Derval Dasilio – Escritos&Artigos

27/10/2009

REFORMA: AINDA HÁ PROTESTANTES?

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p10

LEIA:ULTIMATO ONLINE – PLATAFORMA: http://www.ultimato.com.br/

Ainda há protestantes?
Derval Dasilio

Necessitamos do protestantismo bem identificado. Nem todos evangélicos são “protestantes” no rigor do termo histórico (especialmente hoje, na oposição aberta da maioria evangélica), embora dediquem doses maiores de “ódio religioso” ao catolicismo romano. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências bem variadas. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão dispersas quanto a forma de organizar a igreja local (é possível tanto pragmatismo?).

Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Como um vaso quebrado em mil cacos, divergências aprofundaram-se na luta pela supremacia doutrinal. Teses da Reforma (“sola gratia”, “sola fide”, “sola scriptura”) não passam de lembranças hoje. Vende-se a graça despudoradamente; crença religiosa é fé. A hermenêutica fundamentalista diz que a escritura formal (Bíblia impressa) é mais importante que Jesus. Protestantes “não protestam mais”; corrompe-se o princípio.

O corporativismo evangélico funciona como mordaça, nem de longe lembra a unidade na Reforma (século 16). Mas, se todo mundo é evangélico, ninguém é “evangélico” (Longuini Neto). Enquanto isso, evangélicos requentam heresias: pelagianismo (salvação com obras, santidade com propósito, bajulação de Deus para alcançar “graça”); gnosticismo (devemos pensar que o “mundo real” é totalmente transcendente este mundo); e o docetismo (o corpo está perdido, a aparência do mal é pior do que o próprio mal).

Nenhum reformador fundou sua denominação. Na igreja do Ocidente, “catholikos” é total, abrangente, universal. Grupos confessionais se acreditavam reformando a Igreja Romana e não a Ortodoxa, jamais separados da mesma. Essa era a igreja que lhes restara do cisma de 1054. O princípio “igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos. Não foi inventado por Lutero ou Calvino. Reformava-se a Igreja dentro da igreja institucional. Nenhum deles falou da criação de outras igrejas (contradizendo o equívoco, os reformadores não se afastam da igreja apostólica, igreja dos pais, igreja de Deus). Pouco mais de um século depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo e se declarou “separada” da igreja histórica. Sem pudor algum, “reformava-se” a Reforma, dividindo a igreja mais uma vez. Rejeitando os pais apostólicos, rejeita-se também os termos do primeiro Credo cristão (200 d.C.)?

Algumas das ideias mestras da Reforma não são mais observadas, como o “sacerdócio geral de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade de todos os discípulos, reclamada por Jesus (Jo 17): “Pai, oro para que sejam um, assim como eu e tu somos um”. É possível reunir evangélicos conservadores, progressistas, culturalistas, pentecostalistas e ecumênicos sob o mesmo teto? Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger e outros dirigiam a Reforma na Europa Continental e na Bretanha no sentido de uma popularização da fé original da igreja apostólica. Eram unânimes: a “ecumene” é intocável.

Resta dizer que a comunidade protestante se compreendia dentro da Igreja (“catholikos”), universal, no protestantismo emergente e desassociava-se do catolicismo no século seguinte. Mas a democracia do “laós” (povo) de Deus, ao que parece, ainda está por vir. Se existe, em muitas comunidades reformadas, está em retrocesso. O povo só diz amém. Quando o Novo Testamento (1Pe 2.9-10; Ap 5.9-10; 20.6) refere-se à substituição da elite sacerdotal, para a diaconia integral (eclesiástica e social) e a intercessão, autoriza-se todo cristão e toda cristã a colocarem-se como sacerdotes e sacerdotisas do reino de Deus dentro da igreja em favor do mundo. Prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade de Deus na terra. Homens e mulheres cristãos são o povo sacerdotal do reinado de Deus. Com a Bíblia, Lutero afirma que todo o povo da igreja é sacerdotal. Calvino diz o que é interpretado teologicamente (Ef 4.9-16): toda a Igreja é ministerial. E Karl Barth: mas “…a igreja é humana e pecadora”. Como ficamos, no atual “protestantismo”?

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

• Siga-nos no Twitter!

15/10/2009

IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p10

Igreja: decifra-me ou devoro-te!
OPINIÃO – ULTIMATO ONLINE http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1155
Derval Dasilio

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, não são esquecidos como influência literária.

Poderíamos visualizar, na Igreja, um lugar para “comer junto”, comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma “mesa”, comunhão de diferentes nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade por força do ensinamento apostólico.

O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma, fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, não é um produto de mercado, nem um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. Mesmo que seja um “cristo” como esparadrapo e analgésico. A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.

A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, são elementos que permeiam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, hoje?

A fé da igreja apostólica, “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade (Joaquim Beato).

Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.13), Spener (séc.17) e mais tarde John Wesley (séc.18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto. A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. O “Reino de Deus e sua justiça” deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se temos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te…

29/09/2009

NEOEVANGÉLICOS: RAÍZES PODRES E INDIGESTAS

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p09
Data da impressão: 29 de setembro de 2009

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br

OPINIãO
Neoevangélicos: raízes podres e indigestas

Os surtos neoevangélicos recentes são contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, econômico, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo, moderna, certamente. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Imaginam-se no mundo pré-histórico? Nunca. São muito modernos, capitalistas in essentia, como coreografia de mitos ancestrais manipulados convenientemente.

A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a  religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o transcendente. Estão na religião. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vão-se racionalizar origens e fins. Atualizemos o surto contemporâneo da religião de mercado.

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo dele as pessoas armavam tendas. Como seria intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas… Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento… Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. O homem bíblico não é diferente dos outros, mas denuncia-a imediatamente. A guinada na direção da religião revelada, ocorrerá gradativamente.

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento que se assenta vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico e depois cananita enseja uma abordagem diferenciada, notável. O povo bíblico crê numa religião revelada. Deus é espontâneo, revela-se porque quer. Não crê na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo ao redor. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. E agora, o deus econômicus neo-evangélico, dita novas regras?

A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, na madeira carbonizada e exposta (terror que converteu Lutero!). Acrescentemos a observação de ciclones, furacões, maremotos. Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que as pessoas conheciam? Hoje, o otimismo evangélico econômico, em trono da prosperidade, passa ao largo dessas questões.

Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina”  da teatrologia da  Grécia Antiga, é bem brasileiro. Deus é um serviçal, “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico. Todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. O crente ora e ordena à divindade imprensada na parede, depois das ofertas compulsórias: ”Fiz a minha parte, agora faças a tua”. Estamos na iminência de um “deus demitido do trono da graça”. Perdeu-se a essência bíblica que convoca à ética, solidariedade, compaixão e misericórdia.  A Graça de Deus custa muito caro no mundo neoevangélico carismático.

—-

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Blog

10/09/2009

UMA ARCA ABARROTADA DE OURO NA CURVA DO RIO JORDÃO

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p09
OPINIÃO ONLINE 
10 de setembro de 2009  |  Visualizações: 150  | seja o primeiro a comentar
Data da impressão: 10 de setembro de 2009

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br

OPINIãO
Uma arca abarrotada de ouro na curva do Rio Jordão
Derval Dasilio

Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”… Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.

Daí se construiu toda uma ideologia idolátrica e romântica da Terra Santa: lá o batismo é mais santificado, a água é mais poderosa (embora a ideal, importada, seja mais cara que champanhe Don Pérignon Brut ou Vintage Rosé, 1996, mil reais a garrafa). Lá as pedras são sagradas, as folhas das árvores despoluídas espiritualmente. Faz um bem danado ao crente rebatizado! A água do Jordão, não a champanhe. Até o evangélico Bush foi lá, como bom fundamentalista, renascido, como carismáticos da Renascer em Cristo, dos famosos Hernandez e suas algemas eletrônicas, e do craque do Real Madri, Kaká, que pretende ser um de seus pastores ao aposentar-se do futebol. Tal e qual sua esposa, pastora Caroline Celico, que acaba de fundar uma comunidade/comodities em Madri (dinheiro é bom, principalmente na nossa mão…). A justiça norte-americana bloqueou bens do casal Hernandez, como a mansão em Boca Raton, avaliada em 495 mil dólares. Mas não alcança a fazenda em Mairinque, comprada por 1,8 milhões de reais. Meros sinais da teologia da prosperidade (deles)? Que água consomem ali, naquele paraíso? Aquela que passarinho não bebe?

Muita gente ganha dinheiro com esse comércio imoral e pagão (cf. Simão o mágico, At 8.9-24), vendendo porções de “terra santa” e garrafinhas de água do Rio Jordão com propriedades milagrosas, depois de pregações sionistas em templos evangélicos. Um subproduto desta bobagem é o “apoio incondicional a Israel” (palavras dos pastores). Afinal, foi dito a Abraão: “Abençoarei os que te abençoarem”. “E não há nenhum esforço para ver qual a diferença entre Ariel Sharon e Abraão” (Gedeon Alencar). E mesmo para identificar islâmicos como ramos da mesma e abençoada árvore abraâmica.

Na realidade, há árabes cristãos, libaneses, drusos e judeus sefaradies que não assimilaram a cultura sionista apreciada por neoevangélicos. Por sua vez, o termo “israelita” é aplicado aos seguidores do culto, e o “israelense” aos cidadãos do Estado de Israel. Todos esqueceram que, desde Esdras e Neemias, o termo adequado seria “judeu”, exterminada a religião de Javé, com o exílio babilônico (e só profetas anteriores falam do “resto de Israel”) e na diáspora. Jesus, saudoso do “resto javista” original, combateu vigorosamente os resultados dos últimos trezentos anos sob gregos e romanos e seu “helenismo” introdutor do capitalismo imperial monetarista, opressor e escravagista, no mundo mediterrânico. Má geografia, péssima memória histórica, em competições de estupidez teológica.

De fato, hoje, entre judeus históricos e israelenses são mais de 80% o grupo nacional formado por ateus ou agnósticos. Há apenas cidadãos de um Estado e seguidores de uma cultura, mas não praticantes de uma religião bíblica. Israelenses islâmicos, cristãos e drusos, embora registrados como cidadãos e portadores do passaporte de Israel, vêm, a seguir, em ordem decrescente pirâmide abaixo, de patins: drusos, árabes-cristãos (grego-ortodoxos, sírio-ortodoxos, armênios, coptas, uniatas, latinos, protestantes). Mais recentemente, tem surgido, segundo Robinson Cavalcanti, uma reduzidíssima expressão: judeus messiânicos, evangélicos judeu-cristãos. Árabes-islâmicos (com suas clássicas divisões) compõem o cenário. Miríade pluralista que não perde para o cristianismo brasileiro.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

22/08/2009

Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p08
OPINIÃO ONLINE 
Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa
Exemplos indignos de igreja gananciosa, mais respeitados que Estevão – cristão esquecido, mártir da fé resistente à religião retributivista, na compaixão, na misericórdia, no cuidado com os demais – Simão, Ananias e Safira fascinam evangélicos recentes tais como mágicos vigaristas e trapaceiros no viaduto Santa Efigênia. Políticos, segundo as últimas notícias que envolvem senadores e deputados federais do Congresso, envolvidos em mensalão, operação sanguessuga, propinodutos permanentes, representando milhões de evangélicos. São eleitos como “homens de fé evangélica” mesmo respondendo a acusações e processos por fraude, roubo e corrupção. Compõem a nova linguagem política nos púlpitos e nos templos transformados em palanques da nova forma cultural de “ser evangélico”. Leem a Bíblia fundamentalista, adestrando os fiéis para o uso da urna; defendem com unhas e garras o senador eleito com auxílio do crime organizado; promovem para nova eleição o deputado que renunciou para escapar à cassação do mandato evitando a inelegibilidade… Com a palavra os pastores parlamentares.

Algo que é muito embaraçoso nos tempos atuais é a verdade sobre a compreensão “evangélica” que torna a visão de Deus, do homem, da sociedade e do mundo extremamente preocupante, fazendo corar os que ainda têm vergonha. Ganância, sacrifício financeiro em favor de dirigentes religiosos, hoje são virtudes evangélicas e não pecados veniais. Promessas de prosperidade, politicagem rasteira, tal qual incômodas apostasias e heresias dos primeiros séculos da Igreja. Esse conhecimento nos traz uma culpabilidade relativa, uma vez que aceitamos e nos impregnamos do pragmatismo propositista do fundamentalismo que se ensina nas igrejas e que procuramos assimilar a qualquer custo. São absurdos, descalabros, no caminho e na transmissão da fé consolidada nos 150 anos de protestantismo no Brasil, com a Bíblia a tiracolo.

É o fim do conceito da transparência. Fomos sempre conhecidos como reserva moral da sociedade. Passamos à vanguarda imoral. Agora pertencemos ao lixo que faz feder o nome “evangélico”. Roubar, fraudar, usar de falsidade ideológica, enganar eleitores, não é mais pecado imperdoável. Escrevendo a Melanchton, Lutero disse em bom latim: “Esto peccator et pecca fortiter” (Sê pecador e peca forte). Só que esses evangélicos que não seguem o pensamento do grande reformador protestante fazem questão do acréscimo apócrifo: …“e crede mais fortemente na impunidade”. Eis o complemento do evangelho pelo avesso, na ganância de nossos parlamentares, evangelicais ferrenhos em suas campanhas. Igrejas/palanques dominam, controlam e influenciam a inveja das igrejas menores, enquanto pastores do baixo clero e cabos eleitorais da corrupção alimentam campanhas eleitorais sem pudor cristão.

Dietrich Bonhoeffer, mártir do cristianismo moderno, dizia que é preciso estar atento ao fato de que Deus entrou na história e na carne da humanidade por meio de Jesus Cristo.

Nossa herança difere da herança de outros povos e outras culturas quanto à revelação do Evangelho encarnado, quando prenunciava a pós-modernidade religiosa (carismática), a secularização evangélica (êxtase e ganância), vendo religiosos agindo como se Deus não existisse. Arrogando-se de serem donos do destino histórico de cada um e da sociedade humana em seu todo.

Agrade-nos, ou não, “nossos antepassados bíblicos são testemunhas do ingresso de Deus na história humana” (Thomas Merton). Deus, não o movimento carismático, retributivista, sem escrúpulos, faz nossa história. Quer admitamos ou não, sendo protestantes, evangélicos, católicos, a revelação aponta para Jesus, que veio para o “mundo” e o mundo não o conheceu (Jo 1.10). Jesus não utilizou sua imagem para impor a hegemonia evangelical triunfalista que adotamos. Ao menos no período apostólico da Igreja, os cristãos respeitavam o ethos bíblico. Por que nossos concílios eclesiásticos não acordam enquanto se recolhem em solidariedade implícita à desonestidade reinante? É um sofrimento ler a Bíblia e a história do protestantismo nesse cenário de omissão.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

Opinião do leitordeixe seu comentário
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar.
Evangélicos: da reserva moral à vanguarda inescrupulosa
Absolutamente não sei
Onde estão os profetas?
Torturado por um mantra

06/08/2009

Sem vergonha de ser cristão, honesto e feliz

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p08
OPINIÃO ONLINE

“Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias.” (Sl 34.13)

“Faz escuro, mas eu canto.” (Lutero)

No coração do evangelho vemos a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus. Um sentimento de alegria que gera festa: é o pastor que reencontra a ovelha perdida; é a mulher que exulta quando a moeda perdida é encontrada; é o pai que vai ao encontro do filho perdido para homenageá-lo com a graça, em festa e grande alegria; alegrai-vos comigo, diz Jesus a cada feito. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (Gonzaguinha). Poetas e cantores proclamam a alegria de viver. Saint-Exupéry dizia: “O maior prazer é o prazer de conviver com os outros”. A ética do cuidado começa e finaliza, portanto, na alegria do bem, na felicidade e no prazer de participar do bem-estar de todos, na denúncia de privilégios de poucos e exclusão de muitos.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinou que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dia” (Sl 34.13).

Antes de contrair a doença mortal da ambição, quando o homem (humano) se sentia feliz, tranquilo e seguro, sem ganância de poder, sem pensar numa felicidade comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num balcão, o salmista já dizia: “Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria”. O mais alto ideal cristão está aqui: felicidade, bem-aventurança eterna. E Deus cuida de seus filhos e filhas por meio de nós. Sejamos felizes por isso.

A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um passarinho que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-lo, como nos lembra um ensinamento oriental. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, por meio desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da sabedoria corrompida, da potência, buscamos ser felizes (L.C.Susin). No entanto, dificilmente alcançamos esse fim. A manhã nunca chega por esses meios. Permanece a noite tenebrosa que assustava Lutero. Os corais angelicais já devem começar seu encantamento aqui na terra: “Faz escuro, mas eu canto”.

Concretamente, dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida em gozo pleno.

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que já é um esboço do que vai ser: “Homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora” (William Blake). Tantos conteúdos para a “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse, em sua ética exigente de sinceridade, de verdade contra a hipocrisia ou a ambiguidade, da colocação do dever acima de tudo: é um prazer ser honesto! É um prazer não compartilhar com a corrupção reinante e não aceitar que um governante nos chame de “imbecis” e que seus aliados políticos sejam inatacáveis quando distribuem esmolas para o povo (Lula e Sarney).

Haverá outras formas de se expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar a uma causa de justiça, de trabalhar em favor da cooperação e da solidariedade com os que não têm nada, de aprender da gente do povo, que vive feliz em sua sabedoria sem ganância, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela gente amada. Porém são como que degraus sobre a estrutura básica do prazer. A primeira alegria é a de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão, não dispensa, mas exige o prazer. Jesus ensinou, e nós devíamos assinar em baixo.

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

07/07/2009

MICHAEL JACKSON: UM FUNERAL SEM CRISE DE CONSCIÊNCIA?

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p07
 
sábado, 18 de julho de 2009  

   
 
  Revista Livros    

Receba o nosso boletim eletrônico
E-mail  
Adic.  Rem.
 
R$ 24,30
Fábrica de Missionários
R$ 32,40
Mochila nas Costas e Diário na Mão
R$ 39,90
Servos Entre os Pobres
 
OPINIãO
 
  Michael Jackson: um funeral sem crise de consciência
 
Derval Dasilio

Aí está uma séria questão. Nossos parâmetros não são humanistas. Porém, quando se trata de uma grande comoção, como a morte de um ídolo/símbolo desses tempos de hipermodernidade (tudo é exacerbado — até o esparadrapo na consciência coletiva ferida é grande demais), Michael Jackson representa um dos maiores anseios do ser humano: imortalizar-se. Contudo, até os deuses morrem, e é preciso achar um Olimpo para eternizar a memória idealizada de poder acima da morte. Observe bem: nos dominam a vontade de poder, de ter, de destruir valores essenciais; enfim, que rompam a cortina do tempo e da pré-história da humanidade. Vida instintiva, atavismos, como queria Carl Jung. Diante dessa crise fomos capazes até de decretar a morte de Deus. E disseram que Nietzsche tinha enlouquecido quando disse tal coisa de nós.

Tudo isso não passa da luta entre a morte e a vida. E a morte, como símbolo maior de tudo que nos oprime, quer se impor a cada dia, com nosso assentimento, senão pela conivência. É preciso, portanto, pensar com o apóstolo Paulo: “Porque Cristo ressuscitou, nós ressuscitamos com ele”.

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas que era evidentemente apócrifa: “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões gastos organizadamente, com um governo de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral. Se bobear, os políticos vão roubar até do crime organizado [...], e os juízes também, que impedem punições e vendem sentenças impunemente”.

Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade nacional. Como a massa tão interessada em espetáculos midiáticos (funeral de Michael Jackson), CPIs hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria num povo que ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade dolorosa da morte contra a vida (Norman O. Brawn). Miséria das massas populares (conhecemos políticos evangélicos que vendem a alma por um mandato). Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso? Quando se falará da pós-fome, pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-desemprego em massa? Até lá, viveremos a cultura da violência institucional, paralela à do crime organizado e corrupção dentro das próprias instituições que nos governam, enquanto comentamos e nos comovemos, com reverência, o funeral da celebridade.

Ajudados pela tecnologia, satélites, celulares, “chips”, “megabytes” e “laptops”, nos assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de entender as intenções do Deus Salvador e Libertador: “Eu sou a ressurreição e a vida…”. São terríveis revelações sobre as visões que temos de nós mesmos, enquanto elegemos a morte ao invés da vida. Escolhemos os piores para representar-nos, na igreja e na política. A quem reverenciaremos? A mídia, que transforma um funeral num espetáculo mundial de vitória da morte?

A exposição constante da corrupção nos legislativos e executivos parece comprovar que as consciências imediatistas dos bem-postos também estão sendo bem atendidas. Vai além das duas bacias simbólicas do Congresso Nacional: uma aberta, côncava, para “receber” benesses; outra convexa, para “esconder” as falcatruas dos nossos representantes? Niemeyer — centenário e brilhante — e Lúcio Costa nunca pensaram nesses simbolismos quando as projetaram. Dá arrepios saber que políticos evangélicos participam com a competência de Mefistófeles na corrupção geral: o senador, o pastor, falcatruas, processos em cima de processos… Também está nos jornais de hoje: nunca aprenderemos. No próximo ano elegeremos os mesmos ditos “servos de Deus” para representar-nos no Congresso. Por falar nisso, Michael Jackson também não será sepultado. E Elvis, então, é substituído. Estarei enganado?

• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

   
 

Opinião do leitordeixe seu comentário

     

 
     
     
   
 
 
Michael Jackson: um funeral sem crise de consciência
Calvino: fanático ou reformador?
Um raio-x da juventude evangélica brasileira
   
 
Assine Ultimato e receba em sua casa.
 
Salvos da PerfeiçãoElienai Cabral Junior

164 páginas

Mais humanos e mais perto de Deus.

de R$ 28,60
por R$ 22,90
A eternidade não pode libertar-nos do dever.
Stephen Charnock

 

26/06/2009

A esmola envergonha e vicia o cidadão

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p06


OPINIãO
ULTIMATO ONLINE –
www.ultimato.com.br
25 de junho de 2009 | | seja o primeiro a comentar

Há urgências. Porém, a sociedade não é receptiva. Pessoas famintas, desnutridas, doentes, discriminadas por causa da cor da pele, portadoras de deficiências, sem autonomia física, ficam ainda mais fragilizadas (Mc 3 –10). Quem cuidará delas? A religião as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum. Jesus mandou: “Entra na roda, fique no meio!”. E o esquadrão que vigiava, perguntou: “Será que ele ousará contrariar a religião?”. Na sinagoga/igreja, lugar dos religiosos, o fato chama a atenção. E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo, legalista ou fatalista, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou dar-lhe fim?”. Fica-se em cima do muro. O medo de “agir ilegalmente”, contra ideologias tradicionais, é mais forte.

A religião não cuida dessas coisas? Jesus não espera — cura o homem deficiente, alimenta famintos, “porque hoje é sábado”, como diria Vinícius de Moraes. E inclui diferentes, estranhos. Aqui e agora, a vida não pode esperar pela morte. A neutralidade e a equidistância, porém, escondem o julgamento de morte. Estabelecer condições de relacionamento para ações que instrumentalizem teológica e eticamente estas questões como próximas da vida de fé, é urgente. Mas Jesus, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo, era julgado.

Heróis nas lutas por libertação no século 20, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quando morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma e quis entrar. Imediatamente viu uma placa: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã. Não há notícia sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à sua causa. Entre cristãos, o legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo. A fome e o racismo não são estudados na Escola Dominical. A afirmação do pecado abstrato, sim.

O Brasil quer torrar milhões e milhões para sediar a Copa do Mundo em 2014, e aqui há milhões de pessoas morrendo de fome. O governo desistiu do Fome Zero, pouco depois da vitória nas urnas. Será a fome uma crise humanitária, social e econômica, resultante da hipocrisia política, de campanhas eleitorais governamentais, insensibilidade das elites, da religião, do conformismo da sociedade? Se não é, então, o que é? O homem tolhido pela doença socializada — e a fome é a pior delas — ou pelo racismo, necessita de amparo. Precisa ser útil, trabalhar, produzir o seu sustento e o dos dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, curar a desnutrição e evitar o holocausto infantil causado por doenças. Transformações, são importantes para a manutenção da vida.

A desnutrição mata mais que a Aids, acidentes aéreos e terrestres, guerras e terrorismo, juntos. Seriam como mil transatlânticos afundando, cheios de crianças que vão morrer; e ninguém chora, ninguém protesta, ninguém lamenta. Talvez porque a Aids, a guerra e o terrorismo não fazem distinção de classe como a fome faz. Desnutrição em massa, epidemias e aumento na mortalidade são “privilégios”dos fracos, excluídos da participação dos bens sociais.

Programas como o Bolsa Família são esmolas, enquanto o que as famílias necessitam é trabalho, habitação e seguridade sanitária, em primeiro lugar. A fome não espera pela religião, diz o Evangelho. Mais de um bilhão de homens, mulheres e crianças, neste planeta — mais de vinte milhões no Brasil — sofrem por causa da fome. “A esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão”, diz Luiz Gonzaga. E Jesus diz, a respeito do “descanso” que deram a Deus: “Meu Pai ainda trabalha” para saciar as fomes do mundo.

“No juízo final, você espera ser desculpado? Deus poderá lhe obrigar a derramar lágrimas de vergonha, nesse dia, fazendo recitar de cor os poemas que você poderia ter escrito, e não o fez; as palavras de indignação que evitou proferir, tivesse sido sua uma vida de amor à justiça” (W.H. Auden).
• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

25/06/2009

IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p06

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã inicial e atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem  – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional; águia: vida mental e intelectual; touro: vida instintiva e vegetativa; homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente (dominadores tradicionais de Israel: assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, conforme a literatura apocalíptica intertestamentária). Os egípcios, porém, não são esquecidos.

Na igreja, quem sabe?, poderíamos visualizar um lugar para “comer junto”, partir o pão eucarístico, em torno da mesa. Um lugar que centraliza emoções coletivas; um lugar de organização da mente religiosa; lugar onde as situações se misturam, na consciência da totalidade humana, de suas contradições e de experiências paradoxais. Vive-se sob uma ideia comum (“somos a igreja de Cristo”), externamente, porém são diversos os sentidos que damos aos ministérios ordenados, aos sacramentos e à missão (diversidade). Uma visão sociológica ajudaria a por algumas questões no lugar, reconsiderando o início da Igreja.  Por exemplo: a situação de judeus cristãos que conservariam uma tradição que remonta à Torah, mas também habituada ao Halakah: Thalmud, Mishnah, Midrashes, como orientadores da vida de fé.

A posição dos prosélitos, conhecedores do Deus de Israel, mas gentílicos, na questão da ceia eucarística (ação de graças e o partir do pão), não pode ser esquecida.  Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. A igreja se identificava como comunidade étnica, preferencialmente. Contradições quanto aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante. De fato, cristãos não judeus adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade dos ministérios, enquanto ignoravam na totalidade o sentido sacerdotal hierárquico do Templo de Jerusalém, bem como a cultura igreja/sinagoga da terra onde nasceram Jesus e seus apóstolos (exceção para o turco Paulo de Tarso). 

Mas a mensagem está no símbolo que se adotou, a igreja como um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação. O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma; a justiça do Reino não equivale ao legalismo ou doutrinarismo religioso exclusivista ou triunfalista. Os perseguidores estão também no meio da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Usam até a agressão nos questionamentos sobre missão e prioridades, evangelismo metodológico acima da evangelização integral, como anúncio da chegada do Reino de Deus. É quando se torna necessário recordar Jesus.

Cristo, na fé primitiva, não é um produto de mercado, nem um símbolo do salvacionismo abstrato. E não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. A magia ritual e a superstição constituem um perigo tempestuoso. A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon&C.K.Barret: The New Testament Background). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação são elementos que permeiam o culto cristão no mundo helênico. Papiros de magia contendo orações  e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos, o kérigma (Atos 19,19).   Maldições e pragas invadiam o culto intercessório da igreja inicial, concomitantemente se insinuam práticas supersticiosas repulsivas.  Qual a diferença do mundo evangélico contemporâneo?

Mas o Jesus dos Evangelhos não abandona o barco, dá a certeza de sua presença como timoneiro da fé; Jesus capaz de vencer a tempestade, enquanto fortalece as certezas quanto à sua permanência e sobrevivência junto aos discípulos e seguidores. Marcos é transmissor fiel da fé apostólica no Cristo de Deus: “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador (a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47). Mensagem para a igreja gentílica. O Evangelho do Reino de Deus é essencialmente a missão de Deus.

Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos (Marcos 4,35-41); que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal; eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformes (impossível dedução, diante do congregacionalismo, presbiterianismo e episcopalismo, ou sistemas mistos, bíblicos); que a missão e os sacramentos da igreja  são compartilhados igualmente. Idealização absurda, irreal. Falta-nos examinar estes pontos em suas contradições (por quê o próprio Paulo, e discípulos, apresentaria eclesiologias tão dispares entre si?). Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém não é episcopal, presbiteriana, congregacional. Ela é apostólica e diaconal, na forma de governo. Ponto.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.XIII), Spener (séc.XVII) e mais tarde John Wesley (séc.XVIII), essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo; o “Reino de Deus e sua justiça”. Enfim, o que é mesmo a igreja, teológica e sistematicamente? É preciso decifrar, se temos em conta o protestantismo pentecostal e suas ramificações.

Oração: “Deus, em tua graça  transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (CMI – Assembléia de Porto Alegre).

09/06/2009

TRINDADE: A FACE DE DEUS EM TRÊS ESPELHOS

Arquivado em: Uncategorized — Derval Dasilio @ 0:00p06

Um colega muito perspicaz, excelente teólogo, desafiava-me a escrever sobre a Trindade Divina numa linguagem compreensível, e não a dos teólogos e filósofos. Lembrei-me de um texto de Rubem Alves, socorro sempre presente nas nossas dificuldades: “Uma velhinha perguntava ao mestre Benjamim: – Mestre, fale-nos sobre Deus… Mestre Benjamim fitou o vazio, vagarosamente, e um sorriso foi-se abrindo: – ‘Quantas pessoas aqui estão pensando no ar’?, perguntou. ‘Por favor, levantem uma das mãos…’ Ninguém levantou a mão… Então, mestre Benjamim falou: ‘Ninguém levantou a mão… Ninguém está pensando no ar. Ninguém sabe direito o que é o ar. E no entanto nós o estamos respirando.

O ar é nossa vida e não precisamos pensar nele para respirar. E não precisamos pensar nele para que ele nos dê vida. No entanto, quem está se afogando só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele, ou pronunciar o seu nome, para que o sintamos’”. Quem pensa demasiadamente em Deus, ou exige explicações de sua existência, pressionando a consciência dos outros para “crer em Deus”, é porque não está respirando Deus. Mais adiante, esse autor dirá mais, traduzindo a Bíblia: “Deus é como o vento, sopra em todas as direções. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas das árvores, e seu assobio ressoa nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta de bambú o vento se transforma em melodia, mas era música, antes, nas astes longas balançando ao sabor da ventania. Mas não é possível prendê-lo numa garrafa. No entanto, nossas religiões tentam engarrafá-lo e até mesmo comprimi-lo em tubos metálicos. E dão a esses cilindros compressores o nome de ‘Casa de Deus’. Ora, vento engarrafado não sopra’”. Melhor dizendo: o Deus da Bíblia não pode ser dominado por nós.

João, o evangelista do Segundo Testamento, diz: – “o Espírito sopra onde quer”. Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do nenê recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós. Também conhecemos, na linguagem dos salmistas, bíblica, Deus, o Pai, como o Criador do universo estelar, o céu profundo, as imensas constelações cósmicas, que fez de um fragmento desse mundo gigantesco, imensurável, um lugar para o homem e a mulher habitarem. O homem vem do pó, diz um salmista, enquanto alcança uma dignidade inigualável no universo. Um projeto perfeito, continuamente criador, incompleto, mas em recriação constante. Vemos nas flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso, original,  da espécie.

A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é a Divina Trindade. É a isso que Paulo refere-se, freqüentemente, a face de Deus como objeto clarificado. Vemos o Deus trinitário como num espelho. Na face de Jesus Cristo, no entanto, reflete-se o esplendor criador de Deus (2Cor 4,6). E a glória de Deus reflete-se em todos nós quando reconhecemos Deus face a face: (1Cor 13,12: “… então o veremos face a face”). O Espírito Santo é Espírito do Pai e Espírito do Filho. Aqui e agora, ainda necessitamos dos símbolos. Nossos Credos são trinitários. Credos são símbolos (Credo dos Apóstolos, Credo Niceno…). Os rostos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia o presbiteriano Richard Niebuhr.

Simplifiquemos a concepção trinitária para que a Igreja seja atendida na compreensão que importa, diante da história de sua fé. É preciso pagar o preço da simplificação, para a inteligibilidade da fé. Algumas vezes. Por outro lado, a tradição e a cultura religiosa contam a história e mantém o dogma como deve ser. Sem isso, somos somente pentecostais: e ignoramos o Pai e o Filho; somos criacionistas: desprezamos o Filho e o Espírito; somos espiritualmente formalistas: afirmamos Cristo apenas como uma sombra na parede, sem carne, à vista dos homens e das mulheres deste mundo. Isso une a Igreja em torno da Trindade encarnada, como aponta a Bíblia: Deus estava em Cristo reconciliando a humanidade com os rostos de Deus: Cristo. O Filho e o Espírito representam-no no nosso meio. Disse Jesus: Não lhes deixarei órfãos, fica com vocês um auxiliar do Pai e do Filho: o Espírito companheiro das suas lutas incessantes contra a violência e a miséria deste mundo sem compaixão.

Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando às Igrejas sobre o Espírito Santo, escrevia: “Mesmo com a fé, os homens e mulheres continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado. Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, podem levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”. Richard Shaull acreditava nesse Deus em três significações, imagem nos mais perfeitos espelhos de cristal. E citava o profeta Habacuc, sobre estes significados: “O justo viverá pela fé”. O Espírito da Trindade se apresenta, sempre, para dizer sobre a conservação a ferro e fogo das velhas estruturas injustas, e dominações opressivas, contrariando-as: “faço novas todas as coisas”! Gostamos da Trindade que os cristãos imaginam, movidos pela Fé, a Esperança e o Amor (também uma Trindade!)? Por isso nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Reino de Deus está diante de nós! Amém.

Página Seguinte »

Blog em WordPress.com.