Derval Dasilio – Escritos&Artigos

09/12/2009

EVANGÉLICOS HONESTOS E EVANGÉLICOS CORROMPIDOS, QUAL A DIFERENÇA?

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p12

Pessoas evangélicas precisam encontrar quem lhes compre o voto, o corpo, a sensibilidade, o tempo, a criatividade, a energia vital? Como resgatá-las de ideologias constituintes do vilipêndio da pessoa e do corpo, já discriminadas na cor da pele, no tipo de cabelo, na opção sexual, no peso e na altura, se aí estão igualados na exposição da mídia, como objeto de consumo do poder político? Sem falar do abuso do culto neoevangélico à corrupção (como no mito da Hidra de Lerna, monstro que habitava uma caverna e infestava o pântano por inteiro; serpente imortal, com nove cabeças indestrutíveis, hálito fétido capaz de destruir a vida ao redor).

Evangélicos oram após receberem propina. Parte da informação sobre o vídeo em que aliados do governador do Distrito Federal, alvos da Operação Caixa de Pandora, são denunciados publicamente. Cena repetida, na mídia, “evangélicos agradecendo a prosperidade vinda da corrupção”. O tema do povo infiel dá o tom para a pré-comemoração do Natal profano. Os textos bíblicos para o Advento, ao contrário, são quase apocalípticos: pregam a conversão, “metanóia”, fazem exigências éticas, criticam o culto e práticas religiosas sem justiça ao povo.

Isso pouco interessa a neoevangélicos, mais uma vez apontados na corrupção política. O testemunho bíblico, pregação cortante contra a corrupção, como aço temperado, é impressionante. Pessoas se comovem, gentes se aproximam para perguntar: “Que devemos fazer?” (Lc 3,7-18), prova da perplexidade, pessoas perceberam que o batismo cristão tem exigências quanto ao comportamento testemunhal. A resposta indica: “convertam-se”! No meio da sociedade brasileira somos iguais, evangélicos honestos e corrompidos? O tripé que caracteriza a vida moderna, dinheiro, poder e individualismo, é a consagração da desigualdade até mesmo no nosso meio. Confundidos com a corrupção, quem diria hoje: “evangélicos,  reserva moral da nação”?

Jamais o culto à individualidade foi tão acentuado, na história do mundo. Temos aqui um tempero forte para a religião da prosperidade. Característica principal da (anti)teologia neoevangélica. “Lamento que a religião esteja tão banalizada a tal ponto de as pessoas não a verem como serviço a Deus e ao próximo, mas como servir-se da fé e do próximo; isso é uma inversão total de valores bíblicos”, disse uma autoridade católica.

A perplexidade está na defesa dessa “religião”, e que o povo evangélico se sinta justificado, confundindo ainda mais o que é verdadeiramente prosperidade como retribuição de Deus à fidelidade, fé, confiança (emunah), porque não há paz sem justiça em toda a Bíblia. Como admitir que Deus possa ser homenageado pela corrupção, chantageado ou transformado num caixa eletrônico, porque é fiel ao crente corrupto?

Recuperar a concepção da alma evangélica como totalidade viva (“nephesh”, no hebraico bíblico: corpo&alma, vida ética, pessoal e socialmente) torna-se uma tarefa prioritária de reconstrução do conceito para o cristão bíblico (“Eis que faço novas todas as coisas…” – Ap 21,5b). A integridade evangélica sofre violências incríveis, como a ganância pelo poder. Fome, sede, nudez, doença, prisão, referem-se a este corpo ameaçado pelo mundo contemporâneo. Sistemas econômicos mortíferos tornam-nos mercadorias vivas (como lagostas no tanque de vidro de restaurante japonês).

Necessitamos da Salvação, de nós mesmos, inimigos que somos do projeto de Deus, enquanto apoiadores da religião da prosperidade. As multidões, cuja infidelidade é proverbial nas Escrituras, prostituem-se facilmente, por isso não escapam da exortação: “Raça de víboras, façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram”. As alegações sobre o pertencimento a um povo eleito, álibi para desafiar as necessidades colocadas pelos profetas, são respondidas com veemência: “Eu afirmo que até dessas pedras Deus pode fazer descendentes de Abraão!”. O Novo Testamento explicita a alegria da justiça e da salvação que chega. Sendo insensíveis, podemos ser substituídos até por pedras ou elementos naturais (… “Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras clamarão”).

21/11/2009

“USE E JOGUE FORA” – CONSPIRAÇÃO CONTRA O JOVEM E O VELHO

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p11
Data da impressão: 24 de novembro de 2009

 

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br

OPINIãO
“Use e jogue fora”: conspiração contra o jovem e o velho

Você alude à baixa qualidade do que se oferece à juventude, nas igrejas. De outro modo, completa minha denúncia de que os principais assuntos eclesiásticos sobre missão e diaconia, de fato, são solenemente ignorados nas igrejas, assim como o cuidado com a juventude no século 21 (que se expressa no culto gospel, no entretenimento, no show business). “Em verdade vos digo”, não sabemos o que fazer com os desafios desse século, quanto ao discipulado da vocação cristã (Rm 12,2).

Como prevenir o dano biográfico, psicosocial, na infância, adolescência e juventude? Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição juvenil, gravidez de adolescentes, crack, Aids, mendicância, delinquência, antecipação da maioridade penal, são também consideradas ameaças severas para a juventude? Em que sentido pode-se colocar em risco o projeto de Deus de vida plena para esse grupo? Desde esta perspectiva, como poderemos atender demandas para uma permanente responsabilidade dos cristãos e das igrejas em relação às crianças, adolescentes, jovens, inclusive os velhos?

Como interpelar a sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução das relações entre atores ativos da violência intra-familiar, a partir do reconhecimento mútuo como seres humanos iguais em dignidade, liberdade e responsabilidade? A respeito da violência contra a mulher, a criança, da hétero e homofobia, a discriminação por causa da cor da pele, do(s) sexo(s) ou gênero(s); constituímos na igreja um chamado ao serviço libertador de pessoas, famílias, grupos, entre as propostas de serviço ao outro e à outra com as quais Jesus Cristo se identifica? Se existem, me avisem. Mais perto, não tenho visto.

Pessoas da terceira-idade também não têm um lugar legítimo na igreja. Valorizados e plenamente participativas nas famílias cristãs ou não, que dizer sobre os “maracujás murchos” sentados até com mais assiduidade que os jovens nos bancos das igrejas? A presença de idosos em nosso meio se apresenta como um peso tolerado, sublimado, idealizado hipocritamente, como nos tem ensinado a cultura bíblica e religiosa cristã e protestante da qual participamos?

Em que ponto pode a diaconia social cristã ajudar no sentido de integrar o idoso e o jovem na participação dos valores da sociedade contemporânea, referentes à cidadania, direitos e dignidade humana? Levamos em conta que o Pai, na Bíblia, por si mesmo não pode ser avaliado segundo as configurações simbólicas do velho que já fez tudo, não age mais, cumpriu seu papel? Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha!”. Agimos como que afirmando que nada mais se precisa fazer, além de contemplar um passado ancestral? Consideramos que a velhice é a proximidade da plenitude, no entardecer da vida, ou que a velhice é o tempo em que a vida se recolhe e não pode mais brilhar e dar frutos visíveis e maduros? Problema para a igreja cristã de hoje.

A longevidade aumentada constitui um prêmio da vida moderna. Ponto. Mas não por esforço das igrejas cristãs, que olham pra gente velha, como eu, como pés-na-cova improdutivos (e nós não somos pavios queimados). Na Bíblia, via de regra, a velhice não é tempo em que a vida se recolhe, como uma lâmpada se apagando por falta de óleo. Vinho bom é vinho velho. Maracujá enrugado é o que tem mais suco e sementes. Vida longa é um presente de Deus, a velhice reclama sua participação no desenvolvimento social e espiritual da sociedade. Se reclamamos do desprezo pela vida, de valores essenciais dissolvidos na liquidez moderna (solidariedade, cuidado, amparo ao enfraquecido), no egocentrismo consumista em ofertas de vida com qualidade somente para os mais novos – porque jovens serão consumidores por mais tempo – somos saudositas?

“Use e jogue fora!”. Há uma certa conspiração, uma ilusão compartilhada, para se ocultar um segredo íntimo pensado por muitos: “nada há a fazer com os velhos”, o bem-estar depende da rapidez como são removidas as coisas velhas e usadas da vida comum. Mas esta é uma igreja que cultiva o efêmero — como na sociedade civil — e se ela soubesse disso, ostentaria lápides nas tumbas invisíveis em que enterram conteúdos e valores que assinalariam sua ignorância dos reais perigos e das misérias que a acompanham, apesar da roupagem e dos aparatos modernosos de seus altares recentes.
Kyrie eleison.
Derval Dasilio

27/10/2009

REFORMA: AINDA HÁ PROTESTANTES?

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p10

LEIA:ULTIMATO ONLINE – PLATAFORMA:

http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1161

Ainda há protestantes?
Derval Dasilio

Necessitamos do protestantismo bem identificado. Nem todos evangélicos são “protestantes” no rigor do termo histórico (especialmente hoje, na oposição aberta da maioria evangélica), embora dediquem doses maiores de “ódio religioso” ao catolicismo romano. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências bem variadas. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão dispersas quanto a forma de organizar a igreja local (é possível tanto pragmatismo?).

Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Como um vaso quebrado em mil cacos, divergências aprofundaram-se na luta pela supremacia doutrinal. Teses da Reforma (“sola gratia”, “sola fide”, “sola scriptura”) não passam de lembranças hoje. Vende-se a graça despudoradamente; crença religiosa é fé. A hermenêutica fundamentalista diz que a escritura formal (Bíblia impressa) é mais importante que Jesus. Protestantes “não protestam mais”; corrompe-se o princípio.

O corporativismo evangélico funciona como mordaça, nem de longe lembra a unidade na Reforma (século 16). Mas, se todo mundo é evangélico, ninguém é “evangélico” (Longuini Neto). Enquanto isso, evangélicos requentam heresias: pelagianismo (salvação com obras, santidade com propósito, bajulação de Deus para alcançar “graça”); gnosticismo (devemos pensar que o “mundo real” é totalmente transcendente a este mundo); e o docetismo (o corpo está perdido, a aparência do mal é pior do que o próprio mal).

Nenhum reformador fundou sua denominação. Na igreja do Ocidente, “catholikos” é total, abrangente, universal. Grupos confessionais se acreditavam reformando a Igreja Romana e não a Ortodoxa, jamais separados da mesma. Essa era a igreja que lhes restara do cisma de 1054. O princípio “igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos. Não foi inventado por Lutero ou Calvino. Reformava-se a Igreja dentro da igreja institucional. Nenhum deles falou da criação de outras igrejas (contradizendo o equívoco, os reformadores não se afastam da igreja apostólica, igreja dos pais, igreja de Deus). Pouco mais de um século depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo e se declarou “separada” da igreja histórica. Sem pudor algum, “reformava-se” a Reforma, dividindo a igreja mais uma vez. Rejeitando os pais apostólicos, rejeita-se também os termos do primeiro Credo cristão (200 d.C.)?

Algumas das ideias mestras da Reforma não são mais observadas, como o “sacerdócio geral de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade de todos os discípulos, reclamada por Jesus (Jo 17): “Pai, oro para que sejam um, assim como eu e tu somos um”. É possível reunir evangélicos conservadores, progressistas, culturalistas, pentecostalistas e ecumênicos sob o mesmo teto? Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger e outros dirigiam a Reforma na Europa Continental e na Bretanha no sentido de uma popularização da fé original da igreja apostólica. Eram unânimes: a “ecumene” é intocável.

Resta dizer que a comunidade protestante se compreendia dentro da Igreja (“catholikos”), universal, no protestantismo emergente e desassociava-se do catolicismo no século seguinte. Mas a democracia do “laós” (povo) de Deus, ao que parece, ainda está por vir. Se existe, em muitas comunidades reformadas, está em retrocesso. O povo só diz amém. Quando o Novo Testamento (1Pe 2.9-10; Ap 5.9-10; 20.6) refere-se à substituição da elite sacerdotal, para a diaconia integral (eclesiástica e social) e a intercessão, autoriza-se todo cristão e toda cristã a colocarem-se como sacerdotes e sacerdotisas do reino de Deus dentro da igreja em favor do mundo. Prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade de Deus na terra. Homens e mulheres cristãos são o povo sacerdotal do reinado de Deus. Com a Bíblia, Lutero afirma que todo o povo da igreja é sacerdotal. Calvino diz o que é interpretado teologicamente (Ef 4.9-16): toda a Igreja é ministerial. E Karl Barth: mas “…a igreja é humana e pecadora”. Como ficamos, no atual “protestantismo”?

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

• Siga-nos no Twitter!

15/10/2009

IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p10

Igreja: decifra-me ou devoro-te!
OPINIÃO – ULTIMATO ONLINE http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1155
Derval Dasilio

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, não são esquecidos como influência literária.

Poderíamos visualizar, na Igreja, um lugar para “comer junto”, comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma “mesa”, comunhão de diferentes nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade por força do ensinamento apostólico.

O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma, fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, não é um produto de mercado, nem um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. Mesmo que seja um “cristo” como esparadrapo e analgésico. A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.

A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, são elementos que permeiam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, hoje?

A fé da igreja apostólica, “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade (Joaquim Beato).

Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.13), Spener (séc.17) e mais tarde John Wesley (séc.18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto. A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. O “Reino de Deus e sua justiça” deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se temos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te…

29/09/2009

NEOEVANGÉLICOS: RAÍZES PODRES E INDIGESTAS

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p09
Data da impressão: 29 de setembro de 2009

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br

OPINIãO
Neoevangélicos: raízes podres e indigestas

Os surtos neoevangélicos recentes são contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderna, certamente. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas in essentia, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.

A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a  religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão-se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas… Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento… Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros, mas denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada, ocorrerá gradativamente.

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento que se assenta vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neo-evangélico, dita novas regras?

A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.

Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina”  da teatrologia da  Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia.  A Graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.

—-

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Blog

10/09/2009

UMA ARCA ABARROTADA DE OURO NA CURVA DO RIO JORDÃO

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p09
OPINIÃO ONLINE 
10 de setembro de 2009  |  Visualizações: 150  | seja o primeiro a comentar
Data da impressão: 10 de setembro de 2009

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br

OPINIãO
Uma arca abarrotada de ouro na curva do Rio Jordão
Derval Dasilio

Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”… Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.

Daí se construiu toda uma ideologia idolátrica e romântica da Terra Santa: lá o batismo é mais santificado, a água é mais poderosa (embora a ideal, importada, seja mais cara que champanhe Don Pérignon Brut ou Vintage Rosé, 1996, mil reais a garrafa). Lá as pedras são sagradas, as folhas das árvores despoluídas espiritualmente. Faz um bem danado ao crente rebatizado! A água do Jordão, não a champanhe. Até o evangélico Bush foi lá, como bom fundamentalista, renascido, como carismáticos da Renascer em Cristo, dos famosos Hernandez e suas algemas eletrônicas, e do craque do Real Madri, Kaká, que pretende ser um de seus pastores ao aposentar-se do futebol. Tal e qual sua esposa, pastora Caroline Celico, que acaba de fundar uma comunidade/comodities em Madri (dinheiro é bom, principalmente na nossa mão…). A justiça norte-americana bloqueou bens do casal Hernandez, como a mansão em Boca Raton, avaliada em 495 mil dólares. Mas não alcança a fazenda em Mairinque, comprada por 1,8 milhões de reais. Meros sinais da teologia da prosperidade (deles)? Que água consomem ali, naquele paraíso? Aquela que passarinho não bebe?

Muita gente ganha dinheiro com esse comércio imoral e pagão (cf. Simão o mágico, At 8.9-24), vendendo porções de “terra santa” e garrafinhas de água do Rio Jordão com propriedades milagrosas, depois de pregações sionistas em templos evangélicos. Um subproduto desta bobagem é o “apoio incondicional a Israel” (palavras dos pastores). Afinal, foi dito a Abraão: “Abençoarei os que te abençoarem”. “E não há nenhum esforço para ver qual a diferença entre Ariel Sharon e Abraão” (Gedeon Alencar). E mesmo para identificar islâmicos como ramos da mesma e abençoada árvore abraâmica.

Na realidade, há árabes cristãos, libaneses, drusos e judeus sefaradies que não assimilaram a cultura sionista apreciada por neoevangélicos. Por sua vez, o termo “israelita” é aplicado aos seguidores do culto, e o “israelense” aos cidadãos do Estado de Israel. Todos esqueceram que, desde Esdras e Neemias, o termo adequado seria “judeu”, exterminada a religião de Javé, com o exílio babilônico (e só profetas anteriores falam do “resto de Israel”) e na diáspora. Jesus, saudoso do “resto javista” original, combateu vigorosamente os resultados dos últimos trezentos anos sob gregos e romanos e seu “helenismo” introdutor do capitalismo imperial monetarista, opressor e escravagista, no mundo mediterrânico. Má geografia, péssima memória histórica, em competições de estupidez teológica.

De fato, hoje, entre judeus históricos e israelenses são mais de 80% o grupo nacional formado por ateus ou agnósticos. Há apenas cidadãos de um Estado e seguidores de uma cultura, mas não praticantes de uma religião bíblica. Israelenses islâmicos, cristãos e drusos, embora registrados como cidadãos e portadores do passaporte de Israel, vêm, a seguir, em ordem decrescente pirâmide abaixo, de patins: drusos, árabes-cristãos (grego-ortodoxos, sírio-ortodoxos, armênios, coptas, uniatas, latinos, protestantes). Mais recentemente, tem surgido, segundo Robinson Cavalcanti, uma reduzidíssima expressão: judeus messiânicos, evangélicos judeu-cristãos. Árabes-islâmicos (com suas clássicas divisões) compõem o cenário. Miríade pluralista que não perde para o cristianismo brasileiro.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

22/08/2009

Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p08
OPINIÃO ONLINE 
Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa
Exemplos indignos de igreja gananciosa, mais respeitados que Estevão – cristão esquecido, mártir da fé resistente à religião retributivista, na compaixão, na misericórdia, no cuidado com os demais – Simão, Ananias e Safira fascinam evangélicos recentes tais como mágicos vigaristas e trapaceiros no viaduto Santa Efigênia. Políticos, segundo as últimas notícias que envolvem senadores e deputados federais do Congresso, envolvidos em mensalão, operação sanguessuga, propinodutos permanentes, representando milhões de evangélicos. São eleitos como “homens de fé evangélica” mesmo respondendo a acusações e processos por fraude, roubo e corrupção. Compõem a nova linguagem política nos púlpitos e nos templos transformados em palanques da nova forma cultural de “ser evangélico”. Leem a Bíblia fundamentalista, adestrando os fiéis para o uso da urna; defendem com unhas e garras o senador eleito com auxílio do crime organizado; promovem para nova eleição o deputado que renunciou para escapar à cassação do mandato evitando a inelegibilidade… Com a palavra os pastores parlamentares.

Algo que é muito embaraçoso nos tempos atuais é a verdade sobre a compreensão “evangélica” que torna a visão de Deus, do homem, da sociedade e do mundo extremamente preocupante, fazendo corar os que ainda têm vergonha. Ganância, sacrifício financeiro em favor de dirigentes religiosos, hoje são virtudes evangélicas e não pecados veniais. Promessas de prosperidade, politicagem rasteira, tal qual incômodas apostasias e heresias dos primeiros séculos da Igreja. Esse conhecimento nos traz uma culpabilidade relativa, uma vez que aceitamos e nos impregnamos do pragmatismo propositista do fundamentalismo que se ensina nas igrejas e que procuramos assimilar a qualquer custo. São absurdos, descalabros, no caminho e na transmissão da fé consolidada nos 150 anos de protestantismo no Brasil, com a Bíblia a tiracolo.

É o fim do conceito da transparência. Fomos sempre conhecidos como reserva moral da sociedade. Passamos à vanguarda imoral. Agora pertencemos ao lixo que faz feder o nome “evangélico”. Roubar, fraudar, usar de falsidade ideológica, enganar eleitores, não é mais pecado imperdoável. Escrevendo a Melanchton, Lutero disse em bom latim: “Esto peccator et pecca fortiter” (Sê pecador e peca forte). Só que esses evangélicos que não seguem o pensamento do grande reformador protestante fazem questão do acréscimo apócrifo: …“e crede mais fortemente na impunidade”. Eis o complemento do evangelho pelo avesso, na ganância de nossos parlamentares, evangelicais ferrenhos em suas campanhas. Igrejas/palanques dominam, controlam e influenciam a inveja das igrejas menores, enquanto pastores do baixo clero e cabos eleitorais da corrupção alimentam campanhas eleitorais sem pudor cristão.

Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo moderno, dizia que é preciso estar atento ao fato de que Deus entrou na história e na carne da humanidade por meio de Jesus Cristo.

Nossa herança difere da herança de outros povos e outras culturas quanto à revelação do Evangelho encarnado, quando prenunciava a pós-modernidade religiosa (carismática), a secularização evangélica (êxtase e ganância), vendo religiosos agindo como se Deus não existisse. Arrogando-se de serem donos do destino histórico de cada um e da sociedade humana em seu todo.

Agrade-nos, ou não, “nossos antepassados bíblicos são testemunhas do ingresso de Deus na história humana” (Thomas Merton). Deus, não o movimento carismático, retributivista, sem escrúpulos, faz nossa história. Quer admitamos ou não, sendo protestantes, evangélicos, católicos, a revelação aponta para Jesus, que veio para o “mundo” e o mundo não o conheceu (Jo 1.10). Jesus não utilizou sua imagem para impor a hegemonia evangelical triunfalista que adotamos. Ao menos no período apostólico da Igreja, os cristãos respeitavam o ethos bíblico. Por que nossos concílios eclesiásticos não acordam enquanto se recolhem em solidariedade implícita à desonestidade reinante? É um sofrimento ler a Bíblia e a história do protestantismo nesse cenário de omissão.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

Opinião do leitordeixe seu comentário
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar.
Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa
Absolutamente não sei
Onde estão os profetas?
Torturado por um mantra

06/08/2009

Sem vergonha de ser cristão, honesto e feliz

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p08
OPINIÃO ONLINE

“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias.” (Sl 34.13)

“Faz escuro, mas eu canto.” (Lutero)

No coração do evangelho vemos a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus. Um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido para homenageá-lo com a graça, em festa e grande alegria; alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (Gonzaguinha). Poetas e cantores proclamam a alegria de viver. Saint-Exupéry dizia: “O maior prazer é o prazer de conviver com os outros”. A ética do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, na felicidade e no prazer de participar do bem-estar de todos, na denúncia de privilégios de poucos e exclusão de muitos.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinou que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dia” (Sl 34.13).

Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranquilo e seguro, sem ganância de poder, sem pensar numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria”. O mais alto ideal cristão está aqui: felicidade, bem-aventurança eterna. E Deus cuida de seus filhos e filhas por meio de nós. Sejamos felizes por isso.

A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um passarinho que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-lo, como nos lembra um ensinamento oriental. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, por meio desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da sabedoria corrompida, da potência, buscamos ser felizes (L.C.Susin). No entanto, dificilmente alcançamos esse fim. A manhã nunca chega por esses meios. Permanece a noite tenebrosa que assustava Lutero. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra: “Faz escuro, mas eu canto”.

Concretamente, dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida em gozo pleno.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que já é um esboço do que vai ser: “Homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora” (William Blake). Tantos conteúdos para a “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambiguidade, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto! É um prazer não compartilhar com a corrupção reinante e não aceitar que um governante nos chame de “imbecis” e que seus aliados políticos sejam inatacáveis quando distribuem esmolas para o povo (Lula e Sarney).

Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela gente amada. Porém são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Jesus ensinou, e nós devíamos assinar em baixo.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

07/07/2009

MICHAEL JACKSON: UM FUNERAL SEM CRISE DE CONSCIÊNCIA?

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p07
 
sábado, 18 de julho de 2009  

   
 
  Revista Livros    

Receba o nosso boletim eletrônico
E-mail  
Adic.  Rem.
 
R$ 24,30
Fábrica de Missionários
R$ 32,40
Mochila nas Costas e Diário na Mão
R$ 39,90
Servos Entre os Pobres
 
OPINIãO
 
  Michael Jackson: um funeral sem crise de consciência
 
Derval Dasilio

Aí está uma séria questão. Nossos parâmetros não são humanistas. Porém, quando se trata de uma grande comoção, como a morte de um ídolo/símbolo desses tempos de hipermodernidade (tudo é exacerbado — até o esparadrapo na consciência coletiva ferida é grande demais), Michael Jackson representa um dos maiores anseios do ser humano: imortalizar-se. Contudo, até os deuses morrem, e é preciso achar um Olimpo para eternizar a memória idealizada de poder acima da morte. Observe bem: nos dominam a vontade de poder, de ter, de destruir valores essenciais; enfim, que rompam a cortina do tempo e da pré-história da humanidade. Vida instintiva, atavismos, como queria Carl Jung. Diante dessa crise fomos capazes até de decretar a morte de Deus. E disseram que Nietzsche tinha enlouquecido quando disse tal coisa de nós.

Tudo isso não passa da luta entre a morte e a vida. E a morte, como símbolo maior de tudo que nos oprime, quer se impor a cada dia, com nosso assentimento, senão pela conivência. É preciso, portanto, pensar com o apóstolo Paulo: “Porque Cristo ressuscitou, nós ressuscitamos com ele”.

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas que era evidentemente apócrifa: “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões gastos organizadamente, com um governo de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral. Se bobear, os políticos vão roubar até do crime organizado [...], e os juízes também, que impedem punições e vendem sentenças impunemente”.

Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade nacional. Como a massa tão interessada em espetáculos midiáticos (funeral de Michael Jackson), CPIs hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria num povo que ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade dolorosa da morte contra a vida (Norman O. Brawn). Miséria das massas populares (conhecemos políticos evangélicos que vendem a alma por um mandato). Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso? Quando se falará da pós-fome, pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-desemprego em massa? Até lá, viveremos a cultura da violência institucional, paralela à do crime organizado e corrupção dentro das próprias instituições que nos governam, enquanto comentamos e nos comovemos, com reverência, o funeral da celebridade.

Ajudados pela tecnologia, satélites, celulares, “chips”, “megabytes” e “laptops”, nos assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de entender as intenções do Deus Salvador e Libertador: “Eu sou a ressurreição e a vida…”. São terríveis revelações sobre as visões que temos de nós mesmos, enquanto elegemos a morte ao invés da vida. Escolhemos os piores para representar-nos, na igreja e na política. A quem reverenciaremos? A mídia, que transforma um funeral num espetáculo mundial de vitória da morte?

A exposição constante da corrupção nos legislativos e executivos parece comprovar que as consciências imediatistas dos bem-postos também estão sendo bem atendidas. Vai além das duas bacias simbólicas do Congresso Nacional: uma aberta, côncava, para “receber” benesses; outra convexa, para “esconder” as falcatruas dos nossos representantes? Niemeyer — centenário e brilhante — e Lúcio Costa nunca pensaram nesses simbolismos quando as projetaram. Dá arrepios saber que políticos evangélicos participam com a competência de Mefistófeles na corrupção geral: o senador, o pastor, falcatruas, processos em cima de processos… Também está nos jornais de hoje: nunca aprenderemos. No próximo ano elegeremos os mesmos ditos “servos de Deus” para representar-nos no Congresso. Por falar nisso, Michael Jackson também não será sepultado. E Elvis, então, é substituído. Estarei enganado?

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

   
 

Opinião do leitordeixe seu comentário

     

 
     
     
   
 
 
Michael Jackson: um funeral sem crise de consciência
Calvino: fanático ou reformador?
Um raio-x da juventude evangélica brasileira
   
 
Assine Ultimato e receba em sua casa.
 
Salvos da PerfeiçãoElienai Cabral Junior

164 páginas

Mais humanos e mais perto de Deus.

de R$ 28,60
por R$ 22,90
A eternidade não pode libertar-nos do dever.
Stephen Charnock

 

26/06/2009

A esmola envergonha e vicia o cidadão

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p06


OPINIãO
ULTIMATO ONLINE –
www.ultimato.com.br
25 de junho de 2009 | | seja o primeiro a comentar

Há urgências. Porém, a sociedade não é receptiva. Pessoas famintas, desnutridas, doentes, discriminadas por causa da cor da pele, portadoras de deficiências, sem autonomia física, ficam ainda mais fragilizadas (Mc 3 –10). Quem cuidará delas? A religião as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum. Jesus mandou: “Entra na roda, fique no meio!”. E o esquadrão que vigiava, perguntou: “Será que ele ousará contrariar a religião?”. Na sinagoga/igreja, lugar dos religiosos, o fato chama a atenção. E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo, legalista ou fatalista, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou dar-lhe fim?”. Fica-se em cima do muro. O medo de “agir ilegalmente”, contra ideologias tradicionais, é mais forte.

A religião não cuida dessas coisas? Jesus não espera — cura o homem deficiente, alimenta famintos, “porque hoje é sábado”, como diria Vinícius de Moraes. E inclui diferentes, estranhos. Aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte. A neutralidade e a equidistância, porém, escondem o julgamento de morte. Estabelecer condições de relacionamento para ações que instrumentalizem teológica e eticamente estas questões como próximas da vida de fé, é urgente. Mas Jesus, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo, era julgado.

Heróis nas lutas por libertação no século 20, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quando morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma e quis entrar. Imediatamente viu uma placa: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã. Não há notícia sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à sua causa. Entre cristãos, o legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo. A fome e o racismo não são estudados na Escola Dominical. A afirmação do pecado abstrato, sim.

O Brasil quer torrar milhões e milhões para sediar a Copa do Mundo em 2014, e aqui há milhões de pessoas morrendo de fome. O governo desistiu do Fome Zero, pouco depois da vitória nas urnas. Será a fome uma crise humanitária, social e econômica, resultante da hipocrisia política, de campanhas eleitorais governamentais, insensibilidade das elites, da religião, do conformismo da sociedade? Se não é, então, o que é? O homem tolhido pela doença socializada — e a fome é a pior delas — ou pelo racismo, necessita de amparo. Precisa ser útil, trabalhar, produzir o seu sustento e o dos dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, curar a desnutrição e evitar o holocausto infantil causado por doenças. Transformações, são importantes para a manutenção da vida.

A desnutrição mata mais que a Aids, acidentes aéreos e terrestres, guerras e terrorismo, juntos. Seriam como mil transatlânticos afundando, cheios de crianças que vão morrer; e ninguém chora, ninguém protesta, ninguém lamenta. Talvez porque a Aids, a guerra e o terrorismo não fazem distinção de classe como a fome faz. Desnutrição em massa, epidemias e aumento na mortalidade são “privilégios”dos fracos, excluídos da participação dos bens sociais.

Programas como o Bolsa Família são esmolas, enquanto o que as famílias necessitam é trabalho, habitação e seguridade sanitária, em primeiro lugar. A fome não espera pela religião, diz o Evangelho. Mais de um bilhão de homens, mulheres e crianças, neste planeta — mais de vinte milhões no Brasil — sofrem por causa da fome. “A esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão”, diz Luiz Gonzaga. E Jesus diz, a respeito do “descanso” que deram a Deus: “Meu Pai ainda trabalha” para saciar as fomes do mundo.

“No juízo final, você espera ser desculpado? Deus poderá lhe obrigar a derramar lágrimas de vergonha, nesse dia, fazendo recitar de cor os poemas que você poderia ter escrito, e não o fez; as palavras de indignação que evitou proferir, tivesse sido sua uma vida de amor à justiça” (W.H. Auden).
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

Página Seguinte »

Blog em WordPress.com.