Derval Dasilio – Escritos&Artigos

23/10/2007

A Reforma Protestante e Deus

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A REFORMA PROTESTANTE E DEUS
(Lucas 17, 5-10 e 18,1-14)

Durante longos anos, a espiritualidade presbiteriana reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, idéia de João Calvino, dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam a idéia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja. Assim, o Papa estaria no topo da hierarquia da mesma, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local; o Papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como igreja católica universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes (não se deve esquecer que Zwínglio, Bucer, Lutero, Melanchton,entre outros reformadores, eram sacerdotes da Igreja). Ambos reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona”. Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando a Ceia, ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram procuradores com plenos poderes em questões de fé.

Assim, os reformadores, especialmente através de Calvino, refutam essa idéia do aprisionamento de Deus a uma representatividade religiosa. Podemos entender, então, que Deus é Outro, totalmente, inconfundivelmente, diferente do homem. O pensador Voltaire, debochava dos esforços para se provar a existência de Deus: “Se é verdade que o homem é imagem de Deus, também é verdade que Deus é imagem do homem…”. Depois da Reforma, a religiosidade protestante liberal do séc.XIX foi mais adiante. Negava o Deus da fé, além da negação dessa autoridade ministerial. Enquanto se esforçava em provar a existência de Deus, degradou, nivelou Deus a um ser qualquer que a razão, a inteligência, o saber, o conhecimento, podiam manipular facilmente. Aparece o racionalismo e o protestantismo escolástico no cenário metálico da razão.

O pietismo evangélico, por sua vez, tornou Deus um deus pessoal, particular, individual. Faz possível utilizar-se a figura de Deus como um deus-quebra-galho, nas orações (Lc 18,9-14: O fariseu e o publicano), desse modo, o crente pode reclamar reconhecimento de santidade pessoal, ou se pode exigir santidade do crente, enquanto o pietismo reage, como movimento religioso, ao racionalismo teológico de então, este preocupado em provar ou não a existência de Deus. O deus neopentecostal recente acompanha esse conceito pietista evangélico, numa linha mais prática: ali, Deus é desafiado a todo momento em responder às orações, sacrifícios espirituais e materiais, em favor de quem se disponha a comprar bênçãos e graças. A razão religiosa, sabedoria humana, induz a afirmar que Deus é vaidoso, comerciante e, além de tudo, necessita ser bajulado com presentes e agrados, para abençoar e agraciar o fiel com bens materiais, físicos, e agrados espirituais. E finalmente dar a paga pela graça da ascensão e status social. Dentro da igreja ou além dela

DEUS NÃO PODE SER COMPRADO COM LOUVAÇÃO…

E no entanto cristãos protestantes nunca se cansam de afirmar a gratuidade divina, e de proclamar a soberania de Deus, no seu modo de ser e no modo de agir: não é possível manipular Deus, fazê-lo vender graça e misericórdia. No ser de Deus, analisando-o com boa compreensão, encontramos uma distância infinita entre Deus e as criaturas. Deus é tudo que a criatura não é. No agir, Deus tudo cria, independentemente, por prazer de criar, razão pela qual não há nem cooperação nem liberdade de ação na criatura para impor necessidades a Deus. Deus reconcilia homens e mulheres consigo vindo até eles, e não o contrário. É Deus que vem ao encontro deles.

Reagindo àquelas formas de rebaixamento de Deus (visto na religião racionalista e na devoção pietista), escreveu Karl Barth, expressivo pensador cristão, certa vez: “Deus é Deus, sendo totalmente diverso de qualquer realidade humana, inclusive diverso da cultura e da religião do homem”. Expressões religiosas, igrejas, religiões, não confirmam qualquer semelhança humana com Deus, porque Deus não cultua a si mesmo através de nós, das igrejas, das religiões. Nem louvação, nem adoração, nem oração, nos justificam, por si mesmas. Bajulação não nos justifica diante de Deus, embora imaginemos que podemos explorar a vaidade de Deus, enquanto reivindicamos uma graça barata e inconseqüente.

Os reformadores disseram: só Jesus Cristo, por si mesmo, nos justifica. Disse mais, K.Barth, interpretando-os: “Nunca deixes de afirmar: Deus é Deus! Mas não te contentes em pregá-lo, aprende a afirmar que ‘Deus é Deus em si mesmo, por si mesmo, com precisão teológica’. Ou seja, com toda a exultação que acompanha essa proclamação de fé e esperança de salvação”. De fato, o que mais queremos é um deus à nossa imagem e semelhança. Um Deus de quem se possa dizer: “é a nossa cara”! Mas o rosto de Deus é totalmente diferente do nosso rosto.

COM A INJUSTIÇA HUMANA FICA DIFÍCIL PERSEVERAR NA FÉ

Como se vê, em meio ao sofrimento da injustiça, para muitos crentes fica difícil compreender que orar, insistir, perseverar na fé em Deus (sem a presença de um regime comercial do tipo: “é comprando que se recebe”… é adorando, orando, louvando a Deus, dizimando, que Deus retribuirá o esforço humano), ter esperança, é algo muito importante para o Evangelho de Jesus, sobre a gratuidade de Deus.

A parábola da viúva insistente pode ajudar-nos a entender o papel do cristão e das igrejas, enquanto nos indicará como viver em oração desde a noite escura que impera neste mundo, especialmente quando se pode ver a injustiça na sociedade, na política, no cotidiano, tornando muito difícil, muito duro, crer num Deus que é “fraco”, aparentemente, que parece não intervir nas realidades dos homens e das mulheres, fazendo justiça e vingando imediatamente o oprimido. Sentenciando o opressor (Lucas 18,1-8: Incomodem os que podem julgar!). E então nos perguntaremos se nós mesmos, em nome de Deus, já representamos sua vontade nas reivindicações de justiça. Somos denunciados por nossa consciência, quando nos escondemos dos semelhantes, e do próprio Deus? E, finalmente, é ou não um erro absurdo, estúpido, comparar Deus ao juiz irresponsável, que só atende a quem o incomoda com sua insistência?

OS REFORMADORES ENSINARAM QUE SÓ A GRAÇA PODE PERDOAR A GANÂNCIA E TODO ESFORÇO PARA SUBJUGAR O DEUS REVELADO

O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, como dizia Karl Barth, transcendente, imutável, infinito, inominável. Deus que conhece o homem, porque também se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, em seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor…obrigado porque não sou como os pecadores”; não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como os que vivem a vida de fé em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade e do esforço humano, de subir até Deus com seus esforços de santidade e avivamento espiritual.

São tentações que afastam da comunhão com o Pai, enquanto nos ensinam a prática do toma-lá-dá-cá. Com Deus isso não funciona. A gratuidade de Deus é inexplicável, sem exigência de retribuição. É isso que aprendemos de Lutero e Calvino, quanto à gratuidade de Deus: “O justo viverá pela fé”! Tão somente pela fé. Mas que fé? Certamente a fé de que seremos salvos. E salvos de quê?, por quê?, para quê?

As respostas poderiam ser estas: a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às nossas necessidades pessoais, oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, e sempre dispostos a recorrer a um deus-quebra-galho, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé. A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido para que o Senhor nos livre do mal. Inclusive da presunção e arrogância. Antes, porém, devemos orar com fé, para termos a fé que o Senhor nos ensinou: Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Essa profunda convicção animou Lutero a, em 1517, pregar seus poderosos sermões sobre os salmos penitenciais, os quais despertaram interesse de tamanho imensurável, ainda durante a vida do Reformador. A mesma convicção manifesta-se na paráfrase versificada do Salmo 130: “Se considerares nossos pecados e nossas iniqüidades, quem subsistirá na tua presença?… Apelamos tão somente para a tua graça”.

A RECOMPENSA DA SALVAÇÃO É A PAZ INDESCRITÍVEL NA COMUNHÃO COM DEUS

Lutero, então, conclui: – “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. Deparamos sempre com o “diante de ti”, expressão que, sem negar diferenças relativas entre os valores humanos, indica a medida absoluta aplicável nas relações entre os homens e o Mestre soberano.

O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. Na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível (porque não merecemos) de Deus. Ele se reconhece objeto da graça: apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho, não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32). O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser o que é, totalmente Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação de nossa parte, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para torná-lo um deus-quebra-galho a nosso serviço (deus ex machina). Amém.

16/10/2007

A ÁRVORE SEGUNDO O SALMO

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A ÁRVORE
“Como a árvore plantada junto às águas
que escorrem da Fonte da vida”.
Salmo 1

Quis homenagear Maria Lúcia, minha mulher, no seu aniversário. Então escrevi esta crônica: Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar, o eixo em torno do qual nos movemos internamente. Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, no entanto. Como negar que nosso corpo já começa a morrer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade. Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui.

Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho: será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos. Um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada. Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre-humanos, nos salmos e nos escritos sapienciais da Bíblia Hebraica. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento? Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno sujeito a deslizamentos destrutivos. O poeta construtor deste salmo traz inspiração para nossas vidas de caminhantes pelas ruas, dobrando as esquinas das cidades em que vivemos. Está preocupado com os sentidos das fontes cristalinas que nunca secam, borbulhando sabedoria que corre mansa sem preocupações com o tempo; fontes que dessedentam os viajantes peregrinos em busca do infinito, descontentes com o mundo imediato e suas paisagens devastadas pela destruição, pela violência do ser humano contra si mesmo. As imagens nos servem quando trafegamos em avenidas largas ou estreitas; ou andamos de metrô, ônibus ou automóvel; quando encontramos pessoas rindo ou chorando, cantando ou pedindo alguma coisa, nas praças, nas ruas destinadas aos camelôs ou ao comércio mais nobre das boutiques ou onde estão os shoppings centers. O que se vê é que as pessoas querem ser felizes.

As imagens bíblicas, poéticas, nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolo = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude. As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).

A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos. Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); abertos, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher.

Falando pelo que entendo, há valores importantes a serem considerados, quando somos convidados a observar a vida em busca da Plenitude e da Sabedoria. Isolados no egoísmo e na idolatria consumista, inclusive de religiões e variações eclesiásticas de mercado que se impõem nos nossos tão breves dias, nunca entenderemos o que Deus faz em nós… como faz da árvore bem plantada e ao mesmo tempo voltada para a totalidade da vida. Onde nos encontraremos com Deus? Diria mais: quem quer a verdadeira experiência de Deus não vai procurar templos ou museus, apenas contemplando os símbolos que ali estão, por mais belos que sejam. Quem quer encontrar Deus, em sua plenitude, vai buscá-lo na vida, no cotidiano. Também não custa trazer à mesa da comunhão os que chegam “de todo lugar que se tem pra partir”(Edu Lobo). Ou, de outro modo, percorreremos os caminhos que existem, iremos recebê-Lo nos lugares onde chegam homens e mulheres de todas as partes, de todos os lugares. Nas rodoviárias, nos portos e aeroportos da vida. Hoje é um belo dia para esse encontro.
Que é que você pensa? Estamos de acordo?

Derval Dasilio,

10/10/2007

CRISTO LIBERTA PARA O GOZO DA VERDADEIRA LIBERDADE

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pensadordesconfiado.jpg“Fiquem firmes e não se submetam de novo à escravidão” – Gálatas 5:1

Quando as referências que me dão não me bastam; quando pergunto quem cuidará de mim; quando as regras e obrigações religiosas não me amparam; quando se oferecem rotinas, rezas, orações, leituras bíblicas, ou quando preciso compartilhar os sonhos e as desilusões que tenho, sentimentos de fracasso, necessidades que tenho de realizar algum empreendimento, entre tantas coisas reprimidas constantes nos valores religiosos, quem me dará cobertura? É certo que necessito viver alguma coisa absolutamente nova e surpreendente, por exemplo. Estarei procurando um sentido fora da autoridade dos valores repressores da comunidade à qual pertenço, muitas vezes. As referências insuficientes, os conceitos, os métodos, os princípios, quando preciso buscar novas soluções para minha vida; quando preciso encetar novos empreendimentos, simplesmente estarei apontando para minha liberdade em Cristo. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso.

Por mim, digo que não sabemos viver sem a autoridade da religião, dos dogmas religiosos, dos fundamentos e da catequese das igrejas que nos ensinaram, a seu jeito, o que é seguir o caminho…. Nisso reside um grande prejuízo para o conceito evangélico do que é ser humano e ser cristão ao mesmo tempo.

Livres em Cristo, enquanto somos também crentes e cristãos num mundo onde a grande questão permanece, como viver a liberdade que o Evangelho ensina? Busco a Lutero, e ele me remete para o que Paulo escreveu aos Gálatas, povo que dá testemunho bíblico da salvação e da libertação no mundo gentílico: Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres… (…) fiquem firmes e não se submetam de novo à escravidão (Gálatas 5,1b). O risco é iminente: as castas espirituais, na comunidade, estão exigindo obediência a preceitos e valores religiosos em atrelamento ao passado recente, antes da experiência de Deus que os convertera à liberdade. Paulo lhes diz, ao jeito rabínico no qual fora treinado, que eles não eram mais filhos da Lei, dos preceitos, dos regulamentos religiosos, mas filhos do paizinho amoroso, carinhoso, cuidadoso (”Abba” quer dizer, como os baianos se expressam muito bem, Paínho). A imagem do Deus invisível, diz Paulo, é Jesus de Nazaré, um ser muito humano até as últimas conseqüências.

SOLIDÃO ÍNTIMA, PRIVACIDADE ESPIRITUAL

Esta solidão é essencial na experiência de Deus. As pessoas necessitam de espaço para viverem a sua humanidade, com calor afetivo, buscando amizades; com maior proximidade umas com as outras, enquanto conquistam espaços sem medo de serem felizes, de eventualmente até mesmo gozarem de solidão íntima, privacidade espiritual. Esta solidão é essencial na experiência de Deus. Nem o pastor, o analista, o companheiro ou a companheira; nem os namorados, ou os orientadores espirituais, podem penetrar nessa intimidade. Só o Espírito de Deus.

A pessoa que perdeu suas referências, que não encontra acolhida para compartilhar seus fracassos; que passa por rupturas de sentimentos, sentido-se como que num deserto sem bússola, depois de colocar seus valores de vida de cabeça para baixo, precisa encontrar um novo sentido para a sua vida em liberdade. A crise das mudanças, na família, no trabalho, no envelhecimento, na vida espiritual, deve ser sentida em profundidade, mas com esperança de ressurreição. É assim que Paulo fala do ser novo, em Cristo Jesus. Nasce uma nova criatura.

Carl Rogers usa termos bem significativos para nossas situações de crise. É preciso reconhecer que a liberdade é uma conquista enquanto se exercita a própria liberdade. Creio que isto está de acordo com o sentido da liberdade em Cristo, na liberdade para sermos humanos. Isso implica no reconhecimento de nossa finitude, de sermos seres que experimentam solidão, tristeza, remorso, revolta, cólera, impotência; somos pessoas que passam por crises existenciais, crises de saúde (lembrando especialmente os doentes terminais, ou os que não conseguem se locomover), inseguranças, sentimentos de falta de sentido nas relações com os outros ou com o mundo; que sofrem abalos sísmicos, terremotos, tempestades, furacões interiores, arrasando sentimentos internos de falsa segurança e derrubando estruturas espirituais frágeis.

Como sois tardos de coração…, disse Jesus (Lucas 24:25a). Cristo é o Libertador das nossas consciências oprimidas, para que estas sirvam a Deus e ao próximo, disse Dietrich Bonhoeffer. A consciência libertada confia no Espírito de Deus, que ensina a orar, quando não sabemos o que fazer diante dos dilemas de nossas vidas (Romanos 8:26). É assim que o crente responsável age, confiando em que a penumbra logo se tornará luz, quando a liberdade é exercida em obediência a Jesus Cristo.

A realidade é como um pontinho negro em busca de uma página branca. Logo se juntam outros pontinhos, e se forma a palavra liberdade. Pessoas infelizes têm medo à liberdade, querem-na, mas estão divididas, ou presas a falsas seguranças. Elas não estão em paz porque não estão inteiras. No hebraico, a palavra “shalom”, que normalmente traduzimos por paz completa, em todos os sentidos, quer dizer “estar inteiro” (Jean-Yves Leloup). Elas não estão em paz, estão divididas, porque têm medo de usar a sua liberdade em Cristo.

O mandamento é aquele revelado em Jesus Cristo, e este mandamento abrange a totalidade da vida, liberta para a totalidade do ser. Libertação para a vida é como se libertar para a responsabilidade da liberdade. Um movimento da ação libertadora do próximo; uma dinâmica de libertação do medo de decidir, de agir, em obediência a Cristo. Em Cristo, a liberdade se concretiza através da certeza, da calma, da ternura, da confiança, da ponderação e da paz. Sujeitos às referências religiosas, rituais, doutrinais e modelos sacralizados de valores cristãos, falsas seguranças, jamais experimentaremos a liberdade da fé. Paulo Freire disse com propriedade: “ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”.

Lutero (Da Liberdade Cristã), por causa desta posição, de que a verdade do evangelho chama à liberdade, encorajou-nos a enfrentar as forças demoníacas da opressão das consciências. Calvino, por sua vez, anos mais tarde, produziu os fundamentos para a resistência aos poderes deste mundo, religiosos ou não, afirmando a soberania de Deus sobre toda e qualquer autoridade, gerada de corporativismos e privilégios. Inclusive os religiosos. Esta posição tem libertado povos e nações… e pessoas. Diremos, também, que nos libertará da opressão da consciência que quer se impor em toda parte e em todo lugar.
 

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