Derval Dasilio – Escritos&Artigos

25/01/2012

COMO PILATOS NO CREDO

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 “A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Quebrando o Tabu). Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo políticos. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Criminalizando, quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta que não sobrevivem sem a droga.

 Quem não pensa nas consequências sobre a igreja, família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia, e não condenação abstrata. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia (ou condenação eclesiástica), onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, medicina da saúde, são direitos humanos que devem ser buscados.

Muitos movimentos e grupos religiosos, igrejas e ongs, mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como “laranjas” de causas materialistas, mercadológicas, servindo políticos inescrupulosos sem fraternidade (filia), sem comunhão (koinonia) e sem serviço ao próximo (diakonia). Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista (Mc 2.7) “…o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei!  Declarações condenatórias engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo que ignoram o ser humano e suas necessidades, apontando subjetividades como: “na igreja não somos assim”. Repetem a oração do fariseu (Lc 18.9-14). Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia o essencial: o homem e suas carências. Ou seja, seus direitos fundamentais.

Diante das leis de repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos, Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas tratando o usuário de como paciente tratamento médico e não como criminoso (52% deixaram a droga). Enquanto isso, reduzia-se o campo de atuação do traficante e da venda ilegal. A saúde pública incluía substitutivos da droga clandestina nos receituários de pacientes usuários de drogas; busca a aproximação espontânea do doente, não a repulsa e a repressão; dizia não aos riscos da clandestinidade, fazia o papel da medicina regular, que se abre ao que quer ser tratado. Ou seja, a maioria dos usuários.

Para o Evangelho, o  despoderado (heb. anawin; greg. ptochos), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, humilhado pela própria vida, na Bíblia, é o ignorados e desprezado pela própria sociedade (e por que não o Estado?). Como o usuário de drogas. A sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador e a eximir-se de responsabilidade e culpa pela injustiça que sofre. Prefere declarar-se contra… Ou seja, a compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, la, rigreja, oikos. O socium é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade eclesiástica ou não. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior responsável pelo todo, ou  à coletividade humana.

Como dizia alguém, talvez Oscar Wilde, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou transparência. O político é ardoroso, contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha, e é pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune. Mas não se compromete com leis de responsabilidade social para com o usuário de drogas. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (Wagner Siqueira) , como se diz da droga. 

É lavando as mãos que Pilatos entra no Credo. O caráter normativo (referência) do Evangelho há de nos lembrar: aos perseguidos, discriminados, pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Nesta passagem se expressa o centro vital da mensagem de Jesus. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias (comp. 31.33). “Cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Nenhuma “lei” ou declaração religiosa moralista terá efeito sobre o que é responsabilidade do Estado. O fruto ruim nos obriga a uma nova semeadura para um mundo novo possível.

12/01/2012

Como foram os evangélicos em 2011

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Os evangélicos em 2011


O que vimos na igreja evangélica em 2011? Evangélicos históricos não se apresentaram à sociedade brasileira uma única vez proclamando sua fidelidade ao “princípio protestante”. Timidez ou omissão? Sobre nada protestaram. Evangélicos pentecostais comemoraram os 100 anos do pentecostalismo introduzido pela Assembleia de Deus. Trata-se de um movimento vitorioso, prática da religião mágica, superstição, truques de prestidigitação, misticismo e abuso sobre a consciência, individual e socialmente, envolvendo campanhas e promessas, retrato cultural de crenças populares desde sempre: “Deus dará a vitória”. O Congresso Nacional foi acrescido de um excelente número de pentecostais vitoriosos, em função das eleições de 2010, enquanto o IBGE publica aumento no seguimento evangélico pentecostal nacional.Livrarias evangélicas enchem-se de bugigangas, enfeites, balangandãs sagrados, cosméticos “abençoados”. Indo a São Paulo, dois endereços obrigatórios: a 25 de Março e a Conde de Sarzedas, atrás da Sé. Não sendo necessárias as tradicionais bíblias evangélicas, porque as escolas bíblicas – que têm desaparecido em todo o protestantismo – não se fazem necessárias. Uma vez que na religião popular evangélica pentecostal amuletos e objetos de magia religiosa preenchem a “zona cinzenta entre o sagrado e o profano” (expressão de Roberto DaMatta).

O governo em 2011 correu atrás de ministros corruptos, encontrou dezenas de pastores chafurdados nos setores viários, transportes, que envolvem bilhões de reais em concorrências suspeitas. Muitos deles, originários do PRONA e do Partido Liberal, fundidos no bloco evangélico, dão lições a laranjas com competência inimaginável. Igrejas são ensinadas a roubar do país. Amigos e parentes enriquecem, enquanto se foge da Receita e do Ministério Público. Como explicar essa associação, se o estímulo está nas novas igrejas, as que ensinam a teologia da ganância?

Prevê-se o fim definitivo do protestantismo ético.  De quebra, o evangélico acha-se no dever de ser politicamente corporativo. “A Igreja Evangélica hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença”, afirma Walter McAllister (Cristianismo Hoje, nov./dez.2011). Velhos adversários do protestantismo riem de boca grande, enquanto observam irrelevância e mediocridade nos representantes evangélicos.

A mais admirável personalidade evangélica de 2011 é pentecostal. Canais poderosos de televisão favoreceram o “culto doméstico” em torno da televisão (a TV Globo anuncia sua adesão ao evangelical business em 2012, R$ 2 bilhões anuais em questão – Folha Ilustrada 18/12/2011). Sem a presença corpórea da igreja, a televisão evangélica é “pastora eletrônica” de milhões, inclusive históricos, enquanto ensina o evangelho supersticioso e a ganância.

Mega-igrejas pentecostais ganham aprovação de teólogos importantes, recebem “membros” de dupla confissão, e dupla convivência eclesiástica, aos milhares, devidamente cadastrados; fazem proselitismo por telefone, nas rádios e na TV; declaram o número de seus membros, os quais flutuam lá e cá sem pudores históricos. Não foram jamais tão felizes e aplaudidas pelo fundamentalismo.

Estimulando o egoísmo narcisista (Narciso gosta do espelho, acha-se grande, bonito, perfumado, charmoso, sonoro, sedutor…), exterminando o sentido da comunhão na congregação, onde estão enfermos, deficientes, crianças, mulheres violadas, idosos, carentes de cuidados, ignoram a congregação evangélica real. Sem lugar para socialmente fracassados, excluídos, abandonados pelos poderes públicos. Políticos vão bajular as igrejas nas eleições deste ano, e vice-versa, fortalecendo ao mesmo tempo a prática da compra do voto no culto. Curral eleitoral perfeito, igrejas, além de oferecerem o púlpito, ensinam a votar.

Realizando um inventário dos objetos constantes na residência de um crente evangélico, além dos folhetos contra o homossexualismo protegido por leis civis – e da campanha contra a pedofilia, que deu mais mandatos a políticos com dossiês de corrupção – somos surpreendidos por novidades simbólicas, além das camisetas pretas, entre as muitas encontradas na religiosidade popular. A vida devocional diária doméstica acompanha o uso da religião mágica, orações de poder e símbolos da religiosidade popular: rosas vermelhas, galhos de arruda, sal grosso, manto santo, chave da vitória, lenço da cura; vigília do milagre, unções supersticiosas, carros e residências ungidos, e diversos outros resultados materiais. A reprodução das práticas mágicas e supersticiosas vêm em primeiro lugar, já que exorcismo não cura câncer. Todos sabem que na “hora H” é para o Sírio-Libanês que vão. Se tiverem como.

A pentecostalização eclesiástica inclina-se também à simplificação do culto e procura do melhor espetáculo litúrgico, transformado em show e cantorias do pior gosto musical. Uma droga! Competindo com outras, no individualismo eclesiástico, repetem lições de intolerância. Moradores de rua, prostitutas, minorias sexuais, trabalhadores de baixa renda, imigrantes haitianos, bolivianos, deficientes físicos, idosos, não motivam evangélicos recentes. Luto assistido? Nem pensar. São esquecidos doentes terminais, que poderiam ser alvos de cuidados pastorais e eclesiásticos, conforto ao fim da vida. Não interessam, por serem dependentes de cuidados. Não sendo bons clientes, não são consumidores confiáveis. Espaços importantes são ocupados pela pregação interesseira. O apoio logístico à pentecostalização doméstica é avassalador. Inclusive nas igrejas históricas, as quais esqueceram as diaconias que as firmaram no mundo cristão. Sem novidades foi o ano de 2011.

A inconsistência moral de uma sociedade não pode ser quantificada mais do que pode a sua reserva de decência e indignação. Nem tampouco pode ser legislada, apesar do anseio pela ética, no país. Perseguir homossexuais, por exemplo, motiva esse grupo. Que mais? Que culpa têm eles dos demais ingredientes indigestos que compõem a nova sociedade brasileira? “Não pode haver dúvidas de que decisões básicas, que antecedem qualquer lei, são silenciosamente tomadas nos corações e mentes de milhões” (Jonathan Schell). Quando acordaremos para nossos verdadeiros problemas, e nos indignaremos com as injustiças que tomam conta da nação?

Leia mais: Paul Freston
Derval Dasilio

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

24/12/2011

A LUZ REVELADA NOS OLHOS DA CRIANÇA

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OPINIãO

A luz revelada nos olhos da criança

Por que Deus quis nascer entre os homens? Por que há Deus, e não simplesmente o “nada”, a escuridão dos tempos? A palavra  “deus”, como as palavras “dia” e “divino”, não é de tradição bíblica. No sânscrito indo-europeu “deus” significa “luz”. A luz, de fato, é uma poderosa e complexa metáfora do divino. Ela é presente e discreta por toda parte, como o calor. Como o vento – metáfora do Espírito Santo – a luz é sutil, discreta, mas presente enquanto emana a vida opondo-se à metáfora das trevas (L. C. Susin). Mas não é só isso. A palavra “Luz” evoca a experiência bíblica e cristã do menino nascido em Belém, no coração da miséria (Is 9.2-27; Lc 2.1-14; 15-20).
As trevas, no entanto, são o símbolo do nosso tempo, e o lado obscuro da humanidade em todas as eras. Polaridade negativa. É verdade que nesta geração, como resultado de inovações tecnológicas, médicas, sociais, ideológicas e políticas, assistimos uma mudança notável na maneira como um vasto número de pessoas vive. Ao mesmo tempo, termos como: ideologia política, guerra mundial, holocausto, genocídio, terrorismo, guerra nuclear e choque ambiental, entraram em uso comum, tornaram-se uma influência na vida cotidiana das pessoas. O século 20 começou com 1 bilhão, e este já inaugurou 7 bilhões de habitantes no planeta Terra.
  • A luta terrível entre forças divinas regendo o universo – forças demoníacas que abrigam o poder, possibilidades que negam a vida – confunde o que se deveria pensar sobre Deus, diante de ídolos de poder, de conhecimento científico, de dominação religiosa. Para projeções de desejos de força, poder, e de medo, é melhor o nada. O vazio. A tradição cristã abraça esse nada e esse vazio, apontando em escandalosas expressões o que está no coração da Natalidade: “A Palavra se fez Carne” (Jo 1.14), “Esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição da servidão humana” (Fp 2.7). 
  • Vítimas da impiedade vigente, o menino seria o Deus dos fracos como sua mãe. Da tipologia de Deus, agora no menino, o profeta garantia, no passado: “Eu habito em lugar santo, mas estou junto ao humilhado e esmagado” (Is 57.15). Portanto, não é olhando para os céus que ele é encontrado (Atos 1.10-11), mas no chão terreno onde a vida é aviltada. Não é zelando pela santidade, é no coração da miséria que o menino “nasce”, experimentando todas as fragilidades, injustiças, desigualdades, abandono e ameaças constantes de intolerância e exclusão. Frágil e mortal, sofria as condenações dos pobres desde o berço. Outro profeta disse que ele seria o juiz das consciências e defensor das causas perdidas: “Praticou o direito e a justiça [...], julgou a causa do pobre e do indigente abandonados” (Jr 22,15-16).
  • A Natalidade do Senhor não é uma exibição de grandeza política ou religiosa. O menino não quis ser um ídolo e, como ele, Tiago disse: “O verdadeiro louvor e a verdadeira religião são o socorro ao pobre, ao órfão e à viúva” (Tg 1,27). Não há religião sem uma ética do cuidado, da misericórdia, da compaixão e da solidariedade. Voltada para o que sofre, o desprotegido, o que chora, que é abandonado, torna-se verdadeira.
  • A tragédia do não reconhecimento do desenho poético de Deus nos condena à perplexidade. No menino de Nazaré vê-se o lado mais sombrio e efêmero do  presente, que não só abandona os sofredores de injustiça, mas mergulha na impiedade. O mundo violento, egoísta, ganancioso, declara não depender de Deus, enquanto venera o Natal mercantilista e pagão. Muito menos mostra precisar do menino – e são as crianças que haverão de sobreviver a ele. 
  • No entanto, na voz melodiosa de Maria, a mulher: “a misericórdia de Deus continua de geração em geração… sua força dispersa os planos dos soberbos e arrogantes… derruba dos tronos os que detém poder, e valoriza a gente humilde que não tem com quem contar… cumula de alimentos os famintos, e manda os ricos para os quintos dos infernos… socorre o seu povo, conforme prometera no passado, recordando sua lealdade e fidelidade, para sempre” (Lc 1.46-55: paráfrase minha). Não há alegria maior, quando uma criança nasce para tal fim. Deus está conosco, “Jesus é a alegria do mundo”. Com a palavra o hino de J. S. Bach, que cantaremos em toda a sua profundidade e extensão neste dia de Natal, lembrando a solidariedade de Deus com os humilhados.
  • Aqui nos deparamos com o destino humano, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, no menino. Construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. O evangelho da Natalidade do Senhor recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo ideal (Lc 1,46-55). Um mundo sem males nem dores, um novo céu e uma nova terra (Is 65.17-25; Ap 21,1). Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa canção de amor pelo mundo criado”. Só os poetas, e o próprio Deus, creem que a beleza do mundo inteiro, como nos seus mistérios, está nos olhos da criança. Neles, os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.
Derval Dasilio

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

13/11/2011

ADVENTO E NATAL SITIADOS PELO DINHEIRO

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Derval Dasilio  – Textos Publicados
ULTIMATO ONLINE  -  OPINIãO

Advento sitiado

Atualizando a parábola do rico e do pobre, ou o confronto de João Batista com Herodes, banquetes, ceias, e comemorações de fim de ano, uma festa para a massificação do consumo e desperdício está em andamento, e ao mesmo tempo se exibe uma falsa privacidade. Ninguém pode mais concordar com Hegel, filósofo muito interessante. É uma pena! Dizia que “a privacidade nos ajuda a viver num mundo sem compaixão”. Hoje, esse conceito não funciona mais. Para muitos não há mais um mundo privado para reflexão,  agimos “como um cão que volta ao seu vômito” (Lc 16,19-31). De que vale a privacidade num mundo assim? A cultura utilitarista predomina, como objetos comprados, descartáveis, “use e jogue fora”, os valores de uma ética de partilha e solidariedade são atirados no lixo sem o menor pudor.

 O Advento e a Natalidade do Senhor nada significam, hoje. O problema, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos tradicionais sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro. Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância das mesmas. Vive-se uma cultura sitiada pelo dinheiro (Jurandyr Freire), nas festas de fim de ano. Uma geração inteira encontra-se dopada, quando se encarrega de adotar e veicular os “novos valores” sem nenhum controle. A compulsão do evangelical  business não deve ser desprezada. A juventude evangélica, “diante do trono” gospel, sabe muito bem que estamos falando da cultura do dinheiro. Aderimos ao tema mundial “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Fim de papo.

Consumo rápido, fast-food: molho de tomate, hamburguer, são alimento e sangue dessa nova cultura. Jovens evangélicos abraçam o gospel como religião emocional salvadora. São inaugurados bares e boates gospel, para o compartilhamento cultural do novo jeito de ser “crente moderno”. Jovens de outras tendências, possivelmente não-religiosos, extasiados, adeptos confessos da cultura rock, marcam os costumes das novas gerações com piercings, tatuagens, uso “quase livre” de drogas estimulantes, para vários fins, como os comprimidos de ecstasy e viagra para a inapetência geral. Vale tudo, enquanto são convidados a esquecer a História, as lutas pelas liberdades civis e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, aproveitemos, porque amanhã…  não interessa…

Poucas décadas atrás, o anseio de liberdade devido às ditaduras e a sustentação de totalitarismos em todos os quadrantes, a precarização do ensino, o desemprego, a ausência de liberdades civis, cidadania, direitos humanos, levava os jovens às ruas. Quem imagina jovens apaixonados por festivais gospel, e encontros carismáticos, “marchas-com-jesus”, frequentadores de shoppings, nas ruas reivindicando direitos fundamentais para a sociedade toda? A obsessão consigo mesmos se manifesta menos no ardor do gozo da juventude que no medo da velhice, da doença, na panacéia oferecida como remédio para aproveitar bem o tempo em atividades que dão prazer ao corpo,  a qualquer custo, menos que os prazeres da alma e do espírito (Gilles Lipovetsky).

Há inquietações, no entanto. Tudo deveria inquietar e desassossegar. O terrorismo e seus estragos na paz mundial que nunca chega, a fome global, a poluição urbana, a ausência  da socialização das riquezas monetárias (nunca tantas pessoas tiveram tanto dinheiro, bens, posses, possibilidades que envolvem o direito à propriedade ilimitada), a violência nas periferias das metrópolis, a fragilidade do corpo diante de enfermidades antigas e recentes (o drogadismo farmacológico, entre outras). A compulsão consumista equivale às demais compulsões pelo álcool, pelas drogas leves ou pesadas, pelo sexo, pelo jogo, pelo trabalho sem repouso.

Entre os etariamente maduros, também, todos ficam felizes. No Natal, nas comemorações com parentes e amigos, falaremos de moral, ciência, religião, política partidária, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, ultrasom, próstata, colunoscopia, medicina de ponta, e mesmo assim chega o dia inevitável em que se vai para o caixão. “E virá a próxima geração de idiotas, que também falará sobre a vida e o que é apropriado para se viver bem. Meu pai se matou, os jornais o deixavam deprimido. E você pode culpá-lo com o horror, a corrupção, a ignorância, a pobreza, o genocídio, o aquecimento global, o terrorismo, os valores morais imbecis e os imbecis armados até os dentes”? (Woody Allen). Levar gol contra acaba cansando… Contudo, os temas do Advento não devem ser esquecidos.

28/10/2011

Pais de santo evangélicos

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OPINIãO

Pais de santo evangélicos

O culto evangélico tem sido invadido pela magia, prestidigitação ritual, curandeirismo e superstição. Pastores e pastoras midiáticos também assumem os lugares de santos e santas da religião popular, como pais de santo de terno e gravata, ganhando a admiração ou rejeição de crentes do protestantismo histórico. Constituirão num perigo, como foi em todos os tempos na religião cristã? 
A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nesta, as aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras e vulgares de satisfação física e material. Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião. Práticas de astrologia, adivinhação, prestidigitação, superstição e magia, eram elementos que permeavam o culto cristão. Papiros contendo orações e hinos “libertadores” eram elementos que circulavam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuavam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, quanto ao que observamos hoje, com o público cativo em torno dos “santos e santas evangélicos” da telinha?
          Para alguns (parece que não são muitos), na comunidade e no âmbito da família, a fé não deveria ser assim, materializada e pragmática. Pedem soluções, metas, políticas, para se estancar estruturalmente a onda de injustiça social, de violência, de corrupção, que grassa no mundo, atingindo a família em cheio. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico, alcoolismo, tabagismo, consumismo? E nos lares evangélicos, quem escapa do culto aos “santos” e “santas” evangélicos? Diariamente, “pastores” e “pastoras” ocupam horários no “espaço sagrado do lar”, doutrinando milhões de crentes para a religião da ganância, “ganhando almas para Jesus” (na verdade ganhando compradores para produtos de qualidade discutível). Estes e estas, no domingo, vão aos cultos da igreja local.  
          A pentecostalização eclesiástica comum inclina-se também à simplificação da prática e procura do “melhor espetáculo litúrgico” high tech, eletrônico, com trucagens digitais. A vida devocional diária, pela televisão, com o uso da religião mágica, leva para a sala ou o quarto de dormir objetos simbólicos neoevangélicos. Um seminarista fez um inventário das práticas que já alcançam lares evangélicos tradicionais. Orações de poder impressas, rosas vermelhas, galhos de arruda, sal grosso, manto santo, chave da vitória, toalhas, lenços, ao lado da Bíblia. Vigília do milagre, unções em carros e residências para evitar “mau-olhado” merecem atenção. Realizando-se “batalhas espirituais” e auto-exorcismos chega-se à “vitória”, creem. Expressões comuns, conceitos abstratos, mas essa “espiritualidade”, como disse Pedro Lísias Moraes e Silva, impõe resultados materiais aqui e agora, demonstrados na prática familiar ou publicamente.
          O culto simbólico, carismático, torna-se modelo. Desconhecendo a esperança ética de transformações, mergulha no louvor como bajulação de um “deus quebra-galho”, apresentando receitas novas, porém sem ingredientes, sem forno e tabuleiro para a vida de fé. Para muitos evangélicos, os objetos mágico-simbólicos ajudam muito, preocupados com a prosperidade material e solução para tudo. Vale o dinheiro, o sucesso, o êxito na vida. “Entre Deus e o dinheiro, o segundo é o primeiro”, disse um teólogo. Aí está o novo culto evangélico: diversões musicais, prestidigitação, amuletos e ganância por vitórias. Sucesso e fortuna.  
          Na fuga religiosa, o púlpito e a mesa da comunhão, por excelência, alimentadores da fé, são também substituídos por parafernálias eletrônicas. Ofertórios compulsórios, no culto, anunciam promessas jamais cumpridas. Deus é bajulado com louvação insincera, interesseira; não há lugar para a oração íntima, de indignação e de inconformismo com as injustiças no mundo (como podemos ver em muitos Salmos). No novo culto pentecostalizado, quem intercede busca o milagre compulsório. Inexistem cultos e ritos em ação de graças pelos que morrem; enlutados são ignorados, porque a morte é concebida como derrota das teses de cura ou exorcismo do mal sistêmico, perdendo relevância pastoral e litúrgica.
         A fé neoevangélica não é inclusiva. É extorsiva, autoritária, abusiva. Desconsidera as lutas por direitos, da mulher e da criança, do jovem e do idoso, despreza as minorias oprimidas e as alija da vida de fé; esquece adolescentes sob forte risco social, que morrem como moscas nas periferias das metrópoles e são condenados à marginalização perpétua. A população jovem é a que mais sofre violência. Pastores são acusados de conluio com sequestradores e traficantes ou de surrar seus filhos (leia A Gazeta, 29/05/2009 e A Tribuna, 18/10/2011). Crianças de hoje também levam armas de fogo para as salas de aula e pretendem matar professores. Por quê?
          Jovens evangélicos universitários, da classe média, carismáticos, sem orientação sobre ética e missão cristãs, servem à alienação nos louvores emocionados, na pele arrepiada pela oração esotérica (pra dentro, oposta à realidade humana externa, nas implicações referentes ao aviltamento da justiça, desigualdades, intolerância, preconceitos, violação de direitos fundamentais). Imaginam-se “diante do trono”, pensando e contribuindo com o sucesso dos astros e igrejas milionários. Enquanto isso, ocupam altares em busca de espaço e visibilidade, olhos estrábicos ao mal sistêmico que não se quer combater, sem a profundidade espiritual da experiência de Deus nos quinze a trinta minutos de louvor. 
 Que igrejas e que pastores os educaram?
Derval Dasilio

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

23/09/2011

DA ARTE DE MANIPULAR A MASSA ATRAVÉS DA GANÂNCIA

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OPINIãO

Engordamos os outros para nos engordar

Do texto de Shakespeare encontramos uma verdade: “engordamos as outras criaturas para nos engordar, e nos engordamos para sermos comidos pelos vermes”. Hoje, o grande escritor talvez modificasse Hamlet e desse outro sentido aos vermes que devoram a religiosidade sincera e realmente dependente do favor divino, legando às larvas o papel privilegiado no consumo religioso do mundo evangélico pentecostal. Provavelmente começaríamos como o original. E não apenas para engordar as larvas que vão nos comer, não somente no finalzinho da vida de cada um. Pretendo não dar esse gostinho aos vermes: quero ser cremado.Estive pensando sobre meus contatos com o evangelical way of life. Na versão pós-moderna, a graça deve ser obtida através de esforço político-eleitoral, financeiro, não importa de onde venha, se roubada do erário ou do fiel – o qual nega comida aos filhos para entregar sua fezinha “no altar pentecostal”. De outro lado, parafernálias eletrônicas deslumbrantes, midiáticas, artificialmente carismáticas, através de trucagens do tipo “me-engana-que-eu-gosto”. E a turma gosta, mesmo. Para alguns, essa exploração não parece mais detestável do que roubar de volta o que já fora roubado: a integridade do nome “evangélico”. Em cartaz: O Aprendiz de Feiticeiro – tudo que o fundamentalismo evangélico ensinou num curso intensivo da arte e magia do controle da massa pela ganância, sem o truque da volta à realidade.

Parece um tipo de conspiração contra envelhecidas concepções, “revivals” moralistas importados convidando cúmplices desavisados para algum tipo de movimento evangélico. Quiseram implantar coisas como o Moral Majority (EUA), mas só deu certo na “campanha contra a pedofilia”, do pastor reeleito facilmente para mais oito anos no Senado. Apoio da massa evangélica, e o bloco cresceu muito, embora alvo preferencial na faxina do governo Dilma Rousseff. Há “ungidos do Senhor”, laranjas do alto escalão evangélico, mamando feio no Ministério dos Transportes (jornal O Globo, 11.07.2011: DNIT, rombo de 720 milhões).

Eleitores conservadores embarcam no moralismo inconsequente, apoiando fusões ultraconservadoras de partidos mesclados, mas saudosos do autoritarismo (PRONA & PL = PR). Corrupção rende dízimos e ofertas altas, das quais igrejas não abrem mão. Nessa sociedade, nada pode reivindicar isenção à regra universal do descarte, e nada pode ter permissão de se tornar indesejável. O protestantismo histórico, porém, sai liso e limpo da lama onde patinam igrejas neoevangélicas nos dias atuais. Faz justiça à sua herança ética. Não se entregou ao mercado de mentiras.

Uma coisa, porém, é certa: ao contrário dos templos evangélicos high tech, onde pregam políticos corruptos a convite de pastores ricos, nos cemitérios não houve inovação. Tumbas e caixões de acrílico, lâmpadas led ao invés de velas, não se popularizaram. A religiosidade espetaculosa passa ao largo desses lugares, porque as sepulturas contrariam o que mais anunciam: destaque político, felicidade financeira e psicológica eternas aos crentes que financiam ou se associam a empreendimentos eclesiásticos recentes: “se o cara não tem fé, não enriquece, não se cura, não consegue nada” (Silas Malafaia, A Gazeta 4.09.2011). Doentes terminais, deficientes físicos, homens e mulheres no fim da idade outonal, são empecilhos às teses neoevangélicas. Não são bons clientes para a religião da prosperidade. A razão é óbvia. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia de felicidade e sair das fileiras dos derrotados. Lá, é lugar de moradores de rua, prostitutas, minorias sexuais, trabalhadores de baixa qualificação; desventurados amorosos, mal casados, mal instalados, mal empregados.

Nos dois extremos da hierarquia da ganância as pessoas são atormentadas pelo problema da identidade. Nessa viagem de negócios, “da chegada à partida está um deserto, um vazio, uma imensidão, um amplo abismo, do qual só uns poucos mostrariam coragem de saltar fora por vontade própria; forças centrífugas e centrípetas, de atração e repulsão, combinam para segurar inquietos e estancar a saída dos descontentes. Em graus variados, da imunidade à vertigem; da adaptação à tontura, pratica-se da arte da aquiescência à desorientação: falta de itinerário e direção” (Sygmunt Bauman).

A tipologia do “baixo proletariado espiritual” sugere que as fileiras se incham com rapidez e seus tormentos escorrem, com profusão, de cima para baixo, saturando camadas cada vez mais espessas da pirâmide social. No meio, a classe média em ascensão adere à religião da prosperidade, até para justificar-se. No vértice, o alto clero neoevangélico, rico, milionário, ostentando alto luxo nos costumes, conduzindo a manada inocente ao matadouro. Com salários em torno dos R$ 100 mil, programas televisivos e de rádio, adornados com griffes internacionais, joias e relógios caros; mansões e sítios de R$ 10 milhões para cima (revista Isto É. 09.09.2011), saem pela cidade para cumprir suas obrigações de carros importados, blindados e escoltados por seguranças, ou voando em helicóptero de R$ 2,5 milhões.

Mas que o observador não se engane. A riqueza que se ostenta tem retaguarda na história da escola da religião da prosperidade (nos anos 1970, a Teologia da Ganância é veiculada com sucesso vertiginoso), na onda crescente do movimento evangélico (A. Gouvea Mendonça). Mas, Valdomiro, o apóstolo, egresso do grupo dos pastores pobres (que vão continuar pobres) treinados na IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), buscou seu espaço, retomando o seguimento afro-religioso, configurado no catolicismo popular. Enfim, o pentecostalismo quer afirmar a supremacia evangélica no Brasil (FGV – Novo Mapa das Religiões; IBGE – 2010). Mas o protestantismo original se levanta da lona, recupera-se, como diz Robinson Cavalcanti. Felizmente, não se entregou.

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

09/09/2011

Novo nascimento e ecologia mental

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OPINIãO

Novo nascimento e ecologia mental

Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”. Importa não pararmos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente. Sabemos do nosso fim e quem somos realmente (“pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó” – Sl 103.14).  O diálogo de Jesus com Nicodemos é um primor no evangelho joanino.As perguntas e as respostas alteram a lógica comum (Jo 3.1-11). Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão no texto bíblico: a fé que exige sinais.Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé, mas uma ecologia mental.É preciso tomar uma nova consciência.

Aqui está, praticamente, uma discussão rabínica: “bereshit” e também “en arché” (no princípio). Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de “estar-no-mundo”? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)? A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, coloca-nos em uma situação peculiar diante da vida e do Universo. Ecologia mental. Profundidade interior.  Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”. Importa não pararmos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente, sabemos do nosso fim, nosso fim e quem somos realmente (“pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó” – Sl 103.14). É preciso tomar uma nova consciência. Paulo sugerirá outra maneira, no sentido do mundo principial reiniciado: A fé é uma história nova a cada dia… (Rm 4.1-5).

Tão comum em tantas culturas: a água é fonte da vida. Água fecundada pelo Espírito, nos escritos bíblicos. O ventre materno, comum noutras culturas, na tradição bíblica, evocará a feminilidade criadora (rûah também é uma palavra feminina; o ventre criador de Deus tem atributos femininos e maternais). A Natureza não pode competir com o Homem, porém, serve-o como escrava desde todas as eras. A não ser quando as circunstâncias paleontológicas, geológicas, climáticas nos lembram das forças permanentes que atuam no Universo, não alcançáveis pela tecnologia ou pelo capital. Um maremoto causa o fechamento de uma usina nuclear, por exemplo, com esse fim.

A ecologia mental nos remete, entretanto, às causas remotas da crise ambiental. Noutro sentido, por que valorizar a natureza como estática e intocável, se ela própria pode ser objeto participante das transformações, com capacidade para a produção de energia e de alimentos para os tantos milhões de famintos, doentes e reclamantes de integração no moderno mundo das tecnologias de bem-estar?

Voltadas para as necessidades que precisam ser atendidas, de alimentos, habitação, urbanização humanizada, medicina de ponta socializada para os mais baixos níveis de consumidores, não há o desvio de finalidade. E quando ela só se justifica por oferecer lucro e capital, e privilégios para poucos? O assunto é vasto, uma vez que o mundo não pode retroceder à era pré-tecnológica, como já nos lembrava Jacques Ellul (A Técnica e o Desafio do Século). Sem dúvida estamos diante da necessidade de novos modelos de desenvolvimento e de novos sistemas econômicos, enquanto se buscam sustentabilidade e estabilidade social, face à extrema rapidez dos insumos tecnológicos.

Do que mais incomoda, porém, parques industriais estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. O motor da vida é a esperança de um mundo novo, transformado, a utopia, o futuro que desejamos. Tudo depende de nossa visão, do sonho. Se nossa vista capta somente o que é imediato e rasteiro ao nosso redor, ou se não é capaz de penetrar na realidade da promessa divina e descobrir que ali há algo de profundo e elevado para a vida, não entendemos nada da Bíblia. Abraão é a figura que melhor expressa a fé, no Primeiro Testamento. Deixar tudo, romper com tudo, e ir em busca do “mundo que eu te mostrarei”, sem segurança, sem saber o que lhe seria reservado, só confiando na Palavra de Deus, é o que estabelece a relação que podemos retirar da leitura sobre a fé e o novo nascimento.

“Deus não vê como os homens, que vêem a aparência, o Senhor vê o coração”. Isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (1 Sm 16.7). Jesus discorre sobre questões que se referem à origem e sustentação da vida, o que há de mais fundamental pertencente ao ser humano, sopro do Criador. Em primeiro lugar, preservar a vida. A prepotência da técnica não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta. Confirma-se o dito: “comemos o que terminará por nos devorar”.

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

25/08/2011

“VOCÊ É LIVRE!”: O QUE É SER LIVRE?

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“O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem” (Paul Tillich).

“CAPTIVO: VOCÊ É LIVRE!”: O QUE É SER LIVRE?

Ronaldo Sathler-Rosa *

O musical “Captivo”, exibido nos dias 3 e 4 de junho de 2011, em São Paulo, no Auditório Rui Barbosa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, encerra a significativa mensagem da peça com a expressão “Você é livre!”. Instigado por essa apresentação resolvi anotar algumas considerações. Qual o sentido de “ser livre” na Bíblia?Em sua acepção mais básica, livre é toda pessoa que não é propriedade de outro. Ademais, é livre toda pessoa que rejeita qualquer dominação: por outro ser humano, pela cultura, pelo poder financeiro, pelos meios de comunicação social e outras. Livre é quem não se deixa ser manipulado como se fosse peça de um amplo esquema de colonização mental.

Livre é a pessoa que exerce seu pensar e sua capacidade crítica para identificar e descartar esquemas que escravizam o ser.Somos livres enquanto buscamos refletir a imagem de Deus em nós. Criados à “imagem e semelhança” de Deus (Gênesis 1. 26-27), portamos em nós mesmos, em alguma medida, a liberdade do Criador. A substância do que somos e nossa liberdade tem sua raiz no ato livre da Criação divina e na Graça manifestada em Jesus.A liberdade, no entanto, estrutura-se em torno da “lei”. A lei, no Antigo Testamento, tem caráter educador: objetiva a formação para a prática do bem (Deuteronômio 6. 1-7).O Novo Testamento refere-se à “lei do Espírito da vida” (Romanos 8.2), à “lei da liberdade” (Tiago 1.25; 2.12) e à lei como “forma de doutrina (Romanos 6. 17).

Todavia, a Escritura reconhece que o pecado, isto é, o afastamento do Criador, impede o exercício da autêntica liberdade (Romanos 7.19). Pela Graça, através da fé, em Cristo, a capacidade para ser livre e para a comunhão com Deus é recomposta. Em Jesus é livre quem conhece a Verdade (João 8.32).Já na tradição da filosofia política, Charles de Montesquieu (1689-1755), filósofo francês, defendia que a liberdade deve ser exercida sob a obediência as leis.

Entretanto, a conformação à lei requer que ela seja justa e que favoreça existência harmoniosa entre os membros de determinada sociedade. Na mesma direção, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) reconhece que ao ajustar-se à lei a sociedade reconhece o predomínio da vontade geral sobre a vontade individual.

Ser livre, portanto, na vida em sociedade, significa exercer vigilância sobre as leis para que, verdadeiramente, promovam o bem de todos. Além disso, ser livre implica em exercitar a capacidade de distinguir entre as mensagens que tentam neutralizar a liberdade humana – “passadas” cotidianamente em conversas informais, nos discursos, pelo mundo das finanças e, inclusive das religiões – e aquelas condizentes com a vocação humana fundamental: viver em paz com o Criador, conviver com outros, viver em harmonia com a natureza e consigo mesmo.

A mensagem proposta no musical “Captivo” mostra que todos corremos o risco de sermos controlados por forças desumanizadoras no dia-a-dia e sugere a pergunta para nossa reflexão: você é livre?


* O  Site de Ronaldo Sathler-Rosa (Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança, Aste, 2002)  é impressionante, qualificado,  necessário, e até imprescindível, em termos existênciais. Recomendo, insisto com meus leitores sobre este colega da Universidade Metodista de Rudge Ramos, em S.Paulo. Publiquei esse texto sem autorização. Ele me compreenderá. O livro “Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança”, ASTE, 2004,  é um grande auxílio para quem trabalha a hermenêutica da fé. O leitor encontrará, além de exegeses preciosas sobre os fundamentos do “cuidado”, temas de interesse incrível a respeito de nossa formação cultural (ethos): Impermanências, Cultura das sensações, Desemprego, A Nova Era das Desigualdades, Competição, Insegurança. Essa obra é texto obrigatório no CFTRS (Centro de Formação Teológica R. Shaull / IPU / Presbitério de Vitória). Um instrumento valioso para debates na sala de aula, tanto quanto no discipulado das igrejas locais. Espero sua atenção e reflexão, leitor. Você não se decepcionará.
Derval Dasilio
Professor / Pesquisador  do CFTRS / Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

22/07/2011

POR QUE A IGREJA NÃO É A PORTA DO CÉU?

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OPINIãO

Os sonhos da humanidade e os caminhos da Igreja

Derval Dasilio

De onde surge a cizânia na Igreja (Mt 13.24-43)? Onde se semeia a discórdia? Temos a paciência do tempo,  esperança para confiar na conversão da cizânia em trigo bom para nosso povo e nossas comunidades? Lembrando Jacó, como reconheceremos que a Igreja é o lugar de Deus e porta para os “céus”, todos os céus, formas de bem-estar disponíveis desde a economia, e na participação das lutas e dos bens sociais? E, também, a partir da paz espiritual, o que se fará para alcançar dignidade, direitos humanos, cidadania,  como o hebreu Mateus identificou o Reino dos Céus? Como reconheceremos na Igreja um lugar sagrado no qual se vislumbre que o Reino de Deus é o  lugar onde se realizam os sonhos “impossíveis” (impossible dreams) da humanidade?

Jacó, que roubara a primogenitura do irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gen 28,10). Jacó foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran. Trata-se, como se observa na tradução dos termos, “de um lugar para outro lugar”. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque caía o sol”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá ba-makon”, quer dizer: foi pego, seduzido, atraído pelo sagrado do lugar. Que lugar é esse? O texto não esclarece, o contexto não ajuda.  Mas a noção do ‘lugar’ torna-se o drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’ (“bá makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho, no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos.

Quando desperta, lemos: “Acordou Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o ‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu interessado também na exegese do Segundo Testamento, traduz o verbo “yaddá” tanto no sentido de ‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra ‘penetrar’ equivale a “conhecer” uma mulher penetrando-a. Uma sondagem do mundo criador, através do mergulho no útero matricial donde tudo se origina. Em seu momento de crise Jacó “penetra” no ”lugar”, no útero gerador das intenções de Deus. Busca o fundamento de tudo, e encontrando-o compreende: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação, porta do céu. Mas alguém já escrevera: “em Jacó também se cumpre o duplo movimento, saindo do espaço doméstico (igreja?), penetrando no interior profundo dos grandes sonhos da humanidade” (Luther King Jr.: “eu tenho um sonho…”, justiça para todas as raças). “Bet-el” (porta do céu) é o contrário de “Bab-el” (portal dos deuses). Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão: “em ti será bendita toda a tua descendência…”.  Jacó, na verdade, agora, não foge do irmão. Ao contrário, caminha para Deus; quer entender as intenções  do Alto (Shöekel).

A humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da liberdade, dos grandes sonhos. A Igreja, ao contrário, parece esquivar-se. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e amplo bem-estar social, vida plena e abundante (nada comparável ao egoísmo e ganância da religião da prosperidade!), faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que estejam. Infelizmente, quase sempre fora da Igreja. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos sempre sonham a liberdade. Oprimidos pela violência das sociedades injustas; dominados culturalmente, explorados pelas estruturas de poder, sonhamos com a libertação. Na vida de fé, cristãos permanecem em situação teológica, espiritual. Não? Pois deveriam observar as intenções libertárias de Deus. Querer o “êxodo” bíblico. Sonhar  com as transformações, vislumbrar as possibilidades de um mundo novo reconciliado com o projeto de Deus. 

O egoísmo eclesiástico, porém, frustra os esforços para alcançar a utopia, contaminado por projetos de poder. Confiar no Espírito, como Paulo ensina, ajuda a sair do subjetivismo oportunista, individualista, para se poder encontrar realmente a plenitude de vida, que todos aspiramos, certamente. A ortodoxia doutrinária, a religião  da prosperidade, estão na Igreja, e dentro de nós mesmos, confundindo jovens e maduros. Encontramo-nos deslumbrados com falsos rasgos de networker modernity, eletrônicos, midiáticos, administrativos, terapêuticos. Um contínuo contratempo para a colheita da boa semente semeada (vida em comunhão, irmão!). A cizânia que cresce no meio do trigo mistura-se, mas terá de ser separada no tempo próprio. Não prevalecerá no campo de centeio.

17/07/2011

Quem sou eu? Creio que nunca não saberei…

Filed under: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p07

“O ser humano concreto é a coexistência de duas curvas, unidade tensa e dialética, jamais adequadamente equilibrada. Por um lado, centra-se sobre si mesmo, no intento de conservar sua carga energética (vida biológica), vivendo o mais longamente possível. Somos uma unidade tensa e difícil, irredutível, como em duas curvas na mesma mola. O ser humano não tem um corpo, ele é um corpo, uma realidade indefinível. Uma parte do meu ser, meu eu, percebe que na totalidade nem eu mesmo sei quem sou. Mas, pelo coração sou capaz de habitar nas estrelas e buscar os confins do universo e o que está para além dele”. Com estes pensamentos, Leonardo Boff me ajuda a entender minha chegada aos 71 anos. Permaneço admirado e apaixonado pelo mistério da existência.

 A vida está em si, mas também, e permanentemente, fora de si, nos outros, na criança que nasce, no mundo, nas estrelas, no universo desde o coração de Deus. E esse crescimento na compreensão das coisas, na vontade de entrar em comunhão com elas, na busca da perfeição, do belo e do virtuoso, não tem limites nem fim. Podemos crescer indefinidamente? As realidades humanas não padecem barreiras? Essas duas curvas instigam a pergunta e atormentam. Uma delas com princípio e fim, tendo o paralelo ao horizonte físico e humano.

A curva biológica quer elevar-nos como um corpo que compartilha no espaço a presença de outros corpos, enquanto dialoga com eles. Porém, chegamos ao ápice das energias que acumulamos, no universo físico e seus determinismos, e vamos decrescendo até acabar de morrer. Fisicamente. Mas também psicologicamente. Mais cedo ou mais tarde morrerei. O corpo e o ego irão de encontro à terra. Porque voltamos à linha do horizonte: “Deus sabe do pó do qual somos feitos”, no Salmo (130). Agora, de fato, não sei onde estou, mesmo sabendo que levarei minha morte comigo (Heidegger), quando eu me for.  Não deixarei essa preocupação para os meus amigos, que talvez me quisessem com eles para sempre. “Amigos para siempre”, como na canção.

Fernando Pessoa pode me ajudar? “Entre o que vejo de um campo e que vejo de outro campo, passa um momento uma figura de homens. Os seus passos vão com ele na mesma realidade, mas eu reparo: O homem vai andando com suas idéias, falso estrangeiro. Que perfeito que é nele o que ele é: o seu corpo, a sua verdadeira realidade”.  Então, devo levar a sério o caráter indispensável, se polarizar meu corpo e meu ser. O fundamento de mim mesmo é vigorosamente transparente no projeto de Deus para todos os homens e mulheres. Kierkegaard, que beleza… me ensina a ser humilde, que não posso conceber-me; que não sou infinito. Não pertenço a mim mesmo: “A perfeição do homem é necessitar de Deus”.

Certo. Mas a outra curva é infinita, possui um raio vertical apontando sempre para cima, como dizia Tillich. Por enquanto se reinicia outra elipse, como uma sucessão de curvas superpostas seguidamente. Cada vez que uma curva termina outra se inicia. Elas podem crescer mais e mais. O céu é o limite do ser. Céu é plenitude. Buscar a plenitude é buscar a Deus onde ele está, com toda a sua beleza. E ele está no Universo, na ética, nos seres criados. Paulo, o apóstolo, disse: “…então o veremos face a face”. A segunda curva, porém, é transcendental, vai nascendo até acabar de nascer… e nasce de novo cada vez que termina. Um reinício constante na direção da plenitude.

 Entregar-me ao “pânico metafísico”, e perguntar sobre o depois? Não. Devo admirar o mistério do ser e esperar alcançar mais uma volta nas curvas da vida. Até o ápice, se a velhice me der o tempo: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Agostinho). Viverei todos os meus dias buscando repouso neste mundo de incertezas, decepções, mas também de encantamentos e exultações nas grandes conquistas além dos montes elevados das utopias. João me conforta: “Caríssimos irmãos, somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não se manifestou” (1João 3,2). E Paulo dissera, antes dele: “Agora, o meu conhecimento é limitado, mas só depois conhecerei como Deus me conhece”.

(Acabo de completar 71 anos)

Derval Dasilio

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