar suas muitas fomes, em primeiro lugar a fome de justiça, e depois a fome de pão, movidos pela alegria e pela esperança, especialmente nos centros das tempestades, das dores e dos conflitos humanos.

Outras paisagens são apontadas na utopia do salmo profético, alcançam profissionais do Comércio Exterior: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado; a satisfação da fome, apesar das sombrias previsões do pastor presbiteriano Malthus, e sua “utopia invertida” (no séc.18 se acreditava que o crescimento da população mundial traria tão somente a fome de milhões, desconsiderava-se a justiça social, trabalho, direitos sociais, ficavam à parte; Malthus não imaginava que no ano 2000 a população mundial seria de 6,5 bilhões e que a questão se agravaria, especialmente quanto aos direitos sociais desses bilhões). O salmo lembra a necessidade de um mundo sadio, em toda parte, doenças endêmicas sob controle, médicos e hospitais para todos; a paz mundial: bem-estar político, nações cooperativas entre si, para uma socialização mundial do atendimento das necessidades humanas, que vão desde a habitação, o trabalho humanizado, acesso ao lazer, ao conhecimento e à cultura em todos os níveis.

A pregação do salmista ainda é atual, especialmente quando a sociedade global trocou tudo isso pelo consumismo desenfreado e sem conseqüência, mas não para as elites privilegiadas de todos os tempos. Estas nunca se queixaram de seu poder aquisitivo, em todos os campos: saúde, escola, mão-de-obra barata, lazer qualificado, prêmios que nunca lhes faltam. Na questão da internacionalização da Amazônia, por exemplo, os que querem ser também seus “donos” concordariam em colocar reservas de petróleo, ouro, diamante, direitos de patentes, know-how científico, industrial, disponíveis, sem reservas ao mercado do Brasil? Concordariam que os brasileiros passem a receber recursos destinados ao bem-estar social dos quais desfrutam, cooperativamente, e que sejam retiradas todas e quaisquer restrições de mercado aos brasileiros?

Relembremos os contatos deste salmo com a vida de Jesus, são inúmeros. As conseqüências do manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; os famintos da terra (hoje: mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças), que comerão até fartar-se; “prisioneiros” libertados (há guerras e prisioneiros políticos em todos os quadrantes, por motivo de consciência ou de religião reprimida); inocentes seqüestrados; cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder; encurvados a estas realidades. Serão curados. Corações ao alto, neste Advento, quando preparamos a vinda do Senhor, anuncia-se um tempo de salvação. O Salvador virá!

CULTO ECUMÊNICO DE FORMATURA
Curso: Comércio Exterior – FAESA
Celebrantes: Pe. Renato Coutinho e rev.Derval Dasilio
Igreja Santa Clara – Jardim da Penha – Vitória-ES

Written by Derval Dasilio

12/12/2007 at 0:00p12

Na categoria Uncategorized

Uma resposta

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  1. “(Os cristãos) não desprezam à viúva, não contristam ao órfão; o que tem, fornece-lhe abundantemente ao que não tem.” Arístides (125d.C.) Em vez de pagar um pastor assalariado com suas oferendas a igreja primitiva apoiava os órfãos e viúvas. http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/ORFÃOSEVIUVAS.html

    igreja primitiva

    01/06/2010 at 0:00p06


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