Derval Dasilio – Escritos&Artigos

20/07/2007

O SOFRIMENTO, QUEM INVENTOU?

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anjoqueda.jpgQue poderemos responder, quando alguém nos indaga: “quero falar do evangelho, levar a salvação para uma pessoa atormentada, portadora de enfermidade incurável, revoltada contra Deus por permitir tanta desgraça no mundo, que faço?” Crianças morrem de fome, de doenças endêmicas que persistem em vários lugares do mundo; pessoas inocentes morrem, são mutiladas em guerras civis; pessoas com doenças socializadas, como o câncer, a AIDS, as hepatites de todas as letras, por exemplo, sucumbem diariamente e são levadas à morte… Se concedermos espaço, poderemos ouvir a descrição de algumas centenas de males e situações que denunciam dor e sofrimento, e não terminaria a denuncia das desgraças do nosso universo físico.Somos vítimas e contribuímos ao mesmo tempo para o sofrimento, onde vivemos. Temos responsabilidades mútuas, e as exercemos, principalmente se tentarmos apontar os problemas da moralidade nas políticas públicas que deveriam responsabilizar-se pelo sofrimento de tantos cidadãos e cidadãs, em tantas partes do mundo. Será, mesmo, que foi Deus que inventou o sofrimento, ou talvez o permite, quando inocentes são atingidos ou estão impotentes diante do mal e das desgraças do mundo? Será que Deus escolhe “pecadores” para imputar sofrimento, e “não-pecadores” para isentá-los do sofrimento e do mal? Gosto muito de Thomas Merton, mestre da espiritualidade, que escreveu: “Nenhum Homem é uma Ilha”, o título diz tudo…

Há perguntas, também, que deveriam ser feitas diante do propósito de explicar a dor, para interpretá-la à luz da fé. O sofrimento aparece estreitamente vinculado ao mal, sempre. Supõe ingredientes de culpa e castigo, pecado e rebeldia, e principalmente, interpela um “deus” que se apresenta a si mesmo como justo e bom, em medidas perfeitas, contra um homem que é justamente o contrário. Se uma pergunta pode resumir todas as interrogações, seria esta: “Por que, Senhor, tanta contradição nos relatos de Tuas ações?”. Com efeito, as voltas da reflexão acerca do sofrimento nos levam ao próprio princípio de nossa compreensão cristã da solidariedade de Deus. Se quisermos aproximar-nos do que a Fé nos ensina, o texto bíblico de Jó é referência obrigatória para a questão do sofrimento.

E Jó descobre que Deus não é responsável pelo mal e pelo sofrimento! Quem conta a história deixa a imaginação solta, usa a linguagem religiosa que gosta dos símbolos das forças antagônicas que lutam dentro de nós, humanos que somos. Não se trata de forças externas, acima do nosso mundo real, que travam batalhas incríveis para oprimir e dominar nossa natureza. Jó é um homem transpassado pelo sofrimento que pergunta sobre o mal. O texto paulino de Filipenses (2,6-8), sobre o esvaziamento da divindade que, com o despojamento divino, no entanto, torna o Senhor Jesus Cristo Deus Solidário que experimenta o sofrimento da humanidade na carne, como todo homem e toda mulher, aqui e em nenhum outro lugar, causa um choque em quem quer uma solução milagrosa para a dor. É um texto definitivo! Para muitos, essa afirmação é mais escandalosa que as perguntas e as dúvidas de Jó: Deus não poderia ser assim, humano, vulnerável, tão atormentado como qualquer mortal! É demais para o entendimento, dirá Paulo. A cruz é um escândalo!

É bom refletir um pouco… O exemplo clássico diz que Deus “consente” o sofrimento no mundo e não fala sobre a sua origem. Os Escritos Sagrados, no entanto, no geral, dizem sobre as escolhas humanas. Somos nós, homens e mulheres, que “inventamos” e produzimos o mal e o sofrimento. Temos responsabilidades no cartório, no mínimo por conivência ou apatia. Pior ainda, se atribuímos a poderes terceiros, diabos, demônios, forças do mal, escolhas que na verdade são nossas. Não nos redime. Não explicam nada da nossa realidade. Ao contrário, transferem nossa necessidade de decisão sobre o que nos oprime e faz sofrer.

A presença do sofrimento é uma constante, com o açoite na consciência que intensifica a dor moral: “É o pão que nunca falta à mesa… Onde estiver o homem, ali estará, como uma sombra, o sofrimento” (Larrafiaga). Mas, longe de aceitá-lo com naturalidade, entendemos que o sofrimento é inimigo, escândalo atentatório à condição humana, e adversário do anseio de liberdade dos homens e das mulheres. Conseqüentemente, o sofrimento nos força a uma dupla tarefa: enfrentar sua crueza imediata e, além disso, se convertido em angustiante problema humano, racionalizá-lo em busca de explicação.

Finalmente, o sofrimento exige decisão de nossa parte. Qualquer que seja o modo possível, é preciso buscar a superação de tudo que o representa. A inteligência da fé é chamada ao palco da tragédia humana com o crisol do Evangelho da Graça que ajuda a sanar as dores e sofrimentos humanos. Mais uma vez, a responsabilidade é nossa. Jesus Cristo, Deus Solidário, esvaziado de poderes sobrenaturais, identificando-se com a nossa luta, percorre conosco o caminho do sofrimento. Até que venha “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21): o Reino de Deus. A salvação do mundo sem sofrimento não é uma mensagem evangélica. A fé cristã não é uma propaganda do “mercado da felicidade”, mas a denúncia dos significados dessa propaganda.
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Derval Dasilio

18/07/2007

O SOFRIMENTO QUE REFINA A FÉ

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Buscar a felicidade sem sofrimento, todos querem. Mas será possível? Por outro prisma: é possível ser feliz sem sofrimento? O Evangelho contraria quem pensa assim. Paulo dirá: “Alegramo-nos, também, nos sofrimentos” (Romanos 5,3-5). Jesus Cristo inaugura novo pacto entre Deus e os homens. Seu evangelho é boa nova também diante do sofrimento. É impossível imaginar Jesus sem Seus padecimentos. De fato, “o Evangelho começa onde termina o livro de Jó” (Hans Küng). Mas sua resposta, esta sim, é paradoxal e assombrosa: “A grandeza extrema do cristianismo provém do fato não buscar remédio sobrenatural contra o sofrimento, e sim no uso sobrenatural do sofrimento” (Simone Weil). É somente pela ótica da fé que cabe contemplar a dor, não como inimiga, mas enquanto a possibilidade terrível, mas sempre útil, de despertar nossa verdadeira condição. E diante de Deus restaurar a plenitude de nossa vocação mais verdadeira. A conseqüência imediata da percepção do sofrimento à luz do evangelho é seu valor pedagógico: “O sofrimento como fonte de saber”, Simone Weil escrevia. Sua perplexidade acontecia face à perseguição e o extermínio pretendido de uma raça inteira, nos antecedentes e durante a Segunda Guerra Mundial: os judeus.

Ou então, dito de forma mais abrangente: “Sem sofrimento, não há sabedoria” (Larraflaga). Como se diz em inglês, do sofrimento se pode sair bitter ou better, “amargurados” ou “melhorados” e aperfeiçoados em nosso ser. Ninguém em sã consciência daria como bom a dor masoquista, mas em meio a uma comunidade pusilânime, que concebe a dor como mal-em-si-mesmo, fugindo dela custe o que custar, não é exagero recordar o fato de que o sofrimento desperta o homem de seu comodismo e o força a pôr em jogo o mais próprio e oculto de si. “Sofro, logo, existo” (Miguel Unamuno). É impossível imaginar o Deus-Homem que não sofre, solidário a todas as dores do homem e da mulher. A ressurreição do Senhor reflete a vitória contra o sofrimento e a dor.

Essa vitória paradoxal se manifesta em múltiplas expressões. Num sentido profundo e difícil de ser comunicado fora da linguagem da fé, o cristão aceita seu sofrimento fazendo seu o testemunho do apóstolo Paulo: “Completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo, por seu corpo, que é a Igreja” (Colossenses 1,24).
A Bíblia insiste, sobre os efeitos terapêuticos do sofrimento, no cristão, por mais que em si mesmo nunca seja recebido com agrado; “refina a fé” (Pedro 1,5-7), “contribui para a maturidade” (Tito 1,2-4), “permite expor as obras de Deus” (João 9,1-3), “(com)forma o homem à imagem de Cristo, que tudo sofreu” (Romanos 8,28-29), “produz firmeza de caráter verdadeira” (Romanos 5,3-5).

Como verdadeira descarga vital, a dor sacode qualquer adormecimento, fulmina a imaturidade e leva o homem e a mulher freqüentemente a níveis muito mais profundos de compreensão de si mesmos e do mundo. De onde a força da declaração cristã: “Qualquer sofrimento integrado em Cristo perde a sua desesperança e até sua própria fealdade” (Emmanuel Mounier). Somente a fé vital, pessoal e dinâmica em Deus tornará possível a fecundidade pedagógica da dor:”Alegramo-nos também nos sofrimentos, conscientes de que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência consolida a fidelidade, a fidelidade consolidada produz a esperança, e a esperança não nos engana…” (Romanos 5,3-5). Até mesmo a maior dor pode ser assumida, se for “provida de sentido”; muito pior que a pior das dores é sofrê-la sem propósito que a dignifique.
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Derval Dasilio

17/07/2007

A LONGA NOITE DA OPRESSÃO

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“Em minha angústia te busco, Senhor. Meu espírito indaga”.
Salmo 77.

Um preâmbulo é necessário: A memória nostálgica e aguda fere como uma canção de exílio dentro da alma; um espírito indagador reclama da tragédia presente, talvez do desterro em país distante, como na Babilônia. Poderia ser Castro Alves: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…” Parece ser uma grave situação nacional, um povo vitimado por um poder imperialista, que impõe um modo de pensar sobre povos dominados. Uma noite escura tenebrosa, para os que esperam no Senhor. Parece-nos bem familiar, essa escuridão, nos dias de hoje, sob um fundamentalismo cultural e religioso que se impõe ao mundo inteiro.

E o que falar da liberdade? Suas diretrizes, apossando-se sem piedade do espírito de muitos povos, e de muitas pessoas. Aqui, o poeta reclama do “roubo” da alma nacional dos hebreus no exílio. O povo de Deus é vítima indefesa da opressão, da usurpação de sua vida, de sua religião e fé. Hoje, vivemos uma longa noite de opressão cultural globalizada, e o evangelicalismo salvacionista endossa o cativeiro cultural, seja na religião ou no domínio político, bajulando os dominadores. Também estão roubando a alma do protestantismo autêntico. E procuram matar a esperança, polarizando as forças do caos e a ordem, a civilização e a barbárie. Não há alternativa possível, nessa lógica, ao medo da escuridão da noite de Bush, e seus comparsas evangélicos, fundamentalistas, propositistas, triunfalistas?

É uma oportunidade de expressar um vigor espiritual profundo, se realmente existe, no examinar da intervenção de Deus. Ele, o Senhor de Israel, agiu no passado. A conclusão, portanto, é que o ato libertador é possível no futuro próximo. Isso tudo é uma manifestação de vida interior, de experiência de Deus, no presente e sempre, na vida do fiel, na experiência dos homens e das mulheres! Nossas igrejas deveriam esperar e lutar pelas transformações com mais empenho. Como Isaías recomenda: “Preparando o caminho do Senhor”. Isso é impossível de se fazer e de se esperar sem que se abandone a mercantilização de tudo. Desde o sexo, passando pelas armas de destruição, até o próprio “Espírito Santo”, vendidos a granel. A exacerbação de todos os instintos, a erotização de todos os produtos, inclusive os religiosos, não inspiram mais que a regressão espiritual aos níveis mais primitivos?

Dietrich Bonhoeffer, mártir da história recente da Igreja de Cristo, nos lembra a oração da Igreja Antiga para a noite de repouso, que os Pais ensinavam: “Que Deus permita que enquanto dormem os olhos, o coração esteja desperto para Ele”. Mas há quem durma ingenuamente enquanto o perigo avança. Firma-se na falsa segurança de suas obras. Sempre se soube da afinidade do sono com a morte. Não é mais nada o que o salmista pede, quando, por fim, quando fala o que nenhum outro poeta bíblico falou: “Não ficava um rastro de Tuas pegadas, enquanto guiavas teu povo (através do mar).” Os antigos tinham a consciência, ainda, dos demônios da noite, do desamparo do ser humano durante o sono. Resta-nos reconhecer as “pegadas de Deus” na noite da história. De olhos bem atentos. Jesus andou nos caminhos da aflição, da angústia e do desespero dos oprimidos. Deixou suas marcas no passado, mesmo invisíveis para os que não têm fé? E na noite presente, como veremos as Suas “pegadas”? O clamor do salmista lembra os versos de Pablo Neruda, (“Vem para perto de mim,/ Mesmo que venhais com uma faca / para me ferir ./ A noite é longa, muito longa”). Agora fala o poeta bíblico, por si e por sua gente: “De noite repito minha canção, / medito nela ‘por dentro’ (no íntimo) / meu espírito indaga: / Será que o Senhor nos rejeita e não voltará a favorecer-nos (com a libertação e o êxodo)”?

O Deus do salmista é reconhecido na história dos homens e das mulheres, como no livro de Atos dos Apóstolos: “Ele entrava e saía, no meio de nós…” Os discípulos de Emaús voltavam desconsolados e entristecidos, no caminho de volta. O Mestre morrera como o Mártir da causa do Reino de Deus. Nem perceberam que Ele caminhava a seu lado, ressurreto e disposto a comer com eles a refeição do Êxodo! “Cai a tarde, a noite está chegando, fica conosco, Senhor…” Em casa, em torno da mesa da comunhão, reunidos em ação de graças, Ele partiu o Pão… e os discípulos o reconheceram, enfim: “Ele está no meio de nós!” (Lc 24,28). A comunhão do amor, dos bons, dos que sonham com o Reino de Deus, também se faz dentro da noite!

Antes, já reconhecera o poeta bíblico que não poderia “dormir” (v.5), porque o Senhor não deixava: “Eu te recordo, tu me desvelas com ‘olhos vigilantes’”. Lembro-me, aí, de Lutero, que recomendava: “Enquanto dormem os olhos, que vigiem os corações”. O hebreu tem no coração a sede dos sentimentos e de todas as percepções. O jovem Samuel, de sono perturbado, na longa noite, dizia: “Fala, que teu servo ouve” (1Sm 3,10). Há jovens, ainda, que querem ouvir a voz de Deus chamando-os para profetizar contra a sonolência geral?

Berthold Brecht, dramaturgo alemão, narrava, numa de suas peças que criticavam a ideologia nazi-fascista: “Eles chegaram na calada da noite, invadiram nossos jardins, pisaram nossas flores… não dissemos nada. / Entraram em nossas casas, comeram nossa comida… não dissemos nada! / Dormiram em nossas camas e vestiram as nossas roupas… não dissemos nada! / Por fim, estupraram nossas filhas e violentaram nossas mulheres… e porque não dissemos nada, agora, nada podemos dizer”.
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Derval Dasilio

16/07/2007

NOSSOS ANIVERSÁRIOS SÃO CURVAS PERIGOSAS

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Amigos. Um aniversário é apenas mais um aniversário. Mas é um aniversário. Reflitam comigo. Leonardo Boff ajuda-me a compreender: “O ser humano concreto é a coexistência de duas curvas, unidade tensa e dialética, jamais adequadamente equilibrada. Por um lado, centra-se sobre si mesmo, no intento de conservar sua carga energética (vida biológica), vivendo o mais longamente possível. Por outro, descentra-se de si mesmo indo ao encontro dos outros, podendo assumir a perspectiva deles (os outros) até em contradição com seus interesses pessoais (vida ética). Somos uma unidade tensa e difícil, irredutível, como em duas curvas. O ser humano não tem um corpo, ele é um corpo, uma realidade indefinível. Uma parte do meu ser, meu eu, percebe que nem eu mesmo sei quem sou, na totalidade. Mas eu sou meu corpo, estou no mundo, sou parte do mundo. Sei disso porque uso a inteligência, penso sobre mim mesmo. Sei também porque tenho vontade, necessito atender a necessidades interiores e exteriores. Mas, pelo coração sou capaz de habitar nas estrelas e buscar os confins do universo e o que está para além dele”. Quem sabe nosso grande companheiro nas reflexões sobre o ser ainda nos ajude mais?

Agora reflito eu. A vida está em si, mas também, e permanentemente, fora de si, nos outros, no mundo, nas estrelas, desde o coração de Deus. E esse crescimento na compreensão das coisas, na vontade de entrar em comunhão com elas, na busca da perfeição, do belo e do virtuoso, não tem limites nem fim. Podemos crescer indefinidamente? As realidades humanas não padecem barreiras? Essas duas curvas nos instigam… e atormentam. Uma delas com princípio e fim, tendo o paralelo ao horizonte físico e humano.

Certo. Mas a outra é infinita, possui um raio vertical apontando sempre para cima, enquanto se reinicia outra elipse, como uma sucessão de um “s”superposto seguidamente. Cada vez que uma curva termina outra se inicia. Elas, tendencialmente, podem crescer mais e mais. O céu é o limite do ser. Céu é plenitude. A segunda curva, porém, é transcendental, vai nascendo até acabar de nascer … e nasce de novo cada vez que termina. Um reinício constante na direção da plenitude. Uma dialética incrível, contudo, é a nossa vida, porque a referência inevitável é o horizonte da nossa humanidade. Curvas que podem ser perigosas, não é verdade? Parafraseio Vinícius: “São demais os perigos dessa vida…”

A curva biológica quer elevar-nos como um corpo que compartilha no espaço a presença de outros corpos, enquanto dialoga com eles. Porém, chegamos ao ápice das energias que acumulamos, no universo físico e seus determinismos, e vamos decrescendo até acabar de morrer. Voltamos à linha do horizonte. De fato, não sei onde estou. Fernando Pessoa pode me ajudar? “Entre o que vejo de um campo e que vejo de outro campo, passa um momento uma figura de homens. Os seus passos vão com ele na mesma realidade, mas eu reparo: O “homem” vai andando com suas idéias, falso estrangeiro. (…) Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo, a sua verdadeira realidade …” E corto aqui para não estragar. Até outra hora.

Obrigado por suas lembranças. Lembrar-me-ei de vocês, se puder, quando na última curva completar a caminhada comum na direção dos nossos céus. Quero compartilhar meus anos com vocês, certo de que a fraternidade que nos une, juntada aos mesmos sonhos de plenitude, nos levará cada vez mais à proximidade das estrelas e do que está além delas. Com a Graça de Deus.
Derval

SEM VERGONHA DE SER FELIZ

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Sem vergonha de ser feliz
“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13)
“Faz escuro, mas eu canto…” (Lutero)

No coração do evangelho de Lucas podemos concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus (um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido,o pródigo, para homenageá-lo com a Graça, em festa e grande alegria; sugxárete moi =alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito). “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz…”, poetas e cantores proclamam a alegria de viver (Gonzaguinha). Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética da do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, no desejo do bem, na felicidade e no prazer de fazer o bem.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Ética a Nicômaco, e Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinaram que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13).

Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranqüilo e seguro, sem ganância de poder, nem pensava numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “A ira de Yahweh dura um momento, e seu favor pela vida inteira”. Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria (Sl 30,6). O mais alto ideal cristão está aqui: a felicidade, a bem-aventurança eterna. Deus cuida de seus filhos e filhas através de nós. Sejamos felizes por isso.

A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina” que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, como nos lembra um ensinamento budista. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da potência, da sabedoria, buscamos ser felizes (Luiz Carlos Susin). Dificilmente alcançamos esse fim, no entanto. A manhã nunca chega, por esses meios.

O que desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o “ser abstrato em si mesmo”. O que queremos mesmo é sempre ser “felizes”. Concretamente. Dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o humano na sensação positiva da vida em gozo pleno: Um “cristão” pode e deve ser feliz com a música e as artes, a beleza, por exemplo? “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser massacradas e desaparecer”, queixava-se Lutero do iconoclasta Zwínglio, reformador suíço que proibira instrumentos musicais, arte lírica ou cênica, e paramentos litúrgicos no templo. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra… Lutero poderia ter pensado.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, inclusive, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que é, já, um esboço do que vai ser o “homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora”, como dizia William Blake, o poeta inglês. Tantos conteúdos da “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambigüidade de todos nós, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto!

Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa amada. Mas são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Luiz Carlos Susin disse isso. E eu assino em baixo.
Derval Dasilio

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