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Nada mais importante hoje do que analisar o desmoronamento do protestantismo histórico, nas ênfases conservadoras, paradigmáticas, fiéis à igreja doutrinária, herdeira kantiana do individualismo e do autonomismo iluminista. Ignora as igrejas do terceiro mundo. Enquanto isso, o cristianismo católico romano vai também se esquecendo do profeta ecumênico, João XXIII, e recupera as proposições tradicionais: “na Igreja Católica Romana se encerra a essência da verdadeira igreja”. Caberia também outra reflexão para este trecho evangélico, ao fim deste Ano Litúrgico: os primeiros cristãos puseram palavras na boca de Jesus, segundo exegetas crítico-históricos do cristianismo primitivo (cf. Albert Shweitzer, Rudolf Bultmann, Käsemann, e outros), remetendo-se talvez a atitudes radicais que Jesus de alguma maneira refletiu em sua vida, mas pondo nelas também sua própria experiência existencial? Os primeiros cristãos eram etnicamente judeus. A prática religiosa herdada prosseguia. Durante muito tempo continuaram participando no Templo e na Sinagoga, sem pensar num abandono de sua própria religião judaica, matriz do cristianismo. Depois, com o tempo, os acontecimentos lhes mostraram e lhes indicaram que podiam estabelecer uma nova resposta, e que essa nova perspectiva religiosa podia ser fundamentada em Jesus. Vinham de uma tradição bem antiga, e se sentiram com o direito – e talvez na obrigação – de criar sua própria tradição. Os gentílicos, porém, dominariam a Igreja Antiga, um século depois.
REFLEXÃO SOBRE A “DEMOLIÇÃO” DA RELIGIÃO OPORTUNISTA
Lucas 20,5-19
A segunda vinda de Cristo, pensada de modo fundamentalista, provocou continuamente na história preocupações, temores e angústias. A teologia recente, libertária, ao contrário, afirma que a vinda do Senhor não é uma ameaça, mas uma esperança. Por isso gera confiança absoluta. Não se pode produzir pânico, temor ou medo, sob a égide da esperança. Diante da história, dos conflitos políticos-religiosos, viver em atitude de discernimento dos sinais torna-se importante para o agir da fé. Como reagiremos diante dos problemas políticos e religiosos que vivemos, se eles escondem os significados relativos à presença de Deus na história? O ser humano precisa se confrontar com a graça revelada em Cristo.
Hoje estamos também num momento de mudança na história. Não são poucos os analistas que crêem que estamos na presença de uma metamorfose da religião cristã. Algo termina (um Templo está se desmoronando… uma religião está se desintegrando…), e algo está nascendo (uma nova resposta religiosa no ecumenismo das igrejas de Cristo?). Quem dirá que em matéria de religião (ou de religiões) não pode haver mais nada de novo debaixo do sol? Quem dirá que novas gerações não têm direito de criar uma nova tradição religiosa, em torno da unidade dos cristãos que esperam um mundo transformado pela presença do Reino de Deus? Quem pode garantir, noutro extremo, que não se está criando essa nova tradição nos incontáveis movimentos religiosos que brotaram nas últimas décadas? Quem afirmaria hoje que Jesus queria fundar exatamente o que logo se construiu sobre seu testemunho e que não seria ele uma nova fundação ou refundição do futuro? É por demais impressionante que a Igreja se apresente em oposição ao Reino de Deus.
Quando li José Comblin (Cristãos rumo ao século XXI, Paulus, 1998), já vão uns 8 anos, fiquei estupefato. Ele nos advertia de que uma nova religião se esboçava no cenário latino-americano. Criticava o movimento carismático, também, na ICR, e nos alertava sobre o que estava por vir. Depois, tomei conhecimento da filosofia da hiper-modernidade (mais que pós-modernidade), de Gilles Lipovetzky, e estou procurando me situar nos significados da nova ética religiosa propositista-retributivista, disfarçada nas ênfases neopentecostalistas hiper-modernas dos últimos 20 anos. Segundo Lipowetsky, (O Império do Efêmero), a moda dos movimentos autônomos (pietismo, avivalismo) teve início no século XVIII como fenômeno de mutação constante, que alcança o protestantismo através do denominacionalismo autônomo, correspondendo ao idílio das sociedades barrocas e da ditadura dos criadores de novidades. Inclusive na Igreja Evangélica. O fenômeno moda passou então a contagiar todas as áreas da comunicação e das manifestações humanas, como a religião, com as recentes gerações se comunicando de forma mais visual, esquecendo-se da língua falada oficial e usando símbolos que as identificam no cenário urbano, demarcando o território que ocupam, e símbolos que dão a segurança de pertencerem a uma tribo/religião restaurada desde tempos imemoriais.
A realidade que vivemos gera desconcerto, desilusão e desesperança. Que estamos fazendo para devolver a esperança de transformação do mundo? Muitos cristãos estão lutando para construir uma nova história e por isso são perseguidos, caluniados e assassinados. Que estamos fazendo para construir a esperança, enquanto lemos os sinais dos tempos? Na tradição profética, o abandono do templo de Deus, símbolo da fé e da religião de Israel, e a sua destruição posterior, seria conseqüência da ruptura da Aliança por parte do povo. E Jesus, em continuidade com esta tradição, anuncia a destruição do templo porque Israel não o aceitou como o enviado para estabelecer a nova aliança entre Deus e os homens.
Muitos se impressionavam com as dimensões e extensões, pelo tamanho esplendoroso dos enormes blocos de pedra que compunham o templo (contraste extraordinário em relação ao “pedregulho”, Simão Pedro, simon petros, apontado como pedra angular do movimento de Jesus que prosseguia). Jesus disse algo que eles não esperavam: o templo é admirável pela sua enormidade e beleza? Pois assim como o vêm, não ficará pedra sobre pedra, tudo será destruído, até os alicerces. Jesus faz um juízo sobre o templo porque este perdeu o seu valor; antigamente ele tinha vida, agora foi convertido num covil de ladrões. Por isso seria destruído. Jesus não procurou purificar o templo!, exorcizando demônios que o infestariam. Mas denunciava a esterilidade da religião de resultados, pragmática, cofres cheios, e indicava um processo que levaria a buscar, em outro lugar, a verdadeira vida, o verdadeiro culto, Deus verdadeiro que não se vende com louvação e sacrifícios interesseiros.
Havia discípulos que pensavam: – destruído o templo, Israel também seria destruído e com ele, todo o sistema edificado ao seu redor. Não haviam entendido que Jesus procurava era reunificar e congregar o Israel renovável em torno do Pai. Mas longe do sistema injusto, da religião, da economia e política alicerçadas na exploração dos mais fracos e na cooptação dos bem-postos. Era o diagnóstico terrível da religião, da sociedade e da cultura intolerante, preconceituosa, atrelada ao fatalismo reinante, que justificava a ação de Jesus.
Entretanto, isso não iria acontecer sem perseguição, sofrimento e morte (os mártires de então são os mártires de agora: M.Luther King, Monsenhor Romero, e outros). O Evangelho sugere que Jesus lhes disse: “não se confundam, e ponham cada coisa em seu lugar. Uma coisa é o que vai acontecer com Israel e com vocês em relação aos chefes judeus, e outra coisa muito distinta é o final da história. Perante isto vocês terão que ver a maneira de agir no presente”. O fim do Templo não coincidiria com o fim da história… não é nada mais do que o começo do novo.
Dessa maneira Jesus deixou a seus discípulos pelo menos três lições: perante os conflitos políticos e religiosos é preciso viver em atitude de discernimento dos sinais que nele encontramos, para agir frente ao desconhecido, e ter certeza de que sua vinda levará a história à plenitude. Viver na expectativa esperançosa, e de frente para as tarefas do presente, atitude de vigilância permanente, é a mensagem do evangelho de Lucas.
Karl Barth (Comentário à Carta aos Romanos) marcava o início da “teologia da crise”, quando designava a Palavra de juízo divino contra todo empreendimento humano, se reconhecido como esforço humano de “implantar” o Reino, mesmo que o deus ex machina neopentecostal seja citação obrigatória para identificá-lo. Barth lembrava que o ser humano é descrito como um pecador, disse também que a Igreja é vulnerável, porque é também humana e pecadora. Isto se vê especialmente nas igrejas que viraram as costas para Deus e suas intenções de salvação e transformação do homem e da sociedade (Is 65,17-25), encontrando-se agora numa espécie de cegueira burocrática (Brakemeier, O Ser Humano em Busca de Identidade, Sinodal, 2002). Por si mesmo, o homem não possui a capacidade de conhecer a Deus. O conhecimento de Deus é uma dádiva a ser recebida pela fé em Cristo.
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Derval Dasilio