Derval Dasilio – Escritos&Artigos

29/12/2007

DECRETO HERODIANO: MORTE AO MENINO E ÀS ESPERANÇAS DAS FAMÍLIAS!

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(Mateus 2,13-15.19-23): Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito.
No meio do tempo de Natal o Evangelho fixa nossa atenção numa realidade muito humana da vida de Jesus. Como todo ser humano, ele contou com uma família que o criou… Teve um pai e uma mãe humanos, um ambiente vital no qual foi se desenvolvendo até chegar a ser adulto, que o modelou e preparou para realizar sua missão. No livro dêuterocanonico de Ben Sirac (“Sirácida”), que pertence ao grupo dos livros sapienciais do Antigo Testamento, encontramos ensinamentos para se saber viver na presença de Deus e na comunidade humana. Muitos desses ensinamentos têm a ver com a família. Certamente Jesus amou, respeitou e obedeceu seus pais como nos ensina a leitura. A maior parte de sua vida ele a passou na companhia de sua família, mesmo que conheçamos quase nada das circunstâncias desse período de sua vida que chamamos “vida oculta”.Jesus nasce também debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobilizar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, sem-dignidade e cidadania, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião dominante e pela política de seu país, cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial (Mt 2,7): Augusto, imperador, era considerado “divino”, um deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); que, no seu entender de governante mundial, lhe devem e têm que pagar, irrevogavelmente.

Tagore disse: “A história da humanidade espera com paciência o triunfo dos humilhados”. Jesus nasceu. A fome e a miséria eram o cenário onde nasciam os menininhos pobres e carentes como ele, sem nenhum perigo para a sociedade que os excluía imediatamente. Logo depois, para eliminá-lo, essa mesma sociedade promovia ou apoiava um genocídio, o mais clamoroso das histórias do Evangelho. Os meninos do tempo de Jesus nasceram condenados à morte desde o nascimento. Hoje, conhecemos seus irmãozinhos, em todo o mundo, que nascem também com essa condenação, juntamente com o menino nascido na estrebaria e embalado num berço improvisado num cocho.

O povo se sente desprotegido e desfigurado pela dor. Tentando ver um pouco além do quadro idílico da casa (família) de Nazaré, podemos fazer esta reflexão: a família não foi para Jesus um obstáculo na hora de empreender a tarefa salvadora. Nessa realidade, a partir da convivência fraterna, desponta o rosto de Deus como oleiro. O oleiro modela a cerâmica com imenso carinho e ternura. Da mesma forma, Deus modela o seu povo e lhe infunde a vida. Ele é como o pai que gera um novo ser: “Olha do céu e observa da tua morada santa e gloriosa; onde estão o teu ciúme e poder, o teu coração comovido e a tua compaixão. Não fiques insensível, porque tu és o nosso pai, pois Abraão não nos reconhece mais e Israel não se lembra de nós”… (Is 63-15-11).

Os israelitas (depois judeus) da época do Terceiro Isaías, e na época de Jesus, e muitos dos povos primitivos, não poderiam prever as atuais dificuldades e crises que atravessa a instituição familiar em nosso tempo, em suas semelhanças. Sacerdotes, ministros ordenados, escribas e governantes gananciosos, os “pastores de Israel” (cf.Ez 34,2: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?”), estão oprimindo a vida do povo empobrecido. Aqueles que devem apoiar, ensinar e proteger o povo, estão fazendo exatamente o contrário do que deveriam fazer. Nessa situação de opressão e sofrimento, a comunidade de Isaías (3o.) se une e redescobre em sua luta diária o rosto de Yahweh, descrito na imagem do oleiro e do pai: Mas agora, Yahweh, tu és o nosso pai; nós somos o barro, e tu és o nosso oleiro; todos nós somos obra de tuas mãos (64,7).

Yahweh, tu és o nosso pai. Teu nome é, desde sempre, Redentor, Go´el (Is 63,15-16). O pai protege, acompanha, acaricia e ensina. Não pode ficar insensível ao fruto de suas entranhas. Por isso, a comunidade do Terceiro Isaías, de maneira forte e comovente, apela para seu pai, enquanto exorta os seus: Não peques, ó insensíveis! Reacende-se a esperança no poder e na compaixão de Deus, pois ele é o pai que sempre está ao lado de suas filhas e de seus filhos. A situação de desamparo também faz o povo ver em Yahweh o seu redentor.

A Natalidade de Jesus de Nazaré é um convite para mergulharmos na realidade que se apresentava ao menino que irrompe do ventre de sua mãe numa estrebaria, um sem-terra, sem-teto, sem-nada, à semelhança das crianças que nascem no terceiro mundo, e no Brasil do IBGE, entre 53 milhões de brasileiros e brasileiras constantes na escala social dos que se encontram, no mundo da economia, e do consumo de bens essenciais (alimentos, habitação, trabalho, transporte, lazer), abaixo do limite da pobreza. Se Jesus nascesse aqui, entre os que estão mais perto, em nosso país, sob a opressão dos sistemas econômicos seria um dos bebês que vêm ao mundo devedor de milhares de dólares ao FMI, BID, G-8, (cf. dados do IPEA). Mas que não se esqueça que, ao mesmo tempo, seria credor de dívidas sociais desta sociedade (dita cristã) que lhe deve tudo e não quer pagar. Não há Procon que resolva…

A Natalidade do Senhor é tempo de esperança porque Deus resgata o povo pobre e sem valor e o chama para o centro da história da salvação. A leitura em Mateus nos apresentará a concepção de Jesus por obra do poder divino. Mas é também por esse poder que a família do menino nascido de mulher sobreviverá aos poderes políticos, econômicos e religiosos atrelados para o extermínio da esperança: o genocídio social, também herodiano, que parece não cessar nunca.

19/12/2007

ERA UMA VEZ UMA CIGARRA GOSPEL…

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Uma fábula fabulosa, como diria Millor Fernandes, pode ser contada aqui, roubando a idéia de La Fontaine: “Era uma vez uma cigarra que aderiu à cultura ‘gospel’, reuniu-se a um grupo de jovens cigarras crentes, muito interessadas em dar um pouco mais de cor, de ritmo, de sonoridade nos cultos que freqüentavam. Onde se exibiam, tiravam tudo do altar para que seus instrumentos ficassem em evidência, inclusive caixas de som de alta sonoridade. E reunidas, descobriram que era muito mais fácil importar um estilo bastante apreciado pelas cigarras do hemisfério norte, mais precisamente no país das maiores fantasias consumistas que já houve sobre o planeta.
Lá se vende de tudo, e até as pessoas, digo: cigarras, são vendidas bem baratinho, em troca de bênçãos das pastoreas e pastores das igrejas daquele lugar. Só aos domingos, claro, porque ninguém é de ferro. Inclusive os crentes. E, então, compraram projetores de luz, máquina de fumaça de gêlo, microfones de todos os tipos, instrumentos de percussão, baterias, guitarras, teclados. Recursos variados… e descobriram que, na igreja onde animavam o louvorsão, o povo andava pensativo, cabeça baixa, nem podia orar tanto era o barulho das cigarras gospel.
Não se lia a Bíblia, porque os louvoristas tinham versículos chaves para todos os momentos do culto. E, além do mais, as cigarras louvoristas faziam tudo, oravam, mandavam o povo baixar a cabeça para acompanhar sua prece ensaiada, e até diziam amém pelas cigarras assistentes.


Enquanto isso, na mesma floresta, uma formiga, também crente, trabalhava, todos os dias da semana, inclusive no domingo. Liderava outras formigas da igreja, enquanto as estimulava a pensar no futuro da congregação: se não estava bom, agora, muito pior poderia acontecer ao povo local. Então, a congregação se empenhava em serviços diaconais, provisionando a comunidade para futuros atendimentos. E trabalhavam… trabalhavam… trabalhavam. As dependências da igreja que freqüentavam foram transformadas em armazens de alimentos, ambulatórios médicos, rouparias, dormitórios.
Enfim, planejavam como um líder bíblico fizera no passado, José do Egito, distante, e o que fez foi uma bênção, tanto para a comunidade a quem servia, quanto para os seus irmãos que vieram lhe pedir socorro. As formigas ouviam as histórias da Bíblia e meditavam. Oravam agradecendo pela bênçãos da saúde, da capacidade de trabalhar e sustentarem-se, de terem uma vida de forte comunhão com as demais, preocupadas com a salvação dos outros insetos e bichos da floresta. Ouviam as pregações, entoavam hinos de louvor, intercediam pelas outras formigas e outros bichos, e saiam do culto para trabalhar. Não se cansavam, porque sabiam das escatologias realizadas em outros tempos… Um dia o céu se cobriu de nuvens negras, e ventos fortes dobravam as árvores da floresta. Veio uma tempestade avassaladora, um dilúvio do tipo que o povo de Noé enfrentou em tempos primordiais.

As formigas, previamente treinadas para enfrentar situações adversas, correram rapidamente, o mais que podiam, para abrigar-se, juntamente com sua comunidade, no lugar que construíram, devidamente provido dos recursos necessários para acolher e prover todos os que necessitassem. As formigas vieram todas para a igreja/abrigo. Logo, outros bichos, que ouviram sobre a comunidade laboriosa, foram pedir abrigo e ajuda. E todos foram atendidos. As cigarras, porém, sem previsão alguma sobre as dificuldades futuras, foram pegas de surpresa, seus instrumentos submergiram juntamente com o palco, com o altar gospel. A enchente tomou tudo, e o templo foi inundado, raios e trovões substituiam a cantoria alta, e a comunidade, coitada, não tinha mais a quem recorrer. Nem lugar para se abrigar, nem comida, nem leitos para reposusar…


Bem, vamos terminando essa história, como se faz em todas as fábulas.
A moral da história, porém, fica com o leitor. Era uma vez …

O CULTO GOSPEL  DESPREZA O JULGAMENTO DE DEUS

Há muito medo, hoje, no mundo. Medo de doença, de sofrimento, de abandono e de solidão. Medo nas madrugadas esperando o filho e a filha que saíram e podem não voltar. Ameaças graves pesam sobre nós. Há seqüestros e assaltos nas ruas e nas casas. Muitos são torturados e depois mortos. Outros são mortos friamente. Há medo de guerras, seja para enfrentar o terrorismo internacional, seja por disputas de poder entre nações que dispõem de armas de destruição em massa. A máquina de morte já construída é tão devastadora que pode colocar em risco o futuro da espécie humana e ferir gravemente a biosfera. Temos, pois, razões objetivas para temer (Leonardo Boff).

Se alguém disser, também, que os números da criminalidade não deveriam assustá-lo; que as drogas são um problema social menor; que a sexualidade dos adolescentes e jovens não é uma questão de tirar o sono – como você reagirá? Você julgará estar diante de um cínico indiferente às questões centrais da sociedade moderna; vai imaginar que quem o diz é um criminoso, drogado, de olho na sua filha, à qual ordena imediatamente que se tranque em seu quarto, ou você acreditará que seu interlocutor desmontou uma farsa determinada a tornar você refém de medos extravagantes, assustado com a própria sombra – e com a do vizinho? Será que esse alguém não quer que você seja incapaz de ver a realidade, enquanto você é curado da cegueira e possa ver a realidade dos abismos sociais que estão além das emoções à flor da pele, dos arrepios e dos olhos mareados e revirados da cantoria milionária, de bolsos cheios, dos novos levitas? E cure os ouvidos para ouvir vocacionados, jovens e as mulheres que procuram um lugar diaconal, de serviço na igreja no mundo?

Talvez por aqui se anuncie um caminho libertador. Não o caminho ensinado pelos pregadores que se imaginam pavões, ternos bem cortados, escondendo os pés sujos e feios em sapatos de cromo alemão, por causa dos lugares onde andam. A tarefa do pregador do Evangelho é anunciar o Senhor em meio a um mundo metido na injustiça social, na idolatria eclesiástica, mentiras, prestidigitações, adoração e louvor interesseiros, propositistas. E alguns falam de “avivamento”, e outros perguntam: “avivar para quê?”. E a paranóia dos falsos medos continua. Enquanto crescem as contas bancárias das igrejas milionárias, propositistas, e dos pastores fanáticos por eclesiologias importadas.

Há infindáveis outros medos, como o de perder o posto de trabalho, de perder o nível de salário, de perder a casa nas inundações ou deslizamentos, de perder a pessoa amada, de perder a benevolência divina e a vida eterna. De que mais não temos medo? O medo revela a condição humana, feita de medos e esperanças, de desamparo e busca de conforto. Nós nos damos conta de que não somos senhores de nós mesmos, de nossa vida com seu rumo e com seu futuro. Estamos à mercê de forças e conjunturas que não controlamos. O medo esvazia a alegria de viver, tolhe a liberdade e obscurece o futuro. Quem nos libertará deste pesadelo?

Cultos avivados, louvor e adoração gospel carregados de emoções, exercícios de relaxamento, inteligência emocional, estratégias de autocontrole, coquetéis poderosos de orações calmantes, sem sinceridade, nos libertarão da espada que aponta sobre as cabeças de todos nós? A fábula da “formiguinha cristã” (que trabalha sempre, antecipando as calamidades futuras) e da “cigarra gospel” (que canta, revira os olhos, arrepia-se, emociona-se com sua própria voz), servirá ao nosso momento? Quem sabe um caminho espiritual nos leve a transcender esse contexto e nos abra a perspectiva da proteção divina, e o amparo incessante do Deus da nossa fé?

 

 

12/12/2007

Salmo 146, 5-10 – Deus faz justiça aos oprimidos

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Este salmo é uma das leituras introdutórias do Advento. Prepara a vinda do Senhor. Os contatos deste salmo com a vida de Jesus são inúmeros. Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as conseqüências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra (mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças), que comerão até fartar-se; “prisioneiros” libertados (há guerras e prisioneiros políticos em todos os quadrantes, por motivo de consciência ou de religião reprimida); inocentes seqüestrados; cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder. Os encurvados a estas realidades curados. Evoca o carinho pelos estrangeiros, exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da nossa caminhada e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lucas 6,20ss; Mateus 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles, e nos religiosos que os imitavam em hipocrisia; mesmo quando proferia palavrões dirigidos a estes, intraduzíveis, em aramaico. O rosto do Deus de Israel (Yahweh) é a cara de Jesus. Faz lembrar Mateus 25 (Quando te vimos?, perguntavam; e Jesus respondia: quando tive fome… quando estava nu e com frio… quando estava preso por motivo de consciência da injustiça… ). Em tudo e sempre, neste salmo, Deus é aliado dos justos, está contra os injustos, é fiel. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Yahweh, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às suas imposições.

Parece ter sido escrito hoje! O autor do salmo poderia ser um dos que perseguem os sinais de esperança andando por nossas, ruas, subindo os morros, convivendo com traficantes, no meio do tiroteio e das balas perdidas, caminhando com os habitantes dos lugares de toda pobreza e miséria: A porta do barraco era sem trinco,/ mas a lua furando o nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão… (Chão de Estrelas, Orestes Barbosa e Sílvio Caldas). Não tem mais zinco, mas os telhados são furados por balas perdidas… A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem (Pablo Neruda). Lembra poetas modernos como Garcia Lorca: “Não sou inimigo de ninguém”, enquanto afirmava seu amor à verdade.

Difícil é imaginar o poeta bíblico dentro de um shopping center, veloz para gastar as economias reunidas o ano inteiro, cheio de urgências consumistas, respondendo ao marketing insistente da mídia. Mais adequado imaginar o salmista nos caminhos e nas vielas arriscando-se aos tiros trocados com a polícia, nos lugares de toda miséria. Quem está encantado pelas guirlandas, as lâmpadas piscantes, árvores de natal em verdes artificiais, é convidado a deter-se por um momento e olhar o entorno. Pensar sobre a asfixia das festas inúteis, dos compromissos obrigatórios, das trocas de presentes, e parar para ouvir uma canção bíblica (Salmo 146); escutar o tum-tum-tum rítmico, envolvente, fascinante, dos que deviam chorar, mas dançam e cantam incompreensivelmente, talvez, a esperança. Mas é o que este salmo desperta em nós, ouvindo sua música, enquanto nos deixamos arrebatar. Jacy Maraschin, irmão anglicano da nova liturgia, escrevia: Como vamos cantar / este canto imprevisto, / tão distantes do lar, /tão num mundo sem Cristo (…) Como vamos cantar se o irmão é explorado, / se lhe fazem calar, / se ele é sempre anulado?/ A canção do Senhor tem de ser verdadeira,/para ser o louvor na terra brasileira. J.

O projeto dos perversos, civis ou religiosos, aliados aos poderosos e injustos, examinando o salmo pelo avesso das ações de Yahweh: oprimidos, famintos e prisioneiros (7), “cegos” e “encurvados” pela opressão estrangeira; pela exploração de órfãos e viúvas (9a), fazem parte dos temas recorrentes sobre os despossuídos, na Bíblia, roubados em seus direitos, violentados e desprezados pelas classes sociais privilegiadas. Neste salmo, há citações sobre grupos humanos excluídos da vida econômica produtiva, enquanto explorados por poderosos injustos, e seus apoiadores: aqueles que não têm privilégios e cujos direitos fundamentais são sistematicamente negados… e os que não têm liberdade de consciência e expressão. Os mais desprotegidos são os exilados, refugiados, imigrantes, os órfãos e as viúvas (9a), em busca de trabalho e participação social no mercado. A opressão e a exploração os despojam dos bens da vida (famintos), alienando-os a ponto de aceitarem passivamente essa situação (são “cegos”). Enquanto isso as forças e os poderes da morte, concentrados nas mãos dos poderosos e dos injustos, têm a última palavra. É inútil esconder a responsabilidade da religião, enquanto a pregação profética do salmo, cantado onde era possível, vai se impondo como uma oração entre as mais belas orações da humanidade esperançosa de transformações. Enquanto a religião vai-se empedrando em torno dos códigos, dos preceitos, das obrigações cultuais autojustificadoras, o salmo fala à alma dos homens e das mulheres em busca da liberdade, de saciar suas muitas fomes, em primeiro lugar a fome de justiça, e depois a fome de pão, movidos pela alegria e pela esperança, especialmente nos centros das tempestades, das dores e dos conflitos humanos.

Outras paisagens são apontadas na utopia do salmo profético, alcançam profissionais do Comércio Exterior: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado; a satisfação da fome, apesar das sombrias previsões do pastor presbiteriano Malthus, e sua “utopia invertida” (no séc.18 se acreditava que o crescimento da população mundial traria tão somente a fome de milhões, desconsiderava-se a justiça social, trabalho, direitos sociais, ficavam à parte; Malthus não imaginava que no ano 2000 a população mundial seria de 6,5 bilhões e que a questão se agravaria, especialmente quanto aos direitos sociais desses bilhões). O salmo lembra a necessidade de um mundo sadio, em toda parte, doenças endêmicas sob controle, médicos e hospitais para todos; a paz mundial: bem-estar político, nações cooperativas entre si, para uma socialização mundial do atendimento das necessidades humanas, que vão desde a habitação, o trabalho humanizado, acesso ao lazer, ao conhecimento e à cultura em todos os níveis.

A pregação do salmista ainda é atual, especialmente quando a sociedade global trocou tudo isso pelo consumismo desenfreado e sem conseqüência, mas não para as elites privilegiadas de todos os tempos. Estas nunca se queixaram de seu poder aquisitivo, em todos os campos: saúde, escola, mão-de-obra barata, lazer qualificado, prêmios que nunca lhes faltam. Na questão da internacionalização da Amazônia, por exemplo, os que querem ser também seus “donos” concordariam em colocar reservas de petróleo, ouro, diamante, direitos de patentes, know-how científico, industrial, disponíveis, sem reservas ao mercado do Brasil? Concordariam que os brasileiros passem a receber recursos destinados ao bem-estar social dos quais desfrutam, cooperativamente, e que sejam retiradas todas e quaisquer restrições de mercado aos brasileiros?

Relembremos os contatos deste salmo com a vida de Jesus, são inúmeros. As conseqüências do manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; os famintos da terra (hoje: mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças), que comerão até fartar-se; “prisioneiros” libertados (há guerras e prisioneiros políticos em todos os quadrantes, por motivo de consciência ou de religião reprimida); inocentes seqüestrados; cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder; encurvados a estas realidades. Serão curados. Corações ao alto, neste Advento, quando preparamos a vinda do Senhor, anuncia-se um tempo de salvação. O Salvador virá!

CULTO ECUMÊNICO DE FORMATURA
Curso: Comércio Exterior – FAESA
Celebrantes: Pe. Renato Coutinho e rev.Derval Dasilio
Igreja Santa Clara – Jardim da Penha – Vitória-ES

05/12/2007

ADVENTO:TEMPO DE ORAÇÃO E INDIGNAÇÃO

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orando-maos.jpgFaltam menos de vinte dias para comemorarmos a Natividade do Senhor. No Advento se anuncia que o Senhor vem. Isaías gosta de sonhar com o Advento, utopias maravilhosas são o seu forte; voltar ao Paraíso inicial, como está nos primeiros capítulos do Gênesis (Is 11,1-10), também. O profeta é, sobretudo, um homem com grande capacidade de perscrutar a história, tanto no seu passado como no presente, e com perspectiva de intuir o futuro. Ernest Bloch propunha uma interpretação das utopias.  Breno Shumann apresentava-nos esse pensador, ao fim dos anos 60, sob a ditadura militar. Bloch fala de utopias sobre a natureza não humanizada, fala de utopias da saúde; utopias sociais, utopias da técnica, enfim, dos sonhos dos homens para ganhar a felicidade através da dominação da natureza. Até a arquitetura carece de utopia: uma referência ao habitat humano no caminho da urbanização inevitável, enquanto evoca a construção de monumentos que demarcam a passagem de um tempo para outro, como as pirâmides do Egito, ou como as catedrais góticas da Europa Medieval, em busca de formas ideais do “cristal” e da “árvore da vida!”.  Depois, os navegadores e viajantes de todas as épocas, em busca do Eldorado, das ilhas encantadas, maravilhosas, e dos “continentes e cidades desaparecidas” no meio dos misteriosos oceanos.
 
Outras paisagens são vislumbradas pelo “utópico” Ernest Bloch: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado; a satisfação da fome, apesar das sombrias previsões do pastor presbiteriano Malthus, e sua “utopia invertida” (séc.18); o mundo sadio, em toda parte, doenças endêmicas sob controle, médicos e hospitais para todos; a paz mundial: bem-estar político, nações cooperativas entre si, para uma socialização mundial do atendimento das necessidades humanas, que vão desde a habitação, o trabalho humanizado, acesso ao lazer, à cultura em todos os níveis. Bloch ainda é atual, especialmente quando a sociedade global trocou tudo isso pelo consumismo desenfreado e sem conseqüência, mas não para as elites privilegiadas de todos os tempos. Estas nunca se queixaram de seu poder aquisitivo, em todos os campos: saúde, escola, mão-de-obra barata, lazer qualificado, prêmios que nunca lhes faltam. Na questão da internacionalização da Amazônia, por exemplo, os que querem ser também seus “donos”  concordariam em colocar reservas de petróleo, ouro, diamante, direitos de patentes, know-how científico, industrial, disponíveis, sem reservas ao mercado do Brasil? Concordariam que os brasileiros passem a receber recursos destinados ao bem-estar social dos quais desfrutam, cooperativamente, e que sejam retiradas todas e quaisquer restrições de mercado aos brasileiros?
 Voltemos ao profeta bíblico e sua utopia encantadora. Ele sabe e está consciente de que ao longo desta história as relações entre os povos não estiveram em sintonia com o plano divino, pois na maior parte do tempo tais relações foram guerras, ódio e violência. A história de Israel é repleta de fatos violentos, cidades e povos destruídos, reconstruídos e novamente destruídos, e no meio disto tudo, os pobres são os que mais sofrem. Os pobres, como o marisco, estão entre o mar e rochedo, açoitados pelas ondas… Chineses têm um ditado: “Quando elefantes brigam sobre o gramado quem sofre é a grama…” 

 Uma nova esperança, como outro visionário utópico, João, coloca o sonho no futuro, no livro do Apocalipse. Uma esperança que antecipa a glória de Deus. O primeiro Isaías refere-se ao tronco de Jessé, pai do rei Davi. Dessas raízes brotará um rebento encantador, um Príncipe cheio do Espírito Santo, um rei que de fato cumprirá o que Deus projetou para a humanidade. Esperamos com impaciência o nascimento do Messias de Deus, que trará justiça, exercerá os direitos reclamados para os despojados, humildes e humilhados, à margem da história. “A vil miséria insulta os céus” (João Dias de Araújo). Há, contudo, um sonho ainda maior: o da reconciliação de todos os homens e mulheres; de todos os poderes, sistemas, devolvidos a quem os criou (Yahweh). Plenamente, como nos símbolos dos animais selvagens, ferozes, que convivem, comem, pastam, com os animais domésticos e mansos.  Não há lugar para a violência e a guerra, nem para as lágrimas e a dor. É tanta paz que um menino pequeno será capaz de pastorear até os animais da selva. Um sinal reunirá todos os povos da terra, reconciliados entre si.  Sobre o monte de Deus, onde está Jerusalém, a Sião dos profetas, desce a paz.  Ali será o centro da Paz. 

Neste tempo de Advento, essa tarefa é entregue ao povo de Deus, mais como uma oferta do que uma exigência.  Devemos refletir sobre esse Paraíso. Desde o começo a Bíblia nos remete a este tema. Antes que um lugar, ele é um modelo de vida.  Como? O Paraíso expressa harmonia entre pessoas; harmonia com a natureza; harmonia com o mundo criado.  Das coisas mais belas que guardamos dessa imagem, o encontro entre homens e mulheres em solidariedade total em defesa de uma causa especial: a causa de Deus é o centro de tudo. O que destrói essa harmonia? Conhecemos esse mal pelo nome de “pecado”, não o pecado como ensinado no catecismo, individualista, moralista, doutrinário. Pecado é um termo plural, refere-se ao pecado das consciências entupidas de distorções sobre o que é transcendente ao indivíduo: direitos fundamentais à habitação, saúde, escola, trabalho e lazer. O pecado está nas consciências anestesiadas, dopadas pelo consumismo em vigor, voltadas para o imediato e o provisório, enquanto se  promove o esquecimento da indústria da morte ao redor de tudo. Nas relações entre indivíduos, famílias, sociedades… nas relações internacionais.  Os poderes da morte, paradoxalmente, parecem vitoriosos sobre o poder da vida.  Mais que nunca clamamos pelo Deus da vida, em razão de tudo isso. 

  O pecado estrutural está no poder controlador da sociedade, nos sistemas de pensar, os quais envolvem a religião de mercado, o econômico através da ganância insaciável, pronto a abocanhar mais domínios, e o político entreguista e oportunista, esquecido do coletivo, enquanto exercita sua influência na sociedade para tirar vantagens pessoais. O Paraíso fala do homem e da mulher em intimidade com Deus, como um tema bíblico de alta importância, mas também diz sobre aqueles que voltam as costas para Deus,  enquanto ouvem e acatam a voz do símbolo de todo mal, a “serpente”, sabedoria maligna, que passa a falar por eles nestes tempos, elaborando projetos contra a vida (Harvey Cox, Que a Serpente não Decida por nós, Paz e Terra). 

Neste Advento devemos refletir: a indignação e a intolerância ao mal (pecado estrutural) caminham juntas, quando se luta contra os poderes da morte. Quando há descontrole daqueles que legislam ou governam. Quando inocentes são assassinados, escravizados, vendidos. Quando se destrói, ou quando alguém se apossa do bem comum, na natureza ou na economia. Quando terroristas fundamentalistas, ou cristãos belicosos, em nome do projeto de sua religião, ou de seu partido político, cometem ou justificam seus crimes em matanças de inocentes. Quando as máfias das armas, juntamente com os que pensam como ela; quando traficantes de drogas, de gente, de crianças no trabalho escravo e na prostituição infantil, e também na adulta, se impõem como um poder dentro da sociedade inerte, seremos intolerantes e indignados. Quando homófobos e sexistas impõem sua parcialidade como verdade absoluta e indiscutível, contra irmãos homossexuais e mulheres desprotegidas; quando se mata alguém em nome de certa “justiça”, só pela suspeita, ou por evidências duvidosas, ou por vingança, como na pena de morte oficial ou extra-oficial; quando pessoas são mutiladas, torturadas, em nome da justiça dos homens, seremos intolerantes e indignados. Quem não concorda?   

02/12/2007

EXPERIÊNCIA DE UM DEUS COMPROMETIDO COM O POBRE E O OPRIMIDO

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Começamos o tempo do Advento, tempo de preparação para as celebrações natalinas do nascimento e manifestação de Jesus Cristo, da encarnação do Logos, a Palavra de Deus (não devemos nos esquecer que o logos corresponde a ‘davar’, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu que pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica; ali, o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas, é ‘davar’, que significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua: ‘davar’ é a palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; ‘davar’ é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que ‘davar’ é a palavra que torna perceptível a chegada do Reino de Deus, a causa de Deus). Lembremo-nos que uma utopia não evolui do nada. Ela sempre parte da experiência humana, dos anseios humanos por justiça e novas construções do que deve ser verdadeiramente humano, para nós é a “experiência de Deus”: a República de Platão; a Cidade de Deus, de Santo Agostinho; a Utopia, de Thomas Morus; a Cidade da Eterna Paz, de Immanuel Kant; o Estado Absoluto, de Hegel; o Paraíso do Proletariado, de Marx; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras precedidas pela utopia política da fé, conforme as Escrituras Sagradas. Profetas, como foi Isaías, já descreviam o que a literatura apocalíptica colocaria antes do movimento de Jesus, realizadas na pregação do homem de Nazaré sobre a causa na qual se apoiava: o Reino de Deus e Sião, a capital celestial da justiça de Deus. É neste plano que se discute a fé cristã, sem jamais desprezar a esperança da inteligência pensante que mantém sua crítica ao presente grávido de esperanças sobre o novo, conforme induz a teologia da fé.

Carl Sagan via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais no mundo sideral uma manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. Com vontade de viver nos levamos a cogitar formas de sobrevivência para além da Terra. Isso é esperança ou algo que conhecemos de sobra, desde os tempos imemoriais, enquanto examinamos a história humana sobre a face da Terra? O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extra-solar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de 30.000 kms/segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável (L.Boff). Mesmo assim só para chegar à estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade quando ela chegar ao seu destino. Como ficam essas previsões quando a realidade imediata apresenta-nos a destruição da vida no planeta Terra em tempo real bem menor, se permanece o ritmo atual de destruição ambiental?

As advertências de Jesus põem uma nota de gravidade no tempo do Advento que hoje começamos a celebrar: não se trata somente dos enfeites natalinos dos quais já estão cheios os supermercados, as lojas, a mídia de marketing. Não se trata de uma falsa alegria, induzida artificialmente por musiquinhas gospel meladas, nem da falsa aparência de bem-estar ao se esbanjar dinheiro em compras desnecessárias e injustificáveis. Que sinais de esperança e de desesperança a sociedade atual “realista”, “pragmática”, sem utopias, desencantada, desesperançada, anestesiada pela proclamação do “final da história”, apresenta sobre o final desses tempos? Que papel os cristãos teriam nesta hora de congelamento da esperança? Somos testemunhas da esperança ou do desespero, ou da acomodação (Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque amanhã morreremos: 1Cor 15,32)? Que podem significar os sinais apocalípticos que o evangelho sobre a “vinda do Senhor” aponta? Não são sinais de resistência ao tempo presente que nos apresentam um “futuro sem futuro”? Advento quer dizer “vinda”, “chegada”, e isso é o que nós preparamos para celebrar: a primeira vinda do Logos (davar), a Palavra de Deus, revestida da carne dos homens e das mulheres deste mundo. Sua primeira vinda em humildade, também elegendo os humildes, os pobres, os sem-poder, sem-teto, sem-cidadania e sem-direitos, nos impressiona?

Eis o que diz Kar Barth (Poverty, against the stream, New York Philosophical Library, 1954): “Não há nenhuma passagem na Bíblia que sejam proclamados, louvados, exaltados, tributados, os direitos dos ricos; pelo contrário, os pobres é que são enaltecidos, chamados de bem-aventurados, designados como eleitos de Deus; (…) o evangelho foi proclamado aos pobres, enquanto que os ricos são mostrados em proximidade suspeita com os poderosos e malfeitores, que, por suas inclinações, orgulho, falsa segurança, identificam a queda da humanidade”. E prossegue: “Os ricos, por serem ricos, de maneira nenhuma entrarão no reino dos céus (como sabemos, tão dificilmente quanto um camelo passa pelo fundo de uma agulha – passagem de alfândega destinada a pessoas – os ricos entrarão no reino dos céus…), a não ser que tornem seus bens disponíveis e transformem-se em pessoas pobres, despojadas, vendendo, desprezando suas seguranças alicerçadas em bens. (…) Portanto, a Bíblia está do lado dos pobres, dos despojados, dos destituídos (grande maioria no mundo). Aquele a quem a Bíblia chama de Deus toma partido em favor dos pobres…”

Preparando-nos para celebrar a primeira vinda do Senhor não podemos deixar de considerar que esperamos ansiosos sua “segunda vinda em glória”, quando, como Juiz dos vivos e dos mortos (quem são os vivos e quem são os mortos, segundo o Evangelho?), levará à plenitude nossa história humana. São dias de recolhimento e de oração, de uma alegria que nasce da espera de algo que será maravilhoso para a vida dos homens e das mulheres; dias em que censuraremos as extravagâncias do consumismo, os excessos a que somos levados pela propaganda e pela publicidade, daqueles que transformam a festa da Natalidade numa feira de abusos e vaidades? Dias em que viraremos as costas para a fome no mundo e nos locupletaremos de perus, chesters, lombos defumados, vinhos, champanhes, castanhas, frutas secas e frutas finas, enquanto persistem os sinais de morte no lado do mundo doente, sem assistência, esquecido, esperando por transformações?

O profeta Isaías apresenta uma imagem belíssima da utopia evangélica do Advento: o monte do Senhor, a montanha santa que Yahweh escolheu para si na terra de Judá, sobre a qual se ergue até hoje Jerusalém, e se erguia desde milênios atrás do templo israelita. Isaías vaticina um destino glorioso para Sião: ela irá transformar-se no centro do mundo, âmago da história, para onde se voltam e se dirigirão todos os povos da terra; de onde brotará para o mundo a Palavra (davar=palavra do hebraico bíblico que provoca acontecimentos transformadores, fatos libertadores, ação concreta em favor da paz social) e a lei justa e libertadora do Senhor. Anuncia ainda uma era de paz universal expressa em belíssimas imagens das espadas transformadas em arados e das lanças em foices. Todo este quadro maravilhoso aparece iluminado pela luz do próprio Deus. Imagens similares à que acabamos de evocar encontraremos em outras passagens do Antigo e do Novo Testamento. O anúncio de um mundo renovado por Deus, no qual poderemos ser todos felizes, tolerantes, sem preconceitos, quando vier o Messias, o mensageiro definitivo da salvação, realizando o reino a olhos vistos! Todas as formas de bem-estar social, político, religioso. Estarão ao alcance de todos, sem distinção.

O Advento é tempo de esperança, não de simples espera. É objeto da espera aquilo que não depende de mim, aquilo que, mesmo eu não desejando muito, virá, antes ou depois, ou não virá, por causa de fatores que escapam ao meu controle. Frente ao objeto de minha espera, o único que posso fazer é entreter-me, distrair-me, “matar o tempo”, não sofrer muito por causa do desejo – como diriam pensadores conformistas. Uma “sala de espera” (não de esperança) é um lugar para “matar o tempo”, e é tão melhor quanto mais me distrai… Imagina-se que qualquer esforço não adiantará nada – quem sabe é apenas o sofrimento – pelo fato de estar desejando o objeto de minha espera. O Advento é tempo de “espera” com esperança, a outra espera que alimenta a esperança (sper, no grego, é a raiz da esperança): Um pouco além do presente, / alegre futuro anuncia: / Venha o teu Reino Senhor, / a festa da vida recria, / a nossa espera e ardor / transforma em plena alegria! (E.Reinhardt e J.C.Gottinari, O Novo Canto da Terra, Jacy Maraschin, Centro de Estudos Anglicanos).

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