Derval Dasilio – Escritos&Artigos

08/02/2010

UM DOMINGO NOS CAMAROTES DO SAMBÓDROMO

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UM DOMINGO NOS CAMAROTES DO SAMBÓDROMO
Lucas 6,17;20-26 – Felizes os famintos de justiça, Deus os vê em primeiro lugar

“A felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval” (Vinícius). A relação com o Sermão do Monte é notável. A multidão costumeira, vinda de distâncias, ouve enquanto espera cura e alívio. Pessoas querem ser felizes. As receitas de Jesus, em Mateus, são radicais, remédios amargos, azedume para com a prática de males comuns (hipocrisia, ganância, traição, calúnia, difamação, etc.).  Em Lucas, num resumo menos doloroso, fecha-se a questão: “tudo que querem que os outros façam a vocês, façam a eles; esta é a Lei e (o que dizem) os profetas (nas Escrituras)”. Uma pregação bíblica não-fundamentalista – espírito da moral abstrata –  certamente contra regras e obediência doutrinal que se requereriam de um seguidor do Cristo de Deus.

No Evangelho, S. Lucas registrara: “ajuntem tesouros no céu”; “onde está seu tesouro está seu coração”; “o olho ilumina o corpo” ou, o olho é a “janela da alma”, como quer o documentário excelente de João Jardim e Walter Carvalho: pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo. O escritor José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o fotógrafo  e o vereador cegos, Evgen Bavcar e Arnaldo Godoy, entre outros, fazem revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos ao assunto. Melhor ainda é o que o povo diz nas esquinas da vida: “Pior cego é o que não quer ver”.

O ser humano tende a colocar sua confiança naquilo que lhe proporciona prazer, poder ou prestígio. O profeta Jeremias chama a atenção sobre esta realidade, fortemente: “Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor”. E o salmista: “O homem feliz não senta na roda dos que escarnecem do pobre, do fraco e do deficiente”.  A verdadeira felicidade não se baseia em coisas que passam e desaparecem. A autêntica alegria procede do próprio Deus. Quando se põe a confiança em Deus, a pessoa torna-se forte e radical, exige dignidade, serenamente. Quem assume a experiência de Deus poderá dar frutos abundantes de felicidade. Precisamos parar de ver um velho barbudo, de raça branca, olhos azuis, sentado num trono e com expressão com pose de sábio, como Deus. Deus é justo, e muito mais próximo do que imaginamos; Deus está além do limite de nossas idealizações ingênuas. O próprio mistério de sua concretude faz parte dos grandes segredos da vida revelados em Jesus. Emil Brunner tem a palavra certa: Jesus Cristo faz visível a imagem verdadeira de Deus. Observando onde ele está lá encontraremos Deus.

De modo diverso de Mateus, Lucas passa das lamentações às bênçãos. Diz que havia muita gente, como num dia de Carnaval. E, em sua versão, sublinha a verdadeira felicidade para os pobres, os aflitos, os fracos, os deficientes, necessitados e perseguidos. Na severidade de Mateus, ainda se perguntará ao que ignora Jesus na vida diária, por acréscimo, e rejeita o cotidiano da violência contra o fraco e o pobre: Quando vimos Jesus? E do Evangelho vem a resposta: “Quando eu estava nu e você me vestiu; faminto, e  me deu de comer; doente, e cuidou de mim; aflito, e me acalmou; preso, e você me visitou” (Mt 25)?

De fato, seguir Jesus traz muitos incômodos. Olhar a realidade, a sociedade  egoísta, violenta e impiedosa, o comportamento não-solidário do povo  e dos governantes que dão pão e circo para satisfazê-lo, desde os camarotes do Carnaval, oferece-nos a oportunidade  de observar o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens que negam a felicidade,  e também a importância do direito de todos à felicidade.

A felicidade é elemento transformador da realidade – se é que é vista como direito de todos. Julgue você. O espanto diante da existência do mundo como ele é não nos permite ignorar que “o mundo da pessoa feliz é completamente diferente do mundo da pessoa infeliz” (Wittgenstein). Ser feliz é gozar direitos fundamentais, casa, comida, trabalho, escola, saúde, saneamento básico, lazer, liberdade de culto, de pensamento, e de escolhas políticas? Sim. Jesus ensinaria sobre a felicidade, praticamente dizendo: “Seja feliz, siga-me!”.

23/01/2010

GÊNIOS DA ÉTICA E DO MAL-HUMOR

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Freud teve uma vida precária, família grande e sem recursos para manter-se sem provações. Pai falido – morreu prematuramente –, necessidades familiares a serem atendidas, sua contribuição à humanidade foi inegavelmente extraordinária. O século 20 o homenageou tornando-o um ícone da psicanálise, ciência que ajudou a criar. Reconheceu-o como analista perfeito do mal-estar existente na cultura e na vida comum das pessoas, em razão de fatores incontroláveis que alcançam a sociedade e a pessoa. Mas dele também se diz que foi um pai omisso, um brigão capaz de romper amizades com cooperadores e pesquisadores que o contradiziam.

Carl Jung, outro gênio, entre ancestrais ilustres – teria sido bisneto de Goethe; quem não leu o Fausto jamais conhecerá as origens da expressão “vender a alma ao diabo” – dizia: por seu temperamento, Freud era considerado persona non grata no meio universitário; “tive que afastar-me dele, para ter meu trabalho reconhecido”. Freud, porém, considerava-o como filho!

Mal humorado, irritava-se com a crítica de outros cientistas do comportamento. Ninguém foi tão profundo na sondagem dos distúrbios mentais do ser humano. Não fora ele, não aconteceria o reconhecimento de que somos governados por gigantes interiores, como o “inconsciente” voraz, uma fome interior insaciável; desejo sexual reprimido; medo de viver; ódio à oposição; agressividade cega diante de obstáculos reais ou fictícios; paixão desenfreada em várias expressões degradantes.

O gênio que fez e ainda faz a felicidade de muitos desvenda nosso egocentrismo, essa tendência de submeter o mundo ao nosso jeito, colocar as pessoas como serviçais nossas, a qualquer custo. Freud descreveu também outro gigante interior que vigia nosso comportamento dia e noite: o superego! Essa força nos obriga a respeitar valores éticos, criar novas metas para a mente humana, novos rumos, outras estrelas-guias que orientem a caminhada da humanidade. Claro, com moralidade. A ética nos ensina a alcançar ideais, enquanto educa para bem-viver, respeitar as diferenças de cada um, culturais, raciais, ideológicas, religiosas. Por exemplo.

Freud desvendou um mistério guardado: a pessoa humana é um universo, no interior e no exterior de si mesma. Como disse Willian Blake, “um mundo num grão de areia”. Ou: “uma gota d’água na pétala de uma flor”(Rubem Alves). Há em cada um de nós um depósito imensurável de impressões que não conseguimos externar inteiramente, e somente pelo uso da razão, da inteligência, pode-se avaliar esse tesouro. Mas esse depósito pode ser também lixo apodrecido e enterrado, ou um vulcão inativo pronto a irromper no mundo superficial da pessoa.

Freud sofreu muito. O pai morreu quando ele era criança. Suas irmãs sucumbiram nos campos de concentração, vítimas do autoritarismo político nazista, determinado em extinguir por inteiro uma raça que sobrevivia milagrosamente através dos séculos. Desistiu de lutar, enquanto doente terminal de uma enfermidade incurável. Seu legado à humanidade, no entanto, constitui-se numa riqueza sem preço, embora construída com extremo mal-humor.

A fé cristã precisa de Freud, um ateu confesso. Ele nos sugere que, primeiro, somente quando nos preocupamos com a sorte uns dos outros é que encontramos nossa verdadeira humanidade. Somente quando reduzimos o uso da razão ao seu papel de facilitadora da vida é que temos a vista desanuviada para ver o que é realmente o ser humano e seu interior.

Nada disso, porém, elimina os riscos de adversidades na vida. Nosso contexto natural contém forças incontroláveis, como Freud denunciou. Dependemos das atitudes mútuas uns dos outros, o que dá ocasião a inevitáveis contrariedades. Paciência no sofrimento, disposição para carregar os fardos uns dos outros e aceitação das contingências inerentes à existência, são marcas de maturidade daquele caminhante que sabe que o caminho da vida é o “caminho da cruz”. Não custa ler Freud para entendermos que, além de sermos “inimigos” de Deus, precisamos reconhecer que, em primeiro lugar, precisamos ser salvos de nós mesmos, enquanto abrigamos e acariciamos restos apodrecidos, sinais de preconceito, ira, ódio, e desprezo pelo semelhante.

Derval Dasilio                                                                                                                                                                                                                                                             jan.2010

29/12/2009

ANO NOVO: EM 2010 A GRANDE NOVIDADE SERÁ JESUS CRISTO

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Data da impressão: 07 de janeiro de 2010

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OPINIãO

ANO NOVO: EM 2010 A GRANDE NOVIDADE SERÁ JESUS CRISTO

(Salmo 103 e o Yon Kipur: entoando o Kol Nidrei)

No Kol Nidrei, entoado no Dia do Perdão, da tradição israelita, o ritual cheio de magia pode neutralizar “demônios” e “maus espíritos”; todas as promessas feitas nesse dia deverão ser cumpridas, confessar e perdoar-nos uns aos outros, inclusive, porque está implícito, nesse dia, que Deus já nos perdoou!

Gerações do povo bíblico conhecem o poder da palavra capaz de gerar o novo (davar), quando o próprio homem se oferece como garantia. “Nos primeiros instantes do Dia do Perdão, ao iniciar nossa ‘limpeza espiritual’, somos lembrados que uma promessa, a palavra, é arma poderosa. Se bem usada pode reconfortar, construir; mas usada de forma inadequada ou leviana pode destruir” (N. Schaman).

Para fazer um balanço de 2009, lembramos um mito da antiga cultura mediterrânea. De tempos em tempos, a águia se renova totalmente (como a fênix egípcia que nasce das cinzas). Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol.  Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder, vira uma tocha no espaço. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu, qual flecha incandescente, nas águas frias do lago. Perdendo as penas queimadas, na experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce. Volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e vigor da juventude.

Seguramente, este mito constitui o substrato do salmo: “O Senhor perdoa todas as tuas culpas, Ele cura, sana, as tuas doenças; faz com que a juventude se renove como uma águia”. Fogo e água são opostos. Mas, quando unidos, são poderosos símbolos de transformação. A água irriga a terra matricial e generosa; é símbolo do ventre fecundo da mulher; lembra também dimensões criadoras,  no homem e na mulher.


O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões fortes de resistência, coragem, ousadia. Embora masculinas, estas dimensões estão no homem e na mulher. O fogo, no entanto, nos faz imaginar fornalhas que queimam e acrisolam, eliminam tudo o que não é essencial. O fogo do inferno, na Idade Média, foi mais além, apontava a perdição, a danação, em razão de grandes erros humanos. Aqui, o sobrenatural fascina e nega a verdadeira natureza humana.

Passar pelo fogo e pela água significa integrar em si os opostos e crescer como pessoas, fortalecendo a identidade pessoal. Assim os sábios da Bíblia classificam esses elementos transformadores.

O velho, o que é? São os antigos hábitos, as velhas atitudes, torcer o nariz, virar o rosto diante das desgraças humanas; negar compaixão, solidariedade, misericórdia, omissão no cuidado com o próximo e o distante; desinteresse pelo bem comum, indiferença quanto ao lixo cultural que nos impõem aceitação passiva das pesadas armaduras ideológicas narcisistas, egoístas, no modo de vida individualista e consumista de inutilidades. Distanciamento das últimas fronteiras do ser com dignidade, onde se preservam os melhores valores das gerações ancestrais, sobre direitos do homem e da mulher.

Rejuvenescer como águia significa também desprender-nos de ideias que um dia foram boas, luminosas, mas que lentamente se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida; de motivar as novas gerações para viverem o sermão de Jesus (Mateus: cps 5-7). Permanecer velhos é dizer que idéias fossilizadas têm o mesmo valor que idéias renovadoras e revitalizantes. Rejuvenescer como águia significa ter coragem para aceitar o novo, recomeçar e estar sempre aberto a escutar, aprender com a Palavra que sempre gera o novo. É isso que nos propomos a cada novo ano?

Que o ano que se inaugura, nos ensine a não temer a Palavra, o fogo que queima a penugem inútil para dar lugar à nova plumagem, novas garras, disposição para o confronto valente, indignado, com os inimigos do Reino (cf. resultados da Cop-15). Sem temor de mergulhar na fogueira a velha mulher e o velho homem que há em nós; fazer compromissos com Deus.

O salmo completa: “os que confiam no Senhor voarão como águias, subirão até as alturas”. É hora de assumir compromissos com Deus e aceitar os  riscos, voar, galgar espaços altos, atravessar e transpor montanhas, rumar na direção dos horizontes não conquistados, utopias libertárias do Reino sonhadas no Cristo de Deus: Jesus será a grande novidade em 2010. Se permitirmos.

Derval Dasilio

24/12/2009

TERMOS INTRADUZÍVEIS NA NATALIDADE DO SENHOR

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OPINIãO
24 de dezembro de 2009  |  Visualizações:   | seja o primeiro a comentar
Termos intraduzíveis na natalidade do Senhor

Derval Dasilio

O salmo 146 é uma das leituras do advento; prepara a vinda do Senhor. As ligações deste salmo com a vida de Jesus são inúmeros. Basta lembrar o esboço sobre o reino de Deus (Lucas 4.18-21) e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis, dos famintos da terra (mais de 1,5 bilhões de homens, mulheres e crianças passam fome por lhes faltarem nutrientes mínimos para a sobrevivência). Fala de “prisioneiros”, guerras em todos os quadrantes por motivo de consciência ou de religião reprimida. Há sequestrados pela globalização cultural, sem direito à vida autêntica; há cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder.O que é ser moderno, hoje? Ser “cool”, flexível, hedonista, libertário? O culto ao luxo, ao conforto, ao desperdício (“use e jogue fora”), deixa rastros bem visíveis no mundo egoísta e impiedoso de nossos dias. Há vítimas da cegueira escondidas atrás de luxuosos óculos italianos.

O salmo 146 evoca o carinho de Deus pelos exilados, retirantes, imigrantes, desprotegidos, perseguidos. Lembra as viúvas e os órfãos, símbolos dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento, sem lugar no mundo. O reino que Jesus anunciou traz esperança para dentro da caminhada dos despossuídos, alijados do mercado e do mundo produtivo. Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando-nos a não confiar neles e nos religiosos que os imitavam em hipocrisia, quando se dirigia a eles sem cuidado estilístico, proferindo palavrões em aramaico1.

Neste salmo Deus é aliado dos justos contra os injustos; é fiel aos esmagados pelos poderes deste mundo. Feliz quem se apoia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar tais injustiças sem submissão às suas imposições. Há citações no salmo 146 sobre grupos humanos excluídos da vida econômica produtiva (explorados por poderosos injustos e seus apoiadores), aqueles que não têm privilégios e cujos direitos fundamentais são sistematicamente negados, e os que não têm liberdade de consciência e expressão. Outras paisagens são apontadas na utopia do salmo profético: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado.

O salmista evoca a fome de dignidade. Parece ter escrito hoje! Andando pelas ruas, o autor do salmo poderia também ser um dos que vislumbram sinais de esperança subindo os morros, convivendo com traficantes, no meio do tiroteio e das balas perdidas, caminhando com os habitantes dos lugares de toda pobreza e de imensa miséria: “A porta do barraco era sem trinco, / mas a lua furando o nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão” (Orestes Barbosa). As casas não têm mais zinco, mas os telhados e as paredes são perfurados por balas perdidas, nas proximidades dos morros.

Aqui, a poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem, dizia Pablo Neruda. Difícil é imaginar o poeta bíblico dentro de um shopping, veloz para gastar as economias reunidas o ano inteiro, cheio de urgências consumistas, respondendo ao marketing insistente da mídia natalina. Em Copenhague (COP-15), todas as igrejas da Dinamarca fizeram dobrar os sinos, a fim de exortar os líderes do mundo para que adotem medidas urgentes para salvar o planeta de uma catástrofe ambiental.

Quem está encantado pelas guirlandas, pelas lâmpadas piscantes, pelas árvores de natal em verdes artificiais, é convidado a deter-se por um momento e olhar ao redor. Pensar sobre a asfixia das festas inúteis, dos compromissos obrigatórios, das trocas de presentes, e parar para ouvir uma canção bíblica. Hora de escutar o tum-tum-tum rítmico envolvente, fascinante, dos que deviam chorar, mas incompreensivelmente dançam e cantam, talvez envolvidos pela esperança do Salvador. Porém é isso o que este salmo desperta em nós, ouvindo sua música, enquanto nos deixamos arrebatar. Escrevia o pastor Jacy Maraschin, irmão anglicano: “Como vamos cantar / este canto imprevisto, / tão distantes do lar, / tão num mundo sem Cristo (…) Como vamos cantar se o irmão é explorado, / se lhe fazem calar, / se ele é sempre anulado? / A canção do Senhor tem de ser verdadeira, / para ser o louvor na terra brasileira”. Então é Natal…

Nota
1. Fala original traduzida com excesso de escrúpulos por delicados tradutores (cf. Joachim Jeremias).

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

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09/12/2009

EVANGÉLICOS HONESTOS E EVANGÉLICOS CORROMPIDOS, QUAL A DIFERENÇA?

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OPINIãO - ULTIMATO ONLINE


Os evangélicos precisam encontrar quem lhes compre o voto, o corpo, a sensibilidade, o tempo, a criatividade e a energia vital? Como resgatá-los de ideologias constituintes do vilipêndio da pessoa e do corpo, já discriminadas pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela opção sexual, pelo peso e altura, se aí estão igualados na exposição da mídia como objeto de consumo do poder político? Sem falar do abuso do culto neoevangélico à corrupção (como no mito da Hidra de Lerna, monstro que habitava uma caverna e infestava o pântano por inteiro; serpente imortal, com nove cabeças indestrutíveis, hálito fétido capaz de destruir a vida ao redor).


Evangélicos oram após receberem propina. Parte da informação sobre o vídeo em que aliados do governador do Distrito Federal, alvos da Operação Caixa de Pandora, são denunciados publicamente. Cena repetida na mídia: “evangélicos agradecendo a prosperidade vinda da corrupção”. O tema do povo infiel dá o tom para a pré-comemoração do Natal profano. Os textos bíblicos para o Advento, ao contrário, são quase apocalípticos: pregam a conversão, “metanoia”, fazem exigências éticas, criticam o culto e práticas religiosas sem justiça ao povo.

Isso pouco interessa a neoevangélicos, mais uma vez apontados na corrupção política. O testemunho bíblico, pregação cortante contra a corrupção, como aço temperado, é impressionante. Pessoas se comovem, gentes se aproximam para perguntar: “Que devemos fazer?” (Lc 3,7-18), prova da perplexidade, pessoas perceberam que o batismo cristão tem exigências quanto ao comportamento testemunhal. A resposta indica: “convertam-se”! No meio da sociedade brasileira somos iguais, evangélicos honestos e corrompidos? O tripé que caracteriza a vida moderna, dinheiro, poder e individualismo, é a consagração da desigualdade até mesmo no nosso meio. Confundidos com a corrupção, quem diria hoje: “evangélicos,  reserva moral da nação”?

Jamais o culto à individualidade foi tão acentuado, na história do mundo. Temos aqui um tempero forte para a religião da prosperidade. Característica principal da (anti)teologia neoevangélica. “Lamento que a religião esteja tão banalizada a tal ponto de as pessoas não a verem como serviço a Deus e ao próximo, mas como servir-se da fé e do próximo; isso é uma inversão total de valores bíblicos”, disse uma autoridade católica.

A perplexidade está na defesa dessa “religião”, e que o povo evangélico se sinta justificado, confundindo ainda mais o que é verdadeiramente prosperidade como retribuição de Deus à fidelidade, fé, confiança (emunah), porque não há paz sem justiça em toda a Bíblia. Como admitir que Deus possa ser homenageado pela corrupção, chantageado ou transformado num caixa eletrônico, porque é fiel ao crente corrupto?

Recuperar a concepção da alma evangélica como totalidade viva (“nephesh”, no hebraico bíblico: corpo&alma, vida ética, pessoal e socialmente) torna-se uma tarefa prioritária de reconstrução do conceito para o cristão bíblico (“Eis que faço novas todas as coisas…” – Ap 21,5b). A integridade evangélica sofre violências incríveis, como a ganância pelo poder. Fome, sede, nudez, doença, prisão, referem-se a este corpo ameaçado pelo mundo contemporâneo. Sistemas econômicos mortíferos tornam-nos mercadorias vivas (como lagostas no tanque de vidro de restaurante japonês).

Necessitamos da Salvação, de nós mesmos, inimigos que somos do projeto de Deus, enquanto apoiadores da religião da prosperidade. As multidões, cuja infidelidade é proverbial nas Escrituras, prostituem-se facilmente, por isso não escapam da exortação: “Raça de víboras, façam coisas que mostrem que vocês se arrependeram”. As alegações sobre o pertencimento a um povo eleito, álibi para desafiar as necessidades colocadas pelos profetas, são respondidas com veemência: “Eu afirmo que até dessas pedras Deus pode fazer descendentes de Abraão!”. O Novo Testamento explicita a alegria da justiça e da salvação que chega. Sendo insensíveis, podemos ser substituídos até por pedras ou elementos naturais (… “Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras clamarão”).
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21/11/2009

“USE E JOGUE FORA” – CONSPIRAÇÃO CONTRA O JOVEM E O VELHO

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Data da impressão: 24 de novembro de 2009

 

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OPINIãO
“Use e jogue fora”: conspiração contra o jovem e o velho

Você alude à baixa qualidade do que se oferece à juventude, nas igrejas. De outro modo, completa minha denúncia de que os principais assuntos eclesiásticos sobre missão e diaconia, de fato, são solenemente ignorados nas igrejas, assim como o cuidado com a juventude no século 21 (que se expressa no culto gospel, no entretenimento, no show business). “Em verdade vos digo”, não sabemos o que fazer com os desafios desse século, quanto ao discipulado da vocação cristã (Rm 12,2).

Como prevenir o dano biográfico, psicosocial, na infância, adolescência e juventude? Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição juvenil, gravidez de adolescentes, crack, Aids, mendicância, delinquência, antecipação da maioridade penal, são também consideradas ameaças severas para a juventude? Em que sentido pode-se colocar em risco o projeto de Deus de vida plena para esse grupo? Desde esta perspectiva, como poderemos atender demandas para uma permanente responsabilidade dos cristãos e das igrejas em relação às crianças, adolescentes, jovens, inclusive os velhos?

Como interpelar a sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução das relações entre atores ativos da violência intra-familiar, a partir do reconhecimento mútuo como seres humanos iguais em dignidade, liberdade e responsabilidade? A respeito da violência contra a mulher, a criança, da hétero e homofobia, a discriminação por causa da cor da pele, do(s) sexo(s) ou gênero(s); constituímos na igreja um chamado ao serviço libertador de pessoas, famílias, grupos, entre as propostas de serviço ao outro e à outra com as quais Jesus Cristo se identifica? Se existem, me avisem. Mais perto, não tenho visto.

Pessoas da terceira-idade também não têm um lugar legítimo na igreja. Valorizados e plenamente participativas nas famílias cristãs ou não, que dizer sobre os “maracujás murchos” sentados até com mais assiduidade que os jovens nos bancos das igrejas? A presença de idosos em nosso meio se apresenta como um peso tolerado, sublimado, idealizado hipocritamente, como nos tem ensinado a cultura bíblica e religiosa cristã e protestante da qual participamos?

Em que ponto pode a diaconia social cristã ajudar no sentido de integrar o idoso e o jovem na participação dos valores da sociedade contemporânea, referentes à cidadania, direitos e dignidade humana? Levamos em conta que o Pai, na Bíblia, por si mesmo não pode ser avaliado segundo as configurações simbólicas do velho que já fez tudo, não age mais, cumpriu seu papel? Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha!”. Agimos como que afirmando que nada mais se precisa fazer, além de contemplar um passado ancestral? Consideramos que a velhice é a proximidade da plenitude, no entardecer da vida, ou que a velhice é o tempo em que a vida se recolhe e não pode mais brilhar e dar frutos visíveis e maduros? Problema para a igreja cristã de hoje.

A longevidade aumentada constitui um prêmio da vida moderna. Ponto. Mas não por esforço das igrejas cristãs, que olham pra gente velha, como eu, como pés-na-cova improdutivos (e nós não somos pavios queimados). Na Bíblia, via de regra, a velhice não é tempo em que a vida se recolhe, como uma lâmpada se apagando por falta de óleo. Vinho bom é vinho velho. Maracujá enrugado é o que tem mais suco e sementes. Vida longa é um presente de Deus, a velhice reclama sua participação no desenvolvimento social e espiritual da sociedade. Se reclamamos do desprezo pela vida, de valores essenciais dissolvidos na liquidez moderna (solidariedade, cuidado, amparo ao enfraquecido), no egocentrismo consumista em ofertas de vida com qualidade somente para os mais novos – porque jovens serão consumidores por mais tempo – somos saudositas?

“Use e jogue fora!”. Há uma certa conspiração, uma ilusão compartilhada, para se ocultar um segredo íntimo pensado por muitos: “nada há a fazer com os velhos”, o bem-estar depende da rapidez como são removidas as coisas velhas e usadas da vida comum. Mas esta é uma igreja que cultiva o efêmero — como na sociedade civil — e se ela soubesse disso, ostentaria lápides nas tumbas invisíveis em que enterram conteúdos e valores que assinalariam sua ignorância dos reais perigos e das misérias que a acompanham, apesar da roupagem e dos aparatos modernosos de seus altares recentes.
Kyrie eleison.
Derval Dasilio

27/10/2009

REFORMA: AINDA HÁ PROTESTANTES?

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Ainda há protestantes?
Derval Dasilio

Necessitamos do protestantismo bem identificado. Nem todos evangélicos são “protestantes” no rigor do termo histórico (especialmente hoje, na oposição aberta da maioria evangélica), embora dediquem doses maiores de “ódio religioso” ao catolicismo romano. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências bem variadas. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão dispersas quanto a forma de organizar a igreja local (é possível tanto pragmatismo?).

Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Como um vaso quebrado em mil cacos, divergências aprofundaram-se na luta pela supremacia doutrinal. Teses da Reforma (“sola gratia”, “sola fide”, “sola scriptura”) não passam de lembranças hoje. Vende-se a graça despudoradamente; crença religiosa é fé. A hermenêutica fundamentalista diz que a escritura formal (Bíblia impressa) é mais importante que Jesus. Protestantes “não protestam mais”; corrompe-se o princípio.

O corporativismo evangélico funciona como mordaça, nem de longe lembra a unidade na Reforma (século 16). Mas, se todo mundo é evangélico, ninguém é “evangélico” (Longuini Neto). Enquanto isso, evangélicos requentam heresias: pelagianismo (salvação com obras, santidade com propósito, bajulação de Deus para alcançar “graça”); gnosticismo (devemos pensar que o “mundo real” é totalmente transcendente a este mundo); e o docetismo (o corpo está perdido, a aparência do mal é pior do que o próprio mal).

Nenhum reformador fundou sua denominação. Na igreja do Ocidente, “catholikos” é total, abrangente, universal. Grupos confessionais se acreditavam reformando a Igreja Romana e não a Ortodoxa, jamais separados da mesma. Essa era a igreja que lhes restara do cisma de 1054. O princípio “igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos. Não foi inventado por Lutero ou Calvino. Reformava-se a Igreja dentro da igreja institucional. Nenhum deles falou da criação de outras igrejas (contradizendo o equívoco, os reformadores não se afastam da igreja apostólica, igreja dos pais, igreja de Deus). Pouco mais de um século depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo e se declarou “separada” da igreja histórica. Sem pudor algum, “reformava-se” a Reforma, dividindo a igreja mais uma vez. Rejeitando os pais apostólicos, rejeita-se também os termos do primeiro Credo cristão (200 d.C.)?

Algumas das ideias mestras da Reforma não são mais observadas, como o “sacerdócio geral de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade de todos os discípulos, reclamada por Jesus (Jo 17): “Pai, oro para que sejam um, assim como eu e tu somos um”. É possível reunir evangélicos conservadores, progressistas, culturalistas, pentecostalistas e ecumênicos sob o mesmo teto? Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger e outros dirigiam a Reforma na Europa Continental e na Bretanha no sentido de uma popularização da fé original da igreja apostólica. Eram unânimes: a “ecumene” é intocável.

Resta dizer que a comunidade protestante se compreendia dentro da Igreja (“catholikos”), universal, no protestantismo emergente e desassociava-se do catolicismo no século seguinte. Mas a democracia do “laós” (povo) de Deus, ao que parece, ainda está por vir. Se existe, em muitas comunidades reformadas, está em retrocesso. O povo só diz amém. Quando o Novo Testamento (1Pe 2.9-10; Ap 5.9-10; 20.6) refere-se à substituição da elite sacerdotal, para a diaconia integral (eclesiástica e social) e a intercessão, autoriza-se todo cristão e toda cristã a colocarem-se como sacerdotes e sacerdotisas do reino de Deus dentro da igreja em favor do mundo. Prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade de Deus na terra. Homens e mulheres cristãos são o povo sacerdotal do reinado de Deus. Com a Bíblia, Lutero afirma que todo o povo da igreja é sacerdotal. Calvino diz o que é interpretado teologicamente (Ef 4.9-16): toda a Igreja é ministerial. E Karl Barth: mas “…a igreja é humana e pecadora”. Como ficamos, no atual “protestantismo”?

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

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15/10/2009

IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!

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Igreja: decifra-me ou devoro-te!
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Derval Dasilio

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, não são esquecidos como influência literária.

Poderíamos visualizar, na Igreja, um lugar para “comer junto”, comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma “mesa”, comunhão de diferentes nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade por força do ensinamento apostólico.

O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma, fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, não é um produto de mercado, nem um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. Mesmo que seja um “cristo” como esparadrapo e analgésico. A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.

A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, são elementos que permeiam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, hoje?

A fé da igreja apostólica, “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade (Joaquim Beato).

Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.13), Spener (séc.17) e mais tarde John Wesley (séc.18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto. A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. O “Reino de Deus e sua justiça” deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se temos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te…

29/09/2009

NEOEVANGÉLICOS: RAÍZES PODRES E INDIGESTAS

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Data da impressão: 29 de setembro de 2009

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OPINIãO
Neoevangélicos: raízes podres e indigestas

Os surtos neoevangélicos recentes são contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderna, certamente. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas in essentia, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.

A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a  religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão-se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas… Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento… Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros, mas denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada, ocorrerá gradativamente.

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento que se assenta vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neo-evangélico, dita novas regras?

A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.

Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina”  da teatrologia da  Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia.  A Graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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10/09/2009

UMA ARCA ABARROTADA DE OURO NA CURVA DO RIO JORDÃO

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OPINIãO
Uma arca abarrotada de ouro na curva do Rio Jordão
Derval Dasilio

Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”… Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.

Daí se construiu toda uma ideologia idolátrica e romântica da Terra Santa: lá o batismo é mais santificado, a água é mais poderosa (embora a ideal, importada, seja mais cara que champanhe Don Pérignon Brut ou Vintage Rosé, 1996, mil reais a garrafa). Lá as pedras são sagradas, as folhas das árvores despoluídas espiritualmente. Faz um bem danado ao crente rebatizado! A água do Jordão, não a champanhe. Até o evangélico Bush foi lá, como bom fundamentalista, renascido, como carismáticos da Renascer em Cristo, dos famosos Hernandez e suas algemas eletrônicas, e do craque do Real Madri, Kaká, que pretende ser um de seus pastores ao aposentar-se do futebol. Tal e qual sua esposa, pastora Caroline Celico, que acaba de fundar uma comunidade/comodities em Madri (dinheiro é bom, principalmente na nossa mão…). A justiça norte-americana bloqueou bens do casal Hernandez, como a mansão em Boca Raton, avaliada em 495 mil dólares. Mas não alcança a fazenda em Mairinque, comprada por 1,8 milhões de reais. Meros sinais da teologia da prosperidade (deles)? Que água consomem ali, naquele paraíso? Aquela que passarinho não bebe?

Muita gente ganha dinheiro com esse comércio imoral e pagão (cf. Simão o mágico, At 8.9-24), vendendo porções de “terra santa” e garrafinhas de água do Rio Jordão com propriedades milagrosas, depois de pregações sionistas em templos evangélicos. Um subproduto desta bobagem é o “apoio incondicional a Israel” (palavras dos pastores). Afinal, foi dito a Abraão: “Abençoarei os que te abençoarem”. “E não há nenhum esforço para ver qual a diferença entre Ariel Sharon e Abraão” (Gedeon Alencar). E mesmo para identificar islâmicos como ramos da mesma e abençoada árvore abraâmica.

Na realidade, há árabes cristãos, libaneses, drusos e judeus sefaradies que não assimilaram a cultura sionista apreciada por neoevangélicos. Por sua vez, o termo “israelita” é aplicado aos seguidores do culto, e o “israelense” aos cidadãos do Estado de Israel. Todos esqueceram que, desde Esdras e Neemias, o termo adequado seria “judeu”, exterminada a religião de Javé, com o exílio babilônico (e só profetas anteriores falam do “resto de Israel”) e na diáspora. Jesus, saudoso do “resto javista” original, combateu vigorosamente os resultados dos últimos trezentos anos sob gregos e romanos e seu “helenismo” introdutor do capitalismo imperial monetarista, opressor e escravagista, no mundo mediterrânico. Má geografia, péssima memória histórica, em competições de estupidez teológica.

De fato, hoje, entre judeus históricos e israelenses são mais de 80% o grupo nacional formado por ateus ou agnósticos. Há apenas cidadãos de um Estado e seguidores de uma cultura, mas não praticantes de uma religião bíblica. Israelenses islâmicos, cristãos e drusos, embora registrados como cidadãos e portadores do passaporte de Israel, vêm, a seguir, em ordem decrescente pirâmide abaixo, de patins: drusos, árabes-cristãos (grego-ortodoxos, sírio-ortodoxos, armênios, coptas, uniatas, latinos, protestantes). Mais recentemente, tem surgido, segundo Robinson Cavalcanti, uma reduzidíssima expressão: judeus messiânicos, evangélicos judeu-cristãos. Árabes-islâmicos (com suas clássicas divisões) compõem o cenário. Miríade pluralista que não perde para o cristianismo brasileiro.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

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