“A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Quebrando o Tabu). Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo políticos. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Criminalizando, quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta que não sobrevivem sem a droga.
Quem não pensa nas consequências sobre a igreja, família, a comunidade, a sociedade, a coletividade, necessita saber da “pacificação” diante das drogas, e não da guerra. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia, e não condenação abstrata. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia (ou condenação eclesiástica), onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, medicina da saúde, são direitos humanos que devem ser buscados.
Muitos movimentos e grupos religiosos, igrejas e ongs, mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como “laranjas” de causas materialistas, mercadológicas, servindo políticos inescrupulosos sem fraternidade (filia), sem comunhão (koinonia) e sem serviço ao próximo (diakonia). Jesus declarou-se abertamente contra a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista (Mc 2.7) “…o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei! Declarações condenatórias engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo que ignoram o ser humano e suas necessidades, apontando subjetividades como: “na igreja não somos assim”. Repetem a oração do fariseu (Lc 18.9-14). Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia o essencial: o homem e suas carências. Ou seja, seus direitos fundamentais.
Diante das leis de repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos, Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas tratando o usuário de como paciente tratamento médico e não como criminoso (52% deixaram a droga). Enquanto isso, reduzia-se o campo de atuação do traficante e da venda ilegal. A saúde pública incluía substitutivos da droga clandestina nos receituários de pacientes usuários de drogas; busca a aproximação espontânea do doente, não a repulsa e a repressão; dizia não aos riscos da clandestinidade, fazia o papel da medicina regular, que se abre ao que quer ser tratado. Ou seja, a maioria dos usuários.
Para o Evangelho, o despoderado (heb. anawin; greg. ptochos), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, humilhado pela própria vida, na Bíblia, é o ignorados e desprezado pela própria sociedade (e por que não o Estado?). Como o usuário de drogas. A sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e identificá-lo como pecador e a eximir-se de responsabilidade e culpa pela injustiça que sofre. Prefere declarar-se contra… Ou seja, a compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais. Devemos nos surpreender com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, la, rigreja, oikos. O socium é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade eclesiástica ou não. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior responsável pelo todo, ou à coletividade humana.
Como dizia alguém, talvez Oscar Wilde, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça ou transparência. O político é ardoroso, contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha, e é pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune. Mas não se compromete com leis de responsabilidade social para com o usuário de drogas. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (Wagner Siqueira) , como se diz da droga.
É lavando as mãos que Pilatos entra no Credo. O caráter normativo (referência) do Evangelho há de nos lembrar: aos perseguidos, discriminados, pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7,23). Nesta passagem se expressa o centro vital da mensagem de Jesus. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias (comp. 31.33). “Cada um levará a Lei no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Nenhuma “lei” ou declaração religiosa moralista terá efeito sobre o que é responsabilidade do Estado. O fruto ruim nos obriga a uma nova semeadura para um mundo novo possível.


Por que Deus quis nascer entre os homens? Por que há Deus, e não simplesmente o “nada”, a escuridão dos tempos? A palavra “deus”, como as palavras “dia” e “divino”, não é de tradição bíblica. No sânscrito indo-europeu “deus” significa “luz”. A luz, de fato, é uma poderosa e complexa metáfora do divino. Ela é presente e discreta por toda parte, como o calor. Como o vento – metáfora do Espírito Santo – a luz é sutil, discreta, mas presente enquanto emana a vida opondo-se à metáfora das trevas (L. C. Susin). Mas não é só isso. A palavra “Luz” evoca a experiência bíblica e cristã do menino nascido em Belém, no coração da miséria (Is 9.2-27; Lc 2.1-14; 15-20).
O culto evangélico tem sido invadido pela magia, prestidigitação ritual, curandeirismo e superstição. Pastores e pastoras midiáticos também assumem os lugares de santos e santas da religião popular, como pais de santo de terno e gravata, ganhando a admiração ou rejeição de crentes do protestantismo histórico. Constituirão num perigo, como foi em todos os tempos na religião cristã?

