ANO NOVO: EM 2010 A GRANDE NOVIDADE SERÁ JESUS CRISTO
(Salmo 103 e o Yon Kipur: entoando o Kol Nidrei)
No Kol Nidrei, entoado no Dia do Perdão, da tradição israelita, o ritual cheio de magia pode neutralizar “demônios” e “maus espíritos”; todas as promessas feitas nesse dia deverão ser cumpridas, confessar e perdoar-nos uns aos outros, inclusive, porque está implícito, nesse dia, que Deus já nos perdoou!
Gerações do povo bíblico conhecem o poder da palavra capaz de gerar o novo (davar), quando o próprio homem se oferece como garantia. “Nos primeiros instantes do Dia do Perdão, ao iniciar nossa ‘limpeza espiritual’, somos lembrados que uma promessa, a palavra, é arma poderosa. Se bem usada pode reconfortar, construir; mas usada de forma inadequada ou leviana pode destruir” (N. Schaman).
Para fazer um balanço de 2009, lembramos um mito da antiga cultura mediterrânea. De tempos em tempos, a águia se renova totalmente (como a fênix egípcia que nasce das cinzas). Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder, vira uma tocha no espaço. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu, qual flecha incandescente, nas águas frias do lago. Perdendo as penas queimadas, na experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce. Volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e vigor da juventude.
Seguramente, este mito constitui o substrato do salmo: “O Senhor perdoa todas as tuas culpas, Ele cura, sana, as tuas doenças; faz com que a juventude se renove como uma águia”. Fogo e água são opostos. Mas, quando unidos, são poderosos símbolos de transformação. A água irriga a terra matricial e generosa; é símbolo do ventre fecundo da mulher; lembra também dimensões criadoras, no homem e na mulher.
O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões fortes de resistência, coragem, ousadia. Embora masculinas, estas dimensões estão no homem e na mulher. O fogo, no entanto, nos faz imaginar fornalhas que queimam e acrisolam, eliminam tudo o que não é essencial. O fogo do inferno, na Idade Média, foi mais além, apontava a perdição, a danação, em razão de grandes erros humanos. Aqui, o sobrenatural fascina e nega a verdadeira natureza humana.
Passar pelo fogo e pela água significa integrar em si os opostos e crescer como pessoas, fortalecendo a identidade pessoal. Assim os sábios da Bíblia classificam esses elementos transformadores.
O velho, o que é? São os antigos hábitos, as velhas atitudes, torcer o nariz, virar o rosto diante das desgraças humanas; negar compaixão, solidariedade, misericórdia, omissão no cuidado com o próximo e o distante; desinteresse pelo bem comum, indiferença quanto ao lixo cultural que nos impõem aceitação passiva das pesadas armaduras ideológicas narcisistas, egoístas, no modo de vida individualista e consumista de inutilidades. Distanciamento das últimas fronteiras do ser com dignidade, onde se preservam os melhores valores das gerações ancestrais, sobre direitos do homem e da mulher.
Rejuvenescer como águia significa também desprender-nos de ideias que um dia foram boas, luminosas, mas que lentamente se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida; de motivar as novas gerações para viverem o sermão de Jesus (Mateus: cps 5-7). Permanecer velhos é dizer que idéias fossilizadas têm o mesmo valor que idéias renovadoras e revitalizantes. Rejuvenescer como águia significa ter coragem para aceitar o novo, recomeçar e estar sempre aberto a escutar, aprender com a Palavra que sempre gera o novo. É isso que nos propomos a cada novo ano?
Que o ano que se inaugura, nos ensine a não temer a Palavra, o fogo que queima a penugem inútil para dar lugar à nova plumagem, novas garras, disposição para o confronto valente, indignado, com os inimigos do Reino (cf. resultados da Cop-15). Sem temor de mergulhar na fogueira a velha mulher e o velho homem que há em nós; fazer compromissos com Deus.
O salmo completa: “os que confiam no Senhor voarão como águias, subirão até as alturas”. É hora de assumir compromissos com Deus e aceitar os riscos, voar, galgar espaços altos, atravessar e transpor montanhas, rumar na direção dos horizontes não conquistados, utopias libertárias do Reino sonhadas no Cristo de Deus: Jesus será a grande novidade em 2010. Se permitirmos.
Derval Dasilio




Os evangélicos precisam encontrar quem lhes compre o voto, o corpo, a sensibilidade, o tempo, a criatividade e a energia vital? Como resgatá-los de ideologias constituintes do vilipêndio da pessoa e do corpo, já discriminadas pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela opção sexual, pelo peso e altura, se aí estão igualados na exposição da mídia como objeto de consumo do poder político? Sem falar do abuso do culto neoevangélico à corrupção (como no mito da Hidra de Lerna, monstro que habitava uma caverna e infestava o pântano por inteiro; serpente imortal, com nove cabeças indestrutíveis, hálito fétido capaz de destruir a vida ao redor). 



Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”… Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.
