Derval Dasilio – Escritos&Artigos

23/08/2007

FOME DE UNIDADE NA IGREJA DE JESUS CRISTO

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João 6,35;41-51 –  “Quem me come terá mais fome…”


Pan de la Eucaristía / Pão da Eucaristia(Luis de León)Si pan es lo que vemos, / Se pão é o que vemos, ¿cómo dura, sin que, comiendo dél, se nos acabe?/Como dura sem que, dele se comendo, nunca acabe?/Si Dios, ¿cómo en el gusto a pan nos sabe? / Se é Deus, como é sentir Seu gosto? /¿Cómo de sólo pan tiene figura?/Tem somente a figura de pão? / Si pan, ¿cómo le adora la criatura? / Se é pão, como pode a criatura o adorar? / Si Dios, ¿cómo en tan chico espacio cabe? / Se é Deus, como cabe num espaço tão exíguo? / Si pan, ¿cómo por ciencia no se sabe? / Se é pão, como não somos conscientes disso? /Si Dios, ¿como le come su hechura? / Se é Deus, como pode ser comido em seu feitio? / Si pan, ¿cómo nos harta siendo poco? / Se é pão, como pode nos fartar sendo tão pouco? / Si Dios, ¿cómo puede ser partido?/ Se é Deus, como pode ser partido?
Com este poema, ouso traduzir do meu jeito, sem roubar do leitor o gosto de seu próprio entendimento, introduzo meu livro Reflexões sobre o Partir do Pão e a Eucaristia.

Assim, sob a influência da beleza, que é atributo de Deus, e evoca seguramente a sua glória participada com o humano, introduzimos os textos coletados aqui e ali, sempre prontos aos acréscimos, aos sentidos novos na releitura que se abre ao transcendente. O mistério da Santa Ceia é da alçada do mistério sagrado e não da filosofia. Na poética das utopias sonhadas, recorreria a Gaston Bachelard, parodiando-o: “ousai dizer o que chamais de eucaristia, doce como um fruto que primeiramente se condensa, / para chegar à claridade, ao despertar, à verdade transparente, / tornando-se uma coisa aqui da terra / que significa o sol e a própria terra”. Pretender aproximar-nos dessa significação por meio de considerações ontológicas, relativizá-la na origem das coisas, conduz a um impasse. São condenadas ao fracasso as especulações que pretendem compreender pela razão e pela inteligência aquilo que pertence à ordem da fé, por submeter a exame de laboratório algo que se furta a toda objeção ou intervenção humana (J.-Ph.Ramseyer).

Assim, o mesmo ocorrerá com as gaiolas doutrinárias que prendem os mistérios de Deus, enquanto excluem os demais irmãos em Cristo na comunhão particular. Enquanto não recebermos todos os irmãos na mesa da comunhão, em hospitalidade eucarística, sinalizaremos o pecado que não nos habilita à eucaristia plena; pecado que nos separa (diábolos), enquanto retardamos a hospitalidade do Cristo que orou por nós: “Pai, que sejam um, como Eu e Tu somos um!”

Compreende-se, pois, que Jesus não tenha usado imagens celestes para anunciar as coisas transcendentais do Reino de Deus, mas tenha buscado a concretude terrestre do pão e do vinho, oferendas da mesa da comunhão. Um banquete é uma boa imagem para representar a promessa do Reino celebrado por seus súditos, de todas as procedências, uma verdadeira comemoração pelo cumprimento das promessas divinas, e se tenha então apelado às figuras das dádivas e das oferendas da mesa eucarística. Na repetição de uma simbologia de costumes e significações históricas a ceia pascal pretende dar a imagem antecipada da realidade escatológica que é o banquete messiânico, sem exclusões. Ondas nervosas correm nas linhas e nas imagens do texto joanino.

A raiz do homem, suas profundezas imemoriais, a alma, o ser inteiro (nephesh) tem fome e sede de vida (hayyîn é vida; no momento da criação do ser-homem Yahweh soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”; adam, coletivo de humanidade, começa a viver com o “alento” do Criador). Comer e beber são necessidades vitais. Uma vida feliz sem fim, plena de bem-estar social e político, eterna, emerge de utopias mais remotas, mesmo quando aparentemente esquecidas nos abismos da existência humana. O equilíbrio virá no anúncio conseqüente do shalom, a paz que excede a todo entendimento, onde todas as formas de bem-estar, concretas, terrenas, celestiais, são alcançadas. Trata-se de um pensar que opera no mais escondido lugar onde se quer sepultar, sem esperança de ressurreição, reafirmado nas promessas do Deus da Bíblia. Os cumprimentos finais encontram aqui uma antecipação histórica, uma atualidade, que é presença e promessa do Reino de Paz e Justiça.

“Reconhecer e compreender agora as significações das coisas últimas em suas manifestações mais sensíveis, agora; alimentar a esperança a partir da encarnação concreta nos problemas e nas necessidades humanas, na celebração da Ceia do Senhor, mais que nunca, é admitir que é o Pão da Vida que se oferece como alimento e libertação dos homens e das mulheres no tempo de salvação.Reconciliação é uma palavra mágica, “…para que o mundo creia”: o mundo só crerá no Salvador e na salvação se os cristãos se apresentarem como reconciliados e unidos.

Para o evangelista João o mistério da Eucaristia se inscreve numa situação cuja peculiaridade é que, sendo terrestre, ela se esclarece no céu, donde, aliás, recebe sua significação. As realidades presentes são promessas de um destino sobrenatural, ao passo que as realidades futuras já tomam forma nas figuras temporais. A memória reavivada na Eucaristia alcança um surrealismo impressionante, como significações que evocam flores e perfumes, belezas do mundo real, gostosas de serem sonhadas, e saborosas ao mesmo tempo, no dizer da instrução para a comunhão da mesa. Só a voz do poeta, sem surpresa na linguagem de João, permite penetrar no âmago da instrução eucarística do evangelista.

A comunidade de fé, ciente das próprias forças e tarefas, supera a divisão entre a hierarquia e o laicato, entre teólogos e não-teólogos. Porém, principalmente, está acima das divisões históricas que clamam por reconciliação. Crê que a Ceia é do Senhor, e não da Igreja. Ou melhor: de nenhuma igreja denominacional. Vence, assim, na própria área de ação, a alienação produzida pela divisão de tarefas, na Missio Dei (Missão de Deus). Numa sociedade que estabelece privilégios e fronteiras de classes, mantidos através da crescente divisão do trabalho e da especialização, a Igreja na unidade pode demonstrar a esperança por um futuro mais humano por meio do que estamos chamando de “comunidade ministerial” evocada em Efésios 4: “toda a Igreja é ministerial”.

Todos os batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, são chamados por Jesus Cristo para realizar a Missão de Deus. Por quê? Porque no ato do Batismo há a impetração da bênção. A imposição de mãos no batismo significa a inclusão do batizado nos ministérios da Igreja, nas palavras sábias do colega Anacleto Rodrigues da Silva. Está em companhia de Comblin, que também pensa assim. Concordamos, aplica-se também aos que “podem” ou que são “habilitados” a participar da Ceia do Senhor. Que mais clareza se exigirá da Escritura? Negaremos, também, o batismo dos outros irmãos, para excluí-los da comunhão com Cristo?
Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

11/08/2007

Derval Dasilio – Escritos

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08/08/2007

SÁBADO: MEMÓRIA DO LEGALISMO E DO PRECONCEIT0 CONTRA MAIORIAS E MINORIAS

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mao-e-cruz-animation.JPGÉ sábado, a vida continua, os que estão saciados não percebem, mas os que têm fome continuam famintos (Marcos 2,23- 28;3,1-16). O sábado era uma das observâncias mais importantes no judaísmo, uma certa nitidez que se exigia para distinguir o judeu do pagão. A autenticidade aparente, sem dúvida, era mais exigida que a convicção religiosa interna. Aí, viver como o pagão não significaria algo tão importante. Por exemplo: no uso do dinheiro; nas relações de trabalho explorando compatriotas; no oportunismo político dos dirigentes no tráfico de influência; na crucificação de judeus rebeldes ao regime imperial; na eqüidistância quanto aos compromissos e responsabilidades sociais para com o povo, coletivamente. Ao contrário, a violação do sabbah era motivo até para a pena de morte (“Saíram pensando em matar Jesus…”, cf. 3.6). Os regulamentos exigiam que certas atividades não poderiam ser exercidas durante o sábado, mais exatamente: trinta e nove artigos regiam “o que não deveria ser feito durante o sábado”, inclusive preparar alimentos para comer, no judaísmo contemporâneo do evangelista Marcos.

Esfregar espigas para comer, mesmo que depois do “horário regulamentar”, era considerado uma infração. O sábado adquiriu seu real significado na época tardia intertestamentária. No judaísmo pós-bíblico tornou-se preceito indispensável.A história do “sabbah”, no entanto, começa com a importância que o escrito sacerdotal (P) lhe dá desde o Gênesis, na Bíblia. Muitos dos preceitos sobre o “sabbah” são heranças cananitas, e outros tantos do mundo babilônico. O sábado foi “sabattu”, tabu referente a algum dia, no passado remoto, como era tabu acender fogo. Um dia de tabu é sempre contrário a um dia festivo, que é repleto de alegria, mas também comemorado em locais sagrados. Experimentar a presença cultual de Deus sob formas repressivas é influência pagã na religião de Israel. O mundo babilônico também conhecia o “sab/pattu”, o dia de lua cheia, relacionado ao tabu do “sabattu” (Gunneweg, Teologia Bíblica do Antigo Testamento e Imschoot, Théologie de L´Ancien Testament). Confirma-se a influência estranha do paganismo vizinho. É religiosa , essencialmente.Hoje, poderíamos falar do legalismo religioso enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo: “Saíram pensando em matar Jesus…”, quando constataram a desobediência profética do Homem de Nazaré.

Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas evangélicas. Já contei antes, porque ouvi de outro: Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo europeu, britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu a observação numa placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã, parece, embora impressionado pelo Evangelho. Não há notícias, da época, sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à causa de Gandhi, exceto um pastor anglicano que o acompanhou por muitos anos, desde a África do Sul.O legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo, entre cristãos. A palavra “eqüidistância”, no entanto, é bem freqüente entre evangélicos, quando está em questão alguma luta libertária, em qualquer parte do mundo. Exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o evangelicalismo fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, em clara manifestação racista fundamentada supostamente em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”, como diziam os cristãos que reagiam contra a cessão de direitos iguais para todos os cidadãos e cidadãs negros, a favor do apartheid que ainda existe na sociedade norte-americana (cf. Crash, roteiro e direção de Paul Haggis). Nelson Mandela passou anos na prisão, em razão da defesa de causa semelhante, na África do Sul.

Onde está a Igreja ou o cristianismo oficial sob o legalismo evangélico ou protestante, nestas situações de opressão, discriminação e exclusão? Logo se declara eqüidistante, no mais das vezes. Quando não se omite inteiramente. Quantas vezes as igrejas estiveram ao lado das ditaduras, especialmente na América Latina, quando igrejas e organizações “cristãs” se diziam eqüidistantes, tratando de sufocar lideranças na resistência ao autoritarismo militar, denunciando irmãos ao aparelho repressor do Estado, como ocorreu com o pastor Jaime Wright e seu irmão, presbítero Paulo Wright (este, preso, torturado e morto pela polícia política da ditadura militar que subjugou o Brasil por vinte um anos; Jaime Wright, pastor presbiteriano líder na luta pelos Direitos Humanos durante a ditadura militar, morreu deprimido e desgostoso, alijado pela igreja a quem servira por vários anos)? Os nomes são apenas alguns entre inúmeros exemplos na Igreja sob a ditadura militar, como os do presbítero Waldo César e do pastor Zwínglio M. Dias. Não nos impressiona a posição sistemática, histórica, do protestantismo brasileiro em favor da repressão política e religiosa.

Hoje, a luta das minorias sexuais, a integração indígena com indenizações cabíveis ao holocausto imposto, que dizimou, talvez, 3.500 milhões de nativos, fazem parte do inconsciente preconceituoso que nos toma a todos.
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Derval Dasilio

04/08/2007

MEMÓRIA DA PÁSCOA: JESUS É O MÁRTIR DO REINO

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carregam-sua-cruz.JPGA Paixão e a morte de Jesus são a maior revelação da manifestação da misericórdia do Pai. Parece incompatível com a fé a idéia de um Deus insensível que sacrifica Seu Filho como o Cordeiro ofertado para aplacar Sua divindade ferida e irada. Como admitir Deus como uma fera acuada pelo pecado da humanidade? Por isso este relato é um convite ao leitor a aproximar-se do Senhor, a seguí-Lo, a levar com Ele a “cruz” de cada dia (Lc 9,23). Também nos convida a prestar atenção no sangue dos mártires que acompanharam o exemplo de Jesus na história humana. O esvaziamento (kenosis), até a humanidade total, o sofrimento com causa, em solidariedade extrema, nos fazem reconhecer um Jesus que não foge à Sua condição humana.Na palavra que dirige na cruz ao malfeitor arrependido: “hoje mesmo estarás Comigo no paraíso”, lembramos esse ‘hoje’ que nos transporta a Lucas 4,21, quando na sinagoga de Nazaré, Jesus declara que “hoje se cumpriu” a passagem de Isaías 61,1-2, que acabava de ler. O tempo se cumpriu e Ele, que veio para anunciar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar o ano da Graça do Senhor, aí está. Cumpriu Sua missão, porque morreu pendurado da cruz, como Mártir do Reino de Deus, mas seguirá vivendo entre nós, ressurreto, e nós o reconheceremos. O testemunho (martyria), mais chocante da causa do Reino de Deus, na missão de Deus cumprida sem o uso dos atributos divinos, é encontrado em Jesus. O mesmo que foi chamado pelos pais da Igreja Antiga (primeiros líderes), de “verdadeiro homem e verdadeiro Deus” (Credos e Confissões da Igreja Antiga).

O Reino e a salvação não se conquistam sem a cruz. É o que nos diz a Páscoa, ou o que deveria dizer! A páscoa dos cristãos é a Páscoa da Ressurreição. A morte, assim, é a ressurreição conquistada, a Vida brota das sepulturas. “Eu sou a Ressurreição e a Vida…”. A Paixão, finalmente, nos convida a refletir sobre a causa do Homem de Nazaré, Mártir do Reino, morto, ressuscitado e glorificado pelo Pai. Tomé duvidou da ressurreição, (João 20,24), Jesus lhe disse, quando o mesmo conferiu Suas feridas: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!”.

Teólogo católico-romano toma posição diante do documento do Vaticano

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Teólogo católico-romano toma posição diante do documento do Vaticano.
Adital – 03-Ago-2007

Jung Mo Sung (www.aprendaki.com.br)

Bruno Rogério Almeida Paixão, estudante de Teologia no Centro de Formação Teológica R.Shaull, da IPU, enviou-me este artigo:

Em artigo publicado pela ADITAL – Agência de Informação Frei Tito para a América Latina, o teólogo leigo católico-romano Jung Mo Sung reage ao Documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, segundo o qual só a Igreja católica Romana é plenamente a Igreja de Cristo, afirmando que “se gastarmos muito tempo e energia discutindo estas questões, estaremos caindo na ‘armadilha’ – armada consciente ou inconscientemente – pelos proponentes do documento. Isto é, estaremos seguindo a pauta colocada pela Sagrada Congregação”.

Jung Mo Sung é professor no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e autor de vários livros. Considerando-se um “teólogo da liber-tação”, o prof. Mo Sung cita o teólogo metodista Julio de Santa Ana, ao dizer que “(…) a Teologia da Libertação tinha começado o seu declínio quando passou a discutir mais sobre a Igreja do que sobre Deus e o seu Reino”

“Se o debate a partir ou em torno do documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé ficar focado na discussão sobre Igreja, estaremos perdendo de vista o que é fundamental para o cristianismo: o anúncio do Reino de Deus e a luta em favor dos pobres e das vítimas de dominações e opressões”, afirma o Teólogo, ressaltando que “é claro que precisamos também debater questões sobre as Igrejas cristãs, mas sempre em função da nossa missão de anunciar o Reino”.

Veja a seguir o texto completo de Jung Mo Sung publicado pela ADITAL:

“A armadilha da discussão sobre a verdadeira Igreja
Qual é a questão fundamental em jogo na afirmação da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, da Igreja Católica Romana, de que só a Igreja Católica é plenamente a Igreja de Cristo? Eu penso que não é a discussão sobre qual é a “verdadeira” Igreja de Cristo ou qual é o verdadeiro sentido do conceito “subsiste” na afirmação do Concílio Vaticano II de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica. Como também não é a dificuldade que este tipo de documento traz para o diálogo ecumênico.
Estas duas questões são importantes, mas, na minha opinião, não são fundamentais e não devem se tornar o ponto central das nossas reflexões e dos diálogos neste momento histórico. Se gastarmos muito tempo e energia discutindo estas questões, estaremos caindo na “armadilha” – armada consciente ou inconscientemente – pelos proponentes do documento. Isto é, estaremos seguindo a pauta colocada pela Sagrada Congregação.

Apesar de serem importantes reflexões sobre o sentido do “subsiste” (e aqui eu quero destacar a reflexão feita por L. Boff, “Quem subverte o concílio: L.Boff ou o cardeal J. Ratzinger?”, que está circulando na Internet), precisamos nos lembrar que a verdade (teológica ou não) não é prisioneira só da ignorância, mas sim da injustiça e do pecado (cf Rom 1,18). Se a ignorância fosse a única causa da não-verdade, uma boa discussão iluminaria a todos no caminho da verdade. Mas, as verdades teológicas, éticas e existenciais são, na maioria das vezes, prisioneiras da injustiça, da vontade de dominação e prepotência. Pessoas e grupos que buscam a dominação sobre o outro ou a sua auto-afirmação através da negação do outro “conhecem” de modo diferente das pessoas e grupos que buscam a cooperação e o diálogo em torno de problemas comuns e com o objetivo de convivência fraterna.

O mais importante neste momento histórico também não é reconstruir a unidade institucional do cristianismo, pois o objetivo principal do diálogo ecumênico não é este. Aliás, eu penso que sociologicamente falando a criação ou reconstituição de uma única igreja cristã no mundo não é factível; e teologicamente isto seria um grande empobrecimento. A multiplicidade e a diversidade das igrejas e comunidades cristãs são expressões da riqueza e complexidade das ações do Espírito no meio de nós. A unidade – espiritual e não institucional – deve se dar em torno do serviço aos pobres, na luta pela construção de novas relações inter-pessoais e sociais que sejam sinais da presença do Reino de Deus entre nós.

Se o debate a partir ou em torno do documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé ficar focado na discussão sobre Igreja, estaremos perdendo de vista o que é fundamental para o cristianismo: o anúncio do Reino de Deus e a luta em favor dos pobres e das vítimas de dominações e opressões. É claro que precisamos também debater questões sobre as Igrejas cristãs, mas sempre em função da nossa missão de anunciar o Reino. Discutir questões eclesiológicas desvinculadas do Reino de Deus e da opção pelos pobres é cair na armadilha daqueles que querem fazer da Igreja o tema central e assim colocar em segundo ou terceiro plano os clamores dos pobres e das vítimas. Concentram-se na discussão sobre a Igreja “em si” as pessoas que perderam do seu horizonte de fé o Reino de Deus e, por isso, não lhes resta outro caminho senão buscar a segurança pessoal na absolutização da instituição religiosa a que pertence.

Eu me lembro de uma lição que aprendi do meu professor Júlio de Santa Ana. Ele me disse uma vez que a Teologia da Libertação tinha começado o seu declínio quando passou a discutir mais sobre a Igreja do que sobre Deus e o seu Reino. Um outro mestre meu, Hugo Assmann, também havia me dito que um dos problemas da TL é que ela tinha se tornada demasiadamente católica, que os problemas internos institucionais da Igreja Católica estavam se tornando um assunto central em muitas reuniões e textos de teólogos/as da libertação, enquanto que as reflexões teológicas ligadas e nascidas dos desafios das lutas pela vida e dignidade dos pobres e vítimas estavam perdendo o espaço.

Para evitar mal-entendidos sobre esta minha posição, eu quero dizer que nasci em uma família católica (os meus pais receberam o sacramento do batismo na Coréia do Sul enquanto a minha mãe estava me esperando), fui formado religiosamente como católico, continuo católico e me considero um teólogo da libertação. Foi lendo e meditando os mestres espirituais do catolicismo que aprendi que o mais importante é seguir a Jesus no amor e compaixão pelas pessoas que sofrem e, por isso, lutar por uma sociedade mais humana e justa. Aprendi também que a salvação eterna não é uma garantia por pertencer à “verdadeira Igreja de Cristo” e nem por ter lutado em favor dos pobres, mas sim uma graça que esperamos de Deus. Aprendi também que só abdicando da certeza sobre a nossa imagem de Deus ou a nossa Igreja ou religião podemos evitar a idolatria e viver a fé”.

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