UM DOMINGO NOS CAMAROTES DO SAMBÓDROMO
Lucas 6,17;20-26 – Felizes os famintos de justiça, Deus os vê em primeiro lugar
“A felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval” (Vinícius). A relação com o Sermão do Monte é notável. A multidão costumeira, vinda de distâncias, ouve enquanto espera cura e alívio. Pessoas querem ser felizes. As receitas de Jesus, em Mateus, são radicais, remédios amargos, azedume para com a prática de males comuns (hipocrisia, ganância, traição, calúnia, difamação, etc.). Em Lucas, num resumo menos doloroso, fecha-se a questão: “tudo que querem que os outros façam a vocês, façam a eles; esta é a Lei e (o que dizem) os profetas (nas Escrituras)”. Uma pregação bíblica não-fundamentalista – espírito da moral abstrata – certamente contra regras e obediência doutrinal que se requereriam de um seguidor do Cristo de Deus.
No Evangelho, S. Lucas registrara: “ajuntem tesouros no céu”; “onde está seu tesouro está seu coração”; “o olho ilumina o corpo” ou, o olho é a “janela da alma”, como quer o documentário excelente de João Jardim e Walter Carvalho: pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo. O escritor José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o fotógrafo e o vereador cegos, Evgen Bavcar e Arnaldo Godoy, entre outros, fazem revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos ao assunto. Melhor ainda é o que o povo diz nas esquinas da vida: “Pior cego é o que não quer ver”.
O ser humano tende a colocar sua confiança naquilo que lhe proporciona prazer, poder ou prestígio. O profeta Jeremias chama a atenção sobre esta realidade, fortemente: “Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor”. E o salmista: “O homem feliz não senta na roda dos que escarnecem do pobre, do fraco e do deficiente”. A verdadeira felicidade não se baseia em coisas que passam e desaparecem. A autêntica alegria procede do próprio Deus. Quando se põe a confiança em Deus, a pessoa torna-se forte e radical, exige dignidade, serenamente. Quem assume a experiência de Deus poderá dar frutos abundantes de felicidade. Precisamos parar de ver um velho barbudo, de raça branca, olhos azuis, sentado num trono e com expressão com pose de sábio, como Deus. Deus é justo, e muito mais próximo do que imaginamos; Deus está além do limite de nossas idealizações ingênuas. O próprio mistério de sua concretude faz parte dos grandes segredos da vida revelados em Jesus. Emil Brunner tem a palavra certa: Jesus Cristo faz visível a imagem verdadeira de Deus. Observando onde ele está lá encontraremos Deus.
De modo diverso de Mateus, Lucas passa das lamentações às bênçãos. Diz que havia muita gente, como num dia de Carnaval. E, em sua versão, sublinha a verdadeira felicidade para os pobres, os aflitos, os fracos, os deficientes, necessitados e perseguidos. Na severidade de Mateus, ainda se perguntará ao que ignora Jesus na vida diária, por acréscimo, e rejeita o cotidiano da violência contra o fraco e o pobre: Quando vimos Jesus? E do Evangelho vem a resposta: “Quando eu estava nu e você me vestiu; faminto, e me deu de comer; doente, e cuidou de mim; aflito, e me acalmou; preso, e você me visitou” (Mt 25)?
De fato, seguir Jesus traz muitos incômodos. Olhar a realidade, a sociedade egoísta, violenta e impiedosa, o comportamento não-solidário do povo e dos governantes que dão pão e circo para satisfazê-lo, desde os camarotes do Carnaval, oferece-nos a oportunidade de observar o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens que negam a felicidade, e também a importância do direito de todos à felicidade.
A felicidade é elemento transformador da realidade – se é que é vista como direito de todos. Julgue você. O espanto diante da existência do mundo como ele é não nos permite ignorar que “o mundo da pessoa feliz é completamente diferente do mundo da pessoa infeliz” (Wittgenstein). Ser feliz é gozar direitos fundamentais, casa, comida, trabalho, escola, saúde, saneamento básico, lazer, liberdade de culto, de pensamento, e de escolhas políticas? Sim. Jesus ensinaria sobre a felicidade, praticamente dizendo: “Seja feliz, siga-me!”.






Os evangélicos precisam encontrar quem lhes compre o voto, o corpo, a sensibilidade, o tempo, a criatividade e a energia vital? Como resgatá-los de ideologias constituintes do vilipêndio da pessoa e do corpo, já discriminadas pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela opção sexual, pelo peso e altura, se aí estão igualados na exposição da mídia como objeto de consumo do poder político? Sem falar do abuso do culto neoevangélico à corrupção (como no mito da Hidra de Lerna, monstro que habitava uma caverna e infestava o pântano por inteiro; serpente imortal, com nove cabeças indestrutíveis, hálito fétido capaz de destruir a vida ao redor). 



Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”… Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.