Derval Dasilio – Escritos

am06, 0:00p06, 01, 2008

A esmola envergonha e vicia o cidadão

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OPINIãO
ULTIMATO ONLINE –
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25 de junho de 2009 | | seja o primeiro a comentar

Há urgências. Porém, a sociedade não é receptiva. Pessoas famintas, desnutridas, doentes, discriminadas por causa da cor da pele, portadoras de deficiências, sem autonomia física, ficam ainda mais fragilizadas (Mc 3 –10). Quem cuidará delas? A religião as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum. Jesus mandou: “Entra na roda, fique no meio!”. E o esquadrão que vigiava, perguntou: “Será que ele ousará contrariar a religião?”. Na sinagoga/igreja, lugar dos religiosos, o fato chama a atenção. E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo, legalista ou fatalista, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou dar-lhe fim?”. Fica-se em cima do muro. O medo de “agir ilegalmente”, contra ideologias tradicionais, é mais forte.

A religião não cuida dessas coisas? Jesus não espera — cura o homem deficiente, alimenta famintos, “porque hoje é sábado”, como diria Vinícius de Moraes. E inclui diferentes, estranhos. Aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte. A neutralidade e a equidistância, porém, escondem o julgamento de morte. Estabelecer condições de relacionamento para ações que instrumentalizem teológica e eticamente estas questões como próximas da vida de fé, é urgente. Mas Jesus, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo, era julgado.

Heróis nas lutas por libertação no século 20, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quando morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma e quis entrar. Imediatamente viu uma placa: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã. Não há notícia sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à sua causa. Entre cristãos, o legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo. A fome e o racismo não são estudados na Escola Dominical. A afirmação do pecado abstrato, sim.

O Brasil quer torrar milhões e milhões para sediar a Copa do Mundo em 2014, e aqui há milhões de pessoas morrendo de fome. O governo desistiu do Fome Zero, pouco depois da vitória nas urnas. Será a fome uma crise humanitária, social e econômica, resultante da hipocrisia política, de campanhas eleitorais governamentais, insensibilidade das elites, da religião, do conformismo da sociedade? Se não é, então, o que é? O homem tolhido pela doença socializada — e a fome é a pior delas — ou pelo racismo, necessita de amparo. Precisa ser útil, trabalhar, produzir o seu sustento e o dos dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, curar a desnutrição e evitar o holocausto infantil causado por doenças. Transformações, são importantes para a manutenção da vida.

A desnutrição mata mais que a Aids, acidentes aéreos e terrestres, guerras e terrorismo, juntos. Seriam como mil transatlânticos afundando, cheios de crianças que vão morrer; e ninguém chora, ninguém protesta, ninguém lamenta. Talvez porque a Aids, a guerra e o terrorismo não fazem distinção de classe como a fome faz. Desnutrição em massa, epidemias e aumento na mortalidade são “privilégios”dos fracos, excluídos da participação dos bens sociais.

Programas como o Bolsa Família são esmolas, enquanto o que as famílias necessitam é trabalho, habitação e seguridade sanitária, em primeiro lugar. A fome não espera pela religião, diz o Evangelho. Mais de um bilhão de homens, mulheres e crianças, neste planeta — mais de vinte milhões no Brasil — sofrem por causa da fome. “A esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão”, diz Luiz Gonzaga. E Jesus diz, a respeito do “descanso” que deram a Deus: “Meu Pai ainda trabalha” para saciar as fomes do mundo.

“No juízo final, você espera ser desculpado? Deus poderá lhe obrigar a derramar lágrimas de vergonha, nesse dia, fazendo recitar de cor os poemas que você poderia ter escrito, e não o fez; as palavras de indignação que evitou proferir, tivesse sido sua uma vida de amor à justiça” (W.H. Auden).
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

am06, 0:00p06, 01, 2008

IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE

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Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã inicial e atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem  – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional; águia: vida mental e intelectual; touro: vida instintiva e vegetativa; homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente (dominadores tradicionais de Israel: assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, conforme a literatura apocalíptica intertestamentária). Os egípcios, porém, não são esquecidos.

Na igreja, quem sabe?, poderíamos visualizar um lugar para “comer junto”, partir o pão eucarístico, em torno da mesa. Um lugar que centraliza emoções coletivas; um lugar de organização da mente religiosa; lugar onde as situações se misturam, na consciência da totalidade humana, de suas contradições e de experiências paradoxais. Vive-se sob uma ideia comum (“somos a igreja de Cristo”), externamente, porém são diversos os sentidos que damos aos ministérios ordenados, aos sacramentos e à missão (diversidade). Uma visão sociológica ajudaria a por algumas questões no lugar, reconsiderando o início da Igreja.  Por exemplo: a situação de judeus cristãos que conservariam uma tradição que remonta à Torah, mas também habituada ao Halakah: Thalmud, Mishnah, Midrashes, como orientadores da vida de fé.

A posição dos prosélitos, conhecedores do Deus de Israel, mas gentílicos, na questão da ceia eucarística (ação de graças e o partir do pão), não pode ser esquecida.  Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. A igreja se identificava como comunidade étnica, preferencialmente. Contradições quanto aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante. De fato, cristãos não judeus adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade dos ministérios, enquanto ignoravam na totalidade o sentido sacerdotal hierárquico do Templo de Jerusalém, bem como a cultura igreja/sinagoga da terra onde nasceram Jesus e seus apóstolos (exceção para o turco Paulo de Tarso). 

Mas a mensagem está no símbolo que se adotou, a igreja como um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação. O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma; a justiça do Reino não equivale ao legalismo ou doutrinarismo religioso exclusivista ou triunfalista. Os perseguidores estão também no meio da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Usam até a agressão nos questionamentos sobre missão e prioridades, evangelismo metodológico acima da evangelização integral, como anúncio da chegada do Reino de Deus. É quando se torna necessário recordar Jesus.

Cristo, na fé primitiva, não é um produto de mercado, nem um símbolo do salvacionismo abstrato. E não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. A magia ritual e a superstição constituem um perigo tempestuoso. A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon&C.K.Barret: The New Testament Background). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação são elementos que permeiam o culto cristão no mundo helênico. Papiros de magia contendo orações  e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos, o kérigma (Atos 19,19).   Maldições e pragas invadiam o culto intercessório da igreja inicial, concomitantemente se insinuam práticas supersticiosas repulsivas.  Qual a diferença do mundo evangélico contemporâneo?

Mas o Jesus dos Evangelhos não abandona o barco, dá a certeza de sua presença como timoneiro da fé; Jesus capaz de vencer a tempestade, enquanto fortalece as certezas quanto à sua permanência e sobrevivência junto aos discípulos e seguidores. Marcos é transmissor fiel da fé apostólica no Cristo de Deus: “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador (a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47). Mensagem para a igreja gentílica. O Evangelho do Reino de Deus é essencialmente a missão de Deus.

Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos (Marcos 4,35-41); que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal; eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformes (impossível dedução, diante do congregacionalismo, presbiterianismo e episcopalismo, ou sistemas mistos, bíblicos); que a missão e os sacramentos da igreja  são compartilhados igualmente. Idealização absurda, irreal. Falta-nos examinar estes pontos em suas contradições (por quê o próprio Paulo, e discípulos, apresentaria eclesiologias tão dispares entre si?). Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém não é episcopal, presbiteriana, congregacional. Ela é apostólica e diaconal, na forma de governo. Ponto.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.XIII), Spener (séc.XVII) e mais tarde John Wesley (séc.XVIII), essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo; o “Reino de Deus e sua justiça”. Enfim, o que é mesmo a igreja, teológica e sistematicamente? É preciso decifrar, se temos em conta o protestantismo pentecostal e suas ramificações.

Oração: “Deus, em tua graça  transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (CMI – Assembléia de Porto Alegre).

am06, 0:00p06, 01, 2008

TRINDADE: A FACE DE DEUS EM TRÊS ESPELHOS

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Um colega muito perspicaz, excelente teólogo, desafiava-me a escrever sobre a Trindade Divina numa linguagem compreensível, e não a dos teólogos e filósofos. Lembrei-me de um texto de Rubem Alves, socorro sempre presente nas nossas dificuldades: “Uma velhinha perguntava ao mestre Benjamim: – Mestre, fale-nos sobre Deus… Mestre Benjamim fitou o vazio, vagarosamente, e um sorriso foi-se abrindo: – ‘Quantas pessoas aqui estão pensando no ar’?, perguntou. ‘Por favor, levantem uma das mãos…’ Ninguém levantou a mão… Então, mestre Benjamim falou: ‘Ninguém levantou a mão… Ninguém está pensando no ar. Ninguém sabe direito o que é o ar. E no entanto nós o estamos respirando.

O ar é nossa vida e não precisamos pensar nele para respirar. E não precisamos pensar nele para que ele nos dê vida. No entanto, quem está se afogando só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele, ou pronunciar o seu nome, para que o sintamos’”. Quem pensa demasiadamente em Deus, ou exige explicações de sua existência, pressionando a consciência dos outros para “crer em Deus”, é porque não está respirando Deus. Mais adiante, esse autor dirá mais, traduzindo a Bíblia: “Deus é como o vento, sopra em todas as direções. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas das árvores, e seu assobio ressoa nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta de bambú o vento se transforma em melodia, mas era música, antes, nas astes longas balançando ao sabor da ventania. Mas não é possível prendê-lo numa garrafa. No entanto, nossas religiões tentam engarrafá-lo e até mesmo comprimi-lo em tubos metálicos. E dão a esses cilindros compressores o nome de ‘Casa de Deus’. Ora, vento engarrafado não sopra’”. Melhor dizendo: o Deus da Bíblia não pode ser dominado por nós.

João, o evangelista do Segundo Testamento, diz: – “o Espírito sopra onde quer”. Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do nenê recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós. Também conhecemos, na linguagem dos salmistas, bíblica, Deus, o Pai, como o Criador do universo estelar, o céu profundo, as imensas constelações cósmicas, que fez de um fragmento desse mundo gigantesco, imensurável, um lugar para o homem e a mulher habitarem. O homem vem do pó, diz um salmista, enquanto alcança uma dignidade inigualável no universo. Um projeto perfeito, continuamente criador, incompleto, mas em recriação constante. Vemos nas flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso, original,  da espécie.

A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é a Divina Trindade. É a isso que Paulo refere-se, freqüentemente, a face de Deus como objeto clarificado. Vemos o Deus trinitário como num espelho. Na face de Jesus Cristo, no entanto, reflete-se o esplendor criador de Deus (2Cor 4,6). E a glória de Deus reflete-se em todos nós quando reconhecemos Deus face a face: (1Cor 13,12: “… então o veremos face a face”). O Espírito Santo é Espírito do Pai e Espírito do Filho. Aqui e agora, ainda necessitamos dos símbolos. Nossos Credos são trinitários. Credos são símbolos (Credo dos Apóstolos, Credo Niceno…). Os rostos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia o presbiteriano Richard Niebuhr.

Simplifiquemos a concepção trinitária para que a Igreja seja atendida na compreensão que importa, diante da história de sua fé. É preciso pagar o preço da simplificação, para a inteligibilidade da fé. Algumas vezes. Por outro lado, a tradição e a cultura religiosa contam a história e mantém o dogma como deve ser. Sem isso, somos somente pentecostais: e ignoramos o Pai e o Filho; somos criacionistas: desprezamos o Filho e o Espírito; somos espiritualmente formalistas: afirmamos Cristo apenas como uma sombra na parede, sem carne, à vista dos homens e das mulheres deste mundo. Isso une a Igreja em torno da Trindade encarnada, como aponta a Bíblia: Deus estava em Cristo reconciliando a humanidade com os rostos de Deus: Cristo. O Filho e o Espírito representam-no no nosso meio. Disse Jesus: Não lhes deixarei órfãos, fica com vocês um auxiliar do Pai e do Filho: o Espírito companheiro das suas lutas incessantes contra a violência e a miséria deste mundo sem compaixão.

Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando às Igrejas sobre o Espírito Santo, escrevia: “Mesmo com a fé, os homens e mulheres continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado. Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, podem levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”. Richard Shaull acreditava nesse Deus em três significações, imagem nos mais perfeitos espelhos de cristal. E citava o profeta Habacuc, sobre estes significados: “O justo viverá pela fé”. O Espírito da Trindade se apresenta, sempre, para dizer sobre a conservação a ferro e fogo das velhas estruturas injustas, e dominações opressivas, contrariando-as: “faço novas todas as coisas”! Gostamos da Trindade que os cristãos imaginam, movidos pela Fé, a Esperança e o Amor (também uma Trindade!)? Por isso nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Reino de Deus está diante de nós! Amém.

am05, 0:00p05, 01, 2008

ASCENSÃO: ERA JESUS UM ASTRONAUTA PERDIDO NO ESPAÇO?

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Por falar em ascensão, há alguns anos um livro do jornalista Erich von Daniken foi sucesso: “Eram os deuses astronautas?”. Recentemente, um astronauta brasileiro foi elevado ao espaço numa viagem que teria custado cerca de 10 milhões de dólares aos cofres da nação, e não importa se foi menos ou mais. Acompanhado de outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do céu”. Quando voltou, coroado herói nacional, ganhou aposentadoria perpétua sem ter completado sequer 40 anos.

Quem desejaria mais? De certo modo muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais, que um dia percorrerão as distâncias em anos luz, os quais nos separariam do “céu”, e chegarão a um lugar onde supostamente diz-se que está Deus. Então, sem alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do mistério da Ascensão do Senhor: “Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.

Como se poderia calcular, como ferrenhos fundamentalistas, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?”. Na opacidade do mundo, faltam instrumentos para medir o tempo da eternidade? Lentes telescópicas que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos para esses anseios? A razão quer explicar a fé, diríamos. Anselmo de Cantuária (1150) estabelecia que a fé requer inteligência, fides quaerens intelectus, enquanto falava deste assunto. Referia-se ao que a carta petrina apontava: “… estejais sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15)?

Karl Barth dissertou sobre Anselmo, no seu doutoramento. Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista. A Billy Grahan Evangelistic Association, Minneapolis, USA, influencia significativamente os caminhos do imperialismo fundamentalista norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1.500 milhas quadradas”. Muçulmanos, cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui na terra, porém, garantiriam tonéis do precioso produto vinícola no céu (gaúchos brasileiros exultariam: Caxias do Sul fará parte da Jerusalém Celestial!). Condenam o adultério aqui, mas prometem belas virgens, ninfetas e mancebos, gays em quantidade, para quem chegar, por merecimento, ao “Paraíso”. Mas cristãos acham que hetero, homo, bi e transsexualidade, serão substituídas por um estado celestial esquisito, como disse o papa João Paulo II: “No céu, homens e mulheres não terão vida sexual”. Cantares de Salomão, no cânon bíblico cristão tornar-se-á apócrifo!

Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe no imaginário religioso das religiões; cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de inferno, se diz por aí. Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de 279º centígrados, embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local (Eduardo Galeano). Estamos, portanto, diante de um grave dilema de salvação. Não desanimemos, no entanto.

Nos evangelhos, Cristo, na Ascensão, foi entronizado na esfera divina, além das estrelas, das galáxias. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades. A fé observa o mundo de Deus livre das corrupções e falibilidades humanas. Um céu exemplar sobre “todos os céus imagináveis”. O céu bíblico é o lugar natural da justiça de Deus, da perfeição, da ubiqüidade, da atemporalidade do cuidado divino, dos espaços infinitos e imensuráveis ocupados pelo amor ensinado por Jesus Cristo. Na misericórdia e compaixão, no cuidado e na solidariedade, ali está a glória de Deus, plenitude. Luz, felicidade, beleza, bem-estar em todos os níveis. Quando proclamamos que Cristo subiu ao céu, singularizamos a pluralidade celestial do reinado pleno de Deus, na expressão de Paulo: “Cristo é tudo em todos. Nada nos separará do amor de Deus”. Logo, Cristo não ficou “lá em cima”: “Ele está no meio de nós”, como proclama a liturgia cristã.

pm05, 0:00p05, 01, 2008

QUEM AMA NÃO BOTA AREIA NA JUSTIÇA DE DEUS…

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        ONLINE – Publicado em 14/05/2009

Amigos, o texto bíblico é paradoxal (Jo 15,9-17).  Sua síntese poderia levar-nos à idéia mestra de que nada existe mais “escravizante” que o amor, seja para quem dá ou para quem o recebe. Podemos imaginar um precedente em Isaías, que coloca a ação concreta no campo do amor justo, “ahavah”, amor visceral e misericordioso de Javé; amor como fruto da justiça, exercício dos direitos fundamentais do homem, igualitariamente, sem considerar ódios raciais, preconceitos religiosos e classificações sociais, sob o ethos principialista que organiza a justiça. Isaías aponta o amor que julga: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo ” (Is 5,20). Segundo a perspectiva joanina, porém, esse amor não é humano, é “agape”, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustentam a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e o direito. 

Este amor, verbo dinâmico (agapao), ultrapassa em muito o trivial. Não há mística ou abstração que possa esconder a prática do imperativo de Jesus, pois o amor não se refere aqui a uma “felicidade” amorosa em boa vizinhança social, ou na estabilidade familiar ou conjugal. Não se trata aqui de “amor à virtude”, e sim de colocar-se em prontidão para a ação concreta no campo da justiça e da misericórdia, cuidado, compaixão, ternura, tal como o amor de Jesus Cristo. O escravo do amor (doulos) serve à justiça (tsedakah ou dikaios), no rumo da paz (shalom ou eirene), em total fidelidade a Deus (emunah). Deus é amor, disse João. O evangelista hebreu nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este.

 Amar o outro por ele mesmo, como ele é, desejar que ele continue a ser o que é, não violentá-lo a pretexto de transformá-lo “por amor”. Desejar sua independência e liberdade, interceder para sua salvação de tudo que oprime e faz sofrer. Mensagem ecumênica: respeitai-vos mutuamente, diz João, reproduzindo o imperativo de Jesus: sejais ternos, nas desgraças, nas angústias, nos tormentos, curai o sofrimento uns dos outros… “para que o mundo creia”.  

A última palavra sobre o amor, conforme a piedade cristã em vigor, poderia envolver considerações inspiradas nas novelas imbecis, da Tv; nos romances rasteiros das bancas de revista: amor-cor-de-rosa, sensual, prazenteiro, edulcorado, se não é amor “abstrato”, filosófico, sem realismo humano. O amor sem igual, solidário, sem medida, concreto, relacional, “full contact”, de Jesus, tem alguma coisa a ver com as imagens sentimentais da linguagem cotidiana? Pode a cruz, símbolo de morte e sofrimento, ser um símbolo de amor? Na realidade, o amor extremo de Jesus é um desafio ainda maior que aquele apresentado na parábola: “ama a teu próximo como a ti mesmo…”.

Por quê? O amor é também juiz das consciências, do mesmo modo que é juiz dos algozes, e dos que torturam e matam os que amam a causa de Deus. O Cristo intencionalmente violentado, torturado, crucificado por amor, lembrar-nos-á, como se fazia há pouco – e nos apóia a história do Brasil imperial: Calabar garroteado, Tiradentes esquartejado; divulgação exaustiva do assassinato de Che Guevara – como demonstração pública dos cadáveres dos mártires, com intenção intimidadora a qualquer movimento rebelde ao totalitarismo.  

A questão dos mártires está sob o juízo de Deus (Moltmann). Estêvão, Tiago, Pedro, Paulo, sofreriam o martírio por causa do amor. A ressurreição, como nos lembramos também em todas as Páscoas, é parte significativa do amor que julga e faz ressuscitar os mortos, que voltam à vida na primavera, como as flores ressurgem depois do inverno. A justiça de Deus vinga os torturados, os violentados, trazendo à tona o testemunho dos que foram mortos por causa da justiça. Amor como semente de um mundo transformado. O amor solidário de Deus estava no Cristo morto, crucificado e trazido à ressurreição para toda a eternidade, para que todos possam ressuscitar e gozar da justiça amorosa de Deus.

pm04, 0:00p04, 01, 2008

Páscoa – Creio na ressurreição dos mortos…

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         ONLINE – Publicado em 28/04/2009
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Sou crente, sabiam? Mas discuto o que se diz sobre a ressurreição do Senhor, sem conformar-me com o engodo biológico, ou “arqueológico”, que expõe sua ressurreição como parte fossilizada da cruz. As relíquias da crucificação, como o Santo Sudário e os túmulos revirados, de longe nos afastaram do sentido original que os primeiros cristãos experimentaram. Cristo vive, apesar da “re-crucificação” cotidiana e do esforço de religiosos de fossilizar a memória da ressurreição! Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na multiplicação da vida (“Se o grão não morre, não produz frutos!” Jo 12.33), a destruição da vida identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira Páscoa cristã: ressurreição e vida plena para todos, como sinais de ressurreição pelo perdão e reconciliação com Deus (Cl 3.1-3).

Karl Barth, destacado teólogo protestante, disse que a ressurreição de Cristo, enquanto um processo de destruição da morte, também afirma a vida eterna (“éon”), já experimentada no mundo presente. A ressurreição é um fato que transforma tudo em vida nova e abundante. A Páscoa é a novidade de um novo tempo, um novo mundo, em razão da ressurreição do homem Jesus. Uma nova vida começa, o “guia” vitorioso sobre a morte exemplifica. Cristo vive! Os primeiros cristãos viram não apenas a continuação sobrenatural da vida anterior, mas também uma vida completa, em plenitude, na ressurreição. A própria vida, social ou religiosa, ressurge da morte.

Teilhard Chardin escreveu: “Algum dia, quando tivermos dominado os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, utilizaremos as energias do amor. Então, pela segunda vez na história do mundo, o homem descobrirá o fogo”. Uma nova consciência do mundo comunicando-se, como o Espírito Santo em Pentecostes, na história humana como evolução do simples para o múltiplo, do particular para o comum, do morto para o vivo, nas formas mais complexas da consciência viva. Mas o sábio e interessantíssimo pensador não chegou a deparar-se com intervenções da bioética, ocorridas décadas depois de sua morte. Nem mesmo pressentiu a descoberta do DNA, quando se desvendou segredos hereditários. Transplantes, clonagem, células tronco, pelos quais é possível corrigir defeitos até recentemente considerados irreversíveis, adiando a morte, são ressuscitações comuns nos nossos dias. Não se referem à ressurreição do corpo, como afirma o Credo cristão. Como associar o corpo com esses fatos? 

Com fé no progresso humano, Teilhard não percebe a dubiedade da própria evolução. Enfim, genocídios, e não só dos judeus sob o nazismo, são considerados aqui. Populações indígenas, astecas, incas, maias, guaranis; negros trazidos da África (padecendo sob colonizadores cristãos) foram vítimas de genocídio. Em suas cartas, durante a 1ª Guerra Mundial, Teillard se esforçou por convencer seus amigos abalados por massacres cristãos de irmãos a uma compreensão positiva da guerra: “A guerra é uma contribuição honrosa para a evolução natural”. Não imaginou que evolução também significa “seleção” da espécie humana (Jürgen Moltmann).

Evolução, desse modo, é uma espécie de execução biológica, “sentença do forte sobre o mundo no fraco”, excluindo-se o doente, o faminto, o incapaz, fadados ao desaparecimento. Que mérito existe na alternativa evolutiva? Quando o homem assume esta função, ele chega rápido à “eutanásia” (eliminação de vida indigna, do fraco, deficiente, diferente). Esquecemo-nos do Senhor ressuscitado, tipológica e analogicamente também um fraco e oprimido. O Filho do Homem é um homem que sofre todas as dores. Sem a ressurreição pascal, passamos a desejar o mundo seletivo dos bem-sucedidos e bem-postos na vida. E por que, em seu mundo sem dor, se importariam com a ressurreição?

pm04, 0:00p04, 01, 2008

RESSURREIÇÃO: CRISTO DOMINA OS PODERES DA MORTE

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ESSURR        ONLINE – Publicado em /03/2009IÇÃO: CRISTO DOMINA SOBRE OS PODERES DA MORTE

 

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Mais um susto, depois do anúncio da Santa Ceia na avenida, no Carnaval. Batuque Pascoalino, Ressurreisamba, domingo, no culto da Páscoa na Igreja Presbiteriana! Participação de grupos de axé, pagode, etcétara e tal. Recebi o convite.  Ricardo Gondin escreveu: “Os tempos mudaram. A rebeldia dos jovens aquietou-se, os heróis políticos ruíram, o consumismo substituiu as antigas aspirações revolucionárias.(…) Aquelas drogas que entorpeciam e deixavam seus usuários num estado zen (Nota: ou estado axé; êxtase carismático) foram suplantadas por outras que ativam, energizam e potencializam. Substituíram-se os tóxicos que causavam torpor por outros que dão uma sensação de poder e de autonomia. Assim, hoje quase não se fala mais em heroína ou LSD. O que se oferece de muitos púlpitos pós-modernos não é o evangelho de Jesus Cristo, mas mera cocaína religiosa”. E assim, já descobrimos que a Ressurreição do Senhor, além de gospel, também dá samba, pagode, e correlatos. Ajuda a amortecer impactos sociais, amenizar lutas contra o racismo, via cruxis do Movimento Negro. A Paixão do movimento anti-racismo sugere que Ressurreição é cultura, sincretismo, e já não entendemos mais nada… Quem é carismático? Precisamos reorganizar a teologia essencial.

Da história de Cristo resultam horizontes interessantes, como alvo e como sentido: a fé justificadora; domínio sobre “mortos” e “vivos”; superação da morte enquanto inauguração do novo, da nova criação, da novidade de vida para tudo que é esmagado pela morte; glorificação de Deus por meio de um mundo que conheça a redenção. Os sofrimentos de Cristo deixam de ser “sofrimento para satisfação da divindade ciumenta, ciosa de sua autoridade soberana, enquanto irada com a desobediência humana”, como a decepcionante doutrina  medieval e escolástica estabeleceu (Anselmo, 150 d.C.), e como é ainda observada, hoje, equivocadamente. Sofrimento que ignora a ressurreição. Agora nos ensinam que a Ressurreição pode ser comemorada num “batuque”, com pagode e axé agregados. Leva-se um susto, mas há explicação.

 

A justificação na cruz é um acontecimento único, como um processo que inicia uma consciência envolvente de emoções íntimas sobre a misericórdia e compaixão de Deus (rahamin: solidariedade, sentimento nas entranhas, nas vísceras, no coração; sentimentos íntimos, etc.), começa com o perdão dos pecados  e termina com lágrimas enxugadas, em sua totalidade: Cumpriu-se o que Isaías dissera sobre o “servo sofredor” (cf. figura que Jesus, o nazareno, mártir, assume no NT, tipologicamente), sobre quem repousaria o pecado (estrutural, cultural!) de toda a nação de Israel: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5). E o profeta do Apocalipse completará: “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor…” (Ap 21:4). Cristo é  o Deus fraco, esvaziado de poder, para solidarizar-se na fraqueza de todo homem e de toda mulher esmagados pelos poderes deste mundo.

 

Os sofrimentos de Cristo mostram-nos um Deus humano e solidário: é Deus que está conosco, inclusive nos sofrimentos! Em Jesus Cristo, Deus caminha e sofre conosco. Solidariedade, vicariedade, martírio, ressurreição, renascimento, são dimensões divinas que se devem observar. Pecados estruturais (economias seletivas, políticas elitistas, religião mancomunada e subserviente), assim, constituem um grande desafio para as comunidades cristãs, hoje e sempre. A Igreja é também pecadora, diriam Calvino e Karl Barth. As consequências dos pecados da sociedade, impondo a opressão, mancomunando-se com poderes  rebeldes e escravizantes, como a economia, a política e a religião, unidas em pecado contra os direitos fundamentais da pessoa humana e dos povos, mostram-nos as razões do sofrimento do Cristo solidário com os oprimidos, os que não têm dignidade, paz e justiça. A mensagem fundamental do evangelho é a Graça, e não o pecado religioso, moral, individual, a ser redimido, finalmente.

 

A Páscoa da Ressurreição ensina sobre o sofrimento com causa, jamais se associa às alegrias causadas pela cocaína espiritual, carismática, com gospel ou com samba, de nossos dias (penso eu).  Com samba, axé, rock, funk, gospel, e tudo que se acha com direito de anunciar-se como “ressurreição”, nos arriscamos à confusão: Chega de Sofrer (Edir Macedo); Ressurreisamba (uma Igreja Presbiteriana). Contudo, na sociedade brasileira, a ambíguidade prevalecerá, apesar do jeito axé ou gospel que adotamos. Negros, pardos e indígenas organizam-se politicamente para debater questões de raça. Certíssimo. Já o saber estético-corpóreo não passa apenas pela cor da pele, disse a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, mas à forma como o corpo reage no mundo, com seus ritmos, toques, gestos, cheiros, cores, exigindo posturas libertadoras. Vale para todas as cores de pele. O sofrimento, a cruz, proclamam:“Ele foi traspassado pelas nossas transgressões”.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

 

pm03, 0:00p03, 01, 2008

PÁSCOA GOSPEL: CRENTES VENDIDOS COMO GADO…

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                                                                                                                PUBLICADO EM  ULTIMATO ONLINEMARÇO/2009

 

À véspera da Páscoa aconteceu que Jesus encontra no templo (hieros) a religião transformada em comércio, diz o Evangelho. Chegamos ao ponto nevrálgico da revolta de Jesus. O templo é secretaria fazendária, comitê político-partidário servindo ao poder dominador, banco e loja religiosa, emporion de clientela cativa, a religião é compulsiva ou indutiva. É quando bem-aventurança passa a ser vendida no altar, e lideranças se esforçam na pregação do deus subornável, deus ex machina, capaz de resolver qualquer problema financeiro, emocional, existencial.

 

Hoje, tempo pascal, o público evangélico é “freguês” das lideranças evangélicas carismáticas. A religião de mercado se impõe. Pragmáticos e gananciosos, ideólogos da “prosperidade comprada no altar”, imaginam que são cabos eleitorais,  empresários e mercadores, orientam o povo para a ganância, com muita diversão: o evangelho até dá samba! E o pessoal se diverte muito. O verão é comemorado, a festa atravanca o trânsito de sexta a domingo: Viva Verão! O deus Sol é exaltado novamente, na praia. Bandas gospel, divas e “divos” da música carismática cantam um Jesus coberto de melado, fazendo propaganda eleitoral. A fina flor evangélica comparece, estacionando seus carros bacanas nas ruas próximas, gozo de flanelinhas. Candidatos à reconversão vêm da periferia, também, aos borbotões. De ônibus, claro. Porque as comunidades pobres, sem brilho moderno, desqualificadas pelo conversionismo de luxo, também não conseguem fixá-los na vida de fé. Os pastores da igreja milionária encarregam-se da bricolagem evangélica.

 

Três dias de “conversões” e “vidas transformadas”. Claro, não se pode exigir que hinos clássicos comovam jovens sentados na areia, agarradinhos. Hinos como o do protestante Johann Sebastian Bach não são viáveis para a cultura gospel (Jesus, alegria dos homens): harmonia complexas, contrapontos marcados, litania envolvente, profunda, proclamando a fé, enquanto o povo congregado responde in toto o que ouviu. É Jesus minha alegria, meu prazer, consolo e paz!. “Muito clássico! Meu  prazer é a Aline Barros e a Oficina G-3”, fala a jovem carismática e lacrimosa.

 

Pastores e psicanalistas, em barracas montadas nas proximidades, atendem a garotada em estado de êxtase, aos prantos, pele arrepiada e tremida: jovens acabaram de conhecer Jesus pelas visceras! Recebem conselhos, e são cadastrados. Que não ousem aparecer os totens da MPB, como Milton Nascimento. Seriam vaiados, como representantes de música profana, do mesmo modo que chiques e famosos vaiaram João Gilberto no Credicard Hall. Não cabem no marketing das diversões evangélicas. Rappers, sim.

 

Caricaturas protestantes, praias famosas, centros de convenções, são alugados ou cedidos ao público especial. Comparece a elite evangélica, o prefeito, o deputado, o senador, e até o governador nem morno nem quente, não importa se comprometidos, expondo-se no cenário do crime organizado. O advogado acusado de roubar 300 milhões do erário preso com a Bíblia em punho; o juiz processado por assassinato do colega que o investigava por venda de sentenças em conluio com desembargadores, presos e soltos pela “justiça”, pastores e lideranças evangélicas peso-pesado, marcam presença. Perderam o trem da história, dedicando-se à luta inglória pela “doutrina protestante”, e à propagação do fundamentalismo do protestantismo de missões, instrumentalizado no serviço das eclesiologias recentes. Banqueiros, supermercadistas, agiotas, financistas, comerciantes, corruptos, bem-vindos! São bem divertidas as festas gospel. O proselitismo, agora, é prático. Entre os próprios evangélicos. O novo rosto evangélico marketeiro e político elege  políticos evangélicos, vende discos e relíquias em CD. Ninguém é bobo. Protestantes históricos permanecem perplexos, mas apóiam a modernidade gospel.  É pra rir ou pra chorar?

 

Derval Dasilio

 

 

 

pm02, 0:00p02, 01, 2008

CARNAVAL: SANTA CEIA COM JESUS NA AVENIDA…

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    Publicado na Revista Utimato online – 02 DE MARÇO 2009

Comprei “A Tribuna” – (Vitória-ES 16/02/06) –  e achei interessante o artigo “Santa Ceia com Jesus na avenida”; parece-me estranha essa mistura do religioso com o profano (Carnaval). Os símbolos da fé misturados… Como nós, cristãos protestantes, deveremos ver isso?

Abraços, Zezinho.

 

Zezinho:

Como protestantes? Protestando!

Os símbolos da fé cristã, ou como João Calvino e Lutero diriam: “meios da Graça”, como entendemos na celebração da Eucaristia, não deveriam ser tratados assim, com a leviandade das festas populares, ou na exibição de algo próprio da intimidade requerida para a comunhão com o Corpo de Cristo, alimento para a salvação do mundo. (Corpo de Cristo=carne do Senhor=identidade vital onde se expressam sentimentos e sensações solidárias). Refiro-me à intimidade comunitária dos pecadores confessos que se alimentam da fé no Crucificado, e esperam a comunhão do mundo inteiro na grande festa da libertação (o Banquete do Reino de Deus). No país do futebol e do carnaval se come feijoada, “muqueca” (particularmente, eu dobro os joelhos diante dessa iguaria, se for a muqueca capixaba), pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… se dança samba, forró, rock, reggae, funk, gospel, e tal, mas “comunhão” da boa, nada… queremos ver é a comunhão para transformar a injustiça, acabar com a exclusão e promover a solidariedade, como a Ceia do Senhor indica (pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval…  simulam a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo ou Vasco, Coríntians ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo?). Nem sei se Jorge Amado contou esta história (No País do Carnaval)…

 

Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos e protestantes? A eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)? Por que não se admitiriam os pecados estruturais na sociedade inteira, injusta, irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão; por que se esconde o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos e heresias gritantes, carregada de magia religosa, superstições, crendices?

 

Jesus disse, introduzindo-se paulinamente a Santa Ceia na Carta 1Coríntios (aviso aos torcedores da Fiel corintiana, novos evangélicos que desconhecem a Bíblia: não é do Coríntians Futebol Club): “O pão que eu darei é a minha carne para a vida no mundo”; (…) ”aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (João 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús também o reconheceram “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”!

 

Mário de Andrade deixou-nos uma parábola maravilhosa no livro Macunaíma. No entanto, quem viu Grande Otelo, no filme de Joaquim Pedro de Andrade, vai lembrar-se desse desgraçado símbolo cultural da alma brasileira: Macunaíma alimenta-se da própria carne! Autofagia cultural… quem sabe essa Santa Ceia no Carnaval não apontará os que comem a própria carne no meio da rua? Nas câmaras de deputados e de vereadores, no Congresso Nacional, têm “bloco evangélico”… agora teremos o “bloco dos evangélicos” desfilando na avenida, celebrando uma comunhão não se sabe com o quê? Os demônios embutidos nas ideologias religiosas estão soltos dentro de nós e no meio cultural no qual vivemos. Quem diria, evangélicos, além de bibliolatras literalistas, cultuam também os ídolos da cultura popular brasileira… É hora do “descarrego” em praça pública? Será que evangélicos também necessitariam de conversão à fé no Deus Libertador do distanciamento,  da religião alienada, reconciliação com a fé no Ressuscitado que a Eucaristia e o Partir do Pão expressam? Se assim for… Amém.

“Elevemos os nossos corações”!

(Rito da Liturgia da Ceia do Senhor Presbiteriana-Reformada)

Kyrie Eleisson (Senhor, tem piedade de nós…) 

Pastor Derval Dasilio

pm02, 0:00p02, 01, 2008

DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO…

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DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO

Salmo 30 – Que proveito terá meu corpo entregue à morte?

1Coríntios 9,24-27; 10,31-11 – Submeto meu corpo… para a glória de Deus

O centro da fé cristã é a ressurreição do corpo, não da alma, ou do espírito. O NT faria implodir a crença posterior da supremacia do espírito (nous), se assim fosse lembrado. Ressurreição é libertação da morte do corpo. Esta centralidade proporciona uma descoberta de renovo, de vida nova, de transformações das coisas submissas ao domínio da morte. O corpo exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas. Corpos que são castigados pela tortura, pela prisão, pelo exílio, fome, morte pelo descuido nas políticas públicas (dengue, hepatite, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, impunidade…). Sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis atuam nas realidades humanas. Na memória de Zulu, Tiradentes, Calabar, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf). Para sufocar a liberdade é preciso torturar, esquartejar, carbonizar os corpos sob inquisição. Sem o corpo, também, não se pode explorar o homem! É o corpo da pessoa que é explorado como mercadoria, seja no Big Brother, na prostituição adulta ou infantil, tanto na produção como na mercantilização do trabalho ou do esporte de massas (na transação fracassada entre o Milan e o Manchester United, Cacá revelou-se um escravo branco e não sabe…).

O corpo está sempre na linha de montagem de máquinas exploradoras. O corpo é matéria, e João acentuará: “A Palavra se fez carne” (logos, davar), e habitou no mundo como corpo, e não como “templo”, porque o Templo estava a serviço da opressão política desde o modo tributário de Salomão (cf.Jo 1,2ss; 2Cr 8,1-8). Mas é impossível dissociar o corpo de outras opressões, desde a sexualidade reprimida, homofobia, o sexismo, androcentrismo, ao direito de ir e vir que a União Europeia quer controlar, e como o “muro de seis metros” californiano pretendido por Bush e Shwarzenegger para impedir a entrada de “xicanos” e “ilegais” nos EUA. Podemos interpretar assim o pensamento religioso que prevalece ainda nos dias hoje, equivocadamente, até nas pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”.

A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! Para encerrar a discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, é alma, é espírito, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no Primeiro já haviam descoberto, os exegetas do século XIX, que a palavra “Espírito” (pneuma, na Septuaginta, AT) refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma, e da alma que é corpo inseparável da alma”. Corpo e alma são indissociáveis (R.Martin-Achard).

A discussão refere-se à integridade espiritual do crente. Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego da palavra “espiritualidade”. O que tem ela a ver com o corpo, ou a corporalidade das pessoas. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como filósofos gregos, que imaginavam possível um estado de perfeição do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual, fora do corpo e das realidades humanas. Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela mortificação do corpo. Os monges gregos ainda no começo da Idade Média já diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (espírito é nous, soma é corpo, no grego). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e ele foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu na igreja não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século VII a.C. chamada “Religião Órfica da Trácia”, capaz de admitir uma dicotomia, e até tricotomia, do ser religioso.

Desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo, e mesmo o judaísmo de Jesus e dos apóstolos desconhecia tal entendimento (Renold Blank). Paulo prossegue nesta linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com a espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos, “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um corpo. Um corpo é parte de outros corpos, na igreja, na comunidade, na sociedade. Ludwig Feuerbach disse, escandalosamente: “O homem é o que come…” Desse modo, parece que os cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato proveniente da revelação divina. Mário de Andrade e Macunaíma com a palavra, diante da antropofagia reinante entre os próprios cristãos.

Kyrie Eleison

Derval Dasilio

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